The Project Gutenberg EBook of Flores do Campo, by Joo de Deus

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Title: Flores do Campo

Author: Joo de Deus

Release Date: December 23, 2008 [EBook #27599]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK FLORES DO CAMPO ***




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Notas de Transcrio

Foram corrigidos pequenos erros de impresso, sem que seja feita qualquer
nota dessa correco, visto que em nenhum dos casos a correco altera
o significado do texto.

Para facilitar a identificao de cada poesia nesta edio electnica,
foi adicionado o seguinte marcador como diviso entre elas:

      *      *      *      *      *




FLORES DO CAMPO


A propriedade d'este livro pertence, no Brazil, ao snr. Joaquim Augusto
da Fonseca.




Joo de Deus


FLORES DO CAMPO


2. EDIO CORRECTA



PORTO

LIVRARIA UNIVERSAL
de
Magalhes & Moniz, Editores

12--Largo dos Loyos--14

1876


PORTO: 1876--TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA
62, Cancella Velha, 62




A POESIA


EMBLEMA

Cames e Byron--Scepticismo e Crena

    Vem d'alto gozar, lirio!
    Noite estrellada e tepida;
    A vista ao co intrepida
    Lana, penetra o Empyreo.

    Dilata os seios tumidos;
    Larga este terreo albergue;
    Nas azas d'alma te ergue;
    Ergue os teus olhos humidos

    Que vs?--Soes, de tal sorte
    Que os crra tochas pallidas,
    Quando as guedelhas, madidas
    De sangue, arrasta a morte.

    --Transpe-n'os; que, elevando-te,
    Por cada um d'aquelles,
    Milhes e milhes d'elles
    Vers alumiando-te.

    vante pois, acima
    Dos soes d'uma luz tremula;
    Alma dos anjos emula!
    Deus o teu vo anima.

    Que vs?--Um vacuo eterno.
    --E n'elle?--Em ermo tumulo,
    Em ignea letra (cumulo
    D'horror) _Byron_--o inferno.

    --Foge.--O horror fascina-me.
    So reprobos que exhalam
    Horridos ais que abalam
    O inferno: oh Deus! anima-me.

    --Escuta-os.--Escutemol-os.
    Como elles bramem, rugem,
    E o espao uivando estrugem...
    Gelam-se os membros tremulos.

    --Entra.--No posso.--Arromba.
    --Prohibem-m'o.--Subleva-te.
    --Prohibe-o Deus.--Eleva-te.
    Acima, ingenua pomba!

    Que vs? A luz clareia-me.
    Que co, que azul ethereo!
    Oh extasi, oh mysterio!
    Sobeja a vida, anceia-me.

    --Falla.--Deus! que harmonia!
    Aqui a alma exalta-se;
    A alma aqui dilata-se...
    _Cames!_-- a poesia.

Coimbra.

      *      *      *      *      *




  A UMA CARTA ANONYMA


    No sabe a flr quem manda a luz do dia,
    Nem quem lhe esparge o nectar que a deleita
             Ao vir raiando a aurora,
    E ella agradece as lagrimas que aceita,
    E ella as converte em balsamos que envia
             Ao mysterio, que adora.

                                     LAMARTINE.

Coimbra.

      *      *      *      *      *




DUAS ROSAS


    Que bonita, meu amor!
    Que perfeita, que formosa!
    A ti pozeram-te Rosa,
    No te fizeram favor.
    A rosa, quem ha que a veja
    Bandeando, sem gostar?
    Mas por mais linda que seja
    A rosa, quando se embala,
    No te ganha nem iguala
    A ti em indo a andar.

    A rosa tem linda cr,
    No ha flr de cr mais linda;
    Mas a tua cr ainda
     mais fina e  melhor.
    Murcha a rosa (que desgosto!)
    S de lhe a gente bulir;
    E essas rosas do teu rosto
     em alguem te tocando
    Que parece mesmo quando
    Ellas acabam de abrir.

    Cheiro, o da rosa, esse no,
    No  mais do meu agrado,
    Que o teu bafo perfumado,
    A tua respirao.
    Depois a rosa em abrindo
    Vai-se-lhe o cheiro tambem:
    A tua bocca em te rindo
    S o bom cheiro que exhala...
    E quando fallas, a falla,
    Isso  que a rosa no tem.

    Ella o que tem, meu amor?
    O cheiro, a cr e mais nada.
    Confessa, rosa animada!
    Que s outra casta de flr.
    Os olhos s elles valem
    Duas estrellas, bem vs;
    Pois vozes que a tua igualem
    Na doura, na pureza,
    Na terra, no, com certeza;
    Agora no co, talvez.

    No ha assim perfeio,
    No ha nada to perfeito,
    Mas  um grande defeito
    O de no ter corao.
    N'isso  que te leva a palma
    A rosa, sendo uma flr
    --Sem voz, sem vida, sem alma,
    Que abre logo  luz da aurora
    E  noite esconde-se e chora
    Pelo sol, o seu amor.

    Ora e se a rosa, v bem,
    Tem amor, no tendo vida,
    Ser coisa permittida
    Tu no amares ninguem?
    Suppes que Deus te agradece
    Essa iseno, minha flr!
    Deus a ninguem reconhece
    Por filho seno quem ama:
    A terra e o co proclama
    Que elle  todo puro amor.

Messines.

      *      *      *      *      *




A UMA MULHER


    Amo-te a ti, e a Deus.
    Teus sonhos so riquezas
    Talvez e fasto. Os meus,
    s tu, que me desprezas.

    Deixal-o. Amor acaso
     racional? No .
    O fogo em que me abrazo
     como a luz da f;

    Que alm de cega, apaga
    O facho da razo.
    Ama-se e no se indaga
    Se se  amado ou no.

    Amo-te. O mais ignoro.
    Mas os meus ternos ais
    E as lagrimas que chro
    Podem dizer o mais.

    Que chro; se te admira.
    Nunca tiveste amor.
    Quem tem amor, suspira,
    E o suspirar  dr.

    Ah! quando abrao e beijo
    O travesseiro e, assim,
    Acrdo e te no vejo,
    Vejo-me s a mim;

    No sei, mulher! que anceio
    Se me traduz n'um ai!
    Confrange-se-me o seio,
    Rebenta o pranto e ci.

    Ento, se por encanto
    Fallando em ti, mas s,
    Todo banhado em pranto
    Me visses, tinhas d.

    Tinhas. A piedade
     filha da mulher,
    Que sempre quiz metade
    D'uma afflico qualquer.

    Havias ao teu rosto
    De me apertar a mim,
    D'encher, fartar de gosto,
    Todo este abysmo; sim.

    Vs desprezaes embora
    Culto e adorao
    De quem vos ama; agora
    As dres, essas no.

Messines.

      *      *      *      *      *




A D. CANDIDA NAZARETH

Por occasio da morte de sua irm Rachel e, poucos dias depois, de sua mi


    Despe o luto da tua soledade
    E vem junto de mim, lirio esquecido
            Do orvalho do co!
    Tens nos meus olhos pranto de piedade,
    E se s, mulher! irm dos que ho soffrido,
            Mulher! sou irmo teu.

    Consolos no te dou, que no existe
    Quem de lagrimas suas nunca enxuto
            Possa as d'outro enxugar:
    No pde allivios dar quem vive triste,
    Mas -me dce a mim chorar se escuto
            Alguem tambem chorar.

    Boto de rosa murcho  luz da aurora!
    Que peccado equilibra o teu martyrio
            Na balana de Deus?
    Se  como justo e bom que elle se adora
    Quem te ha mudado a ti,  rosa! em lirio,
            E em lirio os labios teus?

    No enche elle de balsamos o calix
    Da flr a mais humilde, e esses espaos
            No enche elle de luz?
    No veio o Filho seu, lirio dos valles!
    S por amor de ns tomar nos braos
            Os braos d'uma cruz?

    Mulher, mulher! quando eu n'um cemiterio
    Levanto o p dos tumulos ssinho:
            Eis, digo, eis o que eu sou.
    Mas quando penso bem n'esse mysterio
    Da virtude infeliz: vai teu caminho;
             Dois mundos Deus creou.

    Deus no dispara a setta envenenada
     pombinha que aos ares despedira
            Com mo traidora e vil.

    Imagem sua, Deus no volve ao nada,
    No aniquila a flr que ao cho cahira
            L d'esse eterno abril.

    Has-de, cysne! expirando alar teu canto,
    Has-de l quando a lua da montanha
            Te acene o extremo adeus,
    Voar, Candida! ao co, e ebria de encanto,
    No oceano d'amor que as almas banha,
            Unir teu canto aos seus.

    Seus, d'ellas, mi e irm, cinzas cobertas
    D'um s jacto de terra... oh desventura!
            Oh destino cruel!
    Vejo-as ainda ir com as mos incertas
    Guiando-se uma  outra  sepultura,
            E a mi: Rachel! Rachel!

Coimbra.

      *      *      *      *      *




AMOR


    Amo-te muito, muito.
    Reluz-me o paraiso
    N'um teu olhar fortuito,
    N'um teu fugaz sorriso.

    Quando em silencio finges
    Que um beijo foi furtado
    E o rosto desmaiado
    De cr de rosa tinges;

    Dir-se-ha que a rosa deve
    Assim ficar com pejo,
    Quando a furtar-lhe um beijo
    O zephyro se atreve;

    E s vezes que te assalta
    No sei que ida, joven!
    Que o rosto se te esmalta
    De lagrimas que chovem;

    Que fogo  que em ti lavra
    E as foras te aniquila,
    Que choras, mas tranquilla,
    E nem uma palavra?

    Oh! se essa mudez tua
     como a que eu conservo,
    L quando  noite observo
    O que no co fluctua;

    Ou quando,  luz que adoro,
    s horas do infinito,
    Nas rochas de granito
    Os braos cruzo e chro;

    Amamo-nos... No cabe
    Em nossa pobre lingua
    O que a alma sente,  mingua
    De voz, que s Deus sabe.

Coimbra.

      *      *      *      *      *




A DONZELLA E O MUSGO


    Um dia, no sei que eu tinha...
    Uma tristeza tamanha!
    E lembra-me ir  montanha,
    Que temos aqui vizinha,
    Onde em tempo me entretinha
    Horas e horas ssinha
    Quando ainda se no estranha
    Que n'uma teia de aranha
    Se prenda uma innocentinha,
    Ou atraz d'uma avesinha
    Se cance a vr se a apanha.

    Depois  que o mundo falla
    E se mette com a vida
    De quem s vezes se cala
    Por ser mais bem procedida.
    Que esta gente que faz gala
    Em coisa, que v, contal-a,
    E sendo mal permittida
    Inda em cima acrescental-a,
    Teem a lingua comprida
    E bem deviam cortal-a.

    Vou pelo crrego acima,
    Subo  ponta do penedo;
    Que a vida s quem a estima
     que da morte tem medo.
    A mesma tristeza anima
    A encarar a p quedo
    A morte que se aproxima
    A tirar-nos do degredo,
    Que inda a gente se lastima
    De no acabar mais cedo.

    E alli ssinha chorando
    Me lembrava, ora a ventura
    Da minha infancia, inda quando
    Levava os dias brincando;
    Ora a desgraa futura,
    Que me estava annunciando
    No sei se a minha amargura,
    Se uma nuvem, grande e escura,
    Que se ia no ar formando
    E vinha j avanando,
    Como que  minha procura.

    E ainda o pranto corria
    E o cabello me batia
    No rosto, que me doa,
    Tal era a fora do vento;
    J tudo to pardacento
    A nevoa e chuva fazia
    Que eu olhava, mas dizia:
     nuvem ou penedia
    Aquelle vulto cinzento?
    O mar brilhante algum dia
    Como prata luzidia
    J ninguem o distinguia
    Da terra e do firmamento:
    Uivar s  que se ouvia,
    Mas uivar sem sentimento;
    E como em grande tormento
    Se desvaira a phantasia:
    --Fosse eu mar, disse; valia
    Mais ser coisa bruta e fria,
    Como a rocha onde me sento.

    Faz um trovo no momento
    Que soltava esta heresia;
    E quella rouca harmonia
    Occorre-me um pensamento,
    Que me d uma pancada
    O corao de tal modo,
    Como se o rochedo todo
    Desandasse na chapada.

    Era a voz da consciencia
    Que me accusava do crime
    De negar  Providencia
    A razo com que me opprime.
    Peo perdo, commovi-me
    E n'um extasi sublime
    Lagrimas de penitencia,
    Como um balsamo, uma essencia,
    Purificam-me e senti-me
    Com uma nova existencia.

    lho; as nuvens esvaam-se:
    Os roncos do mar ouviam-se,
    Mas j mais de espao a espao.
    O sol ainda to bao,
    De luz to pouco brilhante,
    Que se media a compasso
    Como a cara d'um gigante,
    Descobre-se e resplandece!
    Ao longe o mar apparece;
    E tudo, mar, terra e cos
    To formoso me parece,
    Como se agora tivesse
    Sahido das mos de Deus!

    No rochedo onde descana
    Meu corpo desfallecido,
    O verde musgo, vestido
    Sempre da cr da esperana,
    Agora reverdecido,
    Me ensina a ter confiana
    N'esse que do co nos lana
    Em dia tempestuoso,
    S para nosso repouso
    O arco da alliana.

    Pobre musgo, descuidado,
    Sem olhos para chorar,
    Sem poder alliviar
    Com seu pranto um desgraado,
    Consolar-se e consolar!
    Fallas mais a meu agrado
    Que o livro mais afamado
    D'esses livros, que em lugar
    De nos dar consolao,
    Nos fazem cahir no cho
    Um pranto mal empregado,
    E inda mais amargurado
    Nos deixam o corao.

    Colhi-o, pul-o no seio,
    E  hoje o livro que leio.

Messines.

      *      *      *      *      *




ULTIMO ADEUS


    Prestes, se inda na rocha de granito
    D'onde em tempo me vias te sentares,
    No olhes para a terra ou para os mares,
    Olha sim para o co, que  l que habito.

    L to longe de ti, mas no do terno,
    Bondoso pai que os dois nos ha gerado,
    S para mgoas no, que bem guardado
    Nos tem tambem no co prazer eterno.

    No se  s p no fim de tanta mgoa.
    Seno, diga-me alguem que allivio  este
    Que sinto, quando  abobada celeste
    Alevanto os meus olhos rasos d'agua.

    Mentem os cos tambem? Os cos maldigo.
    Feras, tigres, tambem o co povam?
    Tambem os labios l sorrindo cam
    Veneno desleal em beijo amigo?

    Mas na dr  que os astros nos sorriem,
    E os homens no sorriem na desdita.
    Astros! fio-me em vs, e Deus permitta
    Que os infelizes sempre em vs se fiem.

    Intima voz do fundo, bem do fundo
    D'alma me diz (e as lagrimas me saltam):
    Vs os milhes de soes que o espao esmaltam?
    Pisa a terra a teus ps, inda ha mais mundo.

    Ha depois d'esta vida inda outra vida.
    No se reduz a nada um gro d'ara,
    E havia de a nossa alma, a nossa ida
    Nas ruinas do p ficar perdida?

    --Isso que pensa e quer (at me admiro),
    Isso que a luz nos traz, que a luz nos leva,
    Isso que me abre o co que ao co me eleva
    N'um teu canado olhar, n'um teu suspiro!

    Onde, no sei eu bem, mas sei que existe
    Deus remunerador. Depois de mortos
    Hemos de vr-nos, e um no outro absortos
    Fartar de glorias este amor to triste.

    --To triste, e o corao que me adivinha
    N'este supplicio nosso este tormento!
    Nunca dos labios teus minimo alento
    N'um s beijo bebi em vida minha!

    E morro sem te vr! Cabea doida,
    Desasisado amor! Sonhar afflicto
    Um sonho at morrer... No: resuscito;
    Morto tenho eu vivido a vida toda.

***

      *      *      *      *      *




ROSAS


    Trazeis-me rosas; d'onde as heis trazido,
    Boa velhinha e minha boa amiga?
    Rosas no inverno! permitti que o diga,
    Sois feiticeira: d'onde as heis colhido?

    Na primavera de meus annos, lho,
    Mas vejo abrolhos e no vejo flres:
    E vs colhl-as, como as eu no colho...
    Sois feiticeira--enfeitiaes d'amores.

    Enfeitiaes que a formosura, crde,
    No vem da face avelludada e bella;
    A formosura vem s d'alma;  d'ella
    Que brota a fonte que nos mata a sde.

    Vs sois velhinha, j no tendes cres
    Que o rosto animem e que os olhos prendam,
    Mas tendes prendas que o amor accendam,
    Tendes ainda no inverno... flres.

Evora.

      *      *      *      *      *




ROSA E ROSAS


    A Rosa trouxe-me rosas
    E nada mais natural,
    Mas eu prendas to mimosas
     que no tenho; inda mal.

    Quando tinha, se me dsse,
    No digo mais que uma flr,
    Talvez de flres lhe enchesse
    Esses cofrinhos d'amor.

    Aguas passadas, Rosinha!
    Deixal-o; veja se v
    N'este cho que j foi vinha
    Coisa que ainda se d.

    Veja e escolha. Est na mesa
    O que ha em casa;  tirar
    --Tirar com toda a franqueza;
    Inda ho-de espinhos sobrar.

    Mas se espinhos, mas se abrolhos
    Lhe no agradam, amor!
    Mire-se bem nos meus olhos,
    Que ha-de ahi vr... uma flr.

Evora.

      *      *      *      *      *




A HERMANN

Por occasio d'um beneficio a um asylo


    Conchega a mi ao peito o filho caro;
    Estende a pomba as azas no seu ninho
          Pelos filhinhos seus.
    Embala o arbusto agreste; o fructo amaro.
    Guia a bussola o nauta em seu caminho,
          Como um dedo de Deus.

    Bebe a nuvem no mar, no rio a fera;
    Acha o tigre covil na antiga Hyrcania,
          Hoje em dia, Ghil;
    Renasce a planta  luz da primavera,
    E no calix da flr gotta espontanea
          Cahe  luz da manh.

    S eu no mundo um gosto em vo pretendo:
    Guebro entre os persas, entre os indios pria,
          Judeu entre christos,
    S eu debalde ao co as mos estendo,
    Como o naufrago  praia solitaria
          Debalde estende as mos.

    Tenho no livro azul onde Elle escreve
    Esse nome, que nunca pronuncia
          Quem bem o soletrou,
    Mil vezes tenho lido que no deve
    Queixar-se mais que a flr que vive um dia
          Um verme como eu sou.

    Porm, chorando, as mgoas diminuem.
    Custa muito soffrer sem que um gemido
          Ah! solte a nossa dr.
    E se aos olhos as lagrimas affluem,
     que este allivio nosso  permittido.
          O co orvalha a flor.

    Diz isto o orpho. De alma os ais lhe sahem,
    Como os suspiros de harpa eolea em ermo.
          Ninguem no mundo o ouviu.
    Mas, se a teus ps as lagrimas lhe cahem,
    Tocou a mo de Christo a mo do enfermo;
          O Lazaro surgiu.

    Por isso, Hermann! espantas-me. No scismo
    Nos prodigios da milagrosa vara
          Que o Senhor Deus te deu.
    Teu corao, Moyss do christianismo!
    Tua alma  que eu admiro, e te invejra
          Se o que  teu... fosse teu.

Coimbra.

      *      *      *      *      *




PRESENTIMENTO


    Emilia! no vs a lua
    Como vacilla e fluctua,
    Ora avana, ora reca,
    E no ha passar d'alli?
    Tu s a imagem d'ella;
    s to sympathica e bella,
    Meiga e timida, que ao vl-a
    Me lembra sempre de ti!

    Tu s o boto de rosa
    Que abraado  mi formosa
    S folga, s vive e goza
    N'aquella triste unio;
    Treme at de ouvir a aragem
    Passar por entre a folhagem:
    Emilia! tu s a imagem
    Do mais timido boto.

    Mas embora: o tempo gira.
    Um dia o boto, que aspira
    O ar da manh... suspira
    E levanta o collo ao co:
    V vir raiando a aurora,
    Abre o seio  luz que adora,
    Correm-lhe as lagrimas, chora...
    Chora o tempo que perdeu!

    Porque elle, Emilia! no teme
    Que a luz da aurora o queime;
    Elle suspira, elle geme
    Por vr a luz que o creou.
    Nem tambem a lua pra:
    Se algumas vezes repara
    N'uma nuvem menos clara,
     um momento e... passou.

    No ha existencia alguma
    Que no tenha amor; nenhuma;
    Porque o amor , em summa,
    Essencia de todo o sr.
    Ha sempre quem nos attria.
    Mil vezes que a onda cia,
    Ha uma rocha, uma praia
    Aonde a onda vai ter.

    Tu andas j presentida
    D'essa voz que te convida
    A encetar n'esta vida
    Ai! uma vida melhor...
    E em breve desenganada
    D'essa existencia isolada,
    Dars n'alma franca entrada
    A sentimentos de amor!

Silves.

      *      *      *      *      *




MARINA


I

APPARIO

    Como esse olhar  dce!
    Dce da mesma sorte
    Como se nunca fosse
    Toldado pela morte:

    Como se alumiasse
    O sol ainda em vida
    As rosas d'essa face...
    Agora carcomida.

    Colhesse-as eu mais cedo
    E logo que alvorece;
    J no tivesse medo
    Que a terra m'as comesse.

    Mas pura, como a neve
    Que s vezes cahe na serra,
     que a nossa alma deve
    Tambem voar da terra.

    Gelasse a morte fria
    A mo profanadora
    Que te ennublasse um dia
    A luz que ds agora.

     n'essa cr to linda,
    Rosa da madrugada!
    Que sinto a alma ainda
    Andar-me enfeitiada.

    Se um dia nos meus braos
    Te desbotasse as cres,
    Passavam os abraos...
    Passavam os amores!

    Oh! no: mil vezes antes
    No co l onde habitas,
    E os rapidos instantes
    Que vens e me visitas

    N'este degredo nosso,
    Que tanta gente estima,
    E eu, s porque no posso,
    No largo e vou l cima.

    Vem tu c baixo, abala,
    Deixa em podendo o collo
    To terno que te embala,
    E vem-me dar consolo.

    Como essa imagem pura
    Ah! sobrevive ao nada
    E escapa  sepultura,
    To fresca e perfumada!

    Nunca uma noite eu deixe
    De estar a vr que existes,
    Em quanto me no feche
    O somno os olhos tristes.

    E n'esse largo espao
    Que te no vejo, espero
    Lhe contes o que eu passo
    N'este aspero desterro:

    Que assim que te no veja
     noite fria e escura,
    Noite que mette inveja
     mesma sepultura!


II

SAUDADE

    Em acordando agora,
    O meu contentamento
     vr em cada aurora
    Um dia de tormento!

    Podesse eu dar-te a prova
    Dos dias que me esperam,
    Lanando-me na cova
    Onde elles te pozeram!

    Lanassem-me algum dia
    Ao p, que de repente
    O corao te havia
    De ainda pular quente...

    A face cobrar logo
    A frma e cr perdida,
    E a bocca toda fogo
    Ah! inspirar-me a vida!

    Supplca,  anjo! implora
    Ao Pai universal
    Que me deixe ir embora
    D'este horroroso val

    De lagrimas amargas,
    E turvas de tal modo,
    Como umas nuvens largas
    Que tapam o co todo!


III

ETERNIDADE

    Inferno e co, conforme
    A nossa f, confesso
    Que  um mysterio enorme,
     um mysterio immenso.

    Mas um mysterio  tudo:
    Folhinha d'herva, e estrella,
    No ha comprehendl-a!
     contemplal-a mudo.

    E a herva, como existe,
    A mim quem m'o diria,
    Se a luz que me alumia
    Nem sabe em que consiste?

    Mas uma coisa sabe
    O que a cabea ignora
    --O corao... que mora
    Em peito onde no cabe.

    Ha uma luz mais clara
    Que a luz do pensamento:
    A d'essa imagem cara...
    A d'este sentimento!


IV

... 21 DE SETEMBRO

    Ha uma hora ou mais,
    Marina! que contemplo
    A casa de teus paes
    Que  para mim um templo.

    Est a porta aberta,
    E vejo alumiada
    A parte descoberta
    Da casa da entrada.

    L andam a passar
    Do quarto onde acabaste
     casa de jantar
    Os vultos, que deixaste.

    Os vultos, que os vestidos
    To negros que pozeram,
    De luto, to compridos,
    No sei que ar lhes deram!

    A tua bella irm,
    A tua piedade,
    A rosa da manh,
    A flr da mocidade,

    Quem lhe diria a ella,
    To cheia de alegria,
    Que haviamos de vl-a
    Assim j hoje em dia!

     esta vida um mar,
    E bem se pde a gente,
    Marina! comparar
    A rapida corrente,

    Que vai de lado a lado
    Por esses valles fra
    Sem nunca lhe ser dado
    Ter a menor demora.

    Pra, quando a engole
    Aquelle mar sem fundo;
    Nem pra;  como o sol
    E como todo o mundo...

    Ahi no pra nada,
    Tudo viaja e anda,
    Que a ordem lhe foi dada,
    E dada por quem manda.

    Chega a corrente l,
    Engole-a logo a onda:
    Depois, que  d'ella j?
    A nuvem que responda.

    Que a nuvem que nos passa
    Pela manh nos ares,
    Era hontem a fumaa
    Que andava n'esses mares;

    E a nevoa, que tu vs
    Nas ondas fluctuantes,
    Corria-nos aos ps
    Talvez um dia antes.

    A agua  que no giro
    Em que anda eternamente
    No deu nunca um suspiro
    Em prova de que sente.

    .....................

      *      *      *      *      *




N'UM ALBUM

Pedindo-se ao author uma poesia

    No me admira a mim que o sol, monarcha
    De indisputavel throno, e throno eterno
            Em co e terra e mar;
    Que em seu imperio o mundo inteiro abarca
    Abaixe  pobre flr seu dce e terno,
            Mavioso olhar.

    No me admira a mim que a crystallina,
    To pura, onda do mar, que espelha a face
            Do astro creador,
    Que essas asperas rochas cava e mina,
     praia toda languida se abrace
            E toda amor!

    Mas sendo vs um sr mais precioso
    Do que onda e sol--um anjo de poesia
            Inspirada e que inspira;
    Que s minhas mos, das vossas, to mimoso,
    Delicado penhor descesse um dia
             que me admira.

    Quizera nos meus cofres de poeta
    Ter as riquezas todas do Oriente,
            E com mos liberaes
    Expulsar esta duvida que inquieta
    Um grato corao que apenas sente
            E... nada mais!

    De limpido diamante e fio de oiro,
    Quizera-vos tecer collar que  aurora
            Vencesse em brilho e cr;
    Mas o poeta, o unico thesoiro
    Que tem, ah! so as lagrimas que chora
            E o seu amor.

    Eu vol-o dou. E l do espao immenso
    Se amada estrella olhar piedoso envia
            A quem da terra a adora;
    Se o sol aceita  flr humilde incenso;
    Ha no amor tambem muita poesia...
            Minha senhora!

Evora.

      *      *      *      *      *




    Beijo na face
    Pede-se e d-se:
        D?
    Que custa um beijo?
    No tenha pejo:
        V!

    Um beijo  culpa
    Que se desculpa:
        D?
    A borboleta
    Beija a violeta:
        V!

    Um beijo  graa
    Que a mais no passa:
        D?
    Teme que a tente?
     innocente...
        V!

    Guardo segredo,
    No tenha medo...
        V?
    D-me um beijinho,
    D de mansinho,
        D!

    Como elle  dce!
    Como elle trouxe,
        Flr!
    Paz a meu seio;
    Saciar-me veio,
        Amor!

    Saciar-me? louco...
    Um  to pouco,
        Flr!
    Deixa, concede
    Que eu mate a sde,
        Amor!

    Talvez te leve
    O vento em breve,
        Flr!
    A vida foge.
    A vida  hoje,
        Amor!

    Guardo segredo;
    No tenhas medo
        Pois!
    Um mais na face
    E a mais no passe!
        Dois...

    Oh! dois? piedade!
    Coisas to boas...
        Vs?
    Quantas pessoas
    Tem a Trindade?
        Tres!

    Tres  a conta
    Certinha e justa...
        Vs?
    E o que te custa?
    No sejas tonta!
        Tres!

    Tres, sim. No cuides
    Que te desgraas:
        Vs?
    Tres so as Graas,
    Tres as Virtudes,
        Tres.

    As folhas santas
    Que o lirio fecham,
        Vs?
    E que o no deixam
    Manchar, so... quantas?
        Tres!...

      *      *      *      *      *




    Thuribulo suspenso inda fluctuo,
    Em quanto a alma em incenso restituo;
    Mas, quando como fumo que se esvai,
    Minha alma! vs teu rumo... sobe e vai.
    Vai d'estas densas trevas, d'esta cruz,
    Levar-lhe... quanto levas, pobre luz!
    Amor, que em mim no cabe, vai depr
    Em Deus, e Deus bem sabe se era amor;
    Se d'outra flr o calix mais libei
    Por esses quantos valles divaguei;
    Se um nome em igneo trao li no co,
    Nas ondas e no espao, mais que o seu...
    Deus sabe se eu dos montes vi tambem
    Nos vastos horisontes mais alguem;
    Nos tristes e risonhos dias meus,
    Se alguem vi mais em sonhos, que ella e Deus.
    Porm quem  que apanha o aereo vo
    Da nuvem da montanha, se  do co?
    Se  terra a nuvem desce, quando vai
    Tocar-se-lhe, desfez-se como um ai.

Coimbra.

      *      *      *      *      *




    Luz d'intima influencia,
    Oh fugitiva luz!
    Luz cuja eterna ausencia
     minha eterna cruz.

    Podessem-te, ainda antes
    Do meu extremo adeus,
    Meus olhos fluctuantes
    Vr lampejar nos cos.

    Se ainda n'esse espao,
    To longe onde tu vs,
    Visse um reflexo bao
    Da pura luz que ds;

    Tornaram-se-me estrellas
    As lagrimas de dr;
    E lagrimas so ellas...
    Sim, lagrimas d'amor!

    V n'esse espao immenso
    Os astros como esto
    Bem como eu estou, suspenso
    Por intima attraco.

    Porque ha quem os attria;
     essa eterna paz
    Que a mim de praia em praia
    A suspirar me traz.

    Converte-me este inferno
    Em azulado co,
    Ou quebra o lao eterno
    Que a tua luz me deu;

    Ou antes muda em espuma
    De nunca estavel mar
    Esta alma que alma alguma
    Pde exceder em amar.

    Em cinza, em terra, em nada,
    Meu sr converte,  luz,
    Mas sempre, sempre amada,
    Deliciosa cruz!

Portimo.

      *      *      *      *      *




RESPOSTA

A A. DO QUENTAL


    Em fumo se vai tudo, amigo! Olhando
    Para as nuvens do co, nuvens d'aquellas,
    E parece-me ainda que mais bellas,
    Anda a gente fazendo e desmanchando.

    D-me uma saudade em me lembrando
    O bello tempo que passei com ellas,
    Por essa immensa abobada de estrellas,
    Por esse mar de fogo viajando...

    Andasse ainda eu l, que no me havia
    De vr por estes charcos atolado,
    Onde nem sol nem lua me alumia.

    Andasse ainda eu l, desenganado
    Mesmo j como estou de achar um dia
    A patria d'aonde ando desterrado.

      *      *      *      *      *




    Pois se o homem, se anjo e nume,
        Planta e flr,
    D seu canto, luz, perfume,
        Crena e amor;

    Pois se tudo sobre a terra
        Que ame alguem,
    Rosa ou espinho, quanto encerra
        D, se o tem;

    Se os carvalhos, nus, medonhos,
        Veste abril;
    Se inda a noite presta aos sonhos
        Graas mil;

    Se onde ha ramo, voz uma ave
        Desprendeu;
    Se onde ha folha, gotta suave
        Cahe do co;

    Se na praia, quando a onda
        Vem de l,
    Beijos, antes que se esconda,
        Mil lhe d;

    Tambem, anjo meu saudoso!
        Te hei de emfim
    Ah! dar quanto de precioso
        Sinto em mim!

    Dou-te o nectar, que me acalma;
        Toma-o tu!
    Sim, meu pranto; mais uma alma
        Que eu possuo!

    Dou-te os sonhos meus ardentes,
        Mas leaes;
    Dou-te as notas mais cadentes
        Dos meus ais!

    Do que ha lindo, tudo quanto
        Me seduz;
    D'esta vida, riso e pranto,
        Noite e luz!

    Dou-te o genio meu, que  sorte
        Vs fluctuar
    Sem mais vla, sem mais norte
        Que esse olhar!

    Dou-te a lyra, que me inspiras,
        Sonho meu!
    Que suspira, se suspira,
        Flr do co!

    Dou-te; aceita: tudo  santo,
        Tudo, flr!
    Dou-te uma alma toda encanto,
        Toda amor!

                          V. HUGO.

Coimbra.

      *      *      *      *      *




FLR E BORBOLETA


    Tu vas, borboleta! e que eu no possa
              Voar, amor!
    Diversa como  n'isto sorte nossa!
              Dizia a flr.

    No valle, ambas irms, nascidas fomos;
              s como eu sou;
    E amamo-nos, e flres ambas somos,
              Mas eu no vo.

    A ti leva-te o ar; prende-me a terra
              A mim; e eu
    Como hei-de perfumar-te em valle e serra,
              E l no co!...

    Mais longe inda tu vs, por outras flres...
              Girar, talvez,
    Em quanto a minha sombra, meus amores!
              Gira a meus ps!

    E vens-me vr depois, mas vaes-te embora,
              Sabendo, assim,
    Que em lagrimas me encontra sempre a aurora!
              Pobre de mim!

    Acabem-se estas mgoas, meu thesoiro
              E meu amor!
    Cria raiz ou d-me as azas de oiro,
              Celeste flr!

                                        V. HUGO.

Coimbra.

      *      *      *      *      *




REMOINHO


    Olha como embrulhado
    Que est ainda o co
    E o cho, como ensopado
    Da agua que choveu...

    Foi um diluvio d'agua;
    E o furaco, que fez,
    Emilia! at d mgoa
    Tantos estragos: vs?

    Esta infeliz vuva,
    Foi-lhe o telhado ao ar;
    Depois, j nem da chuva
    Tinha onde se abrigar.

    De mais a mais ssinha,
    Sem ter nenhum dos seus
    Aqui ao p; ceguinha...
    Bemdito seja Deus!

    Alm n'aquelle serro
    Parece que raspou
    Com uma p de ferro
    A terra que encontrou.

    Nem um s p de trigo
    s l capaz de vr.
    J eu disse commigo:
    Como pde isto ser?

    As arvores arranca
    O vento muito bem;
    Serve-lhe de alavanca
    A rama que ellas tem.

    Vem de l elle e, topa
    N'uma arvore, o que faz?
    Enrola-se na copa
    E, tronco e tudo, zs!

    Que as folhas no so nada,
    Uma por uma, no;
    Mas j uma pernada...
    To poucas ellas so?

    V l se o teu cabello
     para comparar;
    Mas, possa alguem sustel-o,
    Levanta-te no ar.

    Aqui um loureirinho,
    Que era o que havia s,
    Encontra-o no caminho,
    Ia-o fazendo em p.

    D'aqui passa,  maneira
    Assim d'um caracol,
    quella farrobeira
    Pe-lhe a raiz ao sol.

    Aquelle enorme tronco
    Quiz resistir, depois,
    Ouviu-se um grande ronco,
    Quando o eu vejo em dois.

    Andava a rama toda,
    Emilia! assim, vs tu?
     roda,  roda,  roda,
    Eis seno quando, rhuh!

    Foi quando veio o outro
    Urrando como um boi,
    Oh que horroroso encontro!
    Ento  que ella foi.

    Vs uma cobra enorme
     calma, quando est
    Grande calor, conforme
    As tenho visto j?

    Que no tem ar avonde,
    Falta-lhe j o ar,
    Quer sangue ou agua onde
    Se possa refrescar;

    Anceia-se, sacode
    O corpo todo a vr
    Se va, mas no pde;
    Voar no pde ser;

    E como no supporta
    J o calor do cho,
    Ao vr-se quasi morta
    De raiva e afflico,

    Apenas finca a ponta
    Do rabo em terra, e si;
    E faa-se de conta
    Que  a voar que vai

    N'aquellas roscas todas
    Que, olhando-se-lhes bem,
    So outras tantas rodas
    Em cima d'onde vem;

    N'aquelle parafuso
    --Aquelle rodopio,
     roda como um fuso
    Suspenso pelo fio;

    Com a cabea chata,
    Aquelle olhar feroz,
    Aquelle olhar que mata
    Sempre de fito em ns?

    Assim d'essa maneira
     que elle vinha, o tal;
    Salta-lhe  dianteira
    Este de fora igual;

    E assim que se avistaram,
    No sei o que lhes d;
    Ficam suspensos, param,
    Como com medo j;

    Aquelles sorvedouros,
    Em vez de remoinhar,
    Parecem-se dois touros
    Jogando a terra ao ar;

    Ouvia-se a oliveira
    Zunir no ar, ento,
    D'um para o outro inteira,
    Nem bala de canho;

    E assim se vo chegando
    Cada vez mais, at
    Que eu lho, eis seno quando
    Vejo... mas vejo o que?

    . . . . . . . . . . . . . . .

Messines.

      *      *      *      *      *




AMORES, AMORES...


    No sou eu to tola
    Que cia em casar;
    Mulher no  rola,
    Que tenha um s par:
      Eu tenho um moreno,
    Tenho um de outra cr,
    Tenho um mais pequeno,
    Tenho outro maior.

    Que mal faz um beijo,
    Se apenas o dou
    Desfaz-se-me o pejo,
    E o gosto ficou?

      Um d'elles por graa
    Deu-me um, e depois,
    Gostei da chalaa,
    Paguei-lhe com dois.

    Abraos, abraos
    Que mal nos faro?
    Se Deus me deu braos,
    Foi essa a razo.
      Um dia que o alto
    Me vinha abraar,
    Fiquei-lhe d'um salto
    Suspensa no ar.

    Amores, amores.
    Deixl-os dizer;
    Se Deus me deu flres,
    Foi para as colher.
      Eu tenho um moreno,
    Tenho um de outra cr,
    Tenho um mais pequeno,
    Tenho outro maior.

      *      *      *      *      *




FABULA


    Um dia os deuses, cada qual uma arvore,
     sua guarda consagraram: Jupiter
    Esse o carvalho, a murta Venus, Hercules
    L esse o alemo, e o loureiro Apollo.
    Vendo-as Minerva todas infructiferas:
    Que  isto? exclama. Jupiter acode-lhe:
    Seno, diriam, filha! que as guardavamos
    S pelo fructo.--Que me importa digam-no;
     pelo fructo que a oliveira escolho.

    Minerva! brada o pai d'homens e deuses,
    s quem, de todos, sabes mais sem duvida;
    No que no luza... mal fundada gloria.

    _Honra sem proveito
    Faz mal ao peito._

                                       PHEDRO.

Coimbra.

      *      *      *      *      *




BOAS NOITES


    Estava uma lavadeira
    A lavar n'uma ribeira,
    Quando chega um caador.

    --Boas tardes, lavadeira!

    --Boas tardes, caador!

    --Sumiu-se-me a perdigueira
    Alli n'aquella ladeira,
    No me fazeis o favor
    De me dizer se a brjeira
    Passou aqui a ribeira?

    --Olhai que d'essa maneira
    At um dia, senhor,
    Perdereis a caadeira,
    Que ainda  perda maior.

    --Que me importa, lavadeira!
    Aqui na minha algibeira
    Trago dobrado valor.
    Assim eu fra senhor
    De levar a vida inteira
    S a vr o meu amor
    Lavar roupa na ribeira...

    --Talvez que fosse melhor,
    Vr... coser a costureira!
    Vir, de ladeira em ladeira,
    Apanhar esta canceira
    E tudo s por amor
    De vr uma lavadeira
    Lavar roupa na ribeira...
     escusado, senhor!

    --Boas noites... lavadeira!

    --Boas noites, caador!..

Messines.

      *      *      *      *      *




GASPAR


    Ora se no sei eu quem foi teu pai!
    Fidalgo: sei perfeitamente bem.
    O que eu no sei, Gaspar!  o que vem
    N'esta vida fazer quem j l vai.

    J se v que  aos paes que a gente si.
    Tal pai, tal filho; sim, duvda alguem
    Que um pai se  como o teu, homem de bem,
    Tu s homem de bem como teu pai?

    D'isto no ha quem possa duvidar.
    Mas queres um conselho que eu te dou?
    No mexas n'isso... cala-te, Gaspar!

    Que eu, c por mim, bem sabes como eu sou,
    Mas  que outro talvez mande tirar
    Certido de baptismo a teu av.

Coimbra.

      *      *      *      *      *




    Deixa que ao romper d'alva o cravo abrindo,
             rosa envie o aroma;
    E l quando alta noite a lua assoma,
            O rouxinol carpindo!

    Que pela face a lagrima resvale
            De quem no exilio geme;
    E quando a propria sombra o homem teme,
            Que a mi seu filho embale.

    Deixa que ao espao immenso os olhos lance
            O sol antes que expire;
    Que pelo norte a bussola suspire
            E nelle s descance.

    Amam lees e tigres. No ha nada,
            Anjo! que a amor se esconda.
    Beija a pomba o seu par; e abraa a onda
            A rocha inanimada.

    Deixa que a nuvem negra tolde a lua
            Se a leva a tempestade;
    Deixa que eu te ame a ti, cara metade,
            D'esta alma toda tua!

Coimbra.

      *      *      *      *      *




CARTA


    Maria! vr-te  porta a fazer meia,
    Olhando para mim de vez em quando,
     o que n'esta vida me recreia.

    Acordo at de noite suspirando
    Por que rompa a manh e tenha o gosto
    De te vr j to cedo trabalhando.

    Desde pela manh at sol-posto
    Que no tens de descano um s momento;
    Por isso tens to bella cr de rosto.

    E eu pallido, Maria! O pensamento
    No  trabalho que nos d saude,
    Esta imaginao  um tormento.

    Que bello tempo aquelle em quanto pude
    Levar, como tu levas, todo o dia
    N'essa vida chamada ingrata e rude!

    Nunca soube o que foi melancolia,
    Nunca provei as lagrimas salgadas
    Com que a nossa alma as penas allivia;

    Andava sim por essas cumiadas
    Ao sol,  chuva, muita vez, ssinho,
    Vendo os valles, das rochas escarpadas;

    Descendo pelo crrego estreitinho,
    De pontal em pontal, cortando o matto,
    Pelas chapadas, fra de caminho;

    Mas no era que j o teu retrato
    Me andasse a mim no corao impresso,
    Onde hoje o trago no maior recato,

    E um desengano teu que no mereo
    Me tivesse tirado a f to dce
    D'alcanar algum dia o que appeteo.

    No foi, no, a paixo que assim me trouxe
    To erradio a mim, digo a verdade
    E nem eu te negava se assim fosse.

     que a gente na sua mocidade
    No cabe em si, no pra de contente,
    E assim fui eu na flr da minha idade.

    Tu eras n'esse tempo simplesmente
    A flr que vai nascendo e mais valia
    Seres to tenra ainda e innocente.

    J esse lindo p que tens, Maria!
    Esse quadril to largo, e cinta estreita,
    Me no vinha  ida noite e dia;

    Esses encontros de mulher perfeita,
    Esse peito redondo e arqueado
    Como o de pomba farta e satisfeita.

    Talvez vivesse ento mais socegado,
    Ou j que minha sorte  sempre triste
    Ao menos no andasse enfeitiado.

    Esse bello pescoo, no existe
    Outro assim torneado: o rosto  lindo
    E a to meiga expresso ninguem resiste.

    A bocca  to vermelha que, em te rindo,
    Lembra-me uma rom aberta ao meio
    Quando j de madura est cahindo.

    Esses olhos azues... que olhar! Receio
    E desejo estar sempre a contemplal-o;
    No ha mais dce e mais custoso enleio:

    Eu no oio fallar ento, nem fallo
    De enlevado que estou e, juntamente,
    Gemendo e abafando os ais que exhalo.

    Oh nuvem da manh resplandecente,
    Manto real de sda delicada,
    Cada fio um grilho que prende a gente.

    Bem podias, Maria! andar tapada
    S com o teu cabello,  semelhana
    Do sol em nuvem de manh doirada.

     tudo encantador. A gente cana,
    Cana de estar olhando e sempre vendo
    Um novo encanto a cada olhar que lana.

    E se essa linda voz nos si dizendo
    As mimosas palavras que costuma,
    Sente-se a gente logo derretendo;

    Que alm d'um rosto to perfeito, em summa
    Coube-te em sorte um corao perfeito
    E em ti no ha, Maria! falta alguma.

    Oh que ditoso, alegre e satisfeito
    No viver o homem que algum dia
    Sentir pular-te o corao no peito,

    E que em deliciosissima agonia,
    Vendo-te j os olhos desmaiando
    Como desmaia o co  luz do dia,

    Nas azas da ventura atravessando
    Os espaos d'um extasi ineffavel
    Abraado comtigo fr voando
    L para onde tudo  bello e estavel!

Messines.

      *      *      *      *      *




    --D-me esse jasmim de cera,
          Minha flr?
    --Mas e depois se lh'o dera,
          Meu senhor?

    --Depois? era uma lembrana.
          --Mas de qu?
    --D'uma to linda criana,
          J se v.

    --Oh to linda! Mas, parece,
          Sendo assim,
    Que inda quando lhe no dsse
          Tal jasmim...

    --No me esquecia, de certo.
          --Nunca j?
    --Nunca.--Nunca,  muito incerto,
          Mas... v l.

    --E a rosa, que bem lhe fica,
          D-m'a, flr?
    --Oh a rosa, a rosa pica,
          Meu senhor!

Messines.

      *      *      *      *      *




MARGARIDA


    Oh que formosos dias, Margarida!
    Esses da tua vida;
    E que nublados
    Meus dias desgraados!

    Nasci tambem assim risonho e meigo,
    Mas hoje apenas chego
    O calix da ventura
     bocca ancioso,
    Torna-se a agua impura
    E o liquido que bebo
    Venenoso,
    Sim, venenoso o liquido que bebo.

    Nem eu concebo
    Como Deus me creasse
    Para tormento eterno;
    Elle que to affavel, meigo e terno
    Te beija a ti a face
    E te embala no collo, Margarida!
    A mim dar-me esta vida...

    Mas vejo  sombra d'altos edificios
    Miudissimas flres
    De to subts e delicadas cres
    Que se o sol lhes chegasse
    Talvez que nem resquicios
    Lhes ficasse.
      Com uma d'essas azas, estendida,
    Me tapavas tu todo,
    E d'esse modo,
    Com esse escudo,
    Eu ria-me de tudo
    E levava esta vida alegremente.
    Tenho essa f.

    Vejo tambem a flr que nasce ao p
    D'agua corrente,
    Ir to suavemente
    Levada pela agua!
    Talvez at sem magua
    De deixar sua mi.
      D'esse modo tambem,
    Amparando-me tu a mim nos braos,
    Eu seguia-te os passos,
    Fosse por onde fosse;
    E d'essa sorte
    At a morte
    Me seria dce.

Messines.

      *      *      *      *      *




NO LEITO NUPCIAL


    Dorme, estatua de neve,
    Vergontea de marfim!
    Tocar que impio se atreve
    No que  sagrado assim?

    Dois so: o mais, mysterio
    Vedado  terra. Deus
    Talvez do solio ethereo
    Nem baixe os olhos seus.

    Respeita-os, tapa-os, como
    Japhet e Sem, o pai...
    Pende, sagrado pomo!
    A vista ergue-se e cai.

    Ergue-se e cai, conforme
    A lei, que o manda assim.
    Ergue-se e... Dorme, dorme,
    Vergontea de marfim!

    Mas dize: o espelho a imagem
    Te estampa mal te v;
    Beija-te o seio a aragem,
    Doira-te o sol; porqu?

    No segue acaso a sombra
    Teu corpo sempre, flr!
    E pois, porque te assombra
    Meu insensato amor?

    s vezes passas tremula
    Como sagrada luz;
    E os olhos dizem: vemol-a
    Como no alto a cruz.

    Perdoa se isto exprime
    Maldade aos olhos teus;
    Perdoa-me se  crime...
    Amo tambem a Deus.

    E  tarde quando o albergue,
    No solitario val,
    Incenso queima e se ergue
    D'Abel o fumo igual;

    Da pomba solta o vo,
    Baixa-me um olhar teu
    E dize-me: perdo;
    Sim, tudo aspira ao co!

Coimbra.

      *      *      *      *      *




A MINHA MI


    Patria! bero d'amor, que a alma embala
    Em quanto a luz vital nos illumina,
    E onde s descanado se reclina
    Quem, longe d'ella, dr contnua rala...

    Se n'essa essencia, mi! que a flr exhala
    Na essencia d'uma flr d'essa collina,
    Vs lagrimas d'amor que dentro a mina,
    Com saudades de quem do co lhe falla:

    Se quando, o co buscando, o fumo ondeia,
    Quando esse valle o sol deixa indeciso,
    Vs como fumo e flr aspira, anceia

    Um pai, um Deus, um co, um paraiso,
    Ah! tendo eu tudo, tudo, em minha aldeia,
    V tu se labio meu desfolha um riso!

Coimbra.

      *      *      *      *      *




BEATRIZ


    Tu s o cheiro que exhala
    Ao ir-se abrindo uma flr,
    Tu s o collo que embala
    Suas primicias d'amor.

    Tu s um beijo materno,
    Tu s um riso infantil;
    Sol entre as nuvens do inverno,
    Rosa entre as flres d'abril.

    Tu s a rosa de maio,
    Tu s a flammula azul,
    Que atam  flecha do raio
    As nuvens negras do sul.

    Tu s a nuvem d'agosto,
    Meu alvo vello de l!
    Tu s a luz do sol-posto,
    Tu s a luz da manh.

    Tu s a timida cora
    Que mal se deixa avistar;
    Tu s a trana que a fora
    Do vento leva no ar.

    s a perola que salta
    Do niveo calix da flr;
    s o aljofar que esmalta
    Virgineas rosas d'amor.

    s a roseira que a custo
    Levanta os cachos do cho,
    s a vergontea do arbusto,
    Anjo do meu corao!

    Tu s a agua das fontes,
    Tu s a espuma do mar,
    Tu s o lirio dos montes,
    Tu s a hostia do altar.

    s o pimpolho, s o gommo,
    s um renovo d'amor;
    Tu s o vedado pomo...
    Tu s a minha Leonor...

    Tu s a Laura que eu amo,
    E a minha Taboa da Lei,
    E a pomba que trouxe o ramo,
    E a margarida que achei.

    s o lirio, s a bonina
    Dos valles do meu paiz;
    s a minha Catharina...
    s a minha Beatriz!

Coimbra.

      *      *      *      *      *




INNOCENCIA


    Encolhe as azas, que te abrazas, louca!
    O fogo mata a quem o gera, attende;
    Foge e, se a vida te aborrece, estende
    Um brao aos anjos, que a distancia  pouca.

    Porque uma nuvem, onda transitoria
    Do mar immenso, vem pousar na serra,
    No fica a nuvem pertencendo  terra:
    Tu s o anjo que desceu da gloria.

    Estranhas foras para ti me attrahem;
    E s vezes cedo, tua cinta enleio;
    Teus olhos beijo; mas, contemplo o seio,
    Tua alma dorme, e os meus braos cahem...

    Desfallecidos, flr celestial!
    Como ante um bero cahe a foice erguida,
    Se ha n'elle mais do que uma simples vida,
    Se ha innocencia que mil vidas val.

    Oh! no: teus labios o meu fel no provem:
    Outros os lirios d'essa face esmaguem;
    D'outros mos impias teu sorriso apaguem,
    Em quanto os labios tuas graas louvem.

    J no meu bero d'innocencia pude
    Pesar as joias, que hoje em vo te invejo:
    Provei os favos de illibado pejo,
    Sei o que perde quem o vicio illude.

    Alcantil ingreme, onde o raio  certo,
    Contm mais seiva, que inda o musgo cria:
    Quanto de fertil em nossa alma havia
    S deixa o ermo da saudade aberto.

    Cahir no abysmo de intimos pezares
    D'essas alturas onde mal te vejo,
    O ponto estava derreter n'um beijo
    O fio de oiro que te manda aos ares.

    N'esses dois cofres, n'esse collo aonde
    Tantas riquezas enterrei ciumento
    (E que alta noite vela o pensamento
    Pelo crystal que o corao te esconde)

    Em oiro em barra, fina prata e quanto
    Coalha o vasto e opulento Oriente,
    Fra em ruinas encontrar smente
    Carvo, se um dia te quebrasse o encanto.

    Casta innocencia, de Deus filha e bella
    Entre as mais bellas! virginal aroma!
    Rosa ineffavel, que, se  luz assoma,
    Haste e raiz apodreceu com ella!

    Sol, que uma vez em nossa vida passas!
    Flr, que uma e neutra, como Deus, no gera;
    Que se abre morre, mas sem prole, inteira
    Com todo o cro das virgineas graas:

    Ao vr-te, embora meu olhar te envia
    O impio incenso de Nadab, ajoelho...
    Rosa da face e, no s rosa, espelho
    Da face occulta de quem espalha o dia!

    Se por teus membros orvalhadas flres
    Prodigas mos da formosura entornam,
    Flres mais bellas o teu seio adornam...
    Vs, lirios d'alma, virginaes amores!

    O co me encanta, como encanta o inferno.
    Mysterio... espao... mente exploradora!
    Morre nas mos o que a nossa alma adora
    --Vago, impalpavel, infinito, eterno!

Evora.

      *      *      *      *      *




    A Escriptura Sagrada
    L diz que uma mulher m
    No ha fera, no ha nada
    Peor no mundo: e no ha.

    Uma l da minha aldeia,
    Que era muito impertinente,
    Muito m (e muito feia)
    Morre um dia de repente.
    Morreu; desgraadamente
    Mais tarde do que devia;
    Mas em summa toda a gente
    Teve a maior alegria.

    Passados annos ( boa!)
    Foi-lhe preciso ao coveiro
    Abrir a cova, e achou-a
    Ainda de corpo inteiro,
    Ainda rosas na face,
    Ainda signaes de vida...
    Milagre! coisa sabida;
    Pois mais fresca que uma alface
    Ha tanto tempo enterrada,
    Devendo estar reduzida
    A p, terra, cinza e nada...

    Vem dar parte; e corre a vl-a
    O povo atraz do prior;
    E passam logo a trazel-a
    Em cima do seu andor
    E a pol-a n'uma capella
    De grande venerao;
    (Elles s costas com ella,
    E elle a cantar canto-cho;)
    Mas seja l o que fr,
    O que  certo e mais que certo
     que santa como aquella
    E nem de mais devoo,
    No ha por alli to perto.

    E dizem que no ha santos
    Como nos tempos passados!
    E c opinio minha
    Que muitos (quantos e quantos!)
    Que ahi morrem desprezados,
    Se no so canonisados
     que est cheia a _Folhinha_.

Messines.

      *      *      *      *      *




A UM NUNO

Provando a existencia de Deus a pobres camponezes


    Ora a provar que ha Deus, Nuno! isso  teima:
    Pois ha alguma ovelha no rebanho
    Que no saiba que s a mo suprema
    Creava um animal d'esse tamanho!

      *      *      *      *      *




A ***


    Pois se como sempre fomos
          Somos
    Ptalas da mesma flr,
    E o que eu sinto, ou eu me illudo,
          Tudo
    Tambem sentes, gosto e dr;

    Que te arraza os olhos d'agua?
          Magua
    Em que eu no deva tocar?
    Oh! mas se ha quem a suavise,
          Dize,
    Vou-lhe um suspiro levar.

    No se alcana, no se avista,
          Dista
    D'aqui muito o allivio, ou no?
    Dos teus olhos muito; e pouco,
          Louco!
    Pouco do teu corao.

    Sei o que vai em teu seio;
          Sei-o
    Porque em materia d'amor,
    Debalde os labios se calam!
          Fallam
    Ainda os olhos melhor!

Batalha.

      *      *      *      *      *




LUZ DA F


    Tu, sol! j no me alegras
    Como alegravas, no:
    Vs, sim,  nuvens negras,
    Relampago e trovo!

    Quando o trovo me aterra,
    Recordo-me de Deus;
    Abalo c da terra
    E vou por esses cos:

    E l n'essas alturas,
    Por onde s a f,
    Em regies to puras,
    Nos deixa tomar p;

    Voar, pairar nos ares
    Como uma aguia c,
    De l s vejo os mares,
    E  porque a luz lhes d.

    O mais como se apanha
    E empolga com a mo,
    Seja a maior montanha,
    Seja a maior nao;

    O mais fica no fundo
    D'esse infinito mar;
    O mais pertence ao mundo,
     escusado olhar.

    Deus deixa s creaturas
    C baixo a sua cruz,
    E fecha as almas puras
    N'um circulo de luz.

    As chagas, as miserias
    C d'este lamaal,
    Nas regies ethereas,
    L no se avista tal.

     s a luz, que foge,
    Mais uma irm que tem
    --A alma, que at hoje
    No a prendeu ninguem;

    So essas duas luzes
    (Qual d'ellas to subtil
    Que s forcas e s cruzes
    Do despota mais vil,

    Se escapam de tal modo
    Que  de o fazer raivar)
    C d'este mundo todo
    O que se v brilhar!

    Porque uma e outra aspira
    Continuamente ao co,
    A alma que suspira,
    E a luz que Deus nos deu.

    Porque uma e outra  pura,
    Perpetua e immortal;
    E a sua formosura,
    No ha nenhuma igual.

    Quem ,  luz formosa,
     minha bella irm!
    Quem  que faz a rosa
    Abrir pela manh?...

    Eu amo-te e (as trevas
    No teem esplendor!)
    Tu s  que me levas
    O tempo e o amor.

    Mas eu estimo o raio
    E gsto do trovo,
    Por vr que quando cio
     que me elevo ento.

    Por vr que em tendo medo
    Mais se me aviva a f;
    E a f, no ha rochedo
    Firme como ella .

    Por cima da desgraa
    Ou seja do que fr,
    Ella, no olha, passa
    De fito no Senhor!

    A essa luz divina,
     luz!  que tu s
    To pura e crystallina
    Como o Senhor te fez.

    Por isso a noite escura,
    Ah! se eu a preferi
     tua luz to pura,
     por amor de ti!

Messines.

      *      *      *      *      *




RESPOSTA

A A. DO QUENTAL


    Tal  a confiana que te inspira
    Estes reis, estes povos, esta gente,
    Que  para o co que appella e se retira
    Tua alma j de triste e descontente.

    Mas Deus ento seria ou impotente
    Ou seria um Deus barbaro: mentira!
    No pde suspirar eternamente
    Quem ha j tantos seculos suspira.

    Vai ganhando terreno a luz brilhante,
    Luz toda liberdade e toda amor
    Que ha-de salvar o mundo agonisante.

    A ida, esse Verbo creador
    Ha-de fazer que um dia e no distante
    S o nome de imperio inspire horror.

Messines.

      *      *      *      *      *




    Meu casto lirio,
    Terno delirio,
    Gloria e martyrio
    Do meu amor!
    Amo-te como
    A haste o gomo,
    O labio o pomo
    E o olho a flr.

    Se ao meu ouvido
    Sa um rugido
    Do teu vestido,
    Que ouo roar;
    Que som me vibra
    No sei que fibra
    Que me equilibra
    A mim no ar!

    E que harpa santa
     que me encanta
    E enche de tanta
    Consolao,
    Quando uma falla
    Terna se exhala
    D'onde se embala
    Teu corao!

    Quando te vejo
    D'um simples beijo
    Crar de pejo,
    Mudar de cr,
    Que susto  esse
    Que me parece
    Te empallidece,
    Rosa d'amor!

    Quando no leito,
    Teu niveo peito
    Sonho que estreito
    E aperto ao meu;
    Vendo to perto
    O co aberto,
    Porque desperto...
    Anjo do co!

    No fujas, rosa!
    No fujas, goza
    Manh mimosa,
    Manh d'amor;
    De folha em folha
    A flr se esfolha
    Bem cedo, e olha
    Que s como a flr!

Coimbra.

      *      *      *      *      *




VENTURA


    O sol na marcha luminosa va
    Lanando  terra magestoso olhar;
    Passa cantando quem o ar pova
    E a praia abraa venturoso o mar.

    No bosque o vento dce canto enta,
    Ouvem-se em cro as multides cantar;
    Que a um s triste o corao lhe da,
    Que eu seja o unico a soffrer, chorar...

    Por ti, saudade... de quem vai to perto
    E a quem dos olhos e das mos perdi
    N'este to ermo lugubre deserto!

    Por ti, ventura... que uma vez senti;
    Por ti, que s vezes a meu peito aperto
    E... o peito aperto sem te vr a ti!

Evora.

      *      *      *      *      *




    Arida palma
    Tem seu licr,
    Tem como a alma
    Tem seu amor;
    Tem como a hera
    Tem seu abril,
    Tem como a fera
    Tem seu covil.

    Tem toda a planta
    Que o sol queimou
    Lagrima santa
    Que a orvalhou,
    E o passarinho
    Que hontem nasceu
    L tem seu ninho
    Que a mi lhe deu.

    S eu na magua
    Do meu penar
    Sou como a agua
    Que anda no mar,
    Sou como a onda
    Que  busca vem
    D'onde se esconda,
    E onde, no tem!

    Folha revolta
    Que anda no cho,
    Lagrima solta
    Do corao;
    Corpo sem vida,
    Haste sem flr,
    Folha cahida
    Do meu amor.

Coimbra.

      *      *      *      *      *




A UNS OLHOS AZUES


    Cahe a folha da rosa pudibunda,
    Cahe a rosa da face virginal,
    Cahe das nuvens a aguia moribunda,
    Cahe o sol na montanha occidental.

    Cahe a onda na praia, cahe do somno
    O poeta na luz; e cahe das mos
    Dos despostas o sceptro, elles do throno,
    Como a seus ps cahiram seus irmos!

    Cahe dos labios o riso; cahe dos olhos
    A lagrima tambem, que d'alma sahe;
    Cahe a rocha no mar, cahe nos abrolhos
    A flr de liz; de louro a folha cahe.

    Cahe do co a centelha incendiaria,
    A nuvem cahe se um sopro Deus lhe d,
    Cahe ante o dia a noite solitaria
    Como o falso Dagon ante Jehovah.

    Cahe tudo, flr! cahe tudo; eu s no cio:
    Mais do que um rei, que o sol, igual a Deus,
    Cahir, mulher! s posso  luz d'um raio
    Se elle cahir do co dos olhos teus!

Luso.

      *      *      *      *      *




HERESTA


    Que magua ou que receio
    Dos olhos te desata
    Aljofares de prata
    No jaspe do teu seio?

    Bem intima ser deve
    A pena que te opprime,
    Flr tenra como o vime,
    Flr pura como a neve!

    --Compunge-te isso, de-te
    Vr esmaltando o calix
    Da erma flr dos valles
    O balsamo da noite?

    Se aos olhos nos affluem
    As lagrimas, parece
    Que a dr nos adormece,
    E as maguas diminuem.

    --Heresta! pois inclina
    Na minha a tua face
    E deixa me repasse
    Teu balsamo, bonina!

    Abraa-me, divide
    Commigo esse consolo,
    Enlaa-te ao meu collo
    Como ao olmeiro a vide!

    s vezes tambem quando
    Os olhos se me estendem
    s luzes, que se accendem
    No templo venerando;

    To intima saudade,
    To intimo desejo,
    D'um mundo, que no vejo,
    Me inspira a immensidade...

    Que o pranto se agglomera
    Na palpebra, onde morre;
    Sim, gela-se, no corre,
    Tal  a dr que o gera!

    -- Deus que a si te aspira,
     Deus que ao co te chama;
    Que em tudo amor derrama,
    A tudo amor inspira!

    Canta-o, o justo, o santo!
    E a flr que o campo adorne
    Thuribulo se torne
    Mal te oua o dce canto.

    --Inspira-o pois, inspira,
    Virgem de intacto pejo!
    Seja um teu riso o harpejo
    E um teu cabello a lyra!

          ----------

    O sol j da montanha
    Te disse adeus! adeus!
    E a cupula dos cos
    Ficou pallida e estranha.

    E aquella, que a bondade
    De Deus em si reflecte,
    Em quanto ao sol compete
    Mostrar-lhe a magestade,

     luz extrema d'hoje
    Ergueu livida a face
    Com medo que avistasse
    Quem busca, e de quem foge.

    Fluxo e refluxo eterno
    D'alma contradictoria,
    Que aps continua gloria,
    Anda em continuo inferno.

    Poeta!  copia tua,
    Supplicio igual te inquieta.
    Mas que alma de poeta
    Teu seio arqueia, oh lua?

    Amor, amor como este,
    Viso timida e casta
    Em giro eterno arrasta
    A lampada celeste.

    Como esse que a deshoras
    A ti te ergue a cabea
    E aos ermos te arremessa
    Em busca do que adoras.

    Mas, ah! pallido globo!
     pio d'ave nocturna,
    Echo em alguma furna
    Do uivo d'algum lobo?

    Ouo uma voz... escuta:
     ella a voz que se ouve?
    Ou monge que inda louve
    A Deus, n'alguma gruta!

    Quem l em baixo  escarpa
    D'um ingreme penedo
    No tremulo arvoredo
    Entorna os ais d'uma harpa?

     ella a minha Heresta,
    A minha branca ermida
    Do ermo d'esta vida,
    Mais erma que a floresta?

    Tu, lua, que no val
    D'Aialon paraste,
    J viste em sua haste
    Suspenso lirio igual?

    No , no  mais bella
    A rosa entre os abrolhos,
    Nem ha como os seus olhos
    No co nenhuma estrella!

      luz d'uma alvorada,
    Apenas desabrocha,
    Nos angulos da rocha
    Vl-a despedaada!

    Vs, lobos! ide em bando,
    Trepai pelo rochedo,
    Uivai, mettei-lhe medo,
    Levai-a recuando!

    Que faz quem se aproxima
    D'um precipicio, diz-m'o?
    Que buscas tu no abysmo
    Se o co  l em cima?

    No tarda muito, creio,
    Que acabe esta ancia nossa,
    E Deus unir-nos possa
    No seu eterno seio.

     l que a alma falla,
    L que o amor se mede,
    Que em brilho o sol excede,
    E em gloria a Deus iguala!

    Na nuvem do futuro
    Teus vagos olhos prega!
    Depois de noite negra
    Vem sempre um co mais puro.

          ----------

    E agora, se o desejo
    Te satisfiz, em premio
    D'um canto d'alma gemeo,
    Um gemeo e dce beijo!

Coimbra.

      *      *      *      *      *




FRAGMENTO


    ..........................................

    Deixal-o: os olhos fecho  luz e quero...
    Quero-te, oh sonho, se s doirado e lindo:
    Mais que a teus fachos, pedagogo austero!
    Que me condemnas em chorando e rindo.
    Sempre olhos fundos, sempre esse ar severo...
    Razo! no te amo; mas a ti, bemvindo,
    Tu que os conselhos nunca, amor! lhe tomas;
    Ds luz  lua, ds  rosa aromas.

    Oh! ha tres vistas com que as coisas vemos;
    Ha tres razes que as coisas determinam;
    Uma a dos olhos; outra a que escondemos
    N'isso ante que os alemos se inclinam;
    Outra a que dentro no corao temos,
    Que os limites do espao s terminam:
    Coube a primeira em sorte  borboleta;
    A outra ao homem; a terceira ao poeta.

    Mas ser s poeta quem faz versos?
    No  a flr poeta que o sol canta?
    No cabe aos ais to intimos, dispersos
    Do cantor triste nome e gloria tanta?
    Esses aereos to mimosos beros,
    Que, excepto o homem, o furor quebranta
    A quanto  fero e sanguinario, acaso
    Cada um d'elles no  um parnaso?

    Mais poesia em pobre margarida,
    Que aos ps se pisa, enthesoirada vejo,
    Que em muita madreperola polida
    Que as cinzas guarda de finado harpejo.
    Dize-me, pomba! que no ar sustida
    Vens como a nuvem coroar d'um beijo
    Quem teus desvelos maternaes comparte:
    Cames excede-te em engenho e arte?

    Vaidade humana! Do que  simples, claro,
    Fazem mysterio; do-lhe um nome e basta:
    Como esse eunucho sacerdocio avaro
    Que da verdade as multides afasta...
    Mas a verdade no  pedra d'ara
    Nem arca-santa que s certa casta
    Tem privilegio de levar ao hombro
    Ou vr de perto, sem morrer d'assombro.

    Padre, ministro do Crucificado
     bom ferreiro afeioando o ferro
    Com que ha-de prestes ir rompendo o arado
    Os campos d'este secular desterro.
    Melhor explicam um lugar sagrado
    Bigorna e malho, que explica o berro
    De bonzo inutil; que asperos abrolhos
    No viram nunca seus inchados olhos.

    Apostolo  o pai que se afadiga
    S para que descance o filho amado;
    Apostolo  a rocha em que se abriga
    Ave agoureira e pobre desgraado;
    Apostolo  a lagrima que amiga
    Cahe pela face em peito amargurado;
    E esse monstro do co que solitario
    Correu o mundo  busca do Calvario.

    E assim vs outros, falsos sacerdotes!
    Que a mesma crena sustentar devreis,
    Poetas vos chamaes se em cos motes
    Sabeis vasar combinaes estereis?
    Monges! tendes o habito; se os dotes,
    Os doze dons do Espirito tivereis,
    Crreis que  mais poeta o dce favo
    Que a abelha fabrca em mato bravo.

    Fechei a minha bocca largo espao
    Para vr e pasmar; eu no podia
    Tirar os olhos do tributo escao
    Que paga o albergue quando acaba o dia.
    Pelo filhinho em maternal regao
    Como ave em ninho a balanar, meda,
    No essa Iliada a compasso austero,
    Mas a de Christo, a do celeste Homero.

    Lia esse livro que anda encadernado
    Em pelle humana e embrulhado em pranto,
    Mas para benos, para amor dictado
    E quanto ha puro, quanto ha bello e santo:
    Livro que o impio soletrou tocado,
    Se o impio os olhos pde erguer a tanto;
    Mas que a moirama s conserva vivo
    Porque no morre o immortal captivo.

    No morre: eterno como a fonte d'onde
    Dimana a luz, a vida, amor e tudo,
    Que amostra a terra, amostra o mar, e esconde
    O co, o espao, o infinito mudo...
    O mundo mudo! para quem? responde,
    Valente martyr! que o pesado escudo,
    Com que a verdade os olhos encobria,
    Morreste mas quebraste  luz do dia.

    Existe um pai commum, que a todos ama
    E d'elles s juiz a si reserva
    Punil-os de seu mal; o sol derrama
    Por cedro erguido e enterrada herva;
    Desarma o lao que a perfidia trama,
    Ou n'elle a prende e faz cahir; enerva
    Brao que se ergue contra irmo; fecunda
    Semente que no cahe de mo immunda.

    Diante d'elle as obras apparecem
    Taes como as gera o intimo do peito:
    Basta o amor do bem, se as mos fallecem;
    Sem esse amor  nada o grande feito.
    Embora os homens de soltar se esquecem
    Quem chora escravo; porque, em seu conceito
    Deixe chorar quem purpuras arrasta,
    Cante que  livre na verdade, e basta.

    Ella o resto far; porque a seu brao
    Reis no resistem, no resistem povos:
    Um raio a nuvem parte e deixa o espao
    Coalhado d'astros que parecem novos:
    Pe ao sol, que o fecunde, o simples trao,
    Como a grande avestruz os grandes ovos;
    E quem depois no mundo a luz lhe apaga?
    Ninguem apaga a luz que o mundo alaga.

    Sacerdocio embusteiro as mos lhe prega
    Em tronco immovel que seus labios gele;
     justia profana o justo entrega
    (Sua irm gemea que a verdade expelle:)
    J das almas senhor o rosto alegra,
    J morto o canta, sepultado e elle
    S o consome o incendio que j lavra
    De bocca em bocca, o incendio da palavra.

    Nenhum de ns o viu andar prgando,
    Nenhum seu olhar vago lhe notmos,
    Nunca o vimos no ermo a Deus orando,
    Nunca a mo estendida lhe apertmos;
    E por todos seu nome vai passando,
    Todos, os seus preceitos, decormos...
    E que v vr-lhe a campa ao Oriente
    Quem os olhos da carne tem smente.

    Que  um tumulo acaso, esse tributo
    Pago pela materia  vil materia?
    Quem vai na campa alliviar o luto
    Se a vista alonga  amplido aerea?
    Quem a copia de Deus rebaixa a bruto,
    E a mais que bruto a immortal, etherea,
    Celeste pomba, que em seu vo a vida
    Em factos deixa s almas esculpida?

    No me embala inda Homero nos seus braos
    E me pinta nas mos a natureza?
    No lhe ouo eu inda a voz...como ouo a espaos
    A voz da grande Fama portugueza...
    Quando me apraz olhar para os pedaos
    D'este grande gigante que a fraqueza
    Expoz aos coices...leo moribundo...
    O rei antigamente d'este mundo?

    Eu no sou dos que a patria sua adoram
    Como adora o seu deus o fiel crente.
    Vejo que todos n'uma patria moram
    E sobre todos vejo um co smente:
    Mas ame cada qual; que se outros choram
    Nas mos dos tigres que s comem gente,
    Tambem meus olhos choram seu tormento
    D'onde quer que seus ais me traga o vento.

    Deixai ir em seu transito divino
    Desde a Cruz do Calvario na Juda,
    T  ponta da espada d'ao fino
    Desembainhada em Italia, o tempo, a ida.
    Deixai andar a vr o peregrino
    Onde a ventura abunda, onde escassa
    Para vos dar, no oiro (F e Esperana!)
    Rei e pastor nas conchas da balana.

    Ha-de vir esse dia; e se a figueira
    Em abrolhando perto vem o estio,
    No longe est: a cobra carniceira
    De mil roscas e lugubre assobio
    Que terra come, e come a terra inteira,
    Se  terra inteira se enrolar, despiu
    A pelle enorme com bastantes dres
    Esfolada por tres imperadores...

    Eu no sei qual mais chore; se essa sde
    De sangue insaciavel dos tyrannos,
    Ou se  a escurido vossa que eu hei-de
    Antes chorar, oh miseros humanos!
    Que solimo vos deram, loucos! vde:
    No vale a gloria que vos faz ufanos
    Um s pingo de sangue, um s, vertido,
    Um gemido de mi, um s gemido!

     do sangue e das mes que eu fallo; e certo,
    Que ha na vida mais santo? O sangue  vida;
    E as mes fonte da vida: eu nunca esperto
    Esta lampada d'alma, suspendida
    Na abobada eterna e que to perto
    Parece ter a origem............
    ................seno quando
    Vejo essa cara imagem suspirando.

    Eu amo as mes, seu nome  terno e dce;
    Sim, amo as mes: nossa alma d'ellas nasce:
    Quem n'um collo de mi cahiu, achou-se
    D'um pulo ao p de Deus: a alma pasce
    Lirios celestes vendo-as; e seccou-se,
    ........................................
    Do casto e candido a sagrada fonte,
    Se ella no tumulo encostou a fronte.

    Essa  a virgem-mi, voz suavissima
    D'esse cantico eterno--o Evangelho;
    A Virgem... Mi... de Deus! virgem purissima,
    Cheia de graa e de justia espelho.
    Oh poesia, poesia altissima
    Como o fecho do empyreo! eu me ajoelho
    E beijo a tua base, harpa celeste!
    O corao, a corda que nos dste.

    Em que labios se bebem mais delicias,
    Em que face de virgem se desatam
    Rosas mais puras d'intimas primicias,
    Que nas que por dar vida a ns se matam?
    Sempre a bem nosso, a nosso amor propicias
    Na menina dos olhos nos retratam;
    E nunca premio vil em paga pedem
    De quanto, tanto d'alma, nos concedem.

    Na montanha da F, mulher formosa
    Se ante mim a meus ps desenrolasse,
    Como o demonio, a vastido pasmosa
    Que elle dava a Jesus se o adorasse;
    E me pedisse em premio uma s coisa
    --s mos de minha mi furtar a face;
    Eu lanava-lhe o cuspo, essa tesoira
    Que em mil bocados faz a vacca-loira.

    Vde-a ao bero, sofrega de vida,
    Que a sua  pouca para a dar ao filho;
    Ella em cama de espinhos, mal vestida;
    Elle enfaxado, em bero de tomilho;
    Ella em contnua, azafamada lida,
    Elle vendo se apanha  luz o brilho...
    J descobrindo em to tenrinha idade
    Que toda a sua sde  de verdade.

    E esses lobos que em duas patas andam
    Para ter sempre em guarda as outras duas;
    Que a monte sahem s, e s debandam
    Como os ladres,  noite, pelas ruas;
    A empecer que os animos se expandam,
    Que a luz se espalhe, e que as imagens tuas,
    Bom Deus! de imagens passem: e que admira...
    Sem o sopro que ao barro a vida inspira!

    J se iam vendo os campos relvejando
    C da banda do sol n'este horisonte
    Por onde j n'um mar se andou nadando
    E onde apenas se encontra secca fonte;
    E eil-os j os hypocritas minando,
    Cortando ao povo hebreu na marcha a ponte
    S para que o mann que o co lhe chove
    No deserto dos reis jmais nem prove.

    Retalhou-lhes o labio omnipotente
    O habito comprido, a manga larga,
    Olhar submisso mas lugar na frente;
    E nem despido o monstro a presa larga.
    So sepulchros caiados, vde, oh gente!
    Por dentro podrido: em voz amarga,
    Em voz de grande horror, de grande abalo,
    Christo clamou d'aquelles de quem fallo.

    Dizimam-te o coentro e a arruda,
    Mas sua consciencia  generosa.
    Chamam-se mestres... de sciencia muda,
    A sciencia da cobra venenosa:
    Olhai, no espia a fera, espreita, estuda
    Toda a volta do dia, mais manhosa,
    Que essa raa de viboras, que espalha
    Veneno em todo o mundo, que coalha.

    Irms da Caridade! A Caridade
    Tem s duas irms--a F e a Esperana:
    No traja as cres s d'uma irmandade,
    Traja as cres do Arco-da-alliana:
    Leva ssinha o po da piedade,
    Tira da roda essa infeliz criana...
    Roda da vida, que anda de tal sorte
    Que, em se lhe dando,  j contar com a morte.

    Bemdita sejas tu, victima triste
    De um peito amante e d'um amante ingrato!
    Que nunca  mesma loba lanar viste
    Inda mamando o cachorrinho ao mato;
    Bemdita sejas tu, que o que pariste,
    Teu fructo, imagem tua e teu retrato
    Conservas como espelho onde te vejas;
    Bemdita sejas tu, bemdita sejas.

    Pra suspensa a pomba no seu vo
    Ao vr-te contemplando-o ajoelhada;
    E dizendo-te, a pomba: eu te abeno
    Da parte do pai nosso, irm amada!
    Abriste o seio ao dia e fecundou-o
    Aquella luz que o mundo fez de nada,
    E deu ao campo a flr,  flr semente
    Com que a mi os filhinhos seus sustente.

    Bemdita sejas tu. Quando se esconde
    Debaixo da tua aza o que criaste,
    Abraa e beija os anjos Deus l onde
    A jarra est da flr de que s a haste;
    E um dia que no tenhas po avonde
    Ou do co te no chova agua que baste,
    Lana-lhe  luz do dia a mo direita,
    Mostra-lh'o; Deus os filhos no engeita.

    Pai no tinha o filhinho de Maria
    E ella o bercinho lhe arma de mil flres,
    Deixando entrar em casa a luz do dia
    Que em perfume as derreta em seus amores;
    E inda abrindo os olhinhos mal lhe via,
    J os pinceis preparam os pintores;
    Que o pai d'esse menino... Oh maravilha!
    Os que no teem pai Deus os perfilha.

    Deixa passar de largo a desposada...
    De cujo filho o pai quem , Deus sabe!
    Deixa-a roar-te os fatos enfadada
    Se comtigo na praa a par no cabe:
    Talvez um dia a casa levantada
    Sobre a areia solta ao cho desabe
    E em ruinas se encontre este letreiro:
    No era o pai dos teus mais verdadeiro.

    Quem  que nasce aos pares como a rola,
    Ou como a pomba morre em viuvando,
    Que pela vr ssinha em lodo atola
    Fresca vide que est do cho lanando?
    Acaso  s dourada altiva estola
    Que liga os corpos em as mos ligando,
    Confunde os coraes, e faz em summa
    Que a Deus se elevem duas almas n'uma?

    Amor  a palavra, o brado eterno
    Solto por Deus ao vr j feito o mundo,
    Que fez tremer os carceres do inferno
    E o sol ficou da cr d'um moribundo:
    A primavera, estio, outono, inverno,
    Terra, co, alma pura, bicho immundo,
    Tudo ahi cabe  larga de tal modo
    Que n'essa concha Deus se fecha todo.

    Amor enrola a nuvem na montanha
    E espalma a onda em praia que no sente,
    Ata ao raio de sol o fio d'aranha
    E humilha ao conductor o raio ardente.
    Quanto na rede immensa a vista apanha.
    Tudo que jaz e cresce e vive e sente,
    De Deus brotou n'um jorro de bondade
    E pde amar-se em espirito e verdade.

    Amo  aurora a luz doirada e clara,
    E ao crepusculo as nuvens da tristeza,
    A solida montanha, a nuvem rara
    Por invisivel fio aos astros presa;
    Amo a ancia feroz, a sde avara
    Com que a loba parida engole a presa,
    E os crystallinos ais d'ave innocente
    Que comprimenta o sol ingenuamente!

    Amo o sopro que parte, esmaga, estala
    Esses corvos que aos bandos vem das ondas
    N'essas noites que o impio at se cala
    Receando, trovo! que lhe respondas...
    E amo o bafo subtil que a flr embala
    Pedindo-te, boto, que dentro o escondas,
    E as primicias lhe ds que leve quelle
    Que te fez a ti flr e vento a elle.

    Tu s, que horror! a ti oh no te amo!
    Cheiras-me a sangue tu; teus olhos baos
    Olham, no vem; tu tens bocca, chamo,
    No me respondes; tens como eu dois braos,
    E no me abraas; brado afflicto, clamo,
    Tens duas pernas, e no ds dois passos:
    Ris, mas teu riso  d'enrilhados dentes;
    Mettes-me medo; tu, cadaver! mentes.

    Ninguem (prohibe-o Deus) o brao crte
    Que lhe roubou o espirito divino;
    Deus a Cain apaga sul e norte
    E condemna a viver o assassino:
    Mas tu, mentira! symbolo da morte...
    Hypocrisia! teu sorrir felino
    Te deixe arreganhada a bocca aberta,
    Gele-te a morte a mo que a minha aperta.

    ..........................................

Evora.

      *      *      *      *      *




    Se ao enlaal-a no peito
    Me cahe desfeita uma flr,
    Lembras-me, sonho desfeito!
          Sonho d'amor!

    Se a borboleta do calix
    D'um lirio aos ares se ergueu,
    Lembras-me, estrella dos valles!
          Lirio do co!

    Se inda um affecto em mim vive
    Entre os que mortos possuo,
    Lembras-me, sonho que eu tive!
          Lembras-me tu!

Coimbra.

      *      *      *      *      *




    Nunca me ha-de esquecer (ingrata! escuta)
    No tendo eu mais talvez que os meus dez annos
    Esses olhos crueis, esses tyrannos
    Commigo em porfiada aberta lucta.

    Se eu fra voraz lobo ou fera bruta
    D'entranhas ms, instinctos deshumanos,
    Talvez o fructo ento de teus enganos
    O no colhesses tu de face enxuta.

    Mas eu perdo-te o mal que me has causado;
    A culpa no  tua e s devia
    Vingar-me em quem to bella te ha formado.

    E hei-de vingar-me, cr; mas isso um dia
    Depois d'um beijo teu me pr em estado
    De disputar a Jove a primazia.

Evora.

      *      *      *      *      *




DINHEIRO


    O dinheiro  to bonito,
    To bonito, o magano!
    Tem tanta graa o maldito,
    Tem tanto chiste o ladro!
    O fallar, falla d'um modo...
    Todo elle, aquelle todo...
    E ellas acham-no to guapo...
    Velhinha ou moa que veja,
    Por mais esquiva que seja,
             _Tlim!_
             Papo.

    E a cegueira da justia
    Como elle a tira n'um ai!
    E sem pegar n'uma pina;
     s dizer-lhe: ahi vai...
    Operao melindrosa
    Que no  l qualquer coisa;
    Catarata! tome conta:
    Pois no faz mais do que isto,
    Diz-me um juiz que o tem visto:
            _Tlim!_
            Prompta.

    N'essas especies de exames
    Que a gente faz em rapaz,
    So milagres aos enxames
    O que aquelle diabo faz.
    Sem saber nem patavina
    De grammatica latina,
    Quer-se a gente d'alli fra?
    Vai elle com taes fallinhas,
    Taes gaifonas, taes coisinhas...
            _Tlim!_
            Ora...

    Aquella physionomia
    E labia que o diabo tem!

    Mas n'uma secretaria
    Ahi  que  vl-o bem!
    Quando elle, de grande gala,
    Entra o ministro na sala,
    Aproveita a occasio:
    Conhece este amigo antigo?
    --Oh meu to antigo amigo!
           (_Tlim!_)
           Pois no!

Coimbra.

      *      *      *      *      *




DUVIDA


    Amas-me a mim! Perda;
     impossivel! No,
    No ha quem se conda
    Da minha solido.

    Como podia eu, triste,
    Ah! inspirar-te amor,
    Um dia que me viste,
    Se  que me viste... flr!

    Tu, bella, fresca e linda
    Como a aurora, ou mais
    Do que a aurora ainda,
    Mal ouves os meus ais!

    Mal ouves porque as aves
    S soltam de manh
    Seus canticos suaves;
    E tu s sua irm!

    De noite apenas trina
    O triste rouxinol:
    Toda a mais ave inclina
    O collo ao pr do sol.

    Porqu? porque  ditosa!
    Porqu? porque  feliz!
    E a que sorri a rosa?
    Ao mesmo a que sorris!

     luz doirada e pura
    Do astro creador.
     noite, no, que  escura,
    Causa-lhe a ella horror.

    Ora uma nuvem negra,
    Uma pesada cruz,
    Uma alma que se alegra
    S quando v a luz

    De que elle, o sol, inunda
    O mar, quando se pe!
    Imagem moribunda
    D'um corao... que foi!

    Uma alma semelhante
    No pde captivar
    Um rosto to galante,
    Um to galante olhar!

    E eu vi os caracteres
    Que a tua mo traou:
    Mas vs... ah! vs, mulheres,
    Quem j vos decifrou!

    Mal te sustinha o pulso
    A delicada mo!
    Sentia-te convulso
    Bater o corao!

    Via-te arfar o seio...
    Corar... mudar de cr...
    E embora, ah! no, no creio...
    Tu no me tens amor!

Portimo.

      *      *      *      *      *




CATURRAS


    Ah! compadre, a gente foge,
    Desabelha com calor;
    Aqui faz fresco na loge,
     onde se est melhor;
    Mas que calor que fez hoje!

    --Pois, olhe, assim eu me dsse
    De inverno quando faz frio,
    Como agora que elle aquece.
    Tome dois banhos no rio,
    Logo v como arrefece.

    --Compadre, nunca me traga
    Taes coisas  collao;
    Lembra-me a maldita draga,
    Compadre do corao!
    No me falle n'essa praga!

    --Tenho-lhe a mesma amizade
    Que o meu compadre lhe tem,
    s vezes d-me vontade
    At de a tragar tambem...
    Digo-lhe isto com verdade.

    --Ha-de isto chegar a pontos
    Que quem viver ha-de vr!
    J l vo setenta contos,
    E a draga a apodrecer,
    E trabalhos nenhuns promptos.

    --Setenta, diz o compadre?
    Do-lhe elles esse verniz...
    L como a sua comadre...
    Mas eu c o que ella diz
     como o que diz o padre...

    --Pois inda isso contina?
    --Eu sei l, compadre, eu sei!
    Ora canta, ora se amua...
    Eu  que j me lembrei
    De a pr um dia na rua!

    --Compadre, tenha miolo,
    Isso no se faz assim;
    Eu no me tenho por tolo,
    E ponha os olhos em mim...
    Sirva-lhe isso de consolo.

    --Pois bem sei que  ninharia,
    Mas o compadre o que quer?
    Estimo a minha Maria,
    E isto de homem com mulher...
    Mas vamos  vacca fria:

    Com que a draga...-- empregada,
    Coisa que nunca se viu,
    Sendo uma pea aceada,
    A tirar lama do rio!
    Parece isto caoada...

    --E caoada indecente
    Porque outra coisa no .
    Mais economicamente
    Quando vasasse a mar
    A tirava mesmo a gente.

    --E depois aquillo  lodo
    Que nunca pde prestar.
    Veja aterrar o caes todo
    Quando no ha-de importar...
     gastar dinheiro a rodo.

    --Haja decima e derrama;
    Por causa do qu? do caes,
    Da draga ou como se chama,
    E outras coisinhas que taes
    Que tudo a final  lama.

    Pois sendo tudo bem feito
    Como  antiga, v l!
    Mas olhe, o caes no tem geito;
    De tudo quanto alli ha,
    A meu gosto, o parapeito.

    --Sim, senhor, obra segura,
    Obra como deve ser;
    Feio e forte;  o que dura:
    Foi sempre o que ouvi dizer
    A quem est na sepultura...

    --Mas era tudo escusado;
    N'esta, compadre,  que estou;
    E isto d-me algum cuidado,
    Que o que meu pai me deixou
    No foi nada mal ganhado.

    --Pois e, se quer que lhe conte,
    J se ahi falla outra vez
    Em mandar fazer a ponte:
    Cuida esta gente talvez
    Que temos alguma fonte...

    --E havendo ento uma barca...
    Como a Arca de No!
    L porque a gente se enxarca
    E no pde andar a p
    Quando embarca e desembarca.

    --Escarranchem-se ao cachao
    Dos marujos: pois ento?
    C em taes obras nem passo
    Que pernas minhas daro;
     gosto que lhes no fao.

    --Nada! havemos de ir agora
    Vr ambos o que l vai;
    Que a ns aquillo por ora
    Bem sei que nos no distrahe;
    Mas temos pouca demora.

    --Pois vamos, compadre, vamos.
    Sentamo-nos nos poiaes,
    Alli mesmo conversamos
    Ambos ssinhos no caes,
    E depois logo voltamos.

Portimo.

      *      *      *      *      *




        Cosi trapassa, al trapassar d'un giorno,
        Della vita mortale il fiore e 'l verde,
        N, perch faccia indietro april ritorno
        Si rinfiora ella mai, n si rinverde.

                                          TASSO.

    Foi-se-me pouco a pouco amortecendo
    A luz que n'esta vida me guiava,
    Olhos fitos na qual at contava
    Ir os degraus do tumulo descendo.

    Em se ella anuveando, em a no vendo,
    J se me a luz de tudo anuveava;
    Despontava ella apenas, despontava
    Logo em minha alma a luz que ia perdendo.

    Alma gemea da minha, e ingenua e pura
    Como os anjos do co (se o no sonharam...)
    Quiz mostrar-me que, o bem, bem pouco dura.

    No sei se me voou, se m'a levaram,
    Nem saiba eu nunca a minha desventura
    Contar aos que inda em vida no choraram.

    Ah! quando no seu collo reclinado,
    --Collo mais puro e candido que arminho,
    Como abelha na flr do rosmaninho
    Osculava seu labio perfumado;

    Quando  luz dos seus olhos... (que era vl-os,
    E enfeitiar-se a alma em graa tanta!)
    Lia na sua bocca a Biblia Santa
    Escripta em letra cr dos seus cabellos;

    Quando a sua mosinha pondo um dedo
    Em seus labios de rosa pouco aberta,
    Como timida pomba sempre lerta,
    Me impunha ora silencio ora segredo;

    Quando, como a alveloa, delicada
    E linda como a flr que haja mais linda
    Passava como o cysne, ou como, ainda
    Antes do sol raiar, nuvem doirada;

    Quando em balsamo d'alma piedosa
    Ungia as mos da supplice indigencia,
    Como a nuvem nas mos da Providencia
    Uma lagrima estilla em flr sequiosa;

    Quando a cruz do collar do seu pescoo
    Estendendo-me os braos, como estende
    O symbolo d'amor que as almas prende,
    Me dizia... o que s mais dizer no oio;

    Quando, se negra nuvem me espalhava
    Por sobre o corao algum desgosto,
    Conchegando-me ao seu candido rosto,
    No perfume d'um riso a dissipava;

    Quando o oiro da trana aos ventos dando
    E a neve de seu collo e seu vestido
    --Pomba que do seu par se ia perdido,
    J de longe lhe ouvia o peito arfando;

    Tinha o co da minha alma as sete cres,
    Valia-me este mundo um paraiso,
    Distillava-me a alma um dce riso,
    Debaixo de meus ps nasciam flres.

    Deus era inda meu pai. E em quanto pude
    Li o seu nome em tudo quanto existe
    --No campo em flr, na praia arida e triste,
    No co, no mar, na terra e... na virtude!

      Virtude! Que  mais que um nome
    Essa voz, que em ar se esvi,
    Se um riso que ao labio assome
    N'uma lagrima nos ci!

    Que s, virtude, se de luto
    Nos vestes o corao?
    s a blasphemia de Bruto
    --No s mais que um nome vo.

    Abre a flr  luz, que a enleva,
    Seu calix cheio d'amor,
    E o sol nasce, passa e leva
    Comsigo perfume e flr!

      Que  d'esses cabellos d'oiro
    Do mais subido quilate,
    D'esses labios escarlate,
            Meu thesoiro!

    Que  d'esse halito, que ainda
    O corao me perfuma!
    Que  do teu collo de espuma,
            Pomba linda!

    Que  d'uma flr da grinalda
    Dos teus doirados cabellos,
    D'esses olhos, quero vl-os,
            Esmeralda!

    Que  d'essa alma que me dste!
    D'um sorriso, um s que fosse,
    Da tua bocca to dce,
            Flr celeste!

    Tua cabea que  d'ella
    A tua cabea d'oiro,
    Minha pomba! meu thesoiro!
            Minha estrella!

      De dia a estrella d'alva empallidece;
    E a luz do dia eterno te ha ferido.
    Em teu languido olhar adormecido
    Nunca me um dia em vida amanhecesse.

    Foste a concha da praia. A flr parece
    Mais ditosa que tu. Quem te ha partido,
    Meu calix de crystal, onde hei bebido
    Os nectares do co... se um co houvesse!

    Fonte pura das lagrimas que choro!
    Quem to menina e moa desmanchado
    Te ha pelas nuvens os cabellos d'oiro!

    Some-te, vela de baixel quebrado!
    Some-te, va, apaga-te, meteoro!
     n'este mundo mais um desgraado.

      E as desgraas, podia prevel-as
    Quem a terra sustenta no ar,
    Quem sustenta no ar as estrellas,
    Quem levanta s estrellas o mar.

    Deus podia prevr a desgraa,
    Deus podia prevr e no quiz;
    E no quiz, no... se a nuvem que passa
    Tambem pde chamar-se infeliz!

    A vida  o dia d'hoje,
    A vida  ai que mal sa,
    A vida  sombra que foge,
    A vida  nuvem que va;
    A vida  sonho to leve
    Que se desfaz como a neve

    E como o fumo se esvi:
    A vida dura um momento,
    Mais leve que o pensamento,
    A vida leva-a o vento,
    A vida  folha que ci!

    A vida  flr na corrente,
    A vida  spro suave,
    A vida  estrella cadente,
    Va mais leve que a ave;
    Nuvem que o vento nos ares,
    Onda que o vento nos mares,
    Uma aps outra lanou,
    A vida--penna cahida
    Da aza d'ave ferida--
    De valle em valle impellida,
    A vida o vento a levou!

    Como em sonhos o anjo que me afaga
    Leva na trana os lirios que lhe puz,
        E a luz quando se apaga
        Leva aos olhos a luz;

    Como os vidos olhos d'um amante
    Levam comsigo a luz d'um dce olhar,
        E o vento do levante
        Leva a onda do mar;

    Como o tenro filhinho quando expira
    Leva o beijo dos labios maternaes,
          E  alma que suspira
          O vento leva os ais;

    Ou como leva ao collo a mi seu filho,
    E as azas leva a pomba que voou,
          E o sol leva o seu brilho,
          O vento m'a levou.

    E tu s piedoso,
    Senhor! s Deus e pai!
    E ao filho desditoso
    No ouves um s ai!
    Estrellas dste aos ares,
    Ds perolas aos mares,
    Ao campo ds a flr,
    Frescura ds s fontes,
    O lirio ds aos montes
    E tiras-m'a, Senhor!

    Ah! quando n'uma vista o mundo abranjo,
    Estendo os braos e, palpando o mundo,
    O co, a terra e o mar vejo a meus ps;
    Buscando em vo a imagem do meu anjo,
    Soletro  froixa luz d'um moribundo
          Em tudo s--talvez...

    Talvez  hoje a Biblia, o livro aberto
    Que eu s ponho ante mim nas rochas, quando
    Vou pelo mundo vr se a posso vr;
    E onde, como a palmeira do deserto,
    Apenas vejo aos ps, inquieta, ondeando
          A sombra do meu sr.

    Meu sr, voou na aza da aguia negra
    Que, levando-a, s no levou comsigo
          D'esta alma aquelle amor!
    E quando a luz do sol o mundo alegra,
    Chrysalida nocturna, a ss commigo,
          Abrao a minha dr!

    Dr inutil! Se a flr, que ao co envia
    Seus balsamos, se esfolha, e tu no espao
    Achas depois seus atomos subtis;
    Inda has-de ouvir a voz que ouviste um dia,
    Como a sua Leonor inda ouve o Tasso!...
          Dante... a sua Beatriz!

    --Nunca; responde a folha que o outono,
    Da haste que a sustinha a mo abrindo,
          Ao vento confiou:
    --Nunca; responde a campa onde, do somno,
    E quem talvez sonhava um sonho lindo,
          Um dia despertou.

    --Nunca; responde o ai que o labio vibra;
    --Nunca; responde a rosa que na face
          Um dia emmurcheceu:
    E a onda, que um momento se equilibra
    Em quanto diz s mais: deixai que eu passe!
          E passou e... morreu!

Coimbra.

      *      *      *      *      *




MI E FILHO


    Primicias do meu amor!
    Meu filhinho! do meu seio
    Tenro fructo que  luz veio
    Como  luz da aurora a flr!

    Na tua face, innocente,
    De teu pai a face beijo,
    E em teus olhos, filho, vejo
    Como Deus  providente.

    Via em lamina doirada
    O meu rosto todo o dia
    E a minha alma no se havia
    De vr nunca retratada?

    Quando o pai me unia  face,
    E em seus braos me apertava,
    Pomba, ou anjo nos faltava
    Que ambos juntos abraasse!

    Felizmente, Deus que o centro
    V da terra e v do abysmo,
    Que bem sabe no que eu scismo,
    Na minha alma um altar viu dentro:

    Mas com lampada sem brilho,
    Sem o deus a que era feito...
    Bafeja-me um dia o peito,
    E eis feito o meu gosto, filho!

    Como em lagrimas se espalma
    Dr intima e se esvaece
    D'alma o resto quem podesse
    Vasar n'um beijo em tua alma!

    Mas em ti minha alma habita!
    Mas teu riso a vida furta...
    Mas (que importa!) morte curta!
    Se um teu beijo resuscita!

Coimbra.

      *      *      *      *      *




    Toca a capello, vou vl-o
    E vejo de toda a cr,
    No doutores de capello,
    Mas capellos de doutor.

Coimbra.

      *      *      *      *      *




    Amas, pobre animal! e tens tu pena?...
    Sim, pde na tua alma entrar piedade?
    Se pde entrar, eu sei! Negar quem ha-de
    Amor ao tigre, corao  hyena!
        Tudo no mundo sente: o odio  premio
    Dos condemnados s, que esconde o inferno.
    Tudo no mundo sente: a mo do Eterno
    A tudo deu irmo, deu par, deu gemeo.
        A mim deu-me esta gata, a mim deu-me isto...
    Esta fera, que as unhas encolhendo
    Pelos hombros me trepa e vem, correndo,
    Beijar-me... S no vivo! amado existo!

Evora.

      *      *      *      *      *




NO!


    Tenho-te muito amor,
    E amas-me muito, creio;
    Mas, ouve-me, receio
    Tornar-te desgraada.
    O homem, minha amada!
    No perde nada, goza;
    Mas a mulher  rosa...
    Sim, a mulher  flr!

    Ora e, a flr, v tu
    No que ella se resume...
    Faltando-lhe o perfume,
    Que  a essencia d'ella,
    A mais viosa e bella
    V-a a gente e... basta.
    S sempre, sempre, casta!
    Ters... quanto possuo!

    Ters, em quanto a mim
    Me alumiar teu rosto,
    Uma alma toda gosto,
    Enlevo, riso, encanto!
    Depois, ters meu pranto
    Nas praias solitarias...
    Ondas tumultuarias
    De lagrimas sem fim!

     noite, que o pezar
    Me arrebatar de casa,
    Irei na campa rasa
    Que resguardar teus ossos,
    Ah! recordando os nossos
    To venturosos dias,
    Fazer-te as cinzas frias
    Ainda palpitar!

    Mil beijos, dce bem!
    Darei no p sagrado,
    Em que se houver tornado
    Um corpo to galante!
    Com pena, minha amante,
    De me no ter a morte
    Cahido a mim em sorte...
    Cahido a mim tambem!

    J exhalando os ais
    Na lugubre morada
    Te vejo a sombra amada
    Sahir da sepultura...
    A tua imagem pura,
    Fiel, mas illusoria...
    Gravada na memoria
    Em traos to leaes!

    Ento, se ainda alli
    Teus vaporosos braos,
    Poderem dar abraos
    Como do hoje em dia,
    Peo-te, sombra fria!
    No mais intimo d'elles
    Que a mim tambem me geles,
    E fique ao p de ti!

    Mas, ai! meu corao!
    Tu porque assim te affliges,
    E tremula diriges
    A vista ao co piedoso!...
    O quadro  horroroso,
    A scena triste e feia,
    Basta encerrar a ida
    D'uma separao...

    Mas, ouve, existe Deus.
    Ora e, se Deus existe,
    To horroroso e triste
    Que pdes temer? Nada!
    Desfruta descanada
    O extasi, o enleio
    Em que eu j saboreio
    O jubilo dos cos!

    Deixa-me n'esse olhar
    Vr como a lua assoma...
    Sim, deixa no aroma,
    Que a tua bocca exhala,
    Vr como a rosa falla
    Quando a aurora a inspira...
    Vr como a flr suspira
    Por vr o sol raiar!

    A morte para amor
     exito sublime.
    A morte para o crime,
     que  amarga e feia.
    A morte no receia
    O verdadeiro amante;
    Por ella a cada instante
    Implora elle o Senhor.

     juntos, tu vers,
    Que ns expiraremos!
    Sim, juntos, que os extremos
    Olhares cambiando,
    Iremos despegando,
    Do involucro terreno,
    O espirito sereno
    Como a eterna paz!

    V, s porque suppuz
    Chegado esse momento,
    J esse olhar mais lento...
    As vistas mais serenas...
    Bruxuleando apenas,
    Em languido desejo,
    Symphatico lampejo
    D'uma ineffavel luz!

    Ha, n'este triste valle
    De lagrimas, a imagem
    De dois n'essa passagem
    Para a eternidade...
    A nevoa, a anciedade,
    O jubilo que mata,
    Do uma ida exacta
    Do transito fatal.

    Mas essa imagem, flr!
     to fiel, to viva
    Que  sua luz activa
    Se cresta a flr mimosa!
    E nem o homem goza:
    Se goza  um momento!
    Depois... o desalento!
    Depois... o desamor!

Portimo.

      *      *      *      *      *




NA FOLHA D'UM ROMANCE


    Moldada ao bem nasci, mas debil planta
    Verguei de vicio ao sopro pestilente;
    D'entre o vicio porm minha alma ardente
    Castos hymnos a Deus saudosa canta.

    Ah! se um mentido affecto amor levanta
    N'um pobre corao inexperiente,
    D'elles a culpa  toda! uma innocente
    No consulta a razo, razes supplanta.

    Cahi, verguei, Senhor! j pervertida
    Graas, beijos vendi, vendi belleza,
    Triste commercio de mulher perdida.

    Oh! mas, Deus do amor! foi s fraqueza:
    De impias mos me arrancai, tirai-me a vida,
    Alcance-me o perdo mortal tristeza!

Messines.

      *      *      *      *      *




    Lagrima celeste,
    Perola do mar,
    O que me fizeste
    Para me encantar!

    Ah! se tu no fosses
    Lagrima do co,
    Lagrimas to dces
    No chorra eu.

    Se nunca te visse
    Bonina do val,
    Talvez no sentisse
    Nunca amor igual.

    Pomba desmandada,
    Que  dos filhos teus,
    Luz da madrugada,
    Luz dos olhos meus!

    Meu suspiro eterno,
    Meu eterno amor,
    D'um olhar mais terno
    Que o abrir da flr,

    Quando o nectar chora,
    Que se lhe introduz,
    Ao romper da aurora,
    Ao raiar da luz,

    Por entre a folhagem
    Onde mal se v,
    Como a terna imagem
    Da que eu adorei.

    Que esta voz te enleve,
    Que este adeus l se,
    Que o Senhor t'o leve,
    Que Deus te abene.

    Que o Senhor te diga
    Se te adoro ou no,
    Minha dce amiga
    Do meu corao!

    Se de ti me esqueo,
    Se j me esqueci,
    Ou se mais lhe peo,
    Do que vr-te a ti;

    A ti que amo tanto
    Como a flr a luz,
    Como a ave o canto,
    E o Cordeiro a cruz,

    E a campa o cypreste,
    E a rola o seu par,
    Lagrima celeste!
    Perola do mar!

Coimbra.

      *      *      *      *      *




DESCALA!


    Quem s, que ao vr-te o corao suspira,
            E em puro amor desfaz-se!
    Raio crepuscular do sol que nasce,
            De lampada que expira!

    Como os teus ps so lindos! como  dce
            A curva do teu peito!
    Oh! se o meu corao fosse o teu leito,
            E o teu amado eu fosse!

    Que preciosas perolas descobre
            Teu meigo humido labio!
    E, virgem! como Deus foi justo e sabio
            Em te fazer to pobre!

    No tens fofo velludo onde se atole
            Tua angelica imagem;
    Mas quando  bello o co, bella a paizagem
            E quando  bello o sol?

    Limpo de nuvens, n, derrete a neve
            E a aguia at desmaia.
    Tu no tens mais do que uma pobre saia,
            E essa, curtinha e leve.

    Onde o corpo te alteia, a saia avulta;
            Onde te abaixa, desce...
    s como a rosa! A rosa nasce e cresce,
            No para estar occulta.

    O que te falta pois? os teus desejos
            Quaes so? de que precisas?
    Ah! no ser eu o marmore que pisas...
            Calava-te de beijos!

Coimbra.

      *      *      *      *      *




ADEUS!


    Adeus tranas cr de oiro,
    Adeus peito cr de neve!
    Adeus cofre onde estar deve
    Escondido o meu thesoiro!

    Adeus bonina, adeus lirio
    Do meu exilio d'abrolhos!
    Adeus oh luz dos meus olhos
    E meu to dce martyrio!

    Desfeito sonho doirado,
    Nuvem desfeita de incenso,
    Em quem dormindo s penso,
    Em quem s penso acordado!

    Viso sim mas viso linda!
    Sonho meu desvanecido!
    Meu paraiso perdido
    Que de longe adoro ainda!

    Nuvem, que ao sopro da aragem
    Voou nas azas de prata,
    Mas no lago que a retrata
    Deixou esculpida a imagem!

    Rosa d'amor desfolhada
    Que n'alma deixou o aroma,
    Como o deixa na redoma
    Fina essencia evaporada!

    Adeus sol que me alumia
    Pelas ondas do oceano
    D'esta vida, d'este engano,
    D'este sonho d'um s dia!

    No mesmo arbusto onde o ninho
    Teceu a ave innocente
    Se volta a quadra inclemente
    Acha abrigo o passarinho:

    Mas eu n'esta soledade
    Quando em meus sonhos te estreito,
    Rosto a rosto, peito a peito,
    Acordo e acho a saudade!

    Adeus pois morte! adeus vida!
    Adeus infortunio e sorte!
    Adeus estrella do norte!
    Adeus bussola perdida!

Coimbra.

      *      *      *      *      *




A VICTORIA COLONNA


    No sei que ha de divino, fora  crl-o
    N'esses teus olhos d'uma luz to pura
    Que, ao vl-os, tive logo por segura
    Aquella paz que  meu constante anhelo.

    Filha de Deus, nossa alma aspira a vl-o;
    Desprezando caduca formosura,
    Ella, em seu giro eterno, s procura
    A frma, o typo universal do bello.

    No pde amar, no deve, uma alma casta
    Fugaz belleza, graa transitoria,
    Coisa que o tempo leva, o tempo gasta.

    Nem tambem alma digna de memoria
    Pde amar o prazer, que o bruto arrasta,
    Em vez do puro amor--sombra da gloria.

                               MIGUEL-ANGELO.

Coimbra.

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N'UM CONVENTO


    Como a agua em funda gruta
    Gotta a gotta filtra e ci,
    Sem saber quem isso escuta
    O que l por dentro vai:

    Como ao longe incerta e baa
    N'uma igreja alveja a luz,
    Que da lampada esvoaa
    E a vidraa reproduz:

    Mal te vi, moira encantada!
    Mas  luz dos olhos teus
    Murcha a lampada sagrada
    D'um altar do nosso Deus.

    Mal te ouvi, mas as suaves
    Melodias, que te ouvi,
    So mais dces que as das aves
    Da alda onde nasci!

    Quem teve, bella captiva,
    Corao de te deixar
    Aqui enterrada viva,
    Sem amor, sem luz, sem ar!

    Era cego e surdo, juro,
    O miseravel algoz
    Que no viu olhar to puro,
    No ouviu to pura voz!

    Eu no tendo a faculdade
    D'arrazar esta priso,
    Sacrifico a liberdade
    Por to dce escravido!...

Coimbra.

      *      *      *      *      *




SONHO


    Ha muitos sonhos de imaginao,
        De mera phantasia:
    Outros, que so a voz da prophecia,
        A voz da intuio,
        A voz do corao.

    Pes f em sonhos taes, Maria?... Pes?
        E fazes bem, que s vezes
    Sonha a gente venturas e revezes,
        Que se tornam depois
        Bem certos! Ouve pois:

    Sonhei que era n'um valle. Anoiteceu.
        Ento duas estrellas.
    (To lucidas, to limpidas, to bellas!)
        Vieram l do co
        Alumiar-me. E eu...

    No sabia e pergunto: o que buscaes,
        Alampadas celestes!
    Vs, c por este mundo... o que perdestes?
        Na terra no achaes
        Seno prantos e ais!

    Respondem-me as estrellas (como a quem
        As tivesse captivas,
    To tremulas! as bellas fugitivas)
        --Buscavamos alguem
        Que nos quizesse bem:

     sorte nossa,  nossa condio
        Dar luz, ser norte e guia;
    Mas de mais boamente se alumia
        Na terra um corao
        Que nos tem affeio.--

    --Pois e se vs do co, l onde at
        Se ignora o que so dres,
    Vindes  terra procurar amores,
          Estrellas! se assim ,
          Tendes-me aqui ao p:

    Que em summa a noite da minha alma  tal
          Que eu pobre viajante
    Ando... se para traz, se para diante,
          N'este profundo val,
          No sei nem bem mal.

    Guiai-me pois, estrellas do Senhor!
          E a jura que vos fao
     que na terra no darei um passo
          Seno s por amor
          Do vosso resplendor!--

    Ellas ento sorrindo-se, que eu vi,
          To meigas e suaves!
    Voaram como duas lindas aves;
          Indo poisar ahi...
          N'esse teu rosto... em ti!

Lisboa.

      *      *      *      *      *




 VISTA D'UM RETRATO


    Amo-te, flr! Se te amo, Deus que o sabe
    Que o diga a teus irmos, que o co povoam,
    E ebrios de gloria canticos entoam
    A quem no mar, na terra e cos no cabe.

    Se te amo, flr! que o diga o mar--que expelle
    Quanto  dominio, beija humilde a praia:
    Se mal que a lua l das ondas sia
    Nas rochas me no v gemer com elle.

    Amo-te, flr! se te amo, o sol que o diga!
    Quanto l da montanha aos cos se eleva,
    Se entre os vermes do p que o vento leva,
    Me banha a mim tambem na luz amiga.

    Se te amo, flr? Sem ti, que noite escura,
    Meu co, meu campo em flr, meu dia e tudo!
    Diga-te a noite minha se te illudo,
    Se em vida j sem ti, sonhei ventura!

    O anjo que a bero humilde e escasso
    Do co me veio alumiar piedoso,
    E em lagrimas e riso, pranto e gozo,
    Desde ento me acompanha passo a passo;

    s tu! Amo-te e muito! O que fluctua
    Na fornalha que o sopro eterno accende,
    No beija a mo do anjo que o suspende
    Com mais amor que eu beijo a sombra tua!

Coimbra.

      *      *      *      *      *




A LUA


    Esse olhar silencioso
    Em que lingua se traduz?
    Falla-me, oh astro saudoso,
    Luz do co, pallida luz!
      Que aereas vises me acordas,
    Que imagem, lua, recordas
    N'essa prateada cr?
    Que ha em ti, que a dr mitiga,
    Que ha em ti, lampada amiga,
    De meigo e consolador?

    Escuta, pallida lua,
    D-me um sorriso dos teus,
    D-me uma lagrima tua,
    Se s a pupilla de Deus!
      V que outros mimos no tenho,
    Que em tua face desenho
    A face do meu amor:
    Uma s lagrima! fria,
    Que ella me cia... diria
    Que uma lagrima cahia
    Do co ao menos na dr!

Coimbra.

      *      *      *      *      *




JOVEN CAPTIVA


    Respeita a foice a espiga verde ainda;
    Sem medo da vindima, o estio inteiro,
    Bebe o pampano as lagrimas da aurora:
    E eu verde como a espiga, tenra e linda
    Como o pampano, hei-de morrer? no quero:
            Quero, mas no por ora!

    Talvez que a outrem, morte, grata fosses.
    Espero! Embora em lagrimas me lave,
    Varre-me o norte a mim a face? inclino-a.
    Se ha dias tristes, ai! ha-os to dces...
    Sem amargo, que mel, por mais suave
            Que mar, em paz continua?

    Benefica illuso meu seio habita.
    Sepulte-me este carcere inhumano;
    A aza nivea da f no se agrilha.
    Escapa ao lao da priso maldita,
    Mais viva e alegre, a esse aereo oceano,
            A alvloa canta e va.

    Hei-de morrer? porque? se no diviso
    Em minha alma um remorso; durma ou vele,
    Se eu velo e durmo em paz, na paz do justo!
    Se em cada rosto a luz me abre um sorriso;
    Aqui mesmo, onde a mgoa o riso expelle;
            E a luz assoma a custo!

    O fim do meu destino  l to longe!
    Quantos passei dos alemos que adornam
    Esta bella viagem? Assentada
    Ao banquete da vida apenas hoje,
    A taa ainda cheia as mos entornam,
            Dos labios illibada.

    Estou na primavera, oh segadores!
    E as mais quadras do anno havia agora
    De no acompanhar o sol? havia?
    Debruada em meu p, gloria das flres,
    Eu no vi mais do que raiar a aurora;
            Quero acabar meu dia.

    Espera um pouco, oh morte! nada perdes.
    Antes consola os que o remorso, o medo,
    O desalento pallido devora!
    Guarda-me ainda o campo grutas verdes!
    As musas, cantos! e o amor... Segredo!
            No morro, no, por ora!

    Assim, encarcerada, o rosto lindo
    E a vista alando a regies ignotas,
    Minha musa entoou na f mais viva:
    E eu, as languidas mgoas sacudindo,
    Moldei em dce verso as dces notas
            D'essa joven captiva!

                             ANDR-CHNIER.

Coimbra.

      *      *      *      *      *




    Mulher! quando nos braos
    Te escuto uma cano,
    No vs em meus abraos
    Profunda commoo?
       que o teu canto  mente
    Me traz vida melhor...
                Ah!
    Cantai continuamente,
    Cantai, oh meu amor!

    Quando sorris, assume
    Teu rosto uma expresso,
    Que o mais feroz ciume
    Se desvanece ento.
      Sorriso tal desmente
    Um corao traidor...
                Ah!
    Sorri continuamente,
    Sorri, oh meu amor!

    Quando tranquilla e pura,
    Te estou a vr dormir,
    Que vozes se afigura
    Teu halito exprimir?
      Contemplo ento contente
    Teu corpo encantador...
                Ah!
    Dormi continuamente,
    Dormi, oh meu amor!

    _Letra de_ V. HUGO. _Musica de_ GOUNOD.

Lisboa.

      *      *      *      *      *




UM BEIJO


    Seria o beijo
    Que te pedi,
    Dize, a razo
    (Outra no vejo)
    Porque perdi
    Tanta affeio?

    Fiz mal, confesso;
    Mas esse excesso,
    Se o commetti,
    Foi por paixo,
    Sim, por amor
    De quem?... de ti!
    Tu pensas, flr,
    Que a mulher basta
    Que seja casta,
    Unicamente?
    No basta tal.
    Cumpre ser boa,
    Ser indulgente.
    Fiz-te algum mal?
    Pois bem: perda!

     to suave
    Ao corao
    Mesmo o perdo
    D'offensa grave!
    Se o alcanasse,
    Se o conseguisse,
    Quizera ento
    Beijar-te a mo,
    Beijar-te a face...
    Beijar? que disse!
    (Que indiscrio...)
    Perdo! perdo!

Lisboa.



FRANCISCA DE RIMINI


    Disse eu ento: poeta, vs aquelles,
    Abraados, velozes como o vento?
    Desejava poder fallar com elles.

    --Chamando-os com enternecimento,
    Em c passando mais do nosso lado,
    So dois amantes, logrars o intento.

    Assim que o vento os aproxima, brado:
    Oh almas d'uma eterna anciedade,
    Vinde fallar-me, se vos isso  dado.

    Como um casal de pombas, com saudade
    Do ninho, vem no ar, d'aza espalmada,
    No mais que por impulso da vontade;

    Rompendo aquella aragem empstada,
    Acodem l do bando onde anda Dido
     supplica tocante e magoada.

    Ah mortal generoso e condodo,
    Que nos visita n'este escuro horrendo,
    Deixando ns de sangue o cho tingido!

    Do Senhor impetrramos podendo,
    J que tens d do nosso mal enorme,
    O teu descano eterno em fallecendo.

    Queiras ouvir-nos ou fallar, conforme,
     s dizer ou perguntar, mais nada;
    Em quanto o vento, como agora, dorme.

    A terra, onde nasci, fica assentada
    Na praia onde a final o P descana,
    E os que o seguem na marcha arrebatada.

    Amor, que em nenhum moo acha esquivana
    Prendeu este a um corpo... que roubado
    Foi  minha alma em barbara vingana!

    Amor, que obriga amar quem  amado,
    Poz-me com elle to condescendente,
    Que ainda, como vs, me anda abraado.

    Amor nos deu a morte juntamente.
    Quem nos matou ir para as Canas.
    Disseram elles isto fielmente.

    Depois d'ouvir as victimas mofinas,
    Scismando cabisbaixo, em tal postura,
    Pergunta-me o poeta: em que imaginas?

    Comeo respondendo: oh desventura!
    Quanta esperana! quanta sympathia
    A ambos no cavou a sepultura!

    E voltando-me a quem me referia:
    Olha Francisca! d dos teus tormentos
    Estas lagrimas tristes desafia.

    Mas na quadra dos vagos sentimentos,
    Conta-me: como foi que conheceste
    Os amorosos languidos momentos!

    O desgosto maior d'um triste  este,
    Fallar do tempo que passou, confesso:
    Que o diga o proprio guia que trouxeste

    Mas desejando tu com tanto excesso
    Conhecer de raiz esta amizade,
    Entre vozes e lagrimas comeo:

    Liamos ambos, por curiosidade,
    Certa historia d'amores, que idearam,
    Ns ss, um dia, livres de maldade.

    Muita vez nossos olhos se espantaram,
    E descoramos, lendo a historia estranha;
    Mas dos lances que mais nos abalaram,

    Foi quando em summa o terno amante apanha
    O dce beijo, por que andava ardendo:
    Este, que eternamente me acompanha,

    Beija-me a bocca a mim, todo tremendo!
    A culpa foi do livro que se lia!
    No se continuou o dia lendo.

    Em quanto assim Francisca respondia,
    Chorava Paulo, a ponto, d'aterrado
    Me vr nas convulses da agonia,
    E cahir, como um corpo inanimado!

                                        DANTE.

Lisboa.

      *      *      *      *      *




PAIXO


    Suppe que d'uma praia, rocha ou monte,
    Com essa vista embaciada e turva
    Que d aos olhos entranhavel dr;
    Tinhas podido vr transpr a curva,
    Pouco a pouco, do liquido horisonte,
    A saudosa barca, que levasse
    Aquelle, a quem primeiro uniste a face
        E o teu primeiro amor!

    Depois, que toda mgoa e saudade,
    Da mesma rocha ou alcantil deserto,
    Olhando vidamente para o mar;
    Vias na solitaria immensidade,
    Vagas fices d'um pensamento incerto,
    Surgir das ondas, desfazer-se em espuma;
    No alvejando, nunca, vela alguma
        E, sempre, a suspirar.

    At que  luz d'uma intuio sublime
    D'alma arrancavas o gemido extremo
    De saudade, desespero e dr!...
    Pois  assim que eu soffro, assim que eu gemo!
    Que nuvem negra o corao me opprime;
    Nuvem de mgoa, nuvem de ciume,
    Em te no vendo  hora do costume,
        Meu anjo e meu amor!

Lisboa.

      *      *      *      *      *




ESCREVE!


      No sei o que suppr
    Do teu silencio. Escreve!
    Quem  amado deve
    Ser grato ao menos, flr!
      Se eu fosse to feliz
    Que te fallasse um dia
    De viva voz, diria
    Mais do que a carta diz.
      Mas, olha, tal qual 
    No rias d'esse escripto
    Que, pouco ou muito,  dito
    Tudo de boa f.
      Ha n'esse teu olhar
    A dce luz da lua,
    Mas luz que se insinua
    A ponto de abrazar...
      Parea n'elle sim
    Que ha s doura, embora:
    Ha fogo que devora...
    Que me devora a mim!
      Que mata, mas que d
    Uma suave morte;
    Mata da mesma sorte
    Que uma arvore que ha:
      Que ao p se lhe ficou
    Acaso alguem dormindo
    Adormeceu sorrindo...
    Porm no acordou.
      Esse teu seio ento,
    Que encantadora curva!
    Como de o vr se turva
    A vista e a razo!
      Como at mesmo o ar
    Suspende a gente logo...
    Pregando olhos de fogo
    Em to formoso par!
      Oh seio encantador,
    Delicioso seio!
    Que jubilo, que enleio
    Libar-lhe o nectar, flr!
      Eu tenho muita vez
    J visto a borboleta
    Na casta violeta
    Poisar os leves ps:
      E n'um enlevo tal,
    N'uma avidez tamanha,
    Que a gente a no apanha
    Com d de fazer mal!
      Pegada  flr ento
    No p curvinho e molle,
    As azas nem as bole
    Toda sofreguido!
      Poisou... adormeceu!
    S v, s ouve e sente
    O calix rescendente
    D'aquelle mel do co!
      Pois v com que prazer
    E com que ardente sde
    Te havia... (que no hei-de!...)
    Tambem beijar, sorver!
      Mas eu s peo d,
    S peo piedade!
    Mata-me a saudade
    Com duas linhas s!
      Eu, a no ser em ti
    Achar allivios, onde?
    Escreve-me! responde
     carta que escrevi!
      Canado de esperar
    s vezes quando sio,
    Pensas que me distraio?
    Pois volto com pezar!
      Concentra-se-me em ti
    A alma de tal modo
    Que esse bulicio todo
    Nem o ouvi, nem vi!
      Ninguem te substitue,
    Porque s tu s bella!
    Que estrella a minha estrella,
    E que infeliz que eu fui!
      Mas devo-te suppr
    Sempre indulgente e boa,
    Escreve-me e perda
    Meu violento amor!
      Respeita uma affeio
    Inutil mas sincera.
    Tu s mulher, pondera
    O que  uma paixo.
      Com sangue era eu capaz
    De te escrever; portanto,
    Tinta no custa tanto!
    E no me escrevers?
      Uma palavra, sim,
    Que me no amas... Queres?
    Em quanto me escreveres,
    Tu pensars em mim!
      S essa ida, cr,
    Encerra mais doura
    Que as provas de ternura
    Que outra qualquer me d!

Lisboa.

      *      *      *      *      *




MALMEQUER


    Talvez em eu morrendo a teus ouvidos
    Chegue a noticia, que hoje os factos vam,
    E oias ento os intimos gemidos
            Que exhalo e te no sam.

    Talvez ento, embora me no ames,
    Com esses olhos humidos de fito
    Na minha sombra: Desgraado! exclames;
             Amava-me, acredito.

    Levou a vida amando-me: que prova
    Me podia alguem dar de mais ternura,
    Ingrata como eu era! Abri-lhe a cova,
            Cavei-lhe a sepultura!

    Hei-de regal-a de meu pranto. Julgo
    Do meu dever... agradecer-lhe agora!
    Purificar-me em lagrimas! O vulgo
              Que me censure embora.

    Hei-de ir dispr um p de saudade
    Na terra onde elle descanou da lida;
    Mostrar-lhe amor, mostrar-lhe piedade,
              Que no mostrei em vida!

    Se fres, meu amor! uma perpetua,
    E uma saudade ser-me-hia dce!
    Mas s perpetua ou saudade, aceito-a,
              E um malmequer que fosse.

Lisboa.

      *      *      *      *      *




VIRGINIA

Para se recitar no theatro do Prncipe-Real


    Senhores! vde o sol; diariamente
    Nasce, cruza esse espao e, no poente,
            Acaba de brilhar.
     util,  preciso,  necessario,
    No  pois inconstante, no  vario;
             certo,  regular!

    Hervas que nutrem, animaes que comem,
    E a imagem de Deus--que falla--o homem,
            Sem essa luz, dizei:
    Vegetavam acaso, existiriam?
    Os echos d'esses valles repetiam
            Alguma voz? O que!...

    Seria tudo um ermo escuro e mudo;
    Tudo insensivel, solitario tudo!
            Mas Deus cria essa luz;
    E um mar sem praias de silencio e morte,
    Sres de toda a casta--toda a sorte,
            Produz e reproduz!

    Sim, essa luz benefica converte,
    Por mysteriosa alchimia, frio, inerte,
            Imperceptivel gro
    Em tenras hastes, em botes mimosos,
    Folhas, flres e fructos saborosos
            Que recamam o cho!

    Mas julgaes vs agricola smente
    A mo do creador omnisciente?
            Pergunta singular!
    Basta s vr a ondeada trana
    Com que elle adorna a virgem que vos lana
            O seu primeiro olhar!

    A terra  de cr varia, a planta, verde:
    Porque e para que? O que se perde
            Em ter tudo uma cr?
    O que se ganha em ser to bem pintada,
    Symetrica, mimosa, perfumada
            Uma ephemera flr?

     que Deus  artista! e noite e dia
    E co e terra e mar o denuncia...
            Vde nascer o sol!
    Pr-se alta noite a lua encantadora...
    Em quanto ao mesmo tempo canta e chora
            Ao longe o rouxinol!

    Deus  artista, sim; Deus ama o bello,
    Mais talvez do que o util. O desvelo
            Com que elle trata a flr!
    Antes de abrir... que mi to carinhosa
    Resguarda, mais solicita que a rosa,
            Um seu boto d'amor!

    Nem podia sahir obra incompleta
    Das mos de Deus: geometra e poeta
            Em summo grau, traou
    A compasso a abobada celeste;
    Mas de que lindas nuvens a reveste
            Que ao vento tomam vo!

    Creou, de fogo, o sol--o grande astro!
    E creou, no de fogo, d'alabastro
            A sua bella irm
    --Sombra apenas do sol, desnecessaria,
    Luz phantastica, vaga, solitaria,
            Inutil, ftua, v...

    Mas luz intima! luz do sentimento!
    Luz d'amor e de f! que inspira alento
            A nossos coraes!
    Unica luz,  qual se mede o fundo
    D'esse concavo mar... d'esse outro mundo...
            D'esse mundo de soes!

    Porque se ao sol deveis fructos e flres,
     lua deveis mais, deveis amores...
            Deveis... como direi?
    Esta entranhavel, vaga saudade
    De no sei que melhor realidade,
            Que o mundo que se v...

    Quantas vezes, depois da lida insana
    D'um dia, n'este mar da vida humana,
            Vendo surgir no co
    Essa luz melancolica e suave,
    Eu acho ento, e com que allivio, a chave
            D'este mysterio meu!...

    D'este amor por phantasticos amores...
    Comtudo mais leaes e duradores
            Que os d'esse mundo so!
    D'este mundo de sombras... at prestes,
    Sombra tambem,  sombra dos cyprestes
            Achar satisfao!

    E eu digo, digo  lua scismadora
    Com os olhos risonhos de quem chora
            Pranto consolador:
    Se pois Deus te creou porque eras bella...
    O que vale o sol mais do que uma estrella?
            Um rei do que um pintor?

    Ao vr-te, dce lampada, suspensa
    De vaporosa nuvem, n'essa immensa
            Abodada dos cos,
    Pareces-me o thuribulo sagrado
    Com os rolos de incenso evaporado
            Em tua honra, oh Deus!

    E a minha vista sofrega acompanha
    Esse claro phantastico  montanha
            Ou da terra ou do mar,
    Onde, acabada a obra do seu dia,
    Astro d'amor e de melancolia,
            Se deita a descanar.

    E eu descano tambem; filha da arte...
    Cumpre-me a mim, oh lua, contemplar-te!
            E pergunte-me alguem:
    --Tu que fazes no mundo, mulher futil?
    --O que Deus faz... na flr, na lua inutil...
            Sou artista tambem.

Lisboa.

      *      *      *      *      *




PRIMEIRO PSALMO DE DAVID


    Bemdito o que no cahe em se guiar
    Por conselhos de gente depravada;
    E em vendo que vai mal, muda de estrada,
    E nunca se demora em mau lugar;

    Que o seu empenho  s unicamente
    A lei de Deus, que estuda noite e dia.
    Como a arvore ao p d'agua corrente,
    D a seu tempo o fructo que devia.

    Nunca lhe cahe a folha; empresa sua
    Sahe por fora conforme o seu intento;
    Em quanto o impio, o mau trabalha e sua,
    E  sempre como o p, que espalha o vento!

    No tribunal, onde ha-de ser ouvido,
    No conte com sentena a seu favor;
    Que no entra no numero escolhido
    Dos justos, dos amigos do Senhor.

    O justo, Deus bem sabe o seu caminho,
    E guia-o, no o deixa andar ssinho:
    E o caminho do mau, pelo contrario,
     beco sem sahida e solitario.

Messines.

      *      *      *      *      *




SEGUNDO PSALMO DE DAVID


    Porque anda o mundo todo enfurecido,
    Se esforos contra Deus so todos vos?
    Os grandes, mais os reis, deram as mos
    Contra o Senhor, contra o seu Ungido,

    --Estas correntes,  despedaal-as,
    Este jugo atirar com elle fra!
    E l cima no co, o que l mora
    No faz mais que sorrir-se de taes fallas.

    Mas em lhe dando a ira, aonde ento
    Se ho-de metter, com medo, os desgraados!
    Coroou-me rei no alto de Sio,
    Cumpre-me publicar os seus mandados.

    Tu s meu filho; disse-me o Senhor:
    Gerei-te hoje; pedir com confiana!
    Vers o mundo todo ao teu dispr,
    Terras e povos, como propria herana.

    Vara de ferro para os ir guiando,
    E fazel-os guardar-te obediencia;
    E elles de barro mal cozido e brando
    Que os partas em te oppondo resistencia.

    Agora pois vs outros, reis, juizes,
    Reparai no que eu digo, e vde l;
    Servi a Deus, e dai-vos por felizes
    Cumprindo  risca as ordens que elle d.

    Tomai os meus conselhos; ou, seno,
    Tende j como certa a perdio.
    Que em se elle irando,  como um raio; aquelle
    Que o despreza e no cr, infeliz d'elle!

Messines.

      *      *      *      *      *




CANTICO DOS CANTICOS DE SALOMO

Para os coraes puros tudo  puro.

S. Paulo a Tito.


I

CHEGADA


        A SULAMENSE

    --Tomra j ter o gosto
    De o sentir beijar-me o rosto!

        CORO DE VIRGENS

    --E onde ha mulher que te exceda?
    S esse collo embebeda.
    O aroma que elle exhala,
    Nenhum balsamo o iguala.

        2. CORO

    --O teu nome, fallar n'elle,
    S fallar n'elle  to dce
    Como se um oleo nos fosse
    Escorrendo pela pelle.

        SALOMO

    --Olha como todas ellas
    Te estimam tanto, as donzellas.

        A SULAMENSE

    --Sou tua, leva-me, vamos.

        CORO

    --E ns, que te no largamos,
    Te iremos correndo atraz
    Pelo rasto de perfume,
    Que deixas por onde vs,
    Das pomadas com que ds
    No corpo, como  costume.

        A SULAMENSE

    --J el-rei me manda entrar
    Para a sala do jantar.

        CORO

    --Para saltar de alegria
    E festejar este dia,
    A ns basta-nos lembrar
    Que esse teu seio embebeda;
    Nem ha mulher que te exceda.

        2. CORO

    --Quem te v seja quem fr
    Fica bebado d'amor.

        A SULAMENSE

    --Sou trigueira mas formosa,
    Moas de Jerusalem!
    Seno vde o pavilho
    Que arma em campo Salomo,
    Se ha coisa mais preciosa,
    E por fra a cr que tem;
    Vde as barracas dos moiros,
    Por dentro tantos thesoiros,
    Por fra negras tambem.

    No vos d pois isso pena,
    Ter assim a cr morena:
    Minha mi mandou-me pr,
    Por culpa de meus irmos,
    De guarda  vinha, o calor
    Queimou-me o rosto e as mos:
    E eu, a vinha,  escusado
    Dizer-vos que nem eu tinha
    Seno agora o cuidado
    De estar a guardar a vinha.

    Ah! para que banda vs
    Com o gado, meus amores!
    E pela folga onde ests!
    Bem vs os outros pastores,
    E a gente no adivinha.
    Eu no hei-de andar atraz
    D'esses rebanhos ssinha.

        SALOMO

    --Ah rainha das mulheres!
    Olha como tu te enganas,
    Que medo tens das cabanas,
    Que medo tens dos rebanhos,
    Que medo tens dos estranhos?
    No te d isso cuidado,
    Anda por onde quizeres
    Tambem guardando o teu gado.
    Em te vendo, mesmo s,
    Toda a gente se desvia,
    Como da cavallaria
    Dos carros de Phara.

        CORO

    --Ds no rosto certo ar
    D'aquella graa da rola,
    Que at encanta, arrebata.

    A garganta pdes pl-a
    Ao p do melhor collar.

        2. CORO

    --Um te havemos de ns dar
    De oiro, s pintinhas de prata,
    Que  lindo, e has-de gostar.

        A SULAMENSE

    J no sei pelo que aguardo
    Que estando el-rei a jantar
    Lhe no entorno por cima
    Esta redoma de nardo
    Que  um balsamo de estima.

    Mas ha outro mais perfeito,
    E com o qual me perfumo:
    Eu a myrrha que costumo
    Trazer aqui em meu peito,
     mesmo aquelle a quem amo.
    Nunca apanhei outro ramo
    Nem outro alcanfor colhi
    Nas hortas dos arredores
    Da cidade de Engaddi.

        SALOMO

    --Como s bella, minha amante!
    Ter a pomba esse olhar?
    Outro no ha semelhante.

        A SULAMENSE

    --E quem mais bello e galante
    Mais formoso, meus amores!
    E mais de se cubiar?

        SALOMO

    --Vs, o nosso leito  este,
    Armado todo de flres:
    E olha o tecto  de cypreste,
    Portas de cedro, tambem;
    Aqui no entra ninguem.

        A SULAMENSE

    --Sou a rosa de Saro,
    A aucena do val.

        SALOMO

    --Amada do corao,
    Entre as mais s tal e qual
    Uma aucena entre espinhos.

        A SULAMENSE

    --E entre os mais o meu amado
    A que ha-de ser comparado?
    Vs tu no bosque a maceira?
    s assim d'essa maneira.
    Por lograr os teus carinhos
    E boa sombra ha j muito
    Que eu andava a suspirar:
    Com effeito sombra e fructo
    Nada deixa a desejar.

    Elle deu-me do melhor
    Que tinha na sua adega;
    Mostrando-me assim primeiro
    Como faz quem tem amor.
    Trazei-me flres de cheiro,
    Que estou como tonta e cega...
    Algum pomo, que esmoreo...
    J um brao me elle passa
    Pelos hombros e me abraa
    Pela cinta... desfalleo...
    Ah desfalleo d'amor!

        SALOMO

    --Pela cora e o veado,
    Moas de Jerusalem!
    No a acordeis, cuidado!
    Deixar dormir o meu bem,
    Um somno bem socegado.


II

ENTREVISTA


        A SULAMENSE

    --Quem  que eu oio bradando?
    Oio uma voz e por fora
    Que  a voz d'elle esta voz:
    Ah! l vem alm saltando
    Montes e valles, nem cora
    Nem veado  mais veloz.

    Eil-o detraz da parede
    Alm j da outra banda
    E o que elle faz, como elle anda
    A vr no vallado todo
    E na cancella se ha modo
    De me pr olho: ora vde.

        SALOMO

    --Oh minha amada! depressa
    Vem vr o campo, anda, vem:
    Mettida em casa, meu bem!
    Que demora tua  essa?

    Foi o inverno passando,
    At que a chuva acabou:
    Veio a herva rebentando,
    Revestiu a terra toda,
    Chegou o tempo da poda,
    Ouviu-se a rola arrulhando,
    O figo vem j inchando
    E a vinha est j em flr:
    Pelo que ests esperando?

    Quando has-de tu, meu amor!
    Andar ento passeando?
    Ouve l que estamos ss,
    E aqui no ha quem nos oia:
    Vs esta fresta?  um gosto
    At pela pedra ensossa
    Vr assomar o teu rosto,
    Ouvir essa linda voz.

        A SULAMENSE

    --Toda em flr, como est bella!
    Mas l o ter flr que monta?
    Se as boas das raposinhas
    A tomam  sua conta,
    Depois a uva que  d'ella?
    Bons laos se lhe ho-de armar,
    Que ellas do cabo das vinhas
    Se ninguem as apanhar.

    Tu s meu; e eu tambem
    Sou tua, de mais ninguem.
    Ns somos como um casal
    De corcinhas, com effeito;
    Andamos sempre a vr qual
    Guarda ao outro mais respeito
    E lhe ha-de ser mais leal.
    Logo ali de manhsinha,
    Ou pela fresca,  tardinha,
    Quando a cora e o veado
    Volta aos valles de Belher,
    C ficas sendo esperado:
    No te esquea, haja cuidado,
    V l o que has-de fazer.


III

SONHO


        A SULAMENSE

    --No sei bem que sonho tive
    Esta noite, que acordei
    Sobresaltada, e que estive
    Ainda apalpando a cama
     busca de quem me ama
    E a quem ama; no achei:
    Levantei-me, rodeei
    A cidade toda em roda,
    Corri a cidade toda,
    Busquei tudo, no achei.
    Na rua pergunto  ronda:
    O meu amante que  d'elle?
    No ha ninguem que responda.
    Vou andando; a poucos passos
    Vi vir um vulto:  aquelle.
    Chega e digo-lhe depois
    De o apertar nos meus braos:
    Quem se ama como ns dois,
    S em mudando de estado
     que vive descanado.
    Anda d'ahi, vamos pois
    Ao quarto mesmo onde dorme
    Minha mi que me gerou
    (Que eu tua ainda no sou,
    Nem tu s meu, meu amigo!)
    A pedir a nossos paes
    A sua beno, conforme
    Costumam fazer os mais,
    E  j um costume antigo.

        SALOMO

    --Pela cora e o veado,
    Moas de Jerusalem!
    No a acordeis, cuidado,
    Deixai dormir o meu bem
    Um somno bem socegado.


IV

NOIVADO


        CORO

    --Oh que mulher to perfeita
    A que vem alm andando!
    Vem espalhando um perfume
    E  to airosa a andar!
    Parece quando se deita
    Incenso e myrrha no lume
    Que se vai desenrolando
    Aquella nuvem no ar.

        2. CORO

    --Realmente  de invejar;
    Mas haja alguem que se afoite...
    Sessenta homens armados
    Dos mais desembaraados
    Manda Salomo ficar
    De vigia toda a noite.

        CORO

    -- tudo  satisfao
    E gosto de Salomo.
    O andor onde elle sai,
    De tudo de que  composto,
    Cedro do Libano, olhai,
     a coisa mais barata:
    Pernas e braos de prata,
    De oiro o mais fino o encosto;
    Onde pe os ps velludo:
    No fallando em diamantes
    E pedras as mais brilhantes
    Que l isso excede a tudo.

        2. CORO

    --Alm vem j Salomo:
    L vem elle j coroado
    Com a cora do noivado
    Que a mi lhe poz na cabea
    Pela sua propria mo.
    Hoje  o dia fallado:
    Moos, moas de Sio!
    Assomai-vos j depressa.

        SALOMO

    --Que enlevo, que formosura!
    A pomba no tem de certo
    No olhar tanta doura:
    E fra o que anda encoberto.

    O cabello, em quantidade
    E tamanho,  singular;
    E no me lembra seno
    Das cabras de Galaad
    Que lhes rola pelo cho
    Em ellas indo a andar.

    Os dentes, em tu abrindo
    A tua boca, que lindo!
    Nem um rebanho d'ovelhas
    Todas brancas e parelhas
    Quando, em sendo tosquiadas,
    Veem saindo do banho
    D'uma em uma, enfileiradas,
    E atraz d'ellas, cada uma
    Seus dois gemeos d'um tamanho,
    Sem ser maninha nenhuma.

    Pois a bocca  comparada
    A uma fita encarnada.
    A voz ouvil-a  um gosto:
    Parte a rom pelo meio
    Vers as rosas do rosto;
    E fra no que eu receio
    Fallar que me no  dado.

    O pescoo, pensa a gente,
    Em o vendo de collares,
    Que  a torre exactamente
    De David, n'esses ares,
    De baluartes, e toda,
    L cima, escudos  roda.

    Os peitos  um casal
    De corcinhas, que o seu pasto
    So aucenas do val:
    Nada mais timido e casto.
    E deitam um cheiro  goma,
    Da myrrha mais do incenso,
    A ponto que s vezes penso
    Que elles so duas collinas
    Por onde aquellas resinas
    Espalham aquelle aroma.

    s formosa sem seno,
    Amada do corao!
    E que fazias tu l
    Pelo Libano, pombinha!
    Deixa o Libano, anda c.
    Vaes ser coroada rainha
    No mais alto d'Aman
    Ou d'Hermo ou de Sanir,
    Onde ha lees e onde ha
    Leopardos... deves vir.

    Trespassou-me o corao
    O teu olhar; o cabello
    Prendeu-me como um grilho.
    O teu peito, basta vl-o,
    Para embebedar d'amor.
    E s o cheiro que exhala
    O teu corpo, no ha flr,
    No ha rosa, no ha cravo
    Capaz de cheirar melhor.

    A tua bocca  um favo
    De doura quando falla;
    A tua lingua, uma sopa
    De leite e mel; essa roupa
    Cheira a incenso, regala.

    No ha nada comparado:
    Agua a mais pura e suave
    De fonte fechada  chave,
    No  mais suave e pura.
    Esse rosto, essa figura...
    E s o bem que tu cheiras!
    No me parece seno
    Um jardim todo plantado
    De romeiras e maceiras,
    Canfora, nardo, assim como
    Aafro, canna de cheiro
    Aloes, myrrha e cinnamomo:
    O que ha no Libano em fim;
    No ha fruta nem aroma,
    Que se ahi no cheire e coma.
    s a fonte d'um jardim
    Toda pureza e frescura:
    Torno d'agua que rebenta
    Inda mais viva e mais pura
    L no Libano, e ninguem
    Lhe tem mo nem aguenta
    A fora com que ella vem.

    Fizesse j sul e norte
    No meu jardim, de tal sorte
    Que alegretes e pomares
    Andasse tudo nos ares.

        A SULAMENSE

    -- natural que tu comas
    Da fruta do teu jardim.

        SALOMO

    --E que duvida que sim?
    Vamos primeiro aos aromas;
    O mel em favo depois
    E mais o vinho e o leite.
    Hoje  dia de banquete,
    Amigos do corao!
     comer-lhe por quem sois
    E beber-lhe at mais no.


V

SURPREZA


        A SULAMENSE

    Estava a dormir... que importa?
    Velava o meu corao.
    Oio o meu amado  porta:

    --Ah formosa sem seno,
    Minha pomba, minha amada!
    Trago a cabea molhada,
    E os anneis do meu cabello
    Todos escorrendo orvalho,
    Estou mais frio que um gelo.

    --D-me isto agora um trabalho...
    Despi-me, lavei os ps,
    Estou na cama deitada,
    E  uma pena, bem vs,
    Vestir-me agora outra vez,
    Andar inda levantada.

    Vai elle empurra o postigo,
    E eu assusto-me de modo
    Que, na verdade vos digo,
    Tremia-me o corpo todo.

    Salto da cama exhalando
    Um cheiro delicioso:
    Eu tinha-me estado untando
    Com um oleo precioso
    E inda as mos me iam pingando.

    Abro a porta, eis seno quando
    Elle foge de repente...

    Eu s de lhe ouvir a falla
    Fui s nuvens de contente.
    E em paga de tudo, abala;
    Bradei-lhe, no me acudiu,
    Vou por essas ruas fra
     busca d'elle, at'gora:
    Parece que o cho se abriu...

    Encontro a ronda, espancou-me;
    Um dos da guarda  entrada
    Da cidade, esse, roubou-me
    A capa onde ia embrulhada.

    Peo-vos isto por bem,
    Moas de Jerusalem!
    Contai tudo ao meu amado,
    Que elle  por amor de quem
    Estou n'este triste estado.

        CORO

    --O teu amado... responde,
    Formosura sem igual!
    Ha tantos onde escolher
    Que  necessario um signal.
    Qual  o signal por onde
    Havemos de o conhecer?

    --Eu vos digo: o meu amado,
    D'aquellas cres no mundo,
    Estou que no ha segundo;
     muito branco e crado.
    A cabea  um thesoiro
    Do que ha de mais principal;
    Que a sabedoria vale
    Mais do que a prata e o oiro.

    De negro que  o cabello,
    Vr um corvo,  mesmo vl-o.

    Os olhos, aquelle olhar,
    Ha n'elles uma doura,
    Que no sei a que os compare;
    S sendo a um casalinho
    De pombas, que esto no ninho,
    Todas pureza e candura.

    As suas faces rosadas,
    Rescendem como um canteiro
    D'aquellas plantas de cheiro
    De que fazem as pomadas.

    A bocca, digo a verdade,
    Que a aucena mais pura
    Cheia da myrrha melhor
    No apresenta a doura,
    Pureza e suavidade
    Das fallas do meu amor.

    Aquelles dedos, vereis,
    So uns canudos de anneis!

    O ventre d'elle  assim
    Como um cofre de marfim.
    As pernas, de musculosas,
    So columnas magestosas
    E de marmore inteirio
    Em bases de oiro macio.
     o Libano em altura,
     como um cedro na matta
    A sua bella figura.

     to suave, to pura
    A sua voz, que arrebata.

    Todo elle  singular
    E todo de cubiar.
    Eil-o ahi retratado,
    Moas de Jerusalem!
    E no s o meu amado;
    O meu amante tambem.

        CORO

    --Ah rainha das mulheres!
    Se sabes para que banda
    Elle iria o teu amigo,
    Anda d'ahi, vamos, anda:
    Ns imos todas comtigo
     busca d'elle se queres.

        A SULAMENSE

    --Elle parece-me a mim
    Que ha-de andar no seu jardim,
    A apanhar aucenas,
    Que  do que elle gosta apenas.

        SALOMO

    --Oh que formosa, meu bem!
    No ha cidade afamada,
    Nem Thirsa ou Jerusalem,
    Mais bella que a minha amada.

    Mettes mais respeito andando,
    Que um exercito avanando.

    Os olhos faiscam fogo.
    Tira de mim essa vista,
    Que ao depois fugi eu logo
    Porque no ha quem resista.

    O cabello, em quantidade
    E tamanho,  singular!
    E no me lembra seno
    Das cabras de Galaad,
    Que o arrastam pelo cho,
    Em ellas indo a andar.
    Os dentes, em tu abrindo
    A tua bocca, que lindo!
    Nem um rebanho d'ovelhas,
    Todas brancas e parelhas,
    Ao vir sahindo do banho
    D'uma em uma, e cada uma
    Seus dois gemeos d'um tamanho,
    Sem ser maninha nenhuma.
    As faces no ha de certo
    Assim casca de rom
    De cor to linda e to s.
    E fra o que anda encoberto.

    s to formosa, v l,
    Que as rainhas so sessenta,
    As concubinas oitenta,
    Donzellas, quem  que as d
    Todas contadas? ninguem.
    Pois e de quantas possuo,
    A minha pomba, o meu bem,
    A minha mimosa, s tu.
    E o mesmo dizia j
    L em casa tua mi,
    Com tantas filhas que tem.

    Quando chegaste, as donzellas,
    Concubinas e em summa
    As rainhas, todas ellas
    Sem excepo de nenhuma,
    Gritaram todas  uma:
    Viva a rainha das bellas!


VI

PASSEIO


        CORO

    --Que linda mulher aquella!
    Nem a aurora lhe ganha.
    A lua no  to bella
    Nem a luz do sol tamanha;
    Mette mais vista s ella
    Que um exercito em campanha.

        A SULAMENSE

    --Nunca tive um susto igual!
    Ia  horta das nogueiras,
    Ia passear ao valle,
    Vr se tinha flr a vinha
    E j roms as romeiras;
    Mas a multido que vinha
    Atraz de mim era tal
    Que no vi nada, e to cedo
    Apanho tamanho medo.

        CORO

    --Oh no fujas, anda c,
    Sulamense! deixa vr
    Belleza como no ha
    No mundo nem pde haver.

        SALOMO

    --Arrebata na verdade,
    Mas como um canto de guerra,
    Porque ao mesmo tempo aterra
    Este ar e magestade.

    O teu andar, que nobreza!
    E tem o p uma graa
    Assim calado, princeza!

    Os joelhos, que perfeitos!
    No ha ourives que faa
    Eixos de oiro mais bem feitos.
    Umbigo, qual  a taa,
    D'estas taas pequeninas
    Por onde a gente costuma
    Beber bebidas mais finas,
    To redondinha? Nenhuma.

     o ventre de tal modo
    Casto e fecundo, que apenas
    Um monte de trigo, todo
    Rodeado de aucenas
    Me parece haver no mundo
    Assim to casto e fecundo.

    O teu seio  um casal
    De corcinhas, que o seu pasto
    So aucenas do val:
    Nada mais timido e casto!

    Lembra-me o pescoo a mim,
    Uma torre de marfim
    E os olhos, esses ento
    Os dois lagos de Hesebo.

    Vs a torre que apparece
    L no Libano, e que diz
    Para Damasco? parece
    Na lindeza esse nariz.

    A cabea vl-a toda
    Por cima das mais,  bello,
    Como a serra do Carmelo,
    Toda collinas  roda.

    O cabello  tal e qual
    Um grande manto real!

     tudo uma perfeio,
    Amada do corao!

    Vr-te  vr uma parreira
    Armada n'uma palmeira;
    E l em cima os teus peitos,
    No tamanho e no feitio,
    Dois cachos d'uvas perfeitos
    Que a parreira produziu.
    E eu disse d'esta maneira:
    Dois cachos d'uvas to bellos
    Hei-de ir l cima colhel-os;
    Que bem se v que a doura
    Corresponde  formosura;
    E que a tua bocca  pura
    E a respirao  s
    Como o cheiro da ma
    Quando se apanha madura.

    --Como  suave e me encanta
    O que me ests a dizer!
    A voz da tua garganta
    Embebeda como o vinho,
    D'esse que a doura  tanta
    Que se costuma beber
    Aos srvos, devagarinho.

    s s meu e eu tambem
    Sou tua, de mais ninguem.
    Anda com a tua amada
    Morar para o campo, amor!
    Iremos de madrugada,
    Logo ao romper da manh,
    Em se a gente levantando,
    Vr se a vinha j tem flr,
    Se est em flr a rom
    E se a fruta vai vingando.
    Alli  que eu hei-de ento
    Abrir-te o meu corao.

    Estamos na primavera,
    A mandrgora j cheira,
    E em minha casa, estar l,
     como estar n'uma horta:
    Mesmo ao p da nossa porta
    Temos quanta fruta ha.
    E o teu quinho, meu amado!
    Assim do anno passado
    Como da que vem agora,
    Esse est sempre guardado.

    Ouvisse-te eu n'esta hora
    Chamar mi  minha mi!
    Como se tu com effeito
    Fosses criado ao seu peito
    Assim como eu fui tambem:
    Ento j eu te beijava
    s claras e te abraava
    Sem vergonha de ninguem.

    Vamos aonde ella dorme,
    A pedir a nossos paes
    A sua beno, conforme
    Costumam fazer os mais,
    E depois seja o que fr
     s mandar, meu amor!

    Vers como te hei-de dar
    D'um vinho delicioso
    E d'um licor precioso,
    De rom, que has de gostar.
    .........................
    Um brao j me elle passa
    Pelos hombros... e me abraa
    Pela cinta... o meu amado!
    --Deixai-a dormir, cuidado,
    Moas de Jerusalem!
    Deixai dormir o meu bem
    Um somno bem socegado.
    ......................

Messines.

      *      *      *      *      *




    Ouviste-me no sei qu
    Trincolejar n'algibeira,
    Acudiste mui lampeira,
    Que me amavas. J se v.

    Tens amado mais de mil,
    No era agora o primeiro.
    Mas pensas que era dinheiro?
     a pedra e o fuzil.

Messines.


FIM

      *      *      *      *      *




INDICE


    A poesia                                          1
    A uma carta anonyma                               4
    Duas rosas                                        5
    A uma mulher                                      8
    A D. Candida Nazareth                            11
    Amor                                             14
    A donzella e o musgo                             17
    Ultimo adeus                                     23
    Rosas                                            26
    Rosa e rosas                                     28
    A Hermann                                        30
    Presentimento                                    33
    Marina                                           36
      I--Appario                                   36
      II--Saudade                                    39
      III--Eternidade                                41
      IV--... 21 de setembro                         42
    N'um album                                       46
    Beijo na face                                    49
    Thuribulo suspenso inda fluctuo                  53
    Luz d'intima influencia                          55
    Resposta                                         58
    Pois se o homem, se anjo e nume                  59
    Flr e borboleta                                 62
    Remoinho                                         64
    Amores, amores                                   71
    Fabula                                           73
    Boas noites                                      74
    Gaspar                                           76
    Deixa que ao romper d'alva o cravo abrindo       77
    Carta                                            79
    D-me esse jasmim de cera                        85
    Margarida                                        87
    No leito nupcial                                 90
    A minha mi                                      93
    Beatriz                                          94
    Innocencia                                       97
    A Escriptura Sagrada                            101
    A um Nuno                                       104
    A ***                                           105
    Luz da f                                       107
    Resposta                                        112
    Meu casto lirio                                 113
    Ventura                                         116
    Arida palma                                     117
    A uns olhos azues                               119
    Heresta                                         121
    Fragmento                                       129
    Se ao enlaal-a no peito                        145
    Nunca me ha-de esquecer                         146
    Dinheiro                                        147
    Duvida                                          150
    Caturras                                        154
    Foi-se-me pouco a pouco amortecendo             160
    Mi e filho                                     170
    Toca a capello, vou vl-o                       173
    Amas, pobre animal! e tens tu pena?             174
    No!                                            175
    Na folha d'um romance                           181
    Lagrima celeste                                 182
    Descala!                                       185
    Adeus!                                          187
    A Victoria Colonna                              190
    N'um convento                                   191
    Sonho                                           193
     vista d'um retrato                            196
    A lua                                           198
    Joven captiva                                   200
    Mulher! quando nos braos                       203
    Um beijo                                        205
    Francisca de Rimini                             207
    Paixo                                          212
    Escreve                                         214
    Malmequer                                       219
    Virginia                                        221
    Primeiro psalmo de David                        227
    Segundo psalmo de David                         229
    Cantico dos Canticos de Salomo                 231
      I--Chegada                                    231
      II--Entrevista                                239
      III--Sonho                                    242
      IV--Noivado                                   244
      V--Surpreza                                   251
      VI--Passeio                                   259
    Ouviste-me no sei qu                          266





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To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
distribution of electronic works, by using or distributing this work
(or any other work associated in any way with the phrase "Project
Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
Gutenberg-tm License (available with this file or online at
http://gutenberg.net/license).


Section 1.  General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
electronic works

1.A.  By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
and accept all the terms of this license and intellectual property
(trademark/copyright) agreement.  If you do not agree to abide by all
the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.

1.B.  "Project Gutenberg" is a registered trademark.  It may only be
used on or associated in any way with an electronic work by people who
agree to be bound by the terms of this agreement.  There are a few
things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
even without complying with the full terms of this agreement.  See
paragraph 1.C below.  There are a lot of things you can do with Project
Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
works.  See paragraph 1.E below.

1.C.  The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
Gutenberg-tm electronic works.  Nearly all the individual works in the
collection are in the public domain in the United States.  If an
individual work is in the public domain in the United States and you are
located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
are removed.  Of course, we hope that you will support the Project
Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
the work.  You can easily comply with the terms of this agreement by
keeping this work in the same format with its attached full Project
Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.

1.D.  The copyright laws of the place where you are located also govern
what you can do with this work.  Copyright laws in most countries are in
a constant state of change.  If you are outside the United States, check
the laws of your country in addition to the terms of this agreement
before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
creating derivative works based on this work or any other Project
Gutenberg-tm work.  The Foundation makes no representations concerning
the copyright status of any work in any country outside the United
States.

1.E.  Unless you have removed all references to Project Gutenberg:

1.E.1.  The following sentence, with active links to, or other immediate
access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
copied or distributed:

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.net

1.E.2.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
and distributed to anyone in the United States without paying any fees
or charges.  If you are redistributing or providing access to a work
with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
1.E.9.

1.E.3.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
with the permission of the copyright holder, your use and distribution
must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
terms imposed by the copyright holder.  Additional terms will be linked
to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
permission of the copyright holder found at the beginning of this work.

1.E.4.  Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
License terms from this work, or any files containing a part of this
work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.

1.E.5.  Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
electronic work, or any part of this electronic work, without
prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
active links or immediate access to the full terms of the Project
Gutenberg-tm License.

1.E.6.  You may convert to and distribute this work in any binary,
compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
word processing or hypertext form.  However, if you provide access to or
distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.net),
you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
form.  Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
License as specified in paragraph 1.E.1.

1.E.7.  Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.

1.E.8.  You may charge a reasonable fee for copies of or providing
access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
that

- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
     the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
     you already use to calculate your applicable taxes.  The fee is
     owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
     has agreed to donate royalties under this paragraph to the
     Project Gutenberg Literary Archive Foundation.  Royalty payments
     must be paid within 60 days following each date on which you
     prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
     returns.  Royalty payments should be clearly marked as such and
     sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
     address specified in Section 4, "Information about donations to
     the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."

- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
     you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
     does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
     License.  You must require such a user to return or
     destroy all copies of the works possessed in a physical medium
     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

- You comply with all other terms of this agreement for free
     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
your equipment.

1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH F3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

1.F.3.  LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
written explanation to the person you received the work from.  If you
received the work on a physical medium, you must return the medium with
your written explanation.  The person or entity that provided you with
the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
refund.  If you received the work electronically, the person or entity
providing it to you may choose to give you a second opportunity to
receive the work electronically in lieu of a refund.  If the second copy
is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.net

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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