The Project Gutenberg EBook of Os meus amores, by Trindade Coelho

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Title: Os meus amores
       contos e balladas

Author: Trindade Coelho

Release Date: January 12, 2006 [EBook #17503]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS MEUS AMORES ***




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OS MEUS AMORES


TRINDADE COELHO


*OS MEUS AMORES*

(Contos e Balladas)

_2.^a edio_


LISBOA

Livraria de Antonio Maria Pereira

50, 52--Rua Augusta--52, 54

1894




_LISBOA_

Typographia e Stereotypia Moderna

11--_Apostolos_--11




Ao Doutor

Antonio Xavier Perestrello




_Os Meus Amores_


_Folhas dispersas dos meus annos de oiro,
Vivo enxame das minhas alvoradas,
Tenho zelos de vs, folhas sagradas,
As Desdmonas sois de um outro moiro.

As brancas horas que eu em sonhos doiro,
Essas horas febris, illuminadas,
Eil-as fugindo, em tristes debandadas...
Levaes nas azas todo o meu thesoiro.

Folhas: subi, voae ao co to alto,
Que o ceo em estrellas vos converta e mude,
L nas longinquas illuses que exalto;

Como as frementes aguas d'um aude,
Levae a Deus, no derradeiro salto,
O derradeiro adeus da juventude_...

_Luiz Osorio_.




IDYLLIO RUSTICO

_A Fialho d'Almeida_.


Quando atravessou a povoao, rua abaixo, com o rebanho atraz d'elle,
era ainda muito cedo. Ao longo das ruas tortuosas, as portas
conservavam-se fechadas, e no vinha das habitaes o mais
insignificante ruido. Dormia-se a somno solto por todas aquellas casas.
Apenas algum co, subitamente acordado em sobresalto pelo chocalhar do
rebanho, ladrava do alto dos escadorios de pedra onde ficara de
sentinella, ou de dentro das curraladas, onde levara a noite fazendo
companhia aos novilhos. D'onde em onde, gallos madrugadores entoavam
matinas sonoras, que eram como risadas vibrantes de bohemios, n'alguma
esturdia, a deshoras...

Mas passadas as ultimas casas, o silencio condensava-se para toda a
banda, n'uma grande pacificao de templo adormecido. Nem viv'alma pela
ladeira que levava ao rio, por um caminho em zig-zags. Fulgiam no co
azul-escuro cardumes prateados de estrellas. A toda a largura, a
paizagem era torva e indecisa, immersa n'uma luz muito mortia que nem
era bem a da madrugada, nem era bem a da noite. No emtanto a manh era
calma; nem rumores de briza pela rama das azinheiras velhas que faziam
guarda ao corrego por onde o rebanho tomara. Cigarras, grillos nas
hervagens, rs que coaxavam nas regueiras, era o mais que se ouvia acima
do rumor brando dos chocalhos. Nem um balido de ovelha em todo o rebanho
que se ia submissamente  merc do pequeno pastor, parando se elle
parava a colher as amoras frescas dos silvados, recomeando marcha se de
novo elle se punha a caminhar.

Quando passou rente ao meloal da fidalga, ouviu-se o ruido de um tiro,
que o echo levou para longe.

--No gastes polvora, Antonio!--recommendou o pastor.--Ouviste?

E logo a voz do guardador:

--Madrugas hoje, Gonalo!

--P'ra que saibas: c um homem no tem medo.

--Est bem. Adeus!

--Saudinha.

A esse tempo ia-se j definindo a manh, na luz, no som, na cr. Invadia
a amplido da cupula celeste uma tinta alvacenta, onde as estrellas
feneciam no seu brilho. Ao alto, na ladeira d'alm, entravam de fazer-se
nitidas as linhas sinuosas das cristas, onde enormes rochedos tinham
altitudes de uma immobilidade mysteriosa e sinistra... N'este assomo
d'alvorada, as coisas iam despertando lentamente para a alacridade
vigorosa da luz. Das moitas e sebes, calhandras era bandos levantavam-se
repentinamente, em vo perpendicular, e cortavam ares fra, chilreantes
e alegres, at se perderem de vista por de traz dos arvoredos e cabeos.
De cauda em riste e orelhas immoveis, o rafeiro espreitava as hervagens
seccas, onde algum reptil passasse vagaroso.

--Busca, Turco!--fazia-lhe o Gonalo que tinha medo s cobras.--Busca,
valente!

 medida que descia a ladeira, um marulhar monotono de aguas ouvia-se,
mais e mais distincto. Era o rio que parecia perto; mas primeiro que l
se chegasse ainda era preciso andar... Era um poder de passos e de
paciencia,--reflectia o pastor, a quem aborreciam de morte os
interminaveis torcicollos da vereda. Ia andando, descendo sempre, 
frente do rebanho silencioso. E quando os sapatos comearam de calcar
areia, e ali, perto, o rio lampejava, sob aquelle co ainda estrellado,
o Gonalo desabafou:

--Uff! at que emfim!--E pensava aliviado:--Nada mais facil do que
terem-me sahido os lobos!...

Mas vista quella hora, e no meio de tal silencio, a corrente liquida
tinha o que quer que fosse de sinistro, que evocava lembranas
aterradoras, espectros dos que ali mesmo tinham morrido afogados, n'uma
lucta desesperada com as aguas, clamando em vo que lhes acudissem, em
tamanho transe afflictivo. A margem de l, especialmente, era toda
accidentada de rochedos informes, blocos medonhos, por entre os quaes no
inverno o vento assobiava lugubre, e as aguas faziam remoinho, o que era
um perigo para os pobres barcos que se aventurassem incautos, n'um
descuido involuntario--simples remadela pouco a tempo, manobra menos
segura de leme, ou impulso errado de vara.

E ento, cabeos enormes d'um lado e d'outro, projectando sobre o largo
leito do rio a sua sombra pesada e desconforme, que mais triste fazia o
sitio e parece que mais solitario, pois fechavam-no bruscamente, fazendo
limitada a paizagem.

A todo o comprimento da margem, o rebanho pz-se ento a beber manso e
manso, e sem o minimo ruido.

Foi quando o Gonalo acabou de se convencer que na margem de l, um
pouco mais abaixo, outro rebanho bebia tambem.

--Tte, Gonalo! Aquella chocalhada...

E immovel, remordendo o labio, com o ouvido  escuta, pensava:

--Ora se ser ella?...

Subito, estremeceu. Ante o seu espirito infantil perpassou, como um
claro de relampago, a imagem de uma rapariga, pastora como elle, com
quem se havia encontrado mais vezes, mas que havia muito no vira.

--Ai, se fosse a Rosaria!... dizia comsigo.

E impondo silencio ao rebanho, que acabara de beber, pz-se attentamente
 escuta do tilintar dos chocalhos na margem opposta.

O rebanho parecia o mesmo, l isso... Agora o pastor  que podia ser
outro que no a Rosaria...

Seno quando, uma ideia lhe acudiu que o fez sorrir de contente. Atirou
ao cho a manta e o marmeleiro, e puxando para deante o bornal, feito da
pelle de uma ovelha branca, morta pelas segadas, tirou de l a sua
flauta e pz-se a tocar apressadamente um trecho de cantiga rustica.

No mesmo instante, uma voz muito sonora gritou-lhe:

--Ehl, Gonalo, s?

O pastor desatou a rir.

--Uhl, Rosaria, eu mesmo! Guarde-te Deus, pimpona!

E logo a voz fresca da rapariga lembrou:

--No te esqueceu a moda, rapaz!

--Isso esquece ella!... Ouviste, Rosaria?--Se outra fosse que m'a
tivesse ensinado...

N'este meio tempo j o Gonalo retomara a manta e o marmeleiro para ir
ter com a Rosaria. Mas primeiro perguntou:

--Boto pela ponte, ou s tu que vens,  cachopa?

--Vem tu d'ahi. Por c sempre  outra coisa p'r'as ovelhas. Han?

--Basta!

E dando o signal da partida, o Gonalo pz-se em marcha. D'ahi a
pouco, entrava mais o rebanho pela velha ponte moirisca, toda severa de
construco nos seus tres arcos lanados sem elegancia, atufados de
parasitas seculares que a faziam pittoresca, heras, silvas, ortigas
bravas.

A meio da ponte, mo piedosa fizera construir pequeno oratorio ao Senhor
Salvador, cujo rosto sereno, espreitando por grades de arame, diziam dar
coragem a barqueiros e almocreves, que ante o pequeno e humilde nicho
com respeito se descobrissem, e com devoo rezassem uma velha prece que
era como um talisman precioso para livrar de maiores
desgraas--naufragios no rio, e ento maus encontros por aquelles
caminhos escabrosos, que eram um perigo constante para homens e animaes.

D'ahi a pouco, as duas creanas estavam perto uma da outra, cada qual
seguida do seu rebanho.

--Ora viva a Rosaria!--disse o pastor muito alegre, parando defronte da
cachopa.

--Bons dias, Gonalo; ento que ventos?

Entre os dois travou-se ento um longo dialogo em que se contaram tudo o
que haviam feito desde aquelle dia em que ambos tinham voltado juntos da
feira dos Canios.

--Por signal que nem rez se vendeu!--lembrou o Gonalo.

--Por signal!--disse com pena a Rosaria.

Mas elle contou que viera por ali muitas vezes, muitas, sempre na f que
a encontrava. Vl-a agora, s por milagre de santo; quem o havia de
sonhar! Nanja elle...

--Mas se eu estive to doente!--volveu triste a Rosaria.

E como o outro acudiu a informar-se, ella explicou:

--Umas quarts que me tiveram mondada! A peste as mate! Febre que era
mesmo lume desde manh at ao escurecer... Uma assim!

E na sua ingenuidade infantil, contou ao Gonalo que muitas vezes, na
febre, sonhara com elle, que se encontravam os dois por montes e prados,
como agora tinha acontecido, tal e qual.

--Assim te Deus salve,  Rosaria?--atalhou rapido o pastor, a quem
enchiam de orgulho os sonhos d'aquella pequena amiga.

--Assim; pois que duvida?--tornou-lhe confiada a Rosaria.

--No!--disse agastado o Gonalo.--No has-de dizer assim... Diz certo,
has-de jurar direito.

--Pois assim me Deus salve...

--Como  verdade...--Diz tudo, Rosaria!--supplicava o pastor.

--Sim, volveu-lhe paciente a companheira,--como  verdade que sonhava
que nos encontravamos--concluiu por fim, muito risonha.

E sem disfarar o jubilo, prestes o Gonalo a certificou de que tambem
no a esquecera. Tanto  que tirava da frauta as cantigas todas que
ella lhe tinha ensinado.

--Lembras-te?

A Rosaria faz que sim com a cabea. E logo, batendo na frauta de
sabugueiro, o pastor apressou-se a declarar:

--Sahem d'aqui sem falhar uma.--E resoluto:--V feito, Rosaria, pede por
bocca!

A Rosaria pediu ento a _Pastorinha_.

--Eu  da que mais gosto,--explicou.-- a mais linda.

--E !--concordou o Gonalo.--Ora escuta l.

E levando aos labios a avena, pz-se a tocar a _Pastorinha_, emquanto a
Rosaria, com a sua vozita em surdina, entrava a tempo com a lettra:

Onde _vs_,  Pastorinha,
Ai-li, ai-li, ai-li, ai-l...

--Sabes essa!  mesmo assim!--disse-lhe a Rosaria a rir-se.

-- como vs!--affirmou contente o Gonalo.

Aos seus ps tinham-se deitado os rafeiros, e j os dois rebanhos,
confundidos, andavam na pastagem.

--Olha as ovelhas juntas!--notou o Gonalo.

--Tambem ns nos quedmos juntos,--volveu-lhe a pequena, sorrindo.--As
pobres do-se bem, so amigas...--continuou com jubilo.

--E ns tambem, ora tambem, Rosaria?

--Tambem--respondeu afoita a pastora.

E foram-se ter conta no rebanho, que choviam as coimas e as denuncias.

       *       *       *       *       *

A esse tempo, no co alto e lavado a estrella d'alva fenecera por fim, e
o horisonte comeava de carminar-se ao de leve. Por todo o co em
cupula, a luz fresca e viva da manh vibrava harmonias extranhas que iam
despertar tudo, a cr da paizagem e a musica dos ninhos, cantigas de
perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos. Manh de vero, serena,
tranquilla, dulcissima. Ia pelo ar um movimento extraordinario de
azas--passarada alegre que sahia agora dos ninhos e voava a matar a sde
 borda das ribeiras, andorinhas que deixavam as suas casinholas em
reconcavos de rocha e tomavam para hortejos convisinhos onde a vegetao
era mais rica de seiva e mais facil a presa dos insectos, perdizes
gralhadoras que iam de monte em monte, tordos, poupas, melros. Nos
vinhedos das encostas, por entre os renques verdejantes, gente em mangas
de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos, em torcicllos,
viam-se os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de
taleigos, e berrando-lhes cada _ch_! que se ouvia na outra ladeira. J
nas povoaes proximas sinos chamavam para a missa d'alva ou tocavam a
Ave-Marias. Nas quintas e casas fumegavam os tectos, dizendo horas de
almoo. De modo que o sol quando rompeu, solemne e triumphante no co
immaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda a natureza acordada
para a labuta interminavel do dia. N'uma clareira elevada, dominando o
rio e um trecho de paizagem para sul, tinham-se sentado os dois pastores
e continuavam conversa.

Ao pastor parecia-lhe agora mais bonita a pequena amiga, com a sua cr
trigueira levemente pallida desde que tivera as maleitas. No se
lembrava com que santa que elle tinha visto se lhe parecia agora a
Rosaria...

--Mas o cabello assim cortado...--disse com magua, mirando-lhe a cabea
nua, e passando a mo pela d'elle,-- que te no fica bem!

Melhor fra que lhe tivessem deixado as tranas. Negras, de mais a
mais, que era como elle gostava...

--Promessa da me se eu melhorasse--explicou a Rosaria--Lembranas... A
gente quando est afflicta...

--...Quando est afflicta...--repetiu como um echo o pequeno. E depois,
amuado:--Se promette os olhos...

A rapariga fitou-o, espantada.

--... porque t'os tirava!--concluiu convicto.

Houve um momento de silencio, em que o Gonalo se pz a escavar o cho
com uma pedra, e a Rosaria a torcer um fio saliente do seu vestido
grosseiro. Ouviam-se as ovelhas chocalhando nas pastagens, ia a passar
na rodeira, longe, um carro que chiava, com uvas para algum lagar.

--No fallas, Rosaria?--perguntou o pastor sem levantar os olhos para
ella.

--Tambem tu...--comeou com medo a pequena,--logo te zangas! Olhem a
lembrana dos olhos! Se a me fazia isso, credo!--E depois
animando-se:--J foste  Senhora dos Remedios?

O Gonalo fez signal que no tinha ido.

--Pois foi l que deixmos as tranas, eu mais a me. N'um prego ao lado
do altar, um lacinho verde nas pontas. Ficou lindo.

O pastor teve um movimento de enfado, no lhe agradava a conversa. E
para acabar com ella:

--Que emfim como melhoraste...--fez que concordava, pondo o bilro a
girar.--Olha como dana...--E depois, mais pensativo, batendo com o
bilro nos dentes:

--Que s vezes as promessas pouco fazem...--E interrompendo:--Sabes quem
fez este bilro?

--Foste tu, aposto.

Bateu no peito e fez com a cabea que sim, mostrando-lh'o
orgulhoso--que visse os _torneados_. Depois continuou:

--Vae uma pessoa andando e os santos no se importam. Ora, os
santos!--Olha a minha Joaquina, tu no conheceste. A gente bem resou e
bem promessas fez, mas ella foi-se.

E pondo-se de joelhos, comeou a procurar pelo rebanho.

--Aquella ovelha, a branca, no vs? A que se vae agora deitar... Pois
era p'ra Nossa Senhora, repara que  a melhor.--E deitando-se para
traz:--L anda ella a pastar!--concluiu desalentado.

--Mas tinha de ser,--volveu-lhe triste a Rosaria,--que as promessas
sempre fazem, l isso...

E convicta, a pequena contou casos acontecidos para convencer o Gonalo
de que sempre valiam as promessas. No emtanto, deitado de costas, com a
jaqueta a fazer de travesseiro, as pernas em angulo tocando-se com os
joelhos, o Gonalo soprava pela palha o bugalhinho que constantemente ia
subindo e descendo, acompanhado pelo olhar bondoso do co que ali perto
se deixara estar sentado. E contando, contando casos, a Rosaria ia
entretendo o pastor. Mas quando ella fazia pausa, logo o rapaz acudia,
firme na sua objeco:

--Ora! mas a nossa Joaquina morreu-se! Coitadinha da Joaquina!

       *       *         *       *       *

 medida que o sol ia subindo, no co glorioso e fulvo, iam os dois
conduzindo as ovelhas para sitios mais ensombrados, para se livrarem da
estiagem que ia valente. Calor de rachar, ali por volta do meio dia, que
foi quando tomaram para a banda das azinheiras, e para os pinheiraes,
depois. E sempre ao lado um do outro, os dois companheiros levaram de
conversa quasi o dia inteiro. Nunca tinham dado f que as horas
passassem to depressa. Ainda armaram aos passaros, mas foi o mesmo que
nada, os demonios andavam espantados e j conheciam as esparrellas.

--Olha l no caiam,--tinha dito o Gonalo, j canado de estar 
espreita, agachado, com o fio da armadilha preso ao dedo.--Se elles
fossem tolos...

E foi-se a recolher as esparrellas, dando ao demonio os passaros. Ella
ento propoz que jogassem a pocinha.

--E o fito,  Rosaria? Sabes jogar ao fito? No adro, aos domingos de
tarde, bato-me com qualquer, sabias?

E generoso:--Mas a ti dou te partido: vinte e cinco s quarenta...

Como o tempo rendia, jogaram tudo--a pocinha, o fito, as necas, a
bilharda. Na bilharda, como o rafeiro trazia  mo, era elle que ia
buscar o pausinho, quando zinia longe.

--Turco, traz c!

       *       *        *       *       *

No emtamto, ia descaindo a tarde. Ao alto, o largo co esmorecia no seu
azul suavissimo. Em todo o espao o ar estava tranquillo e sereno, e j
comeava para poente a decorao phantastica do occaso. Parece que se
ouvia mais distincto o marulhar das aguas no rio; j no faiscava assim
to viva a areia branca das margens.

Foi quando o Gonalo lembrou que era melhor irem-se chegando, mais as
ovelhas, para as terras onde tinham de pernoitar. E fitando fixamente os
olhos negros da Rosaria, disse-lhe assim:

--Mas olha o que prometteste... Inda vaes feita no que disseste?

Ora que lhe custava a ella! J que as ovelhas tinham andado juntas todo
o santo dia, que mais era que dormissem no mesmo curral, essa noite?

--E o mais,  Rosaria?--perguntou de novo com interesse.

A pequena ficou perplexa. Mas como o pastor no cessava de a olhar,
respondeu:

--Tambem.--E sorriu-se.--Pois eu...

S depois d'esta segunda promessa o Gonalo se levantou, e deu o signal
de partida, assobiando aos ces.

D'ahi a pouco, estavam de marcha para o curral, Quando passavam a velha
ponte, a obliquidade dos raios do sol fazia alongar desmedidamente pelo
areal a sombra dos tres arcos. Nas rugas da corrente, uma luz alaranjada
tremeluzia, tirando  agua a sua translucidez normal.

-- bonito!--fez notar o pastor.

A Rosaria explicou logo:

--So as moiras a caar com redes d'oiro, sabias?

Para a outra banda, um pouco mais abaixo, assomavam  flr da corrente
as cabeas dos dois rapazotes do moleiro. Dentro da _chata_ que vogava
serenamente, a me com o mais novito ao collo no os perdia de vista,
emquanto o pae, em mangas de camisa, de p n'um topo de fraga, lhes ia
ensinando as _manobras_. Ao fundo, tres vitellas passavam o rio a vau,
muito devagar, parando a espaos, alongando o pescoo para a veia d'agua
serena, bebendo mansamente. Sobre o vitello das malhas brancas, o
guardador cantarolava, acenando com o chapeu ao moleiro--boas tardes!
boas tardes! Ao sahir da ponte, o rebanho teve de se affastar um pouco
do caminho: aproximava-se um almocreve com a longa fila de machos
carregados, tilintando campainhas.

--Adeus pequenos! cumprimentou.

--Venha com Deus!--tornaram-lhe ambos.

E de novo se pozeram em marcha. As ovelhas continuavam confundidas,
confraternisavam os ces como bons e leaes amigos.  frente, o Gonalo
ia tocando na flauta o mesmo que a Rosaria cantava. O brando rumor dos
chocalhos, que se levantava de todo o rebanho, casava-se com a musica,
fundindo-se n'uma nota subtil, d'um pittoresco ingenuo de ballada...

At que chegaram a um topo de serra, escurentado de matagal rasteiro, e
ento, parando um momento, o Gonalo perguntou, collocando na sua frente
a Rosaria, e pondo-lhe  cara a flauta, na direco em que devia olhar.

--Vs alm... n'este direito? Rez-vez do castanheiro, no enxergas?

A outra fez que sim com um gesto, e interrogou:

--Ento  ali?

--Ali mesmo--volveu-lhe j de marcha.

E repoisando a mo direita sobre o hombro esquerdo da rapariga,
repetiu-lhe muito contente:

-- mesmo alm.

N'uma terra de restolho, um largo quadrado de cancellas marcava o espao
que as ovelhas tinham de occupar essa noite.

--Falta pouco; a gente vae pelo atalho que  s mau p'ra quem passa a
cavallo.

E como elle ia expansivo, e a companheira no dava palavra, quiz ento
saber:

--Ests triste,  Rosaria?

--Triste... no. J agora... tem de ser--volveu-lhe cabisbaixa.

--Huum! Arrependeu-se...--volveu comsigo o pastor.

       *       *       *       *       *

At que por fim chegaram, tinha anoitecido havia instantes. Gado para
dentro e toca a merendar; o que era d'um era d'outro: elle ainda trazia
azeitonas, um naco de queijo, po. Mal acabaram de comer, o Gonalo
apontou para a cabana que ficava alli perto, e propoz que se deitassem:
estavam modos da soalheira de todo o dia e da caminhada agora.

Quando o Gonalo e a Rosaria entraram na cabana e se deitaram sobre o
colmo, cobrindo-se com as mantas, e achegando para a cabea um do outro
os bornaes que faziam de travesseiro, cerrra de todo a noite, e
formigueiros de estrellas scintillavam vivezas de prata polida no azul
indefinido do co.

--E os lobos?--perguntou a Rosaria com medo.

--No ha perigo--tranquilisou-a o Gonalo.--Isso  l com os ces.

       *       *       *       *       *

Pouco a pouco, foi-se extinguindo no curral a musica triste dos
chocalhos. A ladrar, os ces faziam echo. O rebanho devia dormir
profundamente, immerso no mesmo somno em que jazia prostrada toda a
Natureza, ao largo. Dentro da cabana, os dois conversaram algum tempo,
n'um ciciar brando de vozes, at que por fim, vencidos da fadiga, se
deixaram adormecer,--quando a historia das moiras encantadas ia no seu
melhor episodio...

E l no alto co, mesmo sobre a cabana, a estrella da tarde no era nem
mais pura nem mais luminosa do que a alma simples e boa d'aquellas duas
creanas...

Quando ao repontar da manh se levantaram, e sahiram a vr o co...

--Bonito dia, Gonalo!

--Bonito dia, Rosaria! Olha...

...na calma placidez do azul, bandos de pombas mansas iam voando...
voando...




SULTO

(Copiado do Natural)

_Ao meu Henrique e a Beldemonio, seu amigo_.


I


Ao cair da tarde, o Thom da Eira entrava em casa, canado, esfalfado de
andar um dia inteiro a mourejar no campo.

--Meus peccados, boa tarde!--dizia elle para a mulher, com um sorriso a
affectar seriedade.

Vinha logo o pequeno, o Manuel, de mos postas pedindo-lhe a beno.

--Deus te abenoe.

--Pae, olhe que o Sulto... ia a dizer o pequeno.

--Bem sei! atalhava logo o Thom.--O Sulto  um maroto e tu s outro.

E emquanto procurava no bolso da jaqueta a sua bella navalha de
_meia-lua_, que lhe custara um pinto havia bons quinze annos, e abria a
gaveta do po, o Thom punha-se a fazer de interesseiro comsigo mesmo,
resmungando alto p'ra que a mulher o ouvisse:

-- que por este caminho no tenho um dia descanado... Nem uma hora...

Vinha a mulher com as azeitonas, com o queijo, sem dar palavra.

--...Pois vamos j que j era tempo... Porque p'ra mim ha de chegar... A
modos que vou j canando...

Mas o Thom no era homem que dissesse estas coisas de corao.
Pareciam-lhe longos, interminaveis, os aborrecidos domingos que passava
sem ir campos fra, madrugador como um melro.

--Uma aquella como outra qualquer! dizia o bom do Thom encolhendo os
hombros, como quem est desgostoso com um genio assim.

Partiu uma ampla fatia, um naco de queijo muito branco, do leite da sua
cabrada, e veiu sentar-se, consolado, ao fundo da larga escada de pedra
que dava para a rua, arregaado, em mangas de camisa, muito  vontade.

Costume velho do Thom:--mal se sentava, mastigando o boccado, dizia
logo para o filho:

--Ouves, Manuel? Bota c fra o Sulto.

O rapazito corria o caravelho de uma pequena porta lateral, que rangia
nos gonzos ao impulso dos seus bracitos rolios, e punha-se a pular de
contente, dizendo c da rua:

--Sulto! Sae c p'ra fra, Sulto!

No fundo negro do pequeno cortelho, na moldura rectangular da porta
baixa, destacava-se ento a cabecita parda de um jumento, orelhas em
riste, grandes olhos de uma tristeza perpetua, n'um movimento moroso de
palpebras pestanudas...

E ali se quedava parado, absorto, muito bem posto nas suas pequeninas
pernas delgadas, a olhar o Thom que o chamava,--um grande riso de
alegria nas feies amorenadas, contente de ver o seu Sulto.

Mas o pequeno jumento no avanava um passo, divertindo-se em arreliar o
Thom, fitando-o com um ar estagnado. Altivo na sua nobre linha de
quadrupede de boa raa, alguem lhe poderia lr no olhar, mole e
impassivel, o frio, gelado despreso a que parecia votar o dono...

Mas era quillo mesmo que o bom do lavrador achava graa. E punha-se
ento a fallar muito serio, entre resignado e cortez, para o pequeno e
desdenhoso jumento--o po e o queijo esquecidos n'uma das mos, na outra
a navalha de _meia-lua_:

--Ento, Sulto, no vens?

--No! parecia responder-lhe o animal. E abstracto, continuava a
envolvel-o no seu olhar profundo. A quebrar a harmonia d'aquella
immobilidade de estatua, apenas de quando em quando uma pequenina patada
na soleira, zap!

--Zangado, Sulto? perguntava o lavrador.--De mal comigo?

E prestes voltava a cara para a outra banda, para se rir 
vontade...--que no fosse vel-o o Sulto... Mettia entre dentes um
pedacito de queijo, logo uma codea de po, e fazendo umas grandes rugas
na testa, de quem comea a zangar-se, voltava-se ento muito serio:

--Ficas ahi, Sulto? J no s meu amigo?

O gerico abatia um pouco as orelhas, inclinava o pescoo, parece que
fazendo-se humilde...

--Ento se s, anda d'ahi. Olha...--E mostrava um pedacito de po.--P'ra
ti se vieres...

O Sulto dava tres passos, e ficava fra do cortelho. E por se vingar,
o Thom carregava o semblante n'uma seriedade muito pesada, e erguendo o
rosto iracundo chamava-lhe interesseiro, maroto, affirmando que j lhe
no dava o po. E desfechando-lhe emfim a ameaa de o vender a um
cigano, entrava a tratal-o por senhor--_sr_ Sulto...

Mas o pequeno jumento ia andando muito devagar... andando... orelhas
baixas, pescoo cahido, a modo de arrependido, parece que pedindo perdo
da arrelia.

Nervoso, sapateando, o Thom voltava a cara para a outra banda, a rir
como um perdido.

--Diabo do gerico! diabo do rato! Capaz  elle de fazer rir as pedras,
o mariola!--E tossia de engasgado, uma migalhita de queijo na guela.

No emtanto, o Sulto ia avanando, muito ronceiro, at que tocava com
o focinho, levemente, nos joelhos do lavrador. O Thom sacudia-o:

--Sae-te p'ra l! dizia elle muito amuado, sem se voltar.--Cuidas talvez
que te no conheo, cuidas? J te no quero, vae-te!

Mas como que irreflectidamente, fingindo no querer, chegava-lhe ao
focinho um pedacito do po, o melhor da fatia. Sulto lanava um olhar
obliquo, entre surrateiro e medroso, levantava cautelosamente o beio
superior, a tremer, e roubava-lh'o da mo.

Pazes feitas! Era ento rir a perder, n'umas casquinadas agudas, muito
estridulas.

--Credo, homem! dizia de cima, da janella, a sr.^a Josefa.--At pareces
doido!

--Voc assim rouba seu dono? Diga! Voc assim rouba seu dono? perguntava
o Thom, n'uns grandes gestos.--Vamos que eu lhe no queria dar da
merenda? Ladro, de mais a mais!... Ora bem! agora brinque.

Era precisamente o que o Thom queria:--ver o Sulto a brincar.

...Nada, com effeito, meus amigos, que mais divertisse o bom do
lavrador, e melhor o indemnizasse d'aquellas fainas laboriosas que lhe
consummiam os dias, imperturbavelmente, perpetuamente, sob soes
causticantes e chuvas torrenciaes.

Por isso, era de ver como elle ria, com uma boa vontade deliciosa, das
partidas e diabruras do Sulto! s vezes, o pequeno jumento,
ferido no sei por que vespa invisivel, despedia sem mais nem menos
n'uma carreira aberta, focinho entre as pernas deanteiras, agitando a
cauda, por aquella rua fra. Rompia de toda a banda n'um alarido o
rancho pacifico das galinhas, que j no ar andavam como doidas,
cacarejando, como se um p de vento as levasse. Accudia gente aos
postigos, s portas, s janellas, a ver a polvorosa; e subito se
inundava a rua de rapazes, rotos, descalos, alguns quasi ns, correndo
atraz do burro, gritando-lhe, acenando-lhe, espantando-o--como se o
mesmo vento de folia os houvesse varrido a todos, varrendo a propria
rua... E um l ia a terra, e sobre esse passavam os outros, e sobre
todos voava o Sulto, apupado, perseguido, acclamado, na malta
espavorida dos inimigos...

--Sulto! eh l! Sulto!

Subito, como se lhe estalasse a corda, o animal estacava, e logo de
volta d'elle postava-se a rapaziada, mas n'um alor de nova fuga, no lhe
desse na blha atacal-os... E abriam alas de repente, quando elle,
tomado de novo accesso, voava para as bandas do dono, que por se no
deixar atropellar investia com o Sulto de braos abertos, o que era,
j se v, um modo de o abraar, fingindo medo. E vinham as gargalhadas
estridulas, os rogos para que pozesse treguas, as supplicas para que se
accommodasse, recuando o lavrador at ao ultimo degrau da escada, onde
se deixava cair,--derrotado!

--P'ra l, Sulto! p'ra l! fazia ento o Thom, oppondo-lhe os ps,
desviando-o, apoiando-se nos cotovelos, muito inclinado para traz, a rir
como um perdido.

Ento o pequeno jumento estacava, offegante. Mas prestes rompia a
girandola dos coices, em que era eximio, sacudindo muito as patas, cauda
no ar, muito direita, ao mesmo tempo que o Thom solicito dava aos
rapazes o aviso de se arredarem--porque era doido, aquelle demonio!...

Outras vezes, parece que variando de tactica, entrava de seguir muito
cauteloso, n'um ronceirismo perfido, como um borrego ou como um co,
certa mulher que passava. At que l ia uma focinhada, e logo aps os
saltos do costume, respondendo com uma ameaa de pinotes  surpresa da
viandante.

--D, tia Luiza! bata n'esse maroto! fazia de l o Thom, com ares de
zangado. E depois, batendo o p, pedindo que lhe dessem uma
verdasca:--Sulto! venha j p'r'aqui! intimava.

E se encontrava um co? Se encontrava um co, ia logo direito a elle,
muito de vagar, cauda caida, orelhas murchas, n'um cumprimento humilde
de focinho. O co regougava, desconfiado, entreabrindo a dentua,
preparando a sua dentada. No dava o Sulto signaes de medo, e humilde
proseguia para o outro, propondo paz. Mas ao primeiro latido, recuava um
passo, espertando da sua indolencia passiva; e de espinha arqueada
ganhava o terreno perdido--fitando impassivel o co... O bruto formava
ento o salto, regougando forte, o pllo eriado; e ao investir para a
primeira dentada, salvava-o de um pulo o Sulto, evitando-o, at que
por compaixo lhe dava um pequenino coice, mais feitio que outra
coisa, pondo em fuga o mastim, corrido, ganindo, vencido:

--Eh! valente! gritava-lhe ento o Thom.

E com duas palmadas na anca, espantava-o emfim para o cortelho, dizendo
ao correr a caravelha:

--No ha dinheiro que te pague, assim me Deus salve!

E comido o caldo verde da ceia, nunca o Thom da Eira ia para a cama sem
primeiro descer a vr o Sulto,--de candeia na mo esquerda, e na
direita, contra o sovaco, a bella quarta do gro, acogulada.

Muitas vezes acontecia esquecer-se o Thom a vel-o comer, de candeia
attenta, encostado  mangedoira, sorrindo: e, de cima, a sr.^a Josefa
tinha de intervir ento, gritando-lhe pelas frinchas do sobrado:

--Thom, v se te vens deitar, meu pasmado! olha que so horas.

E piamente, como fanatico, achava verosimil a lenda da burra que
fallou,--historia que uma tarde, passando, o abbade lhe contara. Tanto
que mais de uma vez, dando ao burro as boas-noites, extranhou com certo
desgosto que o Sulto lhe no respondesse:

--Boas noites!

       *       *       *       *       *

Mas o demonio, que sempre as arma, armou-lh'a tambem um dia! Foi ao
cortelho, de manh cedo, e no encontrou o burro. Ficou parvo! Poz-se a
mirar, espantado, a loja que lhe pareceu enorme, e alm de
enorme--gelada...

-- Josefa! Josefa! entrou de gritar da rua.-- Josefa!

A mulher assomou  janella, sobresaltada.

--Queres apostar que me roubaram o burro,  mulher?!

--Que te roubaram o qu? fez a sr.^a Josefa, muito attonita.

--O burro, o Sulto! Vem c ver que m'o roubaram!

E como ao tempo acudira j o Manoel, em camisa, descalo, romperam todos
tres na gritaria, defronte do cortelho vazio:

-- d'el-rei!  d'el-rei!  d'el-rei!

At que o regedor, que era compadre, intervindo estremunhado, poz na
peugada do burro, mais dos larapios, os cabos que compareceram.

Mas em vo! Um a um foram regressando, pelo dia adeante, e desfechando
ao peito abatido do Thom a negra e vazia palavra:

--Nada!...


II


Dois annos depois. Tarde d'agosto. Ao longe, fechando o horizonte que a
eira dominava, as arestas dos montes quebravam-se n'uma sombra egual, e
embaciavam ainda o poente as suaves, brandas pulverisaes doiradas da
ultima luz do sol. Riscos vermelhos de nuvens, como grandes vergas de
ferro levadas ao rubro, destacavam immoveis n'um fundo verde-mar,
esvaecido e meigo, raiado de listres de uma colorao leve de laranja.
Pequenos algodes transparentes, com alvuras de neve, cortavam aqui e
alm, alegremente, a monotonia profunda do azul. N'um deslado, sob os
castanheiros proximos, surgiam os telhados da aldeia, a torre branca da
igreja, as paredes caiadas da escola.

A vasta eira commum, levemente accidentada, apresentava quella hora o
aspecto tranquillo e de paz de uma grande officina em repouso. Poucas
mdas, iam no fim as colheitas: mais uma semana, duas quando muito, e
estaria tudo recolhido. J sobre a palha das parvas ou ao sop das
mdas altas, entre os utensilios da trilha e a creanada estridula que
brincava, os da lavoura descanavam--vermelhos da soalheira intensa de
todo o dia, alguns deitados, em mangas de camisa, peito n, arregaados
os braos musculosos, n'uma prostrao regalada de matilha que alfim tem
a sua hora de socego, aps um dia de caada. Parecem prostrados da
fadiga os proprios malhos, os trilhos, as ps, os baleios que levaram
todo o santo dia varrendo o cho em volta das parvas. E aqui e ali,
dando uma sensao agradavel de fartura, perfilam-se os altos saccos no
meio das rasas, extravasando de gro. Alm, gente em mangas de camisa,
ao redor de um grande monto de palha triturada, vae limpando--visto
que sopra um ventinho. E sente-se sobre as ps a chuva do gro, ao
mesmo tempo que a palha, voando, faz monte da outra banda, e os
baleios, em mos de mulheres, no cessam de arrebanhar o gro,
varrendo em roda n'um afan... Em certo ponto, carros vasios; um alm, de
altissimas angarellas, vae-se enchendo de palha; emquanto outros,
atulhados de saccos, em rimas entre as cancellas mais baixas,
estridulamente chiando abalam para as tulhas, levados pelos bois
gigantes.

Eiras alm, livres dos trilhos que ficavam em cima da palha, levas de
bois caminhavam vagarosamente, as largas orelhas pendentes, caudas
oscilantes afagando nas ancas espaosas o luzidio pllo. E l vo
encosta abaixo, roando pelos troncos asperos dos castanheiros a enorme
corpolencia, fartar o largo bandulho  serena agua das ribeiras,
sorvendo vagarosamente, impando a cada sorvo, pesadamente,
monotonamente, parece que insaciaveis no meio da agua em que se atolam,
submissa...

Ao fundo da eira, rente aos castanheiros escuros, um rancho de mulheres
cantava alegremente, em cro. Acabara de ensacar-se o ultimo gro da
farta colheita do Thom da Eira.

--Colheita rica, sim senhor! vinham dizer-lhe os visinhos.--A primeira
da aldeia!

--Qual? isso sim! vo vocs vr a tulha. Muita palha,  que vocs ho de
dizer, muita palha e pouco gro...

E muito azafamado, sem prosapias de maioral nem geitos de soberba, as
mangas arregaadas pelos cotovelos, O Thom ia e vinha, dando ordens,
repetindo avisos, distribuindo aqui e alm as ultimas tarefas.

--Ahi vae um sacco,  tu!  p'r'as rabeiras. Que no fique nem um
gro, ouviram?  aviar, toca a aviar! Cautela que no fique por ahi
alguma coisa esquecida: essas ps, esses baleios, tudo isso.
Margarida!  Margarida! qu' da tua rasa? Deixa! se vae no carro est
bem.

E era como um doido a metter-se no servio de todos, muito expedito,
loquaz, alegre, pedindo pelas bentas almas que se no deixassem agora
dormir...

--Vamos l! vamos l! As ps,  tu que cantas? Deixa-me por ahi alguma,
que eu depois te ensinarei, ouviste?--Que faz ahi no cho esse
rasouro,  coisa?--Olha p'r'o que ests a fazer, tu: esses saccos que
fiquem bem atados.

O criado, que ia abalar com a carrada, perguntou, j de aguilhada no
ar, se era preciso mais alguma coisa.

--No, pdes ir. Ouves? l em casa que tenham a ceia a horas. Avia-te.
Ouves, Francisco? No piques os bois, a carrada  valente. A passo,
deixa ir os animaes a passo. Vae-te.

Como o carro chiava, levantou a voz para dizer:

--Olha, descarrega na tulha do meio. Na tulha do meio, no ouves? Os
bois para o lameiro.

Mas o Francisco apontou dois saccos que ficavam:--seria preciso vir por
elles?

--No vale a pena, l iro.

E depois, para aquella gente, observou que bem sabia elle quem os
levava, aquelles dois saccos...

--Com mil demonios! Apostar que vocs no adivinham?

Elles sabiam l?... Quem quer podia levar os dois saccos, olhem agora!

--O Sulto, sabem? o Sulto! Esse  que os levava. E digo-vos ento
que valia o dobro a colheita, assim me Deus salve!

Alguns riram da lembrana. Tinha graa que a scisma do animal no lhe
passava nem  mo de Deus Padre!

--A modos que isso  j mania,  sr. Thom?

Nisto, porm, o lavrador soltou um oh! de surpreza. Voltaram-se
todos--que era? Na estrada que a eira dominava, um homem ia passando,
a cavallo.

--Vocs no querem vr,  rapazes?! perguntou o lavrador, fazendo-se
pallido.--Aquelle burro, hein? se no  o Sulto  o diabo por elle...

Recordaram:--estrella malhada na testa, a mo direita branca...

-- elle, com um milho de diabos! no ha que vr! E aquelle  o ladro!

E cuspindo nas mos, e arregaando mais as mangas da camisa, arrancou,
d'um abano, o cabo d'uma espalhadoura e botou a fugir direito 
estrada.

Prestes ouviu-se um berreiro, as mulheres do rancho em alarido:

--Que o mata! gritavam todas.--Ai que o mata! Acudam! Ai a desgraa! Nem
a alma lhe deixa! Acudam!

Os homens deitaram a correr atraz d'elle, affluia gente de todas as
bandas da eira, os ces ladravam.

--Ento, sr. Thom? olhe que se perde, sr. Thom! diziam-lhe, j
agarrados a elle.--Largue o cabo, que se desgraa! Tudo se faz a bem,
sr. Thom, largue vossemec o cabo!

--Qual bem nem qual diabo! Qual larga? Arreda! Racho-lhe as costellas,
mais a vocs, se me no largam! Arreda!

E esbracejava furioso, levando-os de roldo, agarrados a elle mais ao
cabo. Chegou a ferir um, os outros desanimaram por instantes.

--V, sr. Thom?!

No via nada, no queria ver cousa nenhuma! Arreda! E n'um rompante de
ira, abrindo brecha com um sarilho, de um pulo saltou  estrada, aos
tropees nas pedras que encontrava, mal se equilibrando.

--Abaixo! intimou.--Voc  um ladro!

--Um qu?

--Um ladro!  meu esse burro! Hei-de matal-o aqui, seu patife!
Deixem-me! larguem-me! Ha-de ahi ficar estendido, como um co!

E no meio da malta em alvoroo, com a arreata do burro na mo esquerda,
e na direita o minacissimo cacete, berrava que o deixassem, que ia tudo
razo--com seiscentos milhes de diabos!

Seguiu-se altercao, vieram razes de parte a parte, insultos.

--J lhe disse que voc  um ladro!

--Ladro ser voc!--tornou-lhe o outro j de p, avanando de punhos
cerrados.--E no m'o diga outra vez, que o racho!

Afflictas, algumas mulheres voltavam-se, de mos postas, para a
capellinha proxima, rogando o soccorro da Virgem. O lavrador entrava de
tremer como varas verdes, desfigurava-o a raiva, uma saliva muito branca
bordejava-lhe os cantos da bocca. Pela camisa rota, via-se-lhe j um
pedao de hombro. Tinham, alfim, conseguido arrancar-lhe o cacete, mas
agora esbracejava, punhos no ar sobre aquellas cabeas em desordem.

J, para uns certos do grupo, o homem do burro se desculpava:--tinha-o
comprado a uns ciganos, fossem l adivinhar que o burro era roubado...

--V, sr. Thom? acudiram logo uns poucos.--O homem no tem culpa.--E
gritavam-lhe aos ouvidos:--No tem culpa! Comprou o animal na boa f.
Vs-ahi est!

--Mente! objectava incredulo o Thom, cada vez mais irado.--Mente!

--Mente?! perguntava o outro de l, assanhado.

--Como um judeu! cuspia-lhe da outra banda o Thom.

De modo que para o convencerem, foi preciso afinal leval-o quasi  m
cara, chamar-lhe homem de rixas, despropositado, bulhento. Elle ento,
abrindo os braos como se fosse para nadar, socegou um pouco,
amainou,--prometteu levar aquillo com paciencia, s boas. Chegou quasi a
pedir desculpa, limpando com a manga branca as bagas das
camarinhas.--Mas tinha perdido a cabea, que lhe queriam?

Chegou-se por fim a um accordo. Sim, senhores, accommodava-se, mas
punha uma condio: largasse elle o burro, e o burro  que havia de
resolver...

--Serve-lhe o contracto?

--Qual contracto?

--Mau! Larga-se o burro, voc entende? deixa se o burro s soltas.
Depois,  p'ra onde elle fr. Se o burro larga p'ra traz, l p'r'as
bandas d'onde voc vem... Voc d'onde vem?

--Dos Casaes.

--Pois ahi est. Se o burro tomar p'r'os Casaes, o burro fica seu...

--E tomando direito  aldeia,  do sr. Thom,--concluiram alguns do
grupo, conciliadores.

--Nem mais! Serve-lhe assim? Diga se lhe serve assim.

Por um desfastio, o outro concordou. Mas l lhe parecia historia que o
burro tomasse para a aldeia... Vinha de to m vontade, que at lhe
custara tiral-o de casa.

--Olhe que vae pr'os Casaes! Digo-lhe ento que vae pr'os
Casaes...--affirmou.

--Melhor p'ra voc. Mas ns veremos p'ra onde vae. Voc est pelo
dito?--quiz saber o Thom.

--Sim senhor, estou! Pois que duvida tem que estou? disse-lhe o outro
n'um rompante. Olhe: uma, duas, tres; s tres largo-lhe a arreata.

Ia j a abrir a bocca para dizer--uma!

--Alto! fez o Thom. Espere l um pouco. Primeiro hei-de fazer duas
festas ao animal.

E pz-se a bater-lhe na anca, no pescoo, no peito, demorando-se um
pouco a fital-o de frente, para que o animal o conhecesse.

--Sulto! gritou-lhe de repente. Eh! Sulto!

O burro estremeceu... Dir-se-hia que no fundo da sua memoria, a
lembrana porventura adormecida d'aquelle nome despertara subitamente...

--Eh! Eh! riu-se muito satisfeito o lavrador. O burro, agora, vira-se
p'ra ali. Isso. Nem  p'r'os Casaes nem p'r'o logar. Assim. Eh! Eh!

E afastou-se para o lado, aguardando.

Uma anciedade dominava n'aquelle momento os do grupo; o Thom pz-se a
roer as unhas, nervoso...

--Ento voc porque espera? perguntou.

Ouviu-se logo a voz do outro, dizendo:

-- uma!...

O Thom sentiu um calafrio; sapateava nervoso, cheio de medo, o olhar de
esguelha, e entre os dentes ferrados o pollegar da mo direita...

--...s duas!

--Ih! c'um raio!... dizia baixo o Thom.

E sem querer, os olhos cerraram-se-lhe com fora.

--...s tres!

Foi ento um barulho de palmas, um berreiro atroador de vivas e
gargalhadas! O Thom vencera: corriam todos a abraal-o, affirmando que
o caso era para foguetes.

--Viva o sr. Thom! Viva o Sulto! Aquillo  que  burro!

--Aquillo  que  amigo, ho-de vocs dizer!--emendava o Thom a rir.
Tenho-os com dois ps, que no valem metade...

--Oh! sr. Thom! protestavam alguns.

--Isto no  com vocs, mas  como quem se confessa... Est visto que
no  com vocs.

E ria, ria como um perdido, emquanto, estrada fra, o Sulto corria
que voava, cauda no ar, corda de rastos, perdendo-se por fim l ao
fundo, na poeirada immensa da estrada, como que nimbado n'um resplendor
de apotheose. E na peugada do burro, esbaforido e como doido, seguia
agora o lavrador, aps o fraternal abrao, pregado no dos Casaes...

Quando o Thom chegou a casa, offegante, a suar, cheio de gestos e de
palavras entrecortadas de riso, j o Sulto, relinchando, pateava 
porta do antigo cortelho, n'uma grande impaciencia, um rap-rap
continuo na soleira.

--Venham vr! Venham c vr! berrava o Thom para a vizinhana. 
Antonio!  compadre!  Maria Engracia!

s janellas assomava gente, perguntando se era fogo.

--Qual fogo, nem qual carapua!  o Sulto, mas ! Este inimigo! 
Josepha! Josepha! c temos o burro, este demonio. Assoma.

Ora imaginem agora os senhores, se podem, a effuso do lavrador.
Abraos? E at beijos. Aquillo era um thesoiro perdido que reapparecia
alfim. A mulher, do alto da escada, benzia-se, perguntando se o seu
homem teria endoidecido...

--Palavra de rei, Sulto, palavra de rei! Anda d'ahi pelos saccos. So
s dois.  Josepha! Ouves? p'ra c esse garrafo que est ao p da arca,
avia-te. A caneca tambem, ouviste? Essa das riscas vermelhas, a maior.

E atirando as mos ambas para a albarda, montou muito regalado, de um
pulo.

--Ah!

A senhora Josepha assomava, ajoujada com o enorme garrafo.

--Anda, mulher, pe aqui deante de mim. Avia-te.

Ia a boa da senhora Josepha arriscar uma observao, um conselho,
qualquer coisa de tomo...

--Adeus, minhas encommendas! No me fanfes, mulher, no me fanfes. Pe
aqui, que mando eu, avia-te. Assim. Est bem.

--Nome do Padre...

--Ento que lhe queres? Deu-me agora p'r'aqui!

--Nome do Padre, nome do Filho...

--A caneca! Venha de l agora a caneca!

--...nome do Espirito Santo!

--Passa bem,  mulher,--concluiu s gargalhadas, entre as gargalhadas
dos demais.--Ouves? Quando o Manoel vier dos ninhos, esse maroto,
manda-m'o s eiras. A trote, Sulto! Eh! valente!

E l parte, veloz como uma setta. J de longe volta-se do repente:

--Josepha!  Josepha! n'esse alguidar do meio umas sopas de vinho p'r'o
Sulto, ouviste? No do meio. O grande  muito grande, e esse pequeno
no presta. Ouves? mas quer-se coisa que farte, bem entendido.

E de novo despediu como uma flecha, abraado ao garrafo. Arreata para a
direita, arreata para a esquerda, pernas a dar a dar, elle l vae n'uma
corrida, sumido n'uma onda de poeira, at chegar s primeiras mdas.

--Vinho, rapaziada!  Maria do Carmo, toma l uma pinga, mulher! L por
andarmos de mal ha 15 annos isso acabou-se!

E o Thom atravessou a eira sempre a cavallo no Sulto, caneca de
vinho para a direita, caneca de vinho para a esquerda.

       *       *       *       *       *

Meia hora depois regressava, o Sulto pela arreata, o Manoel no meio
dos saccos, e adeante do Manoel o bello garrafo--sem pinga...

Pelo caminho, a todos o Thom contava a historia, a rir como um perdido,
n'um ah! ah! de gargalhadas sonoras, muito intimas.

--Colheita rica, sim senhores, um colheito!

E parando  porta, ainda a mulher se benzia do alto da escada, mexendo e
remexendo o alguidar de barro:

--Nome do Padre, do Filho, do Espirito Santo.

...Ao mesmo tempo que o Thom, abrindo os braos, respondia reclamando
as sopas:

--Amen!




ULTIMA DADIVA

_Ao dr. A.A. da Fonseca Pinto_.


Distante do rio apenas um tiro de bala ficava o horto do Jos Cosme,
bello horto ainda que pequeno, todo mimoso de fructas e hortalias,
fechado entre velhas paredes musgosas, atufadas em silvedo, communicando
com a estrada por um pequeno portelo mal seguro. E eis ali quanto ao
pobre homem restava dos seus antigos haveres:--o horto, a um canto a
nora, e perto da nora, sob a umbella tufada e virente da antiga magnolia
gigantesca, a misera casinhola de alpendre, apenas com uma porta e duas
janellitas lateraes mas toda pittoresca das heras que a revestiam, que
lhe pendiam dos beiraes enlaadas com as trepadeiras.

De modo que na primavera, quando as parasitas abriam serenamente os seus
melindrosos calices sobre esse fundo de verdura reluzente, e a magnolia
toda se toucava de flores fazendo docel  vivenda, aquelle pequeno canto
d'horto, com a sua nora e com a sua agua espelhante e limpida, tomava a
feio ingenua de uma delicadissima tela de paizagista, aquarella
deliciosa, alegre e idyllica, cheia de encantos na poesia rustica da sua
simplicidade.

No vero, s horas de calor, quando o sol caa a pino sobre a larga
paizagem adormecida e turva, e as arvores da estrada no davam sombra
que aliviasse, aquella tranquillidade com que o Jos Cosme ressonava sob
o alpendre, braos ns e peito n, o chapeiro de palha grossa
resguardando-lhe a cara, fazia inveja aos que por ali passavam, canados
e cheios de poeira, flagellados por aquella estiagem inclemente.

-- tio Jos!--gritavam-lhe do caminho.--Tio Jos!  regalado!

Mas os que entendiam de lavoura, proprietarios e maioraes, esses
deixavam dormir o Jos Cosme e ficavam-se a admirar o horto.

Ora na verdade!... Bello horto, sim senhores! Por aquellas redondezas
no havia outro que se lhe comparasse, to esmerada era a sua
cultura--to esmerada e to completa, pois que de mais a mais nem palmo
de terra ficara inculto. Nas leiras, dispostas com symetria agradavel,
verdejavam cheios de vio, frescos e medrados, legumes de todas as
castas--desde a alface muito tenra, de folhas verde-claras, toda
acaapada no cho humido das regas, at s trepadeiras das vagens que
enroscadas ascendiam pela basta rodriga de castanho aparada com todo o
esmero, formando massios de verdura sombria que os casulos esguios dos
feijes crivavam de alto a baixo. Arvores, apenas as precisas para
aformosearem o horto, sem prejudicarem com a sombra a vegetao franca
das hortalias. Mas todas as que havia eram mimosas de fructas nas
estaes competentes--cerejas, peras, mas, pecegos mesmo.

Poucas flres: uma coisa que todos notavam com estranheza. Mas desde que
lhe morrera a mulher mais a filha, o Jos Cosme deixara-se de as
cultivar, e nos canteiros assim devolutos tinha semeado repolhos, que
por signal vinham enfezados. S teve o cuidado de no deixar morrer os
goivos. Uma vez por anno, em fins de Maio, colhia-os todos de uma vez, e
ia leval-os em braado  sepultura rasa das suas defunctas.

Exactamente n'essa tarde tinha elle ido ao cemiterio fazer a funebre
visita. Quando se recolheu era j noite. Mal acabou de cear levantou-se
bruscamente da mesa e foi-se para o horto, com uma grande vontade de
chorar. Estava nas suas horas tristes, n'essas horas em que as energias
todas da sua alma e at as do seu corpo vergavam sob o flagello de uma
dr violenta, exacerbada agora pela saudade dos que lhe tinham
morrido... E para maior desgraa fugira-lhe o bem das lagrimas. De modo
que sem esse lenitivo, aquellas medonhas tempestades custavam o dobro a
supportar. Abstracto, n'uma especie de entorpecimento idiota, percorria
sem descano todas as ruas do horto, cabisbaixo, acabrunhado, automato.
Se por vezes parava, recolhendo-se n'uma quietao attenta, logo um
gesto brusco desmanchava a sua immobilidade de estatua, soltava um fundo
gemido, e punha-se de novo a andar.

--Vens ou no vens?--perguntava elle, evocando com dorido esforo a
imagem da mulher ou da filha. No vinha; e quando apparecia era como se
fosse um relampago, apagava-se logo.

N'esta lucta com a sua dr as horas iam passando longas. Era j tarde,
talvez a uma da noite. Luz, apenas a das estrellas, pois que o luar
nascia tarde. Pesava sobre toda a paizagem o largo silencio da noite,
apenas cortado, ao longe, pela melopeia somnolenta do rio.

Um rapaz que ia na estrada olhou por acaso para o horto do Jos Cosmo e
viu um vulto perpassar de repente e de repente sumir-se n'um recanto
onde a sombra era mais densa.

--Temos historia...--resmungou comsigo o rapaz.

E, rente a uma arvore, quedou-se alapardado,  espreita. No desconfiou
que fosse o Jos Cosme: aquillo era mariola de larapio que vinha por ali
fazer das suas. Agachou-se ento, e poz-se a procurar uma pedra. Apanhou
duas, para o caso de no acertar a primeira.

--Co do diabo!--exclamou baixo o rapaz, pondo-se em posio de jogar a
pedra.--Espera que eu te arranjo...--E j ia arremessal-a na direco do
canto, quando o vulto saiu da sombra e tomou por um carreiro, direito ao
logar onde o rapaz estava.

--Melhor! Mais a geito ficas...

E debruando-se um pouco na parede, poz-se a fixar o vulto que avanava,
para ver se o conhecia. Quem quer que era trazia a jaqueta sobre os
hombros, alvejavam-lhe as mangas da camisa. A meio do carreiro, mesmo
defronte d'elle, parou. Foi ento que o rapaz se lembrou do Jos Cosme.
O vulto parecia, com effeito, ser o d'elle; lembrava-se agora de ter
ouvido que o pobre homem, quando o ralavam saudades da mulher e da
filha, levava noites em claro, a percorrer como doido aquelles carreiros
por onde ellas tinham andado.

Quando ouviu soluar, acabou ento de se convencer. Insensivelmente,
deixou cair as pedras e perguntou:

--Tio Jos!  tio Jos! Sou eu, o Luiz... Vossemec que tem?

O lavrador no respondeu, parece que nem tinha ouvido. O rapaz insistiu:

--Doe-lhe alguma coisa,  tio Jos?

--No de, no. Sabes que mais? peo-te pelas alminhas que me deixes.
Bem me bondam as minhas afflices. Vae com Deus, vae.

O rapaz ficou surprehendido, triste do tom de supplica dorida que o Jos
Cosme dera quellas palavras, e retirou-se silencioso, quasi aterrado
agora com a ideia de que poderia ter matado o pobre homem, caso jogasse
a pedrada.

No emtanto a noite ia avanando, grave, soturna, sem outro ruido que no
fosse o das aguas do rio. E o Jos Cosme, sem despegar do seu fadario,
ia e vinha pelas ruas do horto, lembrando um automato ou um somnambulo.
s vezes abeirava-se da porta de casa e punha-se a escutar. Como no
sentia nada, voltava de novo ao seu passeio. N'isto, de uma vez que
passava em frente do cancello, pareceu-lhe ouvir passos.

-- Thomaz!

--Sr. Jos!--respondeu o que entrava, n'uma voz que era mesmo voz de
barqueiro.

O Cosme sentiu ento uma grande vontade de chorar, mas remordendo os
beios dominou-a. Como o barqueiro estranhasse encontral-o a p, elle
ento redarguiu-lhe que nem se tinha deitado.

--Como tinha de madrugar...

--Pois so horas de largar, sr. Jos; isto vae p'r'as duas. No tarda
que comece a amanhecer.--E como estavam  porta de casa:--Ser bom
acordar j o pequeno: veste, no veste,  tempo que se vae.--Iam  vela
se o tempo no mudasse. Era bom aviar, por isso.

Mas  ideia de ter de acordar o pequeno, o Jos Cosme deixou-se cair
sobre o banco que estava debaixo do alpendre, e desatou a chorar
violentamente.

O barqueiro tentou animal-o, constrangido.

--Ento, sr. Jos?... O chorar  l para as mulheres. Olhem agora que
homem!--E tentava levantal-o, pol-o de p.--Limpe l essas lagrimas, que
vae affligir o pequeno! Ou quer que elle v a chorar todo o caminho?

O Cosme fez que no com a cabea, violentamente, e poz-se a enxugar os
olhos com a manga da camisa.

--Pois ento levante-se l.--E segurou-o com fora por baixo dos
braos.--Assim! L porque o pequeno vae para o Brazil no fique
vossemec a pensar que o no torna a ver.

Mas era isso mesmo o que elle pensava...

--Porque no sei que me adivinha que no torno a ver o pequeno--concluiu
a chorar o Jos Cosme.

--Scismas! lembranas que veem  gente quando est afflicta. Mas ha-de
vel-o que o no ha-de conhecer, digo-lh'o eu. Mais anno menos anno,
apparece-lhe ahi rico...

Rico! bem lhe importava a elle que o pequeno viesse rico. O que desejava
era que voltasse e que elle ainda fosse vivo s para o abraar.

Pois sim, mas era preciso aviar, que tivesse paciencia: o Jos Cosme que
se animasse para animar o pequeno--recommendava o barqueiro.

--Sim... sim...--tartamudeava o Cosme.--Vamos l com Deus! Com'assim..

E n'um profundo ai dolorosissimo, foi-se direito  porta para chamar a
pequeno. No havia remedio, tinha nascido em m hora, havia de ser
desgraado at que o levassem para a cova... Sobre a estreita e humilde
cama o filho dormia profundamente. Que dr, ter do o acordar! Vieram-lhe
tentaes de mandar embora o Thomaz e deixar dormir a creana. Quem sabe
se a sua sorte futura, se toda a sua vida, valeria a boa tranquillidade
d'aquelle somno! No tinha coragem para o acordar, fazel-o vestir: era
quasi um peccado quebrar aquelle ultimo somno dormido sob o tecto
paterno... O ultimo somno! o ultimo somno!

--Ainda se o deixassemos acordar...--aventurou-se a dizer o triste.

Mas o Thomaz que estava com pressa, lembrou seccamente que eram horas de
pr o barco a andar.

O Jos Cosme accendeu ento a candeia, reccioso de que a luz o
acordasse, e achegando-se do filho poz-se a escutar-lhe a respirao.
Dormia!... Mas brandamente pousou-lhe a mo sobre a cabea e chamou
baixinho, quasi ao ouvido, beijando-o, sobresaltado como se fosse
praticar um grande crime:

--Filho, olha que so horas, meu filho...

Quando o pequeno se sentou na cama, estremunhado, ainda sob o
estonteamento do somno, cerrando os olhos quella hostilidade viva da
luz, o pae agarrou-se a elle n'um abrao, e ambos romperam a chorar.

--Adeus, pae!

--Adeus, filho!

Confrangido, o Thomaz que se deixara ficar  porta, avanou para desatar
aquelle abrao.

--Olhe que  tarde, sr. Jos. Perdoe, mas olhe que  tarde!

O pae vestiu o pequeno, beijou-o ainda muito, e sairam. Debaixo do
alpendre, o Joaquimsito ficou-se um instante a olhar o tecto.

--A andorinha, filho?--perguntou o Jos Cosme.--Deixa que eu hei-de
olhar por ella, mais pelos filhos quando os tiver. Vae socegado.

Mas o pequeno quiz vel-a, pediu ao pae que o erguesse, era s um
instante. L estava ella, coitadinha! sentiu-a estremecer quando lhe
tocou com as pontas dos dedos...

--Adeus!--disse-lhe o pequeno afagando-a.

A esta palavra, o pae retrahiu os braos e tomando o filho no collo
seguiu. Atraz, o barqueiro levava ao hombro a misera arca de pinho: toda
a bagagem do Joaquim.

Ao transpor o cancello o Jos Cosme deteve-se um pouco e perguntou
soluando:

--Quando voltars ao horto, meu filho?

O pequeno no respondeu. Chorava constantemente de ver que o separavam
de tudo o que adorava--a andorinha, depois da andorinha o horto, as
arvores, a velha nora, o cancello, tudo emfim.

Atravessaram ento a estrada e tomaram para a banda do rio. Quando o
sentiram murmurar, aperraram mais o abrao, deram-se um longo beijo,
humido das lagrimas que ambos derramavam. Ah, como o triste pae desejava
que o rio ficasse ainda longe, mui longe, que fugisse deante d'elles, de
modo que nunca o alcanassem! Mas eis que a areia principiava,
divisava-se j perto o vulto escuro do barco onde os da tripulao
fallavam alto.

--Prompto?--perguntou ainda de longe o Thomaz.

Do barco responderam que era s marchar, de mais a mais ia romper a lua.

Chegaram emfim. N'um leve silencio d'acaso ouviam-se os soluos dos
dois, parece que prolongados infinitamente, na sua expresso de
angustia, pelo deslisar monotono das aguas... Aquillo confrangia o
barqueiro, elle tambem era pae... Por isso, mal chegaram  beira do rio,
apressou-se a dizer para o pequeno:

--Ora bem, Joaquimsinho, beija a mo a teu pae e dize-lhe adeus.

Ouviu-se um chorar lancinante, a voz do pobre Jos Cosme a querer animar
o filho:

--Ento, meu filho?... Deus te abenoe, meu amor... Nossa Senhora te
veja ir.--E fez-lhe prometter que havia de resar sempre a Nossa Senhora,
elle tambem lhe resaria, pois era ella quem dava saude, quem fazia a
gente feliz.

--No te esqueas d'ella mais da alminha de tua me e de tua irm...

Mas o pequeno chorava cada vez mais, agarrado ao pescoo do pae,
beijando-o sofregamente, acarinhando-o, sem foras para dizer palavra.
Ento o Jos Cosme, perdida a esperana de animar o filho, s exclamava
desvairado:

--Valha-me Deus! O Senhor me valha pela sua infinita misericordia!

E o Joaquim sempre agarrado a elle, beijava-o na cara, na cabea, nas
mos. At que o Thomaz teve de intervir, era preciso despegar d'ali por
uma vez.

--Com'assim, sr. Jos, isto tem de ser...--E segurando o pequeno com
fora puxou-o para elle. Quando j o tinha nos braos, ouviu-se o Jos
Cosme que supplicava de mos postas:

--S um instante, s um quasinadinha, Thomaz!--E o pobre pae caia de
joelhos na areia, n'uma attitude de supplica.

Mas n'esse momento, o barqueiro saltou de um pulo para o barco, levando
ao colo a creana.

--Rema!--intimou em voz rapida.

O barco recuou ento subitamente, ao mesmo tempo que os remos fizeram
_plhau_! sobre a agua.

Ento o choro do Jos Cosme tornou-se de uma violencia desesperada, ao
ouvir a voz lacrimosa do pequeno dizendo-lhe adeus l do barco.

--Adeus, Joaquim, adeus!

--Adeus, pae!

--Adeus!

Mas repentinamente, com voz resoluta e firme, o Jos Cosme gritou na
direco do barco:

--Thomaz!  Thomaz! por alma de teu pae faz l alto um instante.

Acabou-se! custara-lhe tomar aquella resoluo, mas j agora era melhor
ficar ssinho de todo. E segurando nos dentes um pequeno objecto,
arremessou a jaqueta ao areal e d'um lance deitou-se a nado. O Thomaz
que ouvira o mergulho do corpo, fez recuar o barco; mas o Jos Cosme,
velho nadador destemido, com meia duzia de braadas ganhou-lhe de
prompto a quilha. O filho tinha-se debruado, na ancia de esperar o pae,
de o ver ainda outra vez. N'um movimento rapido, o Jos Cosme entregou
ao pequeno o que levava entre os dentes, dizendo-lhe a chorar:

-- a medalha, Joaquim;  a medalhinha de tua me, meu filho!...
Reza-lhe, sim?!

E chorando cada vez mais, o pobre Jos Cosme pediu ao barqueiro que lhe
chegasse o pequeno para o ultimo beijo...

Dado o ultimo beijo, o barco poz-se de novo em marcha. Vinha a romper a
lua, enorme, torva, afogueada, como se viesse de algum banho de sangue
em regio mysteriosa de lagrimas... E no silencio agoireiro da noite,
apenas cortado pelo bater monotono dos remos e pelo bracejar desalentado
do triste nadador,  voz do filho que chamava respondia cada vez de mais
longe--longe como se fra do Infinito! a voz lacrimosa do pae--com o seu
funebre _adeus_! que elle bem sabia ser eterno...

       *       *       *       *       *

...S quando o echo do ultimo adeus do Joaquim, perdido na distancia,
diluido no luar que surgia, desfeito no lugente murmurio das aguas,
fundido no derradeiro suspiro da brisa matinal, deixou de chegar 
praia,  que o pobre abandonou o areal e se foi, sempre a chorar,
tiritando ao frio da sua desgraa, como a um vento agudissimo do Polo,
na direco do horto silencioso...




COMEDIA DA PROVINCIA

_A Alberto Braga_.


I

PRELUDIOS DE FESTA


Esse anno, a festa da senhora das Dres devia ser coisa de estalo. A
comear pelo juiz, todos os da mesa eram de respeito--abonados e
decididos. Tanto assim, que o fogo preso, que afinal era o melhor da
festa, vinha l de Chaves, longe que nem seiscentos diabos. Mas era obra
de geito, acabou-se! Tinha-se dito ao homem que trouxesse coisa que
representasse uma cegonha. O homem respondera que sim, e dava mesmo a
entender que traria mais animalejos, uma bicharada, talvez um macaco, se
tivesse tempo de o acabar.

--Homem de uma canna! resumiu o juiz quando acabou de lr a carta. E
correu a espalhar a noticia, orgulhoso de que no seu anno a _coisa_
fosse de arromba! Depois, era um despique. No anno atraz, o Jos da
Loja, que tinha sido o juiz, gabara-se do seu fogo, s porque vinha l
uma pea que era um castello a dar tiros, assim: Fff! Pum!

--Ora deixa estar que eu te arranjo... murmurou com os seus botes o
Antonio Fagote. E sorria satisfeito, de se lembrar que na noite do
arraial todo o povo o havia de acclamar, dar-lhe vivas pelo fogo que
apresentra. Espalhou-se a novidade. Uma hora depois, na villa, ninguem
fallava n'outra coisa.

--Ento voc j sabe?

--J sei. A cegonha.

--A cegonha e o mais: um cavallo, um bezerro...

--O que eu quero vr  o camello. Feio bicho, j viu?

--Pintado. No Monteverde se me no engano. Logo adeante do _Valente Rei
Arauto Fiel_.

Enganava-se.

O escrivo da camara, que tinha laracha, encontrou-se na rua com o Alves
aferidor.

--At que emfim, amigo Alves. At que emfim vou ter o gosto de o ver
arder.

O outro no percebeu. Que se explicasse...

--Um urso, no arraial queima-se um urso.

--Ento ardemos ambos, redarguiu embezerrado o Alves.--Tambem se l
queima um burro.

s duas por tres, o Antonio Fagote viu a casa cheia de gente. Quem no
ia, mandava recado: todos queriam saber se vinha o animalejo da sua
predileco.

O homem comeava a azedar-se. Chegou mesmo a mandar fechar a porta, por
dentro.

--Pe a tranca, se fr preciso.

Mas ento era c da rua:

-- sr. Antonio!

E na porta as pancadas ferviam:

--Truz! truz! truz! Sr. Antonio!

--na! c'um raio de diabos!--fazia l de dentro o homem, furioso.

--O senhor faz favor?  s uma palavrinha.

 janella assomava ento o Antonio Fagote, com os oculos na ponta do
nariz e a carta do foguetorio na mo.

--O camello? perguntava zangado.--O urso?! Camellos me parecem vocs,
ouviram? O que o homem diz  isto.

E lia a carta, rematando:

--Uma cegonha, outros animalejos, quem sabe l o que sero, e talvez o
macaco, se houver tempo de o acabar. E agora, sabem que mais?... Tirava
os oculos e ia-se embora, capaz de os trincar a todos.--Irra!

E l de si para si pensava que era melhor ter guardado segredo. No
fosse elle burro... Mesmo porque cada um comeou logo a inventar
animaes, e todos  que no podiam vir. Claro! E no vindo todos, ahi
tinhamos ns descontentes. E havendo descontentes, quem lucrava era o
Jos da Loja.

--Temos o caldo entornado! pensava afflicto o Fagote, amedrontado com
aquelle espectro do Jos da Loja, o seu rival! De mais a mais, j lhe
tinha chegado aos ouvidos que o outro agoirava mal do negocio...

--Farofias! tinha dito o Jos da Loja. Farofias!

--Pois se m'o diz na cara, arrebento-o! vociferava o Fagote, quando tal
soube.

E arrebentava, que o Fagote era homem para isso, tinha pulso. Desde
rapaz que uma lenda de valentia se fizera na sua vida: contavam-se
proezas, desde uma vez que varrera uma feira, por causa de eleies.
Depois, bom olho para a caadeira. D'uma occasio, que foi preciso dar
montaria aos ladres, portou-se como um leo, foi elle que deu voz de
preso ao chefe da quadrilha. E como foi que lh'a deu? A phrase ficou
lendaria:

--Como-te a alma se te mexes!

--E o outro no se mexeu, que elle comia-lhe a alma! commentavam
convictos.

Como esta, muitas outras. E foi talvez por estas proezas que a sua
figura adquiriu para a velhice o geito desempenado que tinha. Estava com
60 annos e a sua attitude viril impressionava ainda agora. No era
nutrido, mas era sanguineo, tez morena, cara rapada, olhos pequenos, uma
largura de hombros que era o principal indicio de fora. Pescoo curto.
Mesmo a brincar, quando cerrava os punhos e arremettia com fora,
conhecia-se-lhe a rijeza dos musculos n'aquelle movimento sacudido.

--Safa! que isso ahi  de ferro! diziam os rapazes. D'uma canna, hein?

Mas bom homem, d'uma grande franqueza de modos, simples e affavel. Para
se sair era preciso pical-o. E uma vez, quando era juiz ordinario, uma
testemunha tanto o picou em audiencia, que elle desceu l da cadeira,
foi-se a ella e quebrou-lhe a cara. Por isso fallava srio quando
promettia arrebentar o Jos da Loja. A mulher interveio pacificadora:

Que no desse ouvidos a ditos. Deixasse o homem, que no era to mau
como o pintavam.

-- mulher! cala a caixa e no me defendas esse velhaco! redarguiu o
Fagote. Do que elle  capaz sei eu.

Mas n'esta occasio, de todas as velhacarias do Jos da Loja, s lhe
lembrava uma: ter sido juiz o anno atraz!

Isto parecia-lhe com effeito uma velhacaria, feita a elle que era juiz
este anno.

--Pois tu que pensas? dizia elle para a mulher. Quem me metteu a festa
em casa foi elle. Elle  que se lembrou de me escolher, como quem diz:
entrego-te a vara, sempre quero vr como te arranjas...

--Nome do Padre, do Filho... A mulher benzia-se das idas do seu
Antonio.

--Sejam idas, que no sejam! teimou o Fagote. Isto foi tal e qual,
assim me Deus salve!

--Mas quem t'o disse, homem? Quem foi que t'o disse?

--Quem m'o disse? Olha! E mostrou-lhe o dedo minimo da mo direita.--Foi
este mindinho. No falha.

E ento desabafou: que no pensasse o Jos da Loja, que o havia de
levar  parede. Agora levava! A festa ha-de se fazer, e festa de
arromba; _nanja_ como a d'elle que s levava seis anjos, e no sei
quantos andores, acho que meia duzia!

-- mulher, ento  para que saibas onde chega o brio d'um homem!
Caramba! Sendo preciso, ouves? sendo preciso at vendia a camisa do
corpo. Nem trinta sanfonas como o sanfona do Jos da Loja! E espipava
olhos de colera para a mulher que remendava uns saccos, compungida de
ver assim o seu Antonio.

E poz-se ento a renovar ordens, recommendaes que a mulher j estava
farta de ouvir. Mas com tempo  que as coisas se pensavam, no era ao
atar das sangrias!

--Leites se os c no houver, manda-se o Miguel  cata d'elles por
esses povos  roda. Querem-se de 7 semanas, tres pelo menos.

A mulher contraveio:--dois seriam bastantes...

--Mau que ahi principiamos ns!--E poz-se a assobiar e a rufar com o p
no soalho, arreliado.--Tres  que ho de ser. No quero c dois, porque
dois eram os do _outro_, o anno passado.

A esta razo, a mulher calou-se. O Antonio Fagote gostou do silencio da
mulher, que o lisongeava nos seus despeitos contra o _outro_.

--Agora no fanfas tu... insistiu elle, risonho.  assim mesmo que eu
gosto. Signal  que tens vergonha. A _outra_ tamem no  mais que a ti.

A _outra_ era a mulher do Jos da Loja, est visto.

--Nem mais, nem tanto, emendou a Luiza Fagote, abespinhada.

--Isso mesmo! abundou o juiz da festa. No me lembrava agora que antes
de casarem...

--E olha que depois de casada... insinuou a sr.^a Luiza, de venta no ar,
enfiando a agulha. Cala-te bocca.

Faamos de conta que a bocca se calou, com effeito. Que no se calou.
Mas n'este particular, o resto do dialogo convm que se omitta, mesmo
porque afinal nem eu nem os senhores queremos mal  mulher do Jos da
Loja. Ha-de perdoar-me o Antonio Fagote, mas n'isto no lhe fao a
vontade. O pudor acima de tudo! E ademais elle bem sabe que eu sou
conhecido da mulher. Adeante. Basta que lhes diga que por uma associao
logica de idas a conversa veio parar em vitellas...

-- preciso vermos como ha-de ser isso da vitella, disse o Antonio
Fagote. Sem vitella  que se no faz nada. Uma perna sempre se gasta.

Combinaram fallar com tempo ao Manoel Cortador, segurar esse negocio. De
mais a mais sabia-se que o prgador dava o cavaco por um bom pedao de
vitella assada.

--O prgador  que arrasta ahi muita gente, observou a sr.^a Luiza. Para
um boccado de sentimento no ha como elle. Quando foi das misses, o que
elle dizia d'aquelle pulpito abaixo!  quanto se pde!

--A mim o devem, se c vem!--disse orgulhoso o Fagote. Que o homem no
queria vir, desculpava-se com a saude: que tinha de ir a umas caldas, e
14 leguas a cavallo por estas caniculas eram de acabar com elle.

--Isso desaba ahi o poder do mundo! Em se sabendo que  o missionario...

Estavam n'isto, quando bateram  porta. O Fagote foi ver  janella.

--Bem, muito obrigado. E a senhora mestra? Estimo, estimo.

Era a creada da mestra regia, foram abrir.

--A senhora mestra manda muitos recadinhos, saber como est a sr.^a
Luiza, e este bilhetinho para o sr. Antonio.

Entraram todos na saleta. Como era j tarde, o Antonio Fagote foi
accender uma luz.

Que conversassem, emquanto elle via se tinha resposta.

--Muito calor, comeou a sr.^a Luiza.

--E ento a casa da sr.^a mestra que  mesmo um forno, disse por demais
a creada.

E antes que a conversa pegasse, avisou a sr.^a Luiza, ao ouvido, de que
lhe queria uma palavrinha.

Foram para uma varanda que havia nas trazeiras. A tarde descahia, n'uma
serenidade calma. Sentaram-se uma junto da outra, muito familiares.

--Est se aqui bem! exclamou consolada a sr.^a Luiza.

--Est. E ento bonitas vistas. Mas o que eu queria dizer era pedir-lhe
um favor, disse atrapalhada a creada.

--Se estiver na minha mo...

A outra comeou: A sr.^a Luiza estava ao facto do que se dizia d'ella
com o criado do inglez. Decerto estava ao facto. Mas era mentira.
Jurava-lhe pelo que havia de mais sagrado que era redonda
mentira.--Estamos para casar!  o que estamos! Elle j mandara vir os
papeis l da terra, no podiam tardar.--Est claro que eu tenho
affeio ao rapaz...

--Elle esteve ahi doente uma temporada, interveio a sr.^a Luiza, para
dizer alguma coisa.

--Esteve. Umas quartans que o iam arrebanhando. Mas  ahi que eu quero
chegar.

--Que experimente o limo azedo, aconselhou a sr.^a Luiza.  milagroso
nas quartans. No se afflija, que isso no ha-de ser nada.--E
dispunha-se a consolar a rapariga, a dizer-lhe tudo o que sabia de bom
para matar quartans, pensando que era o que ella queria, afinal.

--No senhora. O rapaz est melhor. Caso  que no recia. Mas  por via
d'isso que eu lhe quero pedir um favor.

Chegou para ella o banco de cortia e confidenciou:

--J o andam a desinquietar para ir com os mais furtar a bandeira,
qualquer noite. E elle vae, prometteu que sim. Mas veja, n'aquelle
estado! inda no ha nada que sahiu da cama.

--Pelos modos, os rapazes vo este anno longe pelo pau, disse com pompa
a sr.^a Luiza.--Muito longe!

--Ouvi que  Ribeira Velha, ao lameiro do Canellas. E logo com quem
elles se vo metter, o Canellas! Se desconfia, vae-se para l de clavina
e faz alguma desgraa. Mais elle, que  atrevido!

Cautelosa, a mulher do juiz redarguiu que l onde elles iam pelo pau 
que ella no sabia.

--A outra noite  que para ahi estiveram a combinar, o meu Antonio mais
os mordomos. No ouvi.

--Pois  l! exclamou a creada. Mas o que eu queria, sr.^a Luiza,  que
o seu marido me no deixasse ir o rapaz na malta,--supplicou afflicta a
rapariga.

--L isso, esteja descanada, no vae! prometteu com grande auctoridade
a sr.^a Luiza.--Digo-lhe eu que no vae. E se no quer mais nada...

--Era s isto, muito agradecida  senhora.

N'esse momento entrava o Fagote, em mangas de camisa, os oculos para a
testa.

--Ora pois ento aqui vae a resposta. M letra, a sr.^a mestra que
desculpe. Mas emfim que leia como podr.

--Ento muita massada co'a festa? inquiriu solicita a rapariga.

--Muita. Faz l ideia? Massada e despesa. Olhe que se faz despesa. Todos
os dias so precisas coisas, mais isto, mais aquillo. Ahi est que j
hoje mandei pedir para o Porto uma palheta para o clarinete do Alves.

--Chh! fez admirada a rapariga.

--Pois  verdade. Fra o mais! fra o mais! Nicas! E depois d'uma
pausa:--S com o que se gasta no jantar, e  verdade que ha muita coisa
de casa, mas s com o que se gasta no jantar, a bem dizer que se fazia
uma horta, alm no prado.

--Muita gente... disse a rapariga.

--Muita! e depois de certa aquella...  meza talvez vinte e quatro
pessoas...

A rapariga benzeu-se!

--Vinte e quatro, p'ra mais que no p'ra menos, insistiu o Antonio
Fagote.--Olhe: o prgador...

--Isso dizem que  coisa asseada! interrompeu a rapariga.

--. No o ha melhor. Missionario...--explicou o juiz. Pois o prgador,
um; com mais quatro padres, cinco; com quatro musicos, nove; o compadre,
os pequenos, dois, doze.

--A comadre no vem! que pena! fez do lado a sr.^a Luiza.

--No. O compadre e os pequenos j disse. Doze. O Morgado da Fonte e o
Antonio Capador, quatorze. O Telles,  verdade, Telles escrivo, quinze.
(_Pausa_). Com mais alguem que venha, vinte e quatro. Pde-se contar com
mais de vinte e quatro pessoas  mesa.--E a rir-se: Mas ha-de sobrar
muita coisa, graas a Deus... E depois os pobres?

--Isso ento  uma praga! exclamou a sr.^a Luiza. At parece que veem do
cho assim... E collocava em pinha os dedos todos das mos ambas.
Assim...

Mas fazia-se tarde, a rapariga despediu-se.--Adeusinho! o que havia de
estimar  que tudo corresse como desejavam.--E se fr preciso qualquer
coisa... offereceu-se. As minhas fracas posses...

--Obrigada. No faltaro occasies. Muitos recadinhos  senhora
mestra...

--E que hei-de estimar que o mano chegue de saude, concluiu o Antonio
Fagote.

E ento explicou  mulher: Aquelle bilhete da mestra era a mandar-lhe
perguntar se sempre era certo vir o macaco de fogo.

--Diz que o irmo, o brazileiro, assim que souber que ha macaco de fogo
no arraial, no tem mo em si que no venha. E Deus o queira, porque o
ponho ao pallio. Como tres e dois serem cinco.

A senhora Luiza quiz saber a resposta que lhe mandra.

--Disse-lhe que sim. Pois?! O que eu quero c  o brazileiro. Sempre 
homem que sabe dar o merecimento s coisas... Mas o diabo agora  o
macaco! ponderou muito apprehensivo. Est para ahi meio mundo  espera
do macaco...

A senhora Luiza quedou-se pensativa, absorta no seu receio de que o
bicho no viesse.

--Tte! fez o Antonio Fagote, batendo uma palmada rija na testa.--D c
d'ahi a minha vestia. Manda-se uma parte ao homem.

--Tambem pde ser, concordou a senhora Luiza. Mas hoje  que no,
aquillo j est fechado, o fio.

--Vae manh. Agradeo favores. Traga macaco sem falta. Isto. Talvez
accrescente: No se olha a dinheiro. Mas  que accrescento, por via
das duvidas.

Ento, a senhora Luiza confidenciou quasi ao ouvido do homem:

--Ouves? j se no pde ir ao lameiro do Canellas pelo pau.

--Han? qual pau?

--O da bandeira. Todo o mundo j o sabe.

Elle riu-se.

--Todo o mundo, hein? Melhor! Oh! oh! todo o mundo!...

E como ella ficasse estupefacta.

--Nunca ouviste dizer que se pe o ramo n'uma porta e que se vende o
vinho n'outra?

--Ah!...

--Mas so verdes. Pois ahi  que vae a historia, e cantarolou,
satisfeito:

O ladro do negro melro
Onde foi fazer o ninho

       *       *       *       *       *

Mas o melhor do caso foi no dia seguinte, quando logo de manhsinha o
Antonio Fagote sentiu bater  porta, de rijo.

--Vae l ver o que ser,  Luiza!--disse da cama o Fagote sobresaltado.

No tardou nada que o Jos Manco lhe entrasse de rompante pelo quarto.

--Vista-se, homem! Ande d'ahi depressa! Vista-se.

--Ha novidade? perguntou logo o Fagote, sobresaltado.

--Vista-se! com dez milhes de diabos! Insistiu o outro.

--Hom'essa! fez espantado o Fagote. Alguem  morte?

--Peor do que isso! resumiu o Jos Manco.

--Peor do que isso, ento no sei...

--No tardar que o saiba. Avie-se, que eu c o espero na rua.

O Antonio Fagote vestiu-se  toa, aparvalhado. Foi j na rua que acabou
de enfiar a jaqueta. As correias dos sapatos iam de rastos, no levava
chapeu.

--Prompto! c estou!

--Venha comigo, avie-se. Abote as calas, se faz favor.

E rodaram rua acima.

--Diabo! mas ento...? ia perguntando o Fagote.

--Aguarde, que j vae saber. No tarda.

De quatro escanchadas foram dar ao adro da egreja.

--Roubaram Nosso Pae, aposto?!

--Peor! redarguiu o outro. Peior! Alto ahi! Ora arregale-me esses olhos
e veja vossemec isto, esta porcaria!

E tragicamente, o Jos Manco apontou para meia folha de papel, pregada
na torre com miolo de po centeio mastigado. Era um pasquim! Varios
desenhos de animaes, sobresaindo um burro de grandes orelhas, aos
coices. E no fundo, em grandes caracteres, isto:--_Farofia_!

Por um pouco, Antonio Fagote, de mos atraz das costas, amarasmou-se,
com os olhos fitos no papel.

E quando o outro pensava que elle ia romper desaustinadamente n'uma
escamao, aos labios do Antonio Fagote aflorou apenas um sorriso.

--Hum! resmungou. Bem sei...

--No tem que saber,--fez o outro.

--O patife do Jose da Loja...

--Pois est visto.

--Bem, levar quatro lambadas, epilogou com grande socego o
Fagote.--Arranque l isso, e venha voc d'ahi, se quer ver.

O Jos Manco no queria ver, fazia ideia. Mas opinou prudentemente que
era melhor botar o patife ao desprezo.

--Pois sim, disse o Antonio Fagote, dobrando em quatro o papel e
mettendo-o na algibeira de dentro.--Pois sim!

Mas o outro que o conhecia, insistiu no pedido, com certos argumentos
arrancados do codigo penal. Que no fosse agora pagar por bom
semelhante estafermo. Como mordomo, tambem era com elle a offensa, com
elle Jos Manco. Mas fazia de conta... Como o outro que diz, vozes de
burro no chegam ao co.

--Bem, levar s uma lambada, attendendo a que mais ninguem viu isto,
disse n'um grande ar de condescendencia o Fagote.--E voc v l regar a
horta.

Foi-se d'alli direito  casa do Jos da Loja. Estava ainda fechada.
Poz-se  cca, de longe, com a ira muito exulcerada pela arrelia
d'aquella demora.

--Grande co! grande co! monologava.

At que emfim reparou que a porta se abria. Era o rendeiro em pessoa, de
casaco de lona e chinelos de trana, muito fresco. No deu pelo Antonio
Fagote seno quando se viu ao p d'elle, cara a cara entre o balco e a
porta.

-- sr. Jos.

--Dir.

--Venho aqui saber d'um caso.

Tirou do bolso o papel, desdobrou-o, devagar, e depois de lh'o pr ao p
da cara:

--Foi o sr. Jos que fez isto?

O outro olhou-o, attonito.

--Sim! se foi o sr. Jos que fez isto?

--Nada, eu no senhor.

--Jura pela boa sorte dos seus filhos?

Aqui, o tendeiro entupiu, desconfiado.

--Jura pela boa sorte dos seus filhos? repetiu mais de rijo o Fagote.

O Jos da Loja, moita! Ento o juiz explicou-lhe:

-- porque se jura, muito bem. Se no jura o caso  outro.

-- outro, que outro?!--disse arrogante o Jos da Loja, n'um impeto,
barriga panda sob o casacorio de lona.

--Isto!--E foi-lhe uma bofetada para a cara.--E muito caladinho, que eu
tambem no digo nada. Agora o papel, olhe! Fel-o em pedaos, e
atirou-lhe com elles  cara aparvalhada.

Sahiu d'alli e foi _matar o bicho_, tranquillamente, como quem vem de
cumprir uma obra de misericordia.

       *       *       *       *       *

Na vespera da festa, um sabbado s 10 horas da manh, o fogueteiro
passava emfim n'um deslado da villa direito  capella da Senhora das
Dres. Largou um foguete, que estrondeou no ar, galhardamente.

--O fogueteiro! chegou o fogueteiro!

Por toda a villa passou um longo fremito d'enthusiasmo quando se ouviu o
foguete. Deshabituados, os ces ladravam, em correria doida pelas ruas.
O rapazio levantou-se em algazarra, e correu ao encontro do fogueteiro,
a admiral-o, a offerecer-se. Na labuta viva das casas renovavam-se
ordens j dadas. Aquelle foguete era a bem dizer o primeiro ruido da
festa, no havia tempo a perder. De casa dos mordomos saiam esbaforidas
as creadas, com ordem de se informarem do que precisaria o sr.
fogueteiro. Alguns mais previdentes mandaram almoo, e que dissesse o
que queria para o jantar.

Solemnemente, o juiz da festa atravessou quasi a correr a villa,
perguntando a todo o mundo se o que estoirra tinha sido effectivamente
um foguete.

--Foi foguete! pois que duvida! diziam-lhe radiantes. Promettia, sim
senhor! promettia! Se fossem todos assim... Caramba! que estoiro! Pum!

--P'ra que saibam! clamava o Antonio Fagote. E ento isto? e punha-se a
girar de volta com o brao--o que  fogo do cho?--Mas tinha-se visto em
calas pardas para que o homem no faltasse. Complicaes! Pelos modos
tinham-no convidado para outra festa, com mais bagalhoa, est claro. O
caso tinha estado srio!

Mentia.

--Hein? mas no o enganavam?

--Qual! era o fogueteiro sem tirar nem pr. L ia elle a atravessar as
eiras, com duas bestas carregadas. Caramba! duas cargas de fogo!

O juiz botou a fugir. Quando passou pela porta do abbade, gritou c da
rua:

--Senhor abbade!  senhor abbade!

--Que  l?

--Chegue  janella, faz favor?

--Mas est muito sol, entre voc, se quer.

--S duas palavras:

O abbade, um rapaz novo, assomou  janella.

--Que ?

--Chegou o homem!

--O homem! que homem?

--O fogueteiro, quem ha-de ser?

--Ah, sim, disse o abbade a rir-se, velhaco. E voc vae ter com elle?

--De cara.

--Faz-me ento um favor?

--Dir.

--D-lhe recados meus.

E retirou-se da janella, a rir, emquanto o Antonio Fagote proseguia no
seu caminho, esbaforido, espalhafatoso, perguntando a toda a gente se
aquillo tinha sido o fogueteiro.

--Grande homem! com seiscentos diabos!

Quando chegou ao adro estava tudo cheio de rapazes, em redor dos dois
machos carregados. O Fagote cuidou morrer de contente. Foi-se ao
fogueteiro, com furia.

--Esses ossos! e abraou-o arrebatado, enternecido, chamando-lhe seu
amigo, seu grande amigo.

--Rapazes! gritou elle ento. E tirou o chapeu da cabea, muito
solemne.--Viva o senhor fogueteiro!

--Viva!

...Isso no juro, porque no reparei. Mas estou em dizer aos senhores
que o Antonio Fagote--chorou!...


II

TYPOS DA TERRA


Desembocaram n'um largo. Era o ponto mais central da terra,--_a
praa_.--Aqui e alli, ao acaso, algumas arvores enfezadas, quasi tudo
olmos brancos, vegetavam a medo, com os troncos protegidos por velhas
grades de madeira, desmanteladas. Era um terreiro vasto, muito chato,
com casas em volta,--o que na villa havia de melhor em construces.
Ficava ao meio o pelourinho, exotico, mutilado, d'uma pedra grosseira e
muito negra. Era uma alta columna de oito faces, com o seu annel de
ferro ao meio, e uma argola pendente do annel. A columna, que se eleva
sobre um pedestal de tres degraus, em hexagono, terminava ao alto n'um
grande _X_ de pedra deitado horizontalmente. Um espigo de ferro, de
tres gumes como os floretes de esgrima, irrompia hostilmente do meio do
_X_, perfurando o espao. Em volta, a casaria era triste, sem estylo,
sem gosto, sem cal. Algumas _pedras d'armas_ em velhas paredes
decrepitas, desequilibradas, hydropicas, attestavam aristocracias
remotas, agora de todo extinctas. Ao alto, dominando a negrura
chamuscada dos telhados, o velho castello, romano de origem, fazia
tristeza com as suas ameias derrocadas, e as grossas paredes em ruinas.
Ao lado do castello erguia-se destacadamente a velha torre do relogio,
d'uma architectura primitiva. Tinham dado onze horas, mas eram apenas as
sete: aquelle--_estafermo_-- que no andava nunca direito. De dia
ninguem o entendia, com o seu ponteiro de ferro girando n'um mostrador
sem lettras, d'uma pedra azulada. De noite fartava-se de badalar,
alvoroando a povoao como se fosse a fogo, ora atrazado ora adeantado,
dando meia noite quando eram quatro da tarde, e meio dia mal despontava
o sol.

Eram as sete. quella hora  que os--_figuros_--da terra, quasi tudo
empregados publicos, vinham para o largo,  fresca. Alguns
passeavam,--seu fraque, sua bengala de canna com casto, chapelinho 
banda, sapato branco um ou outro. Nas escadas do pelourinho, sentados,
outros do mesmo feitio cavaqueavam,--colletes desabotoados, perna
cruzada, chapeu para a nuca, s tres pancadas. Um de pera comprida, no
degrau superior, contava facecias. Os outros riam alarvemente,
chamavam-lhe intrujo. Algumas--_madamas_--pelas janellas em volta,
nostalgicas, anafadas, de claro.  porta do estanco, em cima, havia
outra roda,--uns de p, outros sentados em caixas, alguns montando
cadeiras de pinho. Era a--_roda mais forte_,--quasi tudo maiores
burocratas:--o Mello da Administrao, o Antunes da Camara, o Escrivo
de Fazenda, o Rodrigues do Real d'Agua. E outros.  porta, perfilado e
muito cerimonioso, o dono do estanco, alto, esguio, flexivel, com a sua
cara rapada e o seu chin castanho, eriado e velho. Era de maneiras
feminis, uma tallinha melliflua, cantante, viva, muito desempenado
quando andava, saracoteando-se todo, em biquinhos de ps como se fosse
levantar vo. Chamavam-lhe Ernestinho. No se podia fallar deante d'elle
n'um rato morto, n'uma carocha. Aquillo fazia-lhe nervoso, enojava-o,
ficava-se a cuspinhar meia hora, dizendo constantemente:

--Ai Jesus! ai Jesus! Caticha! Nossa Senhora do Carmo! Nem sei como no
lano fra.

E se riam, elle exasperava-se: no comprehendia como podessem fallar em
taes coisas... De resto, bom sujeito, finorio para o seu negocio,--um
poucochinho beato,--diziam-lhe.

--Meu proveito. No que eu no quero a minha alma nas penas do inferno,
a arder. Leiam a _Misso Abreviada_, leiam esse rico livro.

E as palavras sahiam-lhe a correr, espremidas nos seus labios delgados,
um poucochinho sibiladas nos _ss_.

--Cigarros, Ernestinho, um vintem d'elles. Querem-se dos de Lima,
d'esses fortes.

Declarou que tambem havia dos especiaes. Algum senhor queria? Tinham
chegado tres massos, p'ra ver. Oito por um vintem.

--Pois guarde-os!--disseram alguns, horrorisados com a ida de dar um
vintem por oito cigarros.--Guarde-os!

O senhor engenheiro, quando vinha  villa, perguntava-lhe sempre por
elles. Dos de Lima nem o cheiro, no gostava.

--Olha o figuro!--disseram a rir. Por esse mundo fora sempre ha muito
idiota! forte cavalgadura!

O Ernestinho veio com os cigarros, em feixe nas pontinhas dos dedos. 
porta, antes de os entregar contou-os de novo. Doze. Estavam certos.

--O senhor Ernesto, se faz favor, ponha isto l no caderno, ao p dos
outros.

Ernestinho foi para dentro, contrafeito, fazer o apontamento. Houve um
silencio opprimido, o dos cigarros tossiu para o quebrar, ao mesmo tempo
que n'um gesto acanhado, receoso, fazia meno de offerecer:--alguem
era servido?

Dentro do balco, ao p das garrafas com licr, e das botijas de
genebra, Ernestinho sommava a conta. Era j taluda.--E vo dois e dois
quatro e dois seis, seiscentos e vinte! Sabe Deus quando os
receberia!--E suspirava, arrumando os massos encetados, sob o olhar
tranquillo e indifferente do Santo Antoninho que l estava em cima, ao
alto das estantes quasi vazias, no seu nicho feito d'um caixote forrado
a verde, com flores artificiaes muito sujas e duas velinhas dos lados.
Mas resignava-se, que no tinha outro remedio. Eram os ossos do
officio...

C fra tinham dado f, acotovellavam-se chamando asno ao
Ernestinho,--um pulha a quem ajudavam a viver... Se hoje no ha
dinheiro, ha-o amanh, essa  boa! E pagava-se, c'os diabos! E
pagava-se. Mas no senhor! aquella besta mostrava sempre m cara, o
alarve! A culpa tinham-na elles, afinal que o procuravam, que o
preferiam. Tomaram os outros ter aquella freguezia...

O dos cigarros fiados annuia, assobiando baixo o _Agua leva o
regadinho_. Por fim levantou-se, lentamente, com um ar de enfado, um
sorrisinho de despeito nos labios, encolhendo os hombros.

--Estender as pernas,--disse. Quem vem d'ahi?

Todos ficavam, era uma estopada andar p'ra traz p'ra deante, n'aquella
semsaboria da praa.

--At logo. Voc apparece no _sitio_,  noite?

--Appareo, vou  desforra.

E cumprimentando em roda:

--Meus caros! Muito boa tarde, sr. Ernesto.

Foi-se, puxando para baixo as pernas da cala, alisando as joelheiras.

--Que tal est o asno, hein? Quer, ainda por cima, que o Ernestinho lhe
diga _bem-haja_...

Era um parvo.--Era um tolo.--Tinha dividas nos outros estancos.--Em toda
a parte.--L em casa a familia passava fomes.--Um batoteiro de marca.

Houve agitao, alguns pozeram-se de p, outros mudaram de logares. Ia a
passar um grande carro de palha chiando muito. Ernestinho chegava-se de
novo, muito ronceiro, roendo as unhas.

--Com que ento... _ponha l ao p dos outros_?--disseram-lhe, para o
lisongear nos seus despeitos.--Bem bom freguez!

Elle encolheu os hombros e cerrou os olhos, beatificamente, n'um gesto
de martyr resignado. E no disse palavra--p'ra fallar d'aquelle tinha de
fallar tambem d'elles...

Mandaram vir limonadas,--tres limonadas!

--Ahi vo trinta ris!

Diabo! era preciso animar aquillo. Assim no tinha geito. E pozeram-se a
fallar do tempo, das moscas, d'aquelles idiotas que andavam na praa a
dar-se ares. Ensoberbecia-os a ideia de que iam tomar tres limonadas,--e
sentiam-se felizes, alegres, um tanto estroinas.

O Ernestinho deu dois passos fra da porta, e chamou para a varanda,
onde grandes mangerices floriam:

-- Emilia! Emilinha!

A mulher assomou, gorducha, muito molle.

--Tres limonadas, ouves? Tres limonadinhas, depressa.

As conversas animavam-se. Pois senhores! havia de ser difficil encontrar
uma colleco d'asnos assim. Falavam dos que passeavam na praa, aos
grupos.--Deus os faz, Deus os ajunta. O palerma do Fernandinho dera-lhe
agora para cantar. L andava elle. Volta meia volta,

_Vai alta a lua na manso da morte_

com umas tremuras na voz, que eram mesmo de o esbofetear. Estava
antipathico, aborrecido, desde que andava de namoro com a Marques. S
tinha uma coisa boa--a caligraphia.--Um talhe de letra
bonito,--confessavam.--E as calas, hein? reparem vocs n'aquellas
calas, vae flammante. Casualmente, Fernandinho olhou de longe para os
do estanco, disse-lhes _adeus_ com a mo, affavel. Corresponderam todos,
muito risonhos, mas a chamar-lhe nomes por entre os dentes:--idiota,
palerma, pechisbeque...

Ssinho, n'uma lentido moribunda, olhos nas botas, olhos no co, o
Telles escrivo passava ao largo, ruminando alguma poesia. s vezes
quedava-se extatico, suspenso, o pollegar esquerdo entre os dentes, um
olho cerrado fortemente, a meditar. Vinha um gesto e punha-se de novo em
marcha, contrafeito.

-- senhores! mas no me diro em que anda a parafusar o Telles, aquelle
telhudo? E isto:--e poz-se a imitar o escrivo.

Riram. O Mello imitava-o bem, o alma do diabo, no andar especialmente.
Mas aquillo era um logogripho. Ha uma semana s turras a um logogripho
em acrostico.

--Isso  o Telles!--fez um que vinha da praa.--Aquillo  um intrujo.
Na rua no  que se adivinham logogriphos.  Ernestinho, voc ainda tem
d'aquillo que _ferve_?

O Ernestinho deixou descair o labio, no percebia...

--Homem! d'aquillo que vinha n'umas garraforias escuras, compridotas...

--Quer dizer gazosas. Uma rolha segura com guitas...

--Ora  isso mesmo, nem mais.

--Bem sei.

Mas no tinha j. Nem mesmo queria mais, p'ra que? Achavam caro um
tosto...

--Eram aos tres para beber uma garrafa...

--Podera! Por um pataco, trinta ris levando o assucar, fazia o _Hervas_
uma sda,--objectaram alguns. Ponha l que em gosto  a mesma coisa.

--E aquella porcaria,  Ernestinho, e aquella porcaria amarella que
sujava tudo de escuma?

Alguns cuspiram, disseram ao Alves que se calasse, que vomitavam, com
seiscentos diabos!

--Cerveja!--disse o Ernestinho--cerveja! uma coisa que l p'ra baixo
toda a gente bebe por gosto, as senhoras mesmo.

E com um sorriso de desdem, exclamou:

--O que  ser do calcanhar do mundo! Em nome do Padre, e do Filho...

Mas na praa um grupo altercava. Ouviu-se distinctamente a
palavra--_pulha_--pronunciada com fora. Sahiram em tropel, ficaram s
tres.--O que pagava as limonadas exultou:--Homem! nem de proposito!
Ficava exactamente quem elle queria, estava mesmo a ver que aquella
sucia lhe chupava o refresco:

--T Russa! j l vae esse tempo.

Precisamente, a senhora Emilia chegava, com os copos n'uma bandeja:--Que
provassem, diriam se precisava mais assucar. Mas parecia-lhe que devia
estar bom...

Beberam d'um trago, estava optima. A senhora Emilia tinha dedo para
aquellas coisas.

--Obrigado,  Mello!

--Obrigado,  menino!

E os dois sairam de rompante, chamando _pato_ ao Mello, rindo-se d'elle
e limpando os beios.

Quando o Mello ia sahir,--a ver o que ia na praa,--o Ernestinho, muito
cortez, objectou-lhe que faltavam trinta ris:--Se alli no tinha,
depois. Isso era o mesmo...

--Mas trinta ris?!... De que so os trinta ris?--perguntou desconfiado
o Mello.

--Do assucar, foi do refinado,--explicou o Ernestinho. O mascavado
acabou-se. Amanh ou depois j devo ter mais. O senhor Mello desculpe.

No tinha que desculpar; smente notava que aquellas coisas diziam-se no
principio.--E sahiu sem dar mais palavra, furioso:--Uma ladroeira! Tres
vintens no valiam os dois que lhe tinham chupado o refresco...

Na praa tinha cessado a altercao, os grupos, reunidos, formavam uma
grande roda, commentava-se. O Mello quiz informar-se:--que lhe
contassem--_o escandalo_.

Ora! no fra nada: o Veiga que se tinha lembrado que as
correspondencias na _Voz do Districto_ eram escriptas pelo Albano.
Disse-lh'o na cara. O Albano negou, deu a palavra de honra. O Veiga que
 casmurro, teimou:--que no acreditava, ainda assim!--Vae o outro
chama-lhe pulha, iam-se pegando. Ora ahi est!

--Mas afinal, quem diabo escreve aquillo?--quiz saber o Mello. Aquillo
ha-de ser escripto por alguem, est claro.

Dez ris pela novidade! Que havia de ser escripto por alguem sabiam
elles...

--Quem, ento?

Divergiam as opinies. Podia ser Fulano, podia ser Beltrano. Um ou outro
dava a sua palavra de honra que tambem no era elle, jurava-o. Houve um
que se lembrou se aquillo seria do padre Mendona.

--Qual! Do padre Mendona no . Fazia coisa melhor, se se mettesse
n'isso. Olha o padre Mendona, o da _gibreira_ de Braga...

Mas o da ida insistiu, renitente:--havia alli suas coisas que o faziam
lembrar, certas facecias, como a de chamar _Frei Asneira_ ao Reitor e
_Cabea de Comarca_ ao Felisberto.

--Pois se  elle, que se regale, pde limpar as mos  parede. Mente
como um alarve, mente da primeira linha at  ultima!--disse firmemente
o verdadeiro auctor das correspondencias. Olhem o que elle diz do juiz
de direito, s calumnias! O juiz! um homem teso! Tem l o seu fraco
pelas saias, mas isso, que diabo! isso no  defeito.

De resto, eram todos accordes em que as correspondencias eram uma
infamia. O que se chama uma infamia pegada. Mexericos e mais nada, uma
coisa de soalheiro. E depois, o dizer-se l que entre os rapazes no
havia duas amizades leaes, que era tudo uma impostura...

Houve um silencio significativo, talvez de approvao.

--S de pulha!--rematou, por fim o Nunes da Fazenda, o tal que escrevia
as correspondencias com o pseudonymo de _Aramis_. Vejam vocs aquellas
gallegadas ao commendador. Aquillo chama-se l fazer politica?!
Discuta-se o homem como presidente da camara, sim senhor, discuta-se o
homem publico, o funccionario; mas deixe-se-lhe em paz a _marreca_, os
fundilhos das calas; ninguem quer saber se os creados lhe param em casa
ou se no. E depois, aquellas alluses  famlia, aquellas piadas  D.
Engracia, pobre velha...

--A quem?--interrogaram uns poucos.  Dona qu?

-- D. Engracia, est bem de ver. Aquella beata que fazia piugas de l
aos missionarios  ella. Presumo eu que  ella-fazia o Nunes das
correspondencias com um grande ar de supposio. Eu c foi para onde
deitei.

Os outros no. E como o das correspondencias tinha promettido explorar a
chronica beata, aguardariam mais informaes. Suppunham, no emtanto, ser
com a D. Joanna, a do--_ch de herva cidreira_.--Outra canalhice! A D.
Joanna, para festejar os annos da filha, convidra tudo, _lazares e
penicheiros_, no fizera politica. Depois foi aquella tareia que se
viu:--que o ch era herva cidreira, que tinham bolor os doces de ovos,
que ella parecia a quaresma e a filha o entrudo. Ora isto no se diz, a
pobre mulher doeu-se. Citavam-se de cr phrases inteiras da
correspondencia. Por exemplo:--_A deusa da festa dizem que recebeu
telegrammas de... amor_.--Uma facecia de mau gosto alludindo ao Proena
telegraphista. Depois do que por ahi se diz,  forte... Que afinal, quem
sabe l? Entre os dois que diabo pde haver? Namoro?

No grupo alguns tossiram forte, rindo. O Nunes interveio:

--No senhores! Isto agora alto l. A Amelia  uma rapariga sria...

Riram s gargalhadas, foi um barulho com a tosse.

--Quando digo uma rapariga sria... Mau! Accommodem-se l com o _banz_,
vocs deixem fallar,--tornou o Nunes, formalisado. Quando digo uma
rapariga sria, quero dizer... sim... quero dizer...--e procurava a
phrase, entalado,--por exemplo, que ella no  capaz de receber ninguem,
alta noite, l pelos quintaes, como o tal das correspondencias quer
fazer suspeitar.

Iam replicar-lhe, mas elle atalhou:

--Chama-se quillo ser canalha s direitas, arre! Isto agora  fallar
franco.

Saltaram-lhe:

--E voc jura,  Nunes? voc jura?--perguntou, com gesto perfurante, o
Alves dos Pesos e Medidas.

No... isso agora...Jurar, no jurava, mas, c'os diabos! pelo que se
via, pelo que se podia julgar...

--Lria!--disseram todos.

O Nunes parece que estava com os beios com que mamra. Com que ento,
para elle era tudo uma rcua de _santas_? Desenganasse-se, que era tudo
uma canalha, uma corja de sonsas. Que diabo de ingenuidade!

O Nunes observou modesto, quasi agradecido:

--Ingenuidade, eu te digo... No  bem isso... O que sou  prudente.
Desconto sempre noventa por cento quillo que vocs dizem, ahi  que
est...

--Vocs  um modo de fallar,--emendaram alguns.

--Vocs, digo eu, vocs... quando escrevem correspondencias,--explicou
sophisticamente o Nunes.

Calaram-se, disfararam. Proximo d'elles, a Amelia toda de verde, com
guarnies de fita preta, caminhava ao lado da me, solemnemente.
Tiraram todos o chapeu, cortejando risonhos, respeitosos. O Nunes foi
cumprimental-as, submisso.

--Dar o seu passeio, no  verdade?--E apertando-lhes a
mo:--Vosselencia como passou? A senhora D. Amelia? Obrigadissimo.
Assim... assim...

Ento? que diziam quelle calor?

--Abafava-se, alli pelas duas. Que forno!

--O Brazil tal e qual--reforou o Nunes.

Mas que fra feito, que as no tornara a ver desde os annos? Uma noite
de truz, aquillo sim!

--Olhe, senhora D. Amelia, a flauta... a flauta  que nem por isso, foi
pena! O Abelsito andava constipado.

A D. Amelia explicou. A me ficara doente, j no era para aquellas
noitadas.--E em voz mais baixa, quasi dolente:

--Depois, veio a _Voz do Districto_, aquillo chocou-a muito.

--No ha tal!--fez a me. Metteu-se-te isso na cabea. Deixe-a fallar,
senhor Nunes.

E por pouco que no chorava ao dizer isto.

O Nunes affectou um sentimento profundo:--Era melhor no fallar n'isso,
no pensar em tal; todos as conheciam, todos lhes faziam justia. Tinham
acabado de fallar na tal correspondencia, agora mesmo. Uma
garotada!--resumiu o Nunes.--E em tom confidencial:

--Anda-se na pista do garoto. Elle ha-de apparecer. E depois... e
depois... Muito boa tarde, minhas senhoras! O que fr soar.  preciso
dar um exemplo,--concluiu terminantemente. Uma severa lio!

Despediram-se, ellas agradeceram ao Nunes--a parte que tomava no seu
desgosto.--E seguiram cumprimentando para as janellas, perguntando se
vinham d'ahi, um boccadinho at  capella, espairecer.

As Silvas pediram que subissem. Um boccadinho s. Ficava muito bem
aquelle vestido  Amelia.

No podiam subir, talvez  volta.

--Pois sim, has-de ver o meu bordado a missanga. O papagaio est quasi
prompto, que trabalho!

Estava na duvida se lhe poria o bico assim, de gancho. No gostava. O
risco era do Fernandinho. J lhes fizera outro, talvez mais bonito.
Coisas de anjinhos:

--Vers.

Os grupos tinham-se reunido em volta do Pelourinho. Passava gente que
vinha do trabalho, da labuta aspera da eira,--homens com malhos, e
mulheres de cestas  cabea. A tarde descahia n'uma serenidade calma. No
degrau de cima, o Paula, official da administrao, com fama de typo de
chalaa, cantava em surdina umas cantigas de caserna, obscenas,
zaranzando na barriga como se fosse uma guitarra. De volta, os outros
formavam roda. Todos riam, pediam _bis_.

--Tu has-de conhecer isto,  Chico,--dizia o Paula para o Francisco
Maria, um cabo que estava de licena. Tu has-de conhecer isto.

O administrador do concelho, um pobre diabo desmazelado e philosopho,
affirmava que lhe lembrava Coimbra, a pandega das viellas. Ao Paula
valia-lhe a prenda, palavra de honra que lhe valia a prenda, seno j o
tinha demittido, s vezes que lhe entrava borracho pela repartio. E
pedia a rir, boalmente:

-- Paula, aquella do _bate-bate_, canta l.

E trauteava as primeiras notas, castanholando com os dedos.--Se era
preciso, o Fernandinho ia pelo violo.

-- verdade, voc que fez hoje que no me appareceu na repartio, 
Fernando?

--Dormi, est claro. Ao senhor doutor acontece-lhe o mesmo s vezes.
Olhem que pergunta!

Mas o Paula tinha-se calado, bocejava.

--Ento,  Paula...--supplicava o administrador.

--Est fechado o realejo... Depois.

Quem lhe dera que fossem as nove para irem at ao sitio. Ou perder ou
ganhar; tinha alli seis tostes que eram para um _mico_.

--Mas eu no lhe dizia, sr. doutor? eu no lhe dizia hontem que a _dama_
se negava? Eu estava mesmo a ver aquillo... Bem feito! gramou um
entalo que se consolou.

--Quatro coras.--Na vespera tinha ganho um quartinho.

N'esse momento passava o juiz, ssinho como sempre. Todos tiraram o
chapeu, elle passou gravemente, cortejando.

--Quem eu te quero  perna  o _Aramis_...--rosnou o Telles escrivo que
embirrava com o juiz desde que o suspendera uma vez.--E ainda elle no
sabe tudo...--insinuava perfidamente.

--Pois o resto diga-lh'o voc, diga-lh'o no _Almanach de Lembranas_, em
verso--fez d'um lado o Rodrigues do Real d'agua.

O Telles, com famas de litterato, redarguiu que no dava confiana a
analphabetos.

--E eu a brutos, sabe voc?

Mau! que elles l comeavam. Officiaes do mesmo officio...  senhores,
l porque ambos faziam versos no se seguia que devessem embirrar um com
o outro. Pelo contrario.

O Telles, furioso, disse que no embirrava com o outro, que nem lhe dava
essa importancia, essa honra.

O Rodrigues ia saltar-lhe, tiveram mo n'elle. Mas jurou que d'outra vez
seria, que fizesse de conta que j l tinha na cara quatro bofetadas
tesas.

--Tesas, hein? ol! quatro bofetadas tesas.

Havia de dar-lh'as, to certo como dois e dois serem quatro, s para ter
o gosto de dizer depois, n'um communicado, que desaffrontara as lettras
portuguezas,--elle, o Rodrigues, elle, um simples fiscal do Real d'Agua.

Aquillo fez surpreza, convidaram-no a explicar-se.

--No senhores! dizia colerico o Rodrigues, com grandes gestos.--Bem sei
que no valho nada. Escrevi,  verdade que escrevi; fao ainda o meu
verso quando me d na cabea. Uma rapaziada! Esto maus? Concordo. Mas
no ha de ser aquelle _ngalh_ que o ha-de dizer. No o julgo
habilitado. L porque tem soletrado dois romances, no se segue. Mas o
que mando para publico sim, o que entrego aos prelos-- meu!--E batia no
peito com a larga mo espalmada, furioso, n'umas raivas, de orgulho
triumphante.--No roubo! nunca roubarei!--affirmou mais alto o
Rodrigues, para que o Telles que se ia retirando, no meio de dois
amigos, conciliadores, o ouvisse.--Repito: no roubo, no fao como
elle!--E as palavras sahiam-lhe salivadas, violentas, por entre os
labios espumantes, atiradas ao Telles como pedradas.

Os outros escutavam agora com interesse. Estavam a dar razo ao
Rodrigues, instinctivamente, sem comprehender bem o que elle queria
dizer.

--As provas...--e metteu a mo no bolso do seu casaco de lona, com
impeto:--as provas, vel-as aqui esto!

Mostrou no ar a brochura verde do _Almanach de Lembranas_.--Era do anno
que vem, tinha-lhe chegado hoje. Alli estava o Peres do correio que lh'o
tinha entregado elle mesmo.

--Sou testemunha--confirmou do lado no sei quem.

O Rodrigues, ento, affirmou que era preciso historiar, contaria a coisa
em duas palavras. O sr. Telles, o borrabotas do sr. Telles, lembrara-se
um dia de ser escriptor, de ser poeta. O alarve! Todos os annos--zs!
versalhada para o _Lembranas_...

--Era collaborador--disse o Antunes da Camara que admirava o talento de
Telles.--Era collaborador.

--Era qu?--interrogou logo o Rodrigues, de mo atraz da
orelha.--Massador, massador  que elle era. Nunca lhe admittiram as
asneiras, se me faz favor, nunca! Na _correspondencia_ troavam-no,
chegaram a dizer-lhe que podia fazer fortuna pelas tombas, que o no
chamava Deus para as lettras. Aquelle _Serei ousado_?  elle, sei que 
elle. Nunca o admittiram.

--Lembro-lhe a _Flor do Campo_, sr. Rodrigues, lembro-lhe esses
versos--insistiu o Antunes.

O Rodrigues teve um risinho feroz, fitando o Escrivo da Camara. No lhe
respondeu. Subiu os tres degraus do _pelourinho_, pausadamente, com
pompa, e chamou a atteno dos amigos. Ia ler. Abriu o _Almanach de
Lembranas_, onde trazia um papel, e rompeu:--Indignidade.

--Em lettras bem gradas, queiram inspeccionar.

E colou ao peito o _Almanach_, voltando para fra na pagina onde o seu
dedo reboludo apontava a terrivel palavra, escripta ao alto em
epigraphe.

Houve um sussurro, alguns pediram silencio. O Rodrigues que lsse.

Os versos intitulados _Flor do Campo_, que viram a luz no _Almanach de
Lembranas_ do anno extincto, foram-nos remettidos pelo sr. Jos Maria
Telles, escrivo.

--Copiados por mim, uma letra floreada--esclareceu o Fernandinho.--Elle
depois assignou--e fez no ar, com o dedo, o trao complicado da firma
complicada do Telles.

Pediram silencio outra vez. O Rodrigues continuou:

Publicmol-os na convico de que eram da lavra d'aquelle senhor, pois
que elle os assignava.

--E ento?--perguntaram uns poucos, sem comprehender ainda.

--Pura illuso!--continuou solemnemente o Rodrigues.--Escreve-nos o
mimoso e assaz conhecido poeta sr. Alfredo Mendona, dizendo que os
versos lhe pertencem, e que o sr. Telles os roubara (sic) do seu volume
_Lyra Matutina_.

Foi uma estupefaco! O Rodrigues proseguiu mais alto, fugindo aos
commentarios:

Averigumos, e d'isso alfim nos convencemos. Os leitores avaliaro a
probidade do sr. Telles, a quem mais de uma vez tinhamos fechado a nossa
porta por incapaz. Hoje damos-lhe com ella na cara--por indigno.

E o Rodrigues fechou o livro com estrondo, como os outros fechariam a
porta na cara do Telles escrivo; tomou praa fra, o livro debaixo do
brao, e foi-se para o estanco do Ernestinho, altivo, solemne,--vingado!

Os da roda seguiram-no silenciosos, corridos de vergonha, desnorteados,
porque alm de sempre terem julgado o Telles muito superior ao
Rodrigues--e o Rodrigues bem o sabia, olha elle!...--tinham dado uma
sorte de mil demonios, agora  que elles viam! distribuindo no theatro,
por occasio da festa de Santa Barbara, a _Flor do Campo_ que elles
tinham mandado imprimir avulso--para lisongear o Telles que tivera o
trabalho de os ensaiar no _Santo Antonio_. Hein? quem diabo havia de
dizer que aquelles papelinhos de cr, uns verdes, outros amarellos,
chovendo sobre a plateia entre o segundo e o terceiro acto, e quasi
disputados a murro, n'um alvoroo de seiscentos diabos, encerravam uma
insidia,--um logro  boa-f,  credulidade ingenua de toda a comarca!

E relembravam episodios, particularidades quasi extinctas: o Fernandinho
vestido da menino do cro, batina vermelha e roquete de rendas,
cobrindo-se de teias de aranha l pelo frro do theatro, de gatinhas e
com um tco de vela na mo, aos tropees, s para ter o gosto de ser
elle a despejar do _oculo_ aquella papelada; o Mello da administrao,
vestido de Frei Antonio, sandalias e grande chin de calva redonda,
feita d'uma bexiga de porco, com o Telles em triumpho por entre os
bastidores, seguido pela turbamulta dos companheiros, em habitos de
frade e fardetas de galuchos, dando vivas ao _poeta_! ao grande Telles,
ensaiador da rapaziada!

Que desastre! Afinal tinha-lhes sahido um intrujo! E quasi se regalavam
da sorte que tinham dado, pelo prazer que sentiam de o ver agora
humilhado, corrido, esbofeteado pelo ridculo. Bem feito!

O Antunes da Camara, sobretudo, estava furioso. Fra elle o da lembrana
de se mandar imprimir a versalhada. Escrevera para Coimbra ao Manuel
Caetano, ao Manuel Caetano da Silva, Praa Velha n.^o 11, que mandava os
impressos para a camara, e pedira-lhe aquillo como especial favor. O
homem--prompto. Duzentos exemplares, quinze tostes. Quinze tostes que
se tinha combinado dividir por todos, contas do Porto, mas que
desembolsara elle s, afinal. Bem feito! ninguem o mandava ser burro.
Arre! cavalgadura!

E dava patadas no cho, cada vez mais furioso, apopletico.

--Mas a bem dizer, tudo isso  nada!--continuou commovido o Antunes.--
senhores! e a figura que eu fiz... sim, a figura que eu fiz n'aquelle
intervallo do drama para a fara?...

Todos desataram a rir, tinha sido fresca... Elle sempre acontece cada
uma! E relembravam:--levantara-se o panno quando os ouvintes menos o
esperavam. Os que tinham sabido l fora, s doceiras, voltaram
apressadamente com os cartuchos na mo, ensacando os rebuados. Ia um
rebolio pela plateia. Na galeria dos camarotes para onde s iam
senhoras, gente fina, comeavam a apparecer caras barbadas de sujeitos
que iam saber que tal, perguntar se ia uma pinguinha de licr, um
docinho. Em cima, na galeria alta, creadas e raparigas do povo,
debruadas no parapeito, apontavam para o palco, d'olhar attonito.

--Elle que dianho ?--perguntavam.

De baixo, da plateia, todos faziam _chut_! voltados l para cima:

--Caluda, sua gentalha!

No palco estavam todos perfilados, trajando como na pea. O Freitas da
recebedoria com o seu fato de Marco Aurelio; o Paula de cardeal, baculo
em punho e a cara mettida n'uma estriga; o Fernandinho de menino de
cro, todo lpido; a Anna Pisca muito acanhada no seu fatinho de Olivia;
a Margarida que tinha feito de anjo no quadro final da _Gloria_, em que
ella subira n'um cesto vindimo  regio sidra dos astros; o pae de
Santo Antonio, em ceroilas e de saia branca pelo pescoo, livido como
saira do tumulo; aquella canalha da tropa--todos emfim!

N'isto, entra pelo fundo o Telles todo de preto, no meio do Mello
vestido de Santo Antonio e do Proena telegraphista que fazia de Frei
Ignacio. Avanaram. Em baixo, o Felisberto mandou tocar o Hymno da Carta
 meia duzia de musicos que no entravam na pea. O hynmo rompeu com
grande estampido de pratos, n'uma cadencia funebre. No palco, tudo
immovel. Ninguem sabia o que era aquillo, no estava no cartaz.
Esquecimento do Fernandinho, talvez... pensavam.

Mas ao acabar o hymno, o Antunes da camara, com farda de centurio,
durindana e botas d'agua, irrompe furioso do buraco do ponto e prga um
discurso na bochecha extatica do Telles:

No era elle o mais competente, de certo, o mais... etc. Mas tinham-no
encarregado, obedecia... e tal. S sentia no ter phrases, oratoria,
porque emfim estava falando a um poeta...--collaborador do _Almanach de
Lembranas_ para Portugal e Brazil--accrescentou voltado para o publico,
esclarecendo. Emfim, finalmente... vinha para aquillo: dar-lhe um abrao
em nome de todos...--e abraou-o commovido, emquanto os espectadores
berravam _apoiados_, dando palmas--... e para isto--accrescentou
fazendo com a mo que se calassem, que se calassem depressa.

Houve um sussuro de applauso, dos camarotes creanas gritavam--
Emilinha! Era com effeito a Emilinha, a filha do Alves dos Pesos e
Medidas, que sahia tambem do buraco do ponto, vestida de anjo, tules
verdes e muita lentejoula a brilhar.

Ficou-se a olhar a plateia, immovel, muito fria, ensaiada, emquanto o
Felisberto preludiava na flauta. Em certa altura, n'um requebro doce da
melodia, elle fez-lhe com a cabea que entrasse, e a Emilinha rompeu
n'uns guinchos, cantando a _Flor do Campo_, com musica da _Muchagateira_
original do Peres do correio.

O Telles sorria, entre glorioso e modesto, fallando a Santo Antonio e a
Frei Ignacio:--Era de mais, era de mais, elle no merecia...--Ora essa!
pareciam dizer-lhe os outros--seriamos ingratos se...

A cantoria acabou, o theatro parecia desabar com palmas, tudo berrava,
um ou outro co latia. Se no quando, os do palco desataram a rir,
cosendo-se uns aos outros, fingindo um grande medo de que as bambolinas
do tecto desabassem.

Todos olhavam, curiosos. E n'aquella espectao viram de repente descer
do alto, sobre o palco, agarrado a uma corda, o Freixedas da Mercearia
vestido de Lusbel, rubro e com chavelhos. Cuidaram de estoirar a rir. Da
bocca muito inchada sahiam-lhe faulhas, do algodo a arder que l trazia
dentro. Fazia caretas horrendas, arremedando Satanaz nos impetos da
colera. O panno comeou a descer, obliquo, esfarrapado d'uma banda. O
Freixedas, suspenso, atirou fra o algodo e gritou, furibundo:

--Alto! suas bestas! Inda no!...

Voltou-se de costas para o publico, e um letreiro que trazia d'hombro a
hombro dizia em caracteres amarellos--_C'est fini_! O panno desceu
ento, estabalhoadamente. Os espectadores olharam uns para os outros,
no tinham percebido... Foi n'esse momento que o sr. Antoninho, que
tinha estudado em Braga, traduziu d'um camarote, em voz alta:

--_ findo_!




V[AE] VICTORIBUS!

_A Maria Lucilla_.


Em dezembro, s seis  noite cerrada. Mais boccado, menos boccado, a
essa hora recolhia do monte o Jos Gaio, ssinho, sachola ao hombro, um
pouco atarantado com a trovoada que rugia ao longe, em surdina. Por cima
d'elle, o co ia-se fazendo cada vez mais negro, d'essa negrura espessa
de tempestade que infunde pavr  gente, e da qual os proprios passaros
teem medo. Cessara de chover. Mas o vento do sul principiava agora,
agitando os grandes ramos despidos dos castanheiros, fazendo-os murmurar
no sei que extranha elegia... A um relampago mais vivo, o Jos Gaio
apressou o passo, e, benzendo-se, rezou a _Magnificat_. O trovo chegou,
depois, lugubre, cavernoso, alastrando-se em roldes na larga amplitude
do co. Debaixo dos ps, o Jos Gaio sentia o caminho lamacento,
encharcado das enxurradas valentes de todo o dia. Mas a ponte j no
ficava longe. Depois, a ladeira, e no meio da ladeira a casa.

--Vamo' l com Deus! fazia elle animando se.

Um claro subito de relampago deslumbrou-o. Deante d'elle surgiu de
repente a paizagem, e de repente desappareceu, feericamente illuminada.
Deitou ento a correr, aterrado; mas to forte veio em seguida o trovo,
que elle instinctivamente parou e levou ao co as mos afflictas, n'um
gesto de quem implora misericordia. N'aquella imminencia de perigo as
proprias arvores lhe pareciam immobilisadas pelo terror,  beira do
caminho. E atravez dos castanhaes, o surdo rumor do vento era como a voz
implorativa da natureza, unindo-se  voz d'elle n'um longo cro de
supplicas...

O Jos Gaio ia transido. Mas peor ficou quando de repente, sem saber
d'onde, alguem chamou por elle, lugubremente:

-- Jos Gaio!

O homem parou. E como perto d'elle apenas enxergasse os braos da cruz
negra, que era o signal de alli terem matado o Jos Tendeiro, ha annos,
apertou o passo e tomou por um atalho, direito  ponte. Mas ento a
mesma voz tornou-lhe mais de perto:

-- Jos Gaio!

Quiz fugir, mas o medo parece que lhe tolhia as pernas. N'isto veio um
relampago que illuminou a mil cres a paizagem. Elle cerrou os olhos com
fora, nervosamente, ferido por aquelle deslumbramento que por milagre o
no prostrou. E quando o trovo bramiu, rudemente, uma immobilidade de
estatua prendia o camponez  terra. Foi ento que veio de novo aquella
voz, como um prolongamento do trovo:

-- Jos Gaio!

Ia avanar para ganhar a ponte. Parecia-lhe que, uma vez transposta,
galgaria a ladeira n'um instante. Mas involuntariamente, cedendo a uma
fora violentissima, entrou de retroceder, cambaleando. Aquelle rugir da
agua que logo abaixo da ponte fazia cacho, rugir violento mas monotono,
infundiu-lhe um grande pavor. Teve medo e deixou-se retroceder... Seno
quando, estacou ouvindo a mesma voz:

-- Jos Gaio!

E logo atraz da voz, com um rastro, um intensissimo relampago cr de
sangue. Viu tudo vermelho, afogueado, tudo menos aquella cruz preta de
longos braos, sempre abertos e sempre firmes, que pareciam desafiar a
tempestade...

Aquella serenidade da cruz estonteou-o. Dir-se-hia que esse nobre
exemplo de altivez vinha agora humilhar mais a sua fraqueza. Desviou os
olhos e cerrou violentamente as palpebras. Mas em vo! que fra to vivo
o deslumbramento, e tanto lhe ferira o cerebro, que n'um fundo cr de
sangue, como n'um transparente de magica, elle via nitidamente
desenhada, sempre firme e sempre altiva, a cruz que o estonteara. Ento
deram-lhe impetos de fugir; uma onda de coragem parecia dilatar-lhe o
peito impellindo-o. Precisamente n'esse momento, a voz tornou a chamar:

-- Jos Gaio!

Sentiu-se alquebrado, transido at ao mais intimo do seu ser. Um longo
desfallecimento invadiu-o todo, quebrando-lhe a ultima fibra de energia,
como se quebra um vime secco. Aquella paralysia atacou-lhe tambem o
cerebro: no formava um s raciocinio nem elaborava sequer uma ida, a
mais simples. E foi preciso um grande trovo para todo elle tremer,
abalado como a propria terra. Depois, outro relampago fez reviver n'elle
a vida do espirito; sentiu um grande pavr quelle aspecto subito do
campo que deante d'elle se perdia de vista, afogueado como se estivesse
todo em chammas. Aqui, um pinhal, uma ermida alm, para toda a banda
casaes, surgiam de repente, nitidos nos seus contornos, definidos
maravilhosamente nas suas attitudes. As grandes arvores despidas,
sobretudo, tinham um ar phantastico, n'essa pureza nitida de recorte que
traava na luz as sinuosidades mais delicadas dos troncos e ramarias. No
meio d'este scenario de magica, a um tempo magestoso e tetrico, o triste
camponez sentia-se apavorado, jactitante e quasi inerte, alli chumbado 
terra, hirto como a cruz que tinha deante. E nem um s gesto
implorativo, e nem uma s palavra de supplica lhe sahia dos labios
crispados. Porque uma vez que tentra uma palavra, o mais formidavel
trovo cortara-lh'a na primeira syllaba. Depois, aquella voz no o
largava, imperturbavel e monotona:

-- Jos Gaio!

E elle, no respondendo nem fallando, pensava esconjural-a, exorcismal-a
como se fosse a voz d'um duende. E para esta evocao do sobrenatural
muito concorria, como os senhores comprehendem, esse aspecto sereno da
cruz negra, inabalavel sob a aza agitada da procella.

N'isto veio a chuva, em grossas gottas a principio, em cordas d'agua
depois. Ella varejava-o inclemente, impellida agora por um vento sul
furioso. No deu um passo para procurar um abrigo, no se mexeu sequer.
Como todo elle ardia em febre, aquelle diluvio era quasi um celeste
beneficio para a sua cabea n'um vulco. Mas quando os relampagos
vieram, aquella reverberao da luz nas cordas d'agua fez-lhe um
deslumbramento mais forte. E cahiu inerte sobre o caminho lamacento por
onde a agua escorria impetuosa, ao mesmo tempo que a voz do costume,
sobrelevando o trovo, repetia do lado da cruz:

-- Jos Gaio!

Cobarde, sujo como um sapo, encharcado at aos ossos, como cahiu assim
ficou--de brco. Depois, quando abriu os olhos, na larga poa onde quasi
tinha a cara, via reflectir-se a cruz, a cada relampago. Ella l estava
no seu posto, altiva, serena, intemerata, recta como um exemplo... E
pois que parara o diluvio, dos seus braos abertos as gottas da chuva
cahiam, vermelhas  luz, como grossas lagrimas de sangue...

Cobarde! Nenhuma comparao pde dar ida do estado de prostrao d'esse
miseravel, reduzido pelo terror a uma quasi inaco de besta morta.
Dir-se-hia um immundo trapo alli cahido, abandonado alli na lama ignobil
de um caminho,  espera da enxurrada que o levasse... Era abjecto!... E
emquanto esse animal assim jazia, atordoado, como boi que uma malhoada
prostrou, ao fundo do horizonte, para sul, o encastellamento phantastico
das grandes nuvens plumbeas, listradas de negro e roxo, metralhando com
furia o largo espao, aos quatro ventos, era tudo quanto o nosso
espirito pde conceber de mais grandioso e de mais sublime, epico e
tragico a um tempo, soberbo, magestoso, imponente.

Mas a voz sempre a ouvia, por cima do vento e por cima dos troves,
aquella voz:

-- Jos Gaio!

Assim largo tempo, horas talvez. O torpor do frio aggravava-lhe o outro,
o do medo. Parecia colado  lama, preso ao caminho como se fosse uma
rocha. No emtanto, a espaos, tinha a comprehenso clara da sua posio
e do seu estado. E ento uma raiva subita galvanisava-o: queria
erguer-se, fugir, desapparecer--erguer-se como aquella cruz, fugir como
aquelle vento, desapparecer como esses relampagos, que nem deixam rastro
na treva...

Taes rebates de coragem eram, porm, ephemeros, impotentes para lhe
provocarem um movimento. Aquelle diabo tinha de morrer alli,
miseravelmente, ignobilmente, como um co a que houvessem amputado as
quatro pernas. E esta ida, que o instincto de viver lhe suggeriu,
apavorou-o ainda mais que a propria tempestade. Morrer alli! Mas que
duvida, se ninguem lhe vinha acudir, se no passava por alli viv'alma, a
taes deshoras! Era horrivel! No meio de um caminho, n'uma noite medonha
de tempestade, ao p d'aquella cruz negra de longos braos
hirtos--morrer alli!... Eram ento j por elle as lagrimas que essa cruz
parecia chorar?...

Estava n'isto, quando n'um silencio de acaso ouviu passos a distancia.
Vinha gente. Quem quer que era tinha de passar por alli, de tropear
n'elle, talvez. Subitamente, sentiu-se reviver. Estava salvo. Em breve
estaria de p,--de p como essa cruz que um relampago muito vivo acabava
de lhe mostrar... No emtanto, a voz  que se no importava:

-- Jos Gaio!

Mas os passos vinham-se chegando; e ento, como se receasse que o
calcassem, reuniu n'um supremo esforo as maximas energias, e rebolou-se
para um lado, at ficar detraz d'umas urzes. Coisa notavel foi,
senhores, que esse miseravel em vez de gritar calou-se, e todo se
recolheu n'uma absoluta quietao, com medo que o surprehendessem... E
quem quer que era passou, cabea nua, deante da cruz gottejante... Aos
ouvidos do miseravel chegou um como murmurio de prece... No ia s a
rezar; ia tambem chorando, aquelle homem...

...Quem seria?

Um claro branco de relampago fez irromper da treva, livido como um
espectro, o filho do Jos Tendeiro...

O desgraado ia a chorar pelo pae, alli assassinado havia annos, por uma
noite como aquella...

Passou, ladeira abaixo, na direco da velha ponte. S aquelle cobarde
no se mexeu, prostrado sobre as urzes, quasi arrumado  cruz.

E assim esteve horas e horas, at que, noite velha, cessou a tempestade,
perdida n'um murmurio longiquo, l na extrema fimbria do horizonte...
Quando a lua rompeu, livida n'um co de anil, nem a grande sombra da
cruz, incidindo sobre aquelle corpo, como um beijo ou uma beno, logrou
reanimal-o. Tinha morrido, o estafermo!

Ao outro dia, est claro, foram l os da justia. O velho abbade foi
depois, buscar o corpo. Os medicos nem lhe tinham mexido.

--Sangue pelos olhos, sangue pela bocca, sangue pelo nariz, uma
congesto muito linda--dissera um a rir.

--E muito mal empregada--fizera o outro do lado, indifferente.

Mas quando os da maca disseram a um tempo--_Upa_!--esse bom velho do
abbade cahiu de joelhos deante da cruz, n'uma convulso agudissima de
choro. E elevando ao co as mos mirradas--ao co que um divino azul
fazia diaphano--elle exclamou, soluando:

--Senhor! Senhor! a vossa justia  tremenda, como  infinita a vossa
misericordia!

...Segredo de confisso...--mas o abbade bem sabia quem tinha alli
matado o Jos Tendeiro...




BALLADAS

_A Luiz Osorio_


I

MARICAS


Vocs lembram-se da Maricas, aquella magrita de cabellos muito
castanhos, quasi louros, que morava defronte da redaco, lembram-se? A
boa da rapariga era nossa amiga, pois no era? Sempre benevola e
complacente para as nossas balburdias e algazarras de todo o dia e de
toda a noite. E vocs bem sabem que taes ellas eram, as nossas
balburdias e algazarras...

Eu, na Maricas, admirava uma virtude rara, toda original e
encantadora--a de no mostrar jamais na sua amisade preferencia por
algum de ns. Dir-se-hia que era nossa irm, ou mesmo nossa me, pois
que nos queria a todos por igual, a pobre Maricas de olhar azul e
brando...

No sei se j vos disse: adivinho o interesse com que ella vos
perguntaria por mim, nos meus dias de cabula, pela solicitude e
interesse com que me perguntava por vocs, quando faziam gazeta ao
escriptorio.

--Ento esses cabulas? ento esses marotinhos? Doente, algum?

--Na esturdia, Maricas. Andam todos por l...

--Ora vejam!--fazia ella quasi escandalisada.

Ah, como eu me lembro n'este momento da vivacidade franca dos sorrisos
que nos mandava, quando todos em pinha, furando pelos hombros uns dos
outros, palreiros conversavamos com ella de janella para janella, n'um
_tte--tte_ que durava horas, muito familiares, muito dados, quasi que
chamando-lhe por tu e ella a ns!

Como eu me lembro!

Ella tinha sempre uma resposta e um sorriso para cada uma das mil
perguntas que lhe faziamos, e ento uma grande paciencia inexhaurivel.
Ns, os estroinas, quasi que chegavamos a adorar aquella ingenuidade
singela do seu corao de vinte annos. A boa da Maricas era adoravel,
toda ella bondade e paciencia para os nossos disturbios e para as nossas
algazarras de toda a hora e de todo o instante.

Mas como se familiarisou ella comnosco e ns com ella,  que me no
lembra, e porventura a nenhum de vocs, acho eu. O que  certo, rapazes,
 que ns como que a consideravamos uma companheira de redaco, especie
de directora com casa parte e viver independente pois que se entravamos
no escriptorio (parece mesmo que estou a ver aquella barafunda
d'escriptorio!) e, assomando  janella, a no viamos na sua, diziamos
quasi sem querer, mas invariavelmente:

--Mau! falta hoje a Maricas! Diacho! mas onde iria a Maricas?

E passados instantes debandavamos todos, um agora, outro logo, 
formiga, mal nos convenciamos de que ella passava a tarde fra, em casa
da _freira_ de Quebra-Costas--d'essa lembram-se vocs... No emtanto,
deveis recordar-vos que ella, no dia seguinte...--coitada!--...a
primeira cousa que fazia era justificar a sua falta, estive aqui,
estive alli, fui a umas compras com a mam, um pouco ruborisada e
confusa, como se na realidade a sua obrigao fosse estar alli a
aturar-nos. Por pouco ella nos no pedia de mos postas que lhe
perdoassemos, a boa da rapariga.

E ns ento galhofeiros, brincalhes:

--Sem mais _aquellas_, D. Maricas! A congregao risca-lhe a falta, ora
essa!...

E ella mais confusa, fazendo girar no dedo o seu annelzito de cobra:

--Pois sim, mas  que s vezes...

--s vezes qu?...

No! ora adeus! Ninguem desconfiava que ella estivesse zangada
comnosco. Sara, porque tinha de sair, essa  boa...

--Pois no era verdade--perguntavamos-lhe--que ella adorava aquella
_troupe_ de bohemios?

--So todos muito bons rapazes--dizia j a sorrir.--Todos me tractam
muito bem...

E quando dizia isto, o seu rosto miudinho e muito pallido todo se
illuminava de prazer e sorria de intima gratido. Mas porque
sympathisava ella comnosco, a pobre Maricas?

Quando nos via em palestras interminaveis, nas libaes do _congnac_ e
do caf, ouvia-se l da janella um _pschiu_! muito sibilado.

--Que manda a D. Maricas?  servida?

E ella, levantando os olhos da costura, com ares de formalisada:

--Mando que escrevam, que trabalhem! J fizeram o jornal?

O cuidado que lhe dava o jornal!

--Ora faz favor de no fallar em coisas tristes? Olhem agora que
lembrana, o jornal!

Ella ento, por unica resposta, dizia-nos s vezes que na semana passada
o typographo viera queixar-se de que havia falta de originaes, quantas
vezes o garoto da imprensa viera pedir as provas emendadas.

E por fallar em provas:--a Maricas sabia todos os signaes das emendas,
todos.

--Olhe l, Maricas, est aqui uma letra a mais n'esta palavra.

--Risco por cima, risco  margem, e um _d_ cortado;  facil.

--Um _m_ de pernas para o ar, e esta?

--Risca-se, e um tres cortado,  margem. Est farto de o saber...

Quando via algum sentado  meza, a rabiscar, pedia sempre que lhe fosse
mostrando as tiras,  medida que as escrevesse, talvez porque adivinhava
que isso era um estimulo. A gente fazia-lhe ento a vontade, e mal
escrevia a derradeira lettra pegava da tira e dizia-lhe para a janella,
acenando-lhe com o papel:

--Maricas, c est uma, v contando. Veja: escripta d'alto a baixo.

 terceira que se lhe mostrava, ella saa-se de l com um _bravo_! e
recommendava, solicita, cinco minutos de folga, emquanto se fumava um
cigarro.

A Maricas era quem nos cortava as cintas para o jornal e quem nos fazia
a gomma nos dias de expedio. Que ricas cintas e que bella gomma! Em
paga, quando o jornal chegava da imprensa, quasi sempre nos sabbados 
noite, o primeiro exemplar era para ella. Como a rua era estreita
atirava-se-lhe da janella.

--Maricas, ahi vae ainda fresquinho!

--'st bem, obrigada. Vou lr, at manh.

Corriamos todos  janella, a dar as boas noites  nossa amiga.

--Durma bem, ouviu?

E no dia seguinte, a Maricas repetia a cada auctor phrases e phrases do
artigo publicado, jurava que nos conheceria no estylo ainda que
mudassemos de pseudonymo. De resto, sempre benevola: achava tudo muito
bom, escripto com muita graa e muito bem, como ella dizia.

Nos seres que faziamos e que por via de regra no passavam de um
interminavel cavaco, dizia-se mal das mulheres, discutiam-se escandalos,
desvendavam-se segredos, tal e qual como em todas as redaces... Mas da
Maricas ninguem tinha que dizer seno bem; era a privilegiada n'aquellas
sesses de m lingua. Quasi sempre a conversa degenerava em
algazarra--um que se lembrava de cantar, outro que ia pela guitarra e
gemia fados com acompanhamento de violo. E era de vr o Santos Mello,
d'olhos cerrados e cabea  banda, como cantava a sua quadra predilecta:

Sei cantigas mysteriosas,
Cantigas de endoidecer,
Que os lirios dizem s rosas,
Que as rosas me vm dizer.

Mas no meio d'esta inferneira havia sempre um que recommendava silencio.

Com mil demonios! no viam que a Maricas no podia pregar olho...

Todavia...-- suprema bondade!--...ella nunca se queixava quando no dia
seguinte nos vinha dizer at que horas durara a estroinice, o que se
tinha tocado, o que se cantara, quem tinha rido mais, e, at, as vezes
que as cadeiras tinham caido.

Ora viam?! No a tinhamos deixado dormir! A Maricas que desculpasse;
palavra d'honra! d'ra vante...

Ella ento acudia logo, como a remediar uma grande desgraa:

--No, no, eu at gsto. Entretem-me vel-os alegres, faz-me bem, ora
essa...

       *       *       *       *       *

Pois, meus amigos, a boa da Maricas--morreu! vocs no sabiam! E morreu
tysica, a desgraada Maricas! S depois que o soube,  que eu comecei a
pensar n'aquella tossesinha muito secca em que s vezes a
surprehendiamos, n'aquelle branco pallido das suas faces, no bistre das
suas olheiras, n'aquella magresa transparente das suas mositas de
marfim...

Pobre Maricas!

Haver tres mezes que ella me desappareceu da sua janella, onde
continuei a vl-a depois que o jornal acabou. Eu sabia l para onde ella
tinha ido?!...

Mal diria eu que estavas no cemiterio, to longe e to s! porventura na
valla commum, sem umas folhas de rosa sobre a tua sepultura
humilde,--onde n'este instante ce chuva e chuva! Ainda se as noites
fossem todas de luar... Minha triste amiga! como eu agora relembro cheio
de magua a tua phrase de infinita bondade e de infinita resignao:

--...Entretem-me vl-os alegres, at me faz bem...

Comprehendo agora tudo: vivias da nossa alegria, j que a tua alma era
triste... Mas porque foi que nos no disseste, pobresinha! que n'essa
phrase singela ia a revelao do presentimento que tinhas da tua morte
prematura?! Triste creana que ns no mais veremos!

       *       *       *       *       *

Olha, Maricas, escrevi quatro tiras. J me no dizes--_bravo_!--ora
no?...

       *       *       *       *       *

...Bom Deus! bom Deus! para que a terra produza diamantes, e d'ella
rebentem flres, so talvez precisos estes corpos a avigorar-lhe as
seivas...


II

PARA A ESCOLA


No velho casaro do convento  que era a aula. Aula de primeiras
lettras. A porta l estava, amarella com fortes pinceladas vermelhas, ao
cima da grande escadaria de pedra, to suave que era um regalo subil-a.
Obra de frades, os senhores calculam... J tinha principiado a aula
quando a Helena entrou commigo pela mo. Fez-se um silencio nas
bancadas, onde os rapazes mastigavam as suas lies e a sua taboada,
n'um rithmo cadenciado e monotono, cantarolando. E ouviu-se ento a voz
da Helena dizer para o senhor professor, um d'oculos e cara rapada,
falripas brancas por baixo do leno vermelho, atado em n sobre a testa:

--Muito bons dias. L de casa mandam dizer que aqui est a
encommendinha.

Oh! oh! a encommendinha era eu, que ia pela primeira vez  escola. Ali
estava a encommendinha!

--Est bem, que fica entregue. E l em casa como vo?

E emquanto o velho professor me tomava sobre os joelhos, a Helena
enfiava-me no brao o cordo da saquinha vermelha, com borlas, onde ia
mettido nem eu sabia o qu. Meu pae  que l sabia... E alli estava eu
entre os joelhos do senhor professor, com o _bonnet_ n'uma das mos e a
saquinha vermelha na outra, muito compromettido. A Helena, que sorria
contrafeita, baixou-se para me dar um beijo, e disse-me adeus.

--Adeus, Jossinho, logo venho c pelo menino.

Choraminguei, quiz sair na companhia d'ella.

--No, agora o menino fica--disse-me a Helena.--Isto aqui  a escola, 
onde se aprende a ler.--E agachando-se, deante de mim:--Olhe tanto
menino, v?

--Mas fica tu tambem--disse-lhe eu ento.

Nas bancadas houve hilaridade geral. O mestre teve de intervir,
iracundo:

--Caluda, sua canalha! No veem que est gente de fra? Caluda, que vae
tudo razo com bolaria!

Foi ento que reparei em toda aquella rapaziada. Ah, elles eram todos
meus conhecidos! Vivam l vocs! E estavam todos alegres, p'los modos.
Reanimei-me. Ento j eu podia ficar, estavam ali os meus amigalhotes,
cheguei mesmo a rir das caretas que me faziam alguns, o Estevo
principalmente.

--Isto  preciso muita paciencia, senhora Helena, muita somma de
paciencia. Um mestre precisa de ser um santo.--(Pausa. Olho duro sobre
as bancadas.)--Mas est bem, diga l que a encommendinha c fica. Em boa
hora entrasse...

--Entrou, elle ha-de estudar. Ora ha-de, Jossinho?

Das bancadas alguns acenavam-me que no, arregalando muito os olhos.

-- verdade,--insistiu por sua vez o professor--o menino ha-de estudar
as suas lies, no  assim?

--Diga, sim senhor--ensinou-me ento a Helena.--Hei-de estudar muito e
ser socegadinho na aula, diga.--E a meia voz para o professor:--isto em
casa  o vivo mafarrico; faz l ideia?

Elle riu, j sabia; as creanas so todas assim, emquanto esto no mimo
das mes. Mas uma vez mettidas na escola, as cousas mudavam um pouco. E
piscando o olho, designou a palmatoria. A Helena ficou transida.

--Faz milagres, sr.^a Helena. Digam l o que disserem, olhe que faz
milagres.

Eu tinha percebido. Comeava de novo a _embezerrar_, com vontade de sair
quando a Helena saisse. Aquillo sabia eu para que servia, a
palmatoria...

--Mas para o nosso Zzito no ha de ser precisa, ora no?

--Diga assim: no senhor, porque eu hei de cumprir com as minhas
obrigaes, diga.

--Ora ahi  que est--atalhou o professor.--V, sr.^a Helena? Aqui j os
pequenos tem a sua obrigaosinha, os seus deveres a cumprir, as suas
coisas...

--Sim senhor, sim, emquanto que em casa...

--Em casa  o que ns sabemos. Tudo so mimos, meu menino isto, meu
menino aquillo. Vo assim creados  lei da natureza, sabe vossemec? 
mau isso, pessimo! Porque  que os rapazes so todos teimosos?--E bateu
n'um Monteverde pousado sobre a mesa, dizendo:--Olhe, aqui est n'este
livro: _de pequenino_...

--..._ que se torce o pepino_--concluiu rapida a Helena, orgulhosa de
saber o que estava no livro, coitada!

--Nem mais. A modos que isto faz rir. Um pepino  uma cousa que se cria
na horta...

Risota dos rapazes!

--Ora v isto, sr.^a Helena? v estes brutinhos?--E com entono, de
palmatoria alta, fazendo-se carrancudo:

--Caluda, seus fedelhos! Caluda, porque se peo licena  sr.^a Helena,
comeo n'uma ponta e levo tudo a eito, corro tudo a bolos, tudo, mas o
que se chama tudo!

E fitou-os altivo, sereno, minaz. Sob aquella ameaa, os rapazes ficaram
transidos, cabisbaixos, olhos pregados nos livros.  verdade que elle
podia pedir licena  sr.^a Helena, e mesmo deante d'ella _cascar_ de
rijo... Uma sombra de terror passou por toda a sala, socegaram; at o
Estevo deixou de me fazer caretas.

-- o que v, sr.^a Helena--disse ento victorioso, a sorrir-se, o bom
do professor.-- o que v! Um mestre sem palmatoria  um artista sem
ferramenta, no faz nada. _Santa Luzia_ milagrosa! Aqui onde a v tem
feito muitos doutores.

--Essa?--perguntou ingenuamente a Helena, disposta a venerar aquelle
pedao de pau de buxo, se na verdade elle tivesse feito muitos doutores.

--No, mulher, se no foi esta, outras como esta, essa  boa! Isso no
faz ao caso.

Pela resposta bem se v que foi indiscreta a pergunta da pobre Helena.
Tambem elle, velho n'aquelle officio, muitas vezes investigara com magua
o motivo por que a sua palmatoria no fazia um unico doutor... Morreria
sem ter essa gloria, decerto! Forte martyrio que a Helena veio
recordar-lhe!...

Houve uma interrupo, um rapaz que se levantou e de brao no ar pedia
para ir l fra.

--_Licte_!--foi como elle disse, arremedando o latim _licet_. Outros
havia que diziam, por troa, _Aniceto_!

--Ora j a mim me admirava,--tornou-lhe o professor.--Se tu no havias
de pedir para ir l fra, tu...--E ficou-se a fital-o, meneando
pausadamente a cabea.--Ora v voc l fra.

O rapaz saiu apressado, com grande estrupido de ps.

--Ol?--chamou zangado o sr. professor.

O outro assomou  porta, contrafeito.

--Para a outra vez faz-se menos barulho com esses ps, ouviu? No sei se
percebes... Ora j que tem tanta pressa, eu no tenho nenhuma; faa
favor de esperar um pouco.

Poz-se ento a correr a vista pelas bancadas, resmungando:

--Tu no... tu no... tu no... Tu, ol, venha c!

Levantaram-se uns poucos, foi um barulho.

--Canalha!--gritou-lhes ento, batendo o p.--Corja de atrevidos!
Sentados, j!

Grande silencio nas bancadas. Um perguntou de l, humilde, se era elle,
apontando para o peito.

--Sim, s tu, p'ra que queres os olhos? Avance e perfile-se.

Mediu-o d'alto a baixo. Depois:

--Isso mesmo. Essa mo no bolso  que no  do _regulamento_, fra com
ella. Agora, sim senhor. Ora vs alm aquelle sujeito? o tal das
pressas?...

--Vejo, sim senhor.

--Bem sei que vs, se o no vissem  porque eras cego; que tal est o
palerma? Ora acompanhe-o, j sabe p'ra que. E sempre quero ver se tenho
de vos ir l buscar pelas orelhas.

Sairam. Mal tinham salvado a porta, gritou-lhes o sr. professor:

--Ol?

Elles assomaram, outra vez, atrapalhados.

--Ento, seus cabeas d'avel, torres de vento, ento no falta nada?

Os dois pozeram-se a coar a cabea, muito compromettidos. Faltava com
effeito alguma coisa...

--Ento  ahi?

Elles avanaram at ao meio da sala, tropeando um no outro.

--Ora passa por esta vez, em atteno a estar aqui a sr.^a Helena.--E
enrugando o sobr'olho, commandou em tom marcial:--Ordinario! marche!

Faltava aquillo. Em obediencia aos seus velhos habitos de militar, dava
o sr. professor aquella voz, sempre que mandava algum alumno cumprir
ordens suas:

--Ordinario! marche!

Sentou-me ento no joelho e perguntou:

--Olha l, Jossinho, tu queres ser militar, queres? Assim como o sr.
capito do destacamento, que l est aboletado em casa, queres?

--Corneta, mais queria ser corneta. Ou ento como o sr. prior, dizer
missas.

Riram-se. Quem sabia l o que d'ali sairia? Mas o sr. professor fez
notar que era bom que os pequenos tivessem j assim uma tendencia
qualquer. E poz-se a puxar-me o nariz, a dar-me palmadinhas nas
bochechas.

--Corneta ou prior, hein? Pois isso  que  preciso escolher.--E para a
Helena:--Pois olhe que os tenho conhecido, sr.^a Helena, que respondem a
ps junctos que no querem ser nada. Mau signal, pessimo, sr.^a Helena!
Quando elles assim dizem, de ordinario assim fazem, depois. Nunca so
gente.--E virando-se para mim:--Mas ento, Jossinho, em que ficamos?
Corneta ou prior?

Preferia ser prior. Sempre me parecia melhor, mais bonito, especialmente
em dias de festa, com aquella capa toda doirada...

--Muito bem, escolheste bem. _Telha de egreja_...

--..._sempre gotteja_--concluiu a Helena que ainda hoje  forte em
adagios.

O bom do professor tinha finalmente chegado onde queria.

--Prior, ento! Est muito bem, seu reverendo. Pois olha, Jossinho,
para ser prior  preciso estudar, saber ler no missal, ora ?

--.

--Ah!... No  assim que se diz. , sim senhor--emendou a Helena.

O sr. professor teve um gesto de indulgencia.

--Mas tu no sabes ainda, ora no?

--No senhor.

Elle ento, fingindo uma grande surpresa, perguntou se o que eu trazia
na sacca era um livro.

--Querem ver que  um livro?...

--Diga--ensinou a Helena-- o meu livro para aprender a ler. Mostre-o l
ao sr. professor, tome.

Houve na sala um murmurio, ao verem a capinha verde, toda lustrosa, do
meu livro.

--Muito bem! muito bem!--applaudiu o sr. professor.--Mas este livro 
mesmo para aprender a prior... O menino j tinha dito l em casa que
queria ser prior, ora j?

Fiz que sim com a cabea. Era verdade aquillo; mas como  que elle o
sabia?

--Bem se v por este livro.  livro para prior. Queres ento principiar,
no queres?

--Quero, sim senhor,--ensinou ainda a Helena e eu repeti.--O que eu
quero  dizer missa quanto mais cedo melhor, diga.

--Primeiro do que aquelles?--perguntou voltando-me para as bancadas.

Ento fui eu mesmo que respondi:--Sim senhor!--contente com a
lembrana de vir a dizer missa, e de a vir a dizer primeiro do que todos
aquelles. At podia acontecer que o Estevo das caretas me ajudasse a
alguma...

--Ora ento est muito bem, estamos entendidos.--E com inteno, ferindo
muito as palavras, para m'as gravar no espirito:--A primeira coisa que 
precisa para prior  saber bem isto, vs?--E punha-me deante dos olhos o
livro aberto na primeira pagina.--Isto aqui  j missa, chama-se o _a b
c_, e  aquillo que os priores dizem quando vo para o altar.

--_Ito_?--inquiri curioso, furando a pagina com o dedo.

--Sim, isto. E amanha j me has-de trazer sabido d'aqui at ali. Hein?
valeu?

--Diga que sim, menino, diga. Valeu, sim senhor.

Eram as seis primeiras lettras, ainda me lembro bem. A minha primeira
lio!

_A B C D E F_!

A minha primeira lio!

--Ora sabe vossemec o que isto , sr.^a Helena? isto que eu tenho
estado a fazer?

--Sim senhor, sei...  assim... como quem diz... ...

--No sabe, no admira,--disse complacente o sr. professor.--Puxar o
gosto, sr.^a Helena, puxar o gosto  que isto . Nem todos os mestres o
fazem, todos o deviam fazer. O pequeno, assim, at j vae estudar com
mais gosto, digo-lh'o eu; ol se vae!

Mas elle no a queria demorar mais, tinha l em casa as suas
obrigaes, as suas voltas, e deviam ser horas.

--Pois isso  verdade, sr. professor; mas no sei que , custa-me a
separar do menino...--disse a boa da Helena, quasi a chorar.

--Foi ama, deu-lhe o seu leite, ahi  que est a coisa. Pois tenha
paciencia. Aprender  to preciso como mamar--concluiu n'uma prosa que 
mesmo poesia.

--Pois  preciso, !...

E a pobre Helena beijou-me, para se ir embora. Quando me beijou, senti
na minha cara as lagrimas d'aquella boa amiga. Retirava-se, deixando-me
ainda sobre o joelho do meu velho professor, quando este a chamou:

--Sr.^a Helena!

--Meu senhor!--respondeu, levando aos olhos o avental.

--J agora, espere mais um instante.

Percorreu com a vista, minuciosamente, as bancadas todas da aula.
Depois, intimou:

--Tu, Francisco, ol, chega acima. E tu do lado, como te chamas, abaixo
um pouco.--E virando-se para a pobre mulher lacrimosa:--Ora  alli,
sr.^a Helena, alli  que  o logar do pequeno. Leve-o l, ande, que lhe
no deve pesar.

E dos braos do meu professor passei para os braos da ama. Novo beijo,
lagrimas mais quentes, e saiu a boa da Helena, deixando-me no meu
logar...--o meu primeiro posto na arriscada milicia das lettras...

Depois, s vi isto: o mestre a sorrir-se para a porta e a conversar por
acenos com a pessoa que estava de fra. Pequeno como era, percebi, no
emtanto. O mestre vinha a dizer na sua mimica:

--Bolos?... No?!... Perdoe a sr.^a Helena, mas isso, quando forem
precisos... Pois sim... l isso sim... pequeninos... Han? mesmo com a
mo?... Est bem... Descance... Mesmo com a mo...

E ella devia sorrir por entre lagrimas, porque foi tambem por entre
lagrimas que o bom velho se sorriu, dizendo adeus...

       *       *       *       *       *

...Helena, minha boa amiga! Acabo de chegar ao fim da viagem que
principiei n'esse dia. No volto mais  escola! Venho hoje restituir-te,
querida amiga, aquelle beijo--dulcissimo beijo aquelle!--que tu ento me
dste. E afinal no fui prior, ora v!... Mas ainda bem. Se o fosse,
acho que parecia mal beijar-te, minha boa e santa amiga! Pois ainda bem
que no fui prior, ainda bem... No  verdade, Helena?

Em Coimbra, no dia do meu acto de formatura.




TRAGEDIA RUSTICA


I

_Madrugada de segunda feira de entrudo, tapada dos Nobres, Alemtejo, 
porta do Jos Grillo_


Truz! truz! truz!

Os de casa acordaram, sobresaltados.

--Schiu! nem pio!--fez o Jos Grillo para a mulher.--Moita!

--Truz! truz! truz!

Do seu cubiculo, a Anna, filha do Jos Grillo, poz-se a chamar pelo
pae.--Bem ouvia, que deixasse bater. Algum bruto que se queria
divertir...

Mas logo outra vez na porta:

--Truz! truz!

--Arre que  bruto! v bater ao inferno, quem ! gritou de dentro o Jos
Grillo, zangado. E pois que se poz  cca, de orelha fita, olhos
cravados na telha-van do casebre, sentiu distinctamente os passos de
alguem que fugia.

--Eu no te disse? aquillo foi bruto que se quiz divertir--explicou elle
para a mulher.

Mas palavras no eram ditas, pareceu-lhe ouvir o vagir de um
cachorrinho, mesmo rente  porta. Veio-lhe logo  ideia que lhe tinham
vindo pr zrro...

-- mulher, queres tu ver que ha novidade?

De um pulo saltou da cama, embrulhou-se na manta e abriu a porta do
casebre.

--Elle que demonio de embrulho...?

Pegou-lhe com muito geito. Era effectivamente uma creana, envolta em
dois trapinhos muito velhos.

--Coitadinho! fez o ganho achegando ao peito a creancinha.

--Grandes cadellas!--E poz-se logo a fazer uma algazarra, alarmando a
gente da casa.

--Andem! a p! levantem-se! est aqui este innocentinho que vem dar os
bons dias  gente!

Correu a filha, veiu a mulher. Mas ao tempo, j o bom do Jos Grillo
mettera a creana na cama, visto que a pobresinha estava gelada...

--Elle quem diabo ha por ahi que tenha leite? A filha do Antonio das
Varedas,  verdade, a Brites que lhe morreu o cachopo.

Despediu immediatamente a filha, a Anna,  procura da Brites que
chegasse o peito ao innocentinho. E da porta, gritando para a rapariga
que ia correndo:

--Que se no demore, ouves? que se lhe paga aquillo que fr.

Mas a mulher do Jos Grillo, a senhora Joanna, de p no meio da casa, a
saia amarella deitada pela cabea, de braos cruzados, muito
embezerrada, permanecia sem dizer palavra.

-- mulher, nada de afflices,  tal e qual como se fosse nosso, faz de
conta...--observou-lhe logo o Jos Grillo que percebia o ar taciturno da
femea.

Ella s redarguiu que _nosso_ era um modo de fallar. Seria d'elle, mais
de qualquer desavergonhada...

O Jos Grillo, que estava a enfiar as calas, parou no servio e
pregou-lhe uma gargalhada.

--Ageita-me o pequeno, ouves? V l que talvez esteja molhado. E
deixa-te de cantigas, que hoje  dia de entrudo.

A mulher ia reguingar; mas elle, pegando-lhe de um brao, levou-a ao p
da creana, affirmando-lhe s risadas que sim, que o pequeno era filho
d'elle.

--O pequeno?... mas  que pode ser cachopa--disse o Jos Grillo para a
mulher.--E certificando-se:--Nada!  rapaz.

Seguiu-se uma altercao. A senhora Joanna, a chorar, ia jurando pela
sua salvao que o criano era filho do seu homem.

--Ai Jesus que estou perdida! chamava ella muito comica, braos no ar, o
balandrau da saia amarella enfiado pelo pescoo n'um geito de
sobrepeliz.--M hora em que me eu casei! ai Jesus que vae ser de mim!

--Olha que  rapaz, ouves? anda c ver que  rapaz--disse-lhe de l o
Jos Grillo, muito fleugmatico, debruado sobre a creana.

Mas como visse que a mulher continuava n'um estardalhao, muito
afflicta, desaustinada pelos cantos da casa, o Jos Grillo virou-se para
ella e disse-lhe muito solemne:

--Pois assim me Deus salve como no  meu o rapaz.

Ao ouvir assim fallar o seu Jos, a senhora Joanna voltou-se logo para
elle, olhos esbugalhados, muito suspensa.

--Juras pelas cinco chagas,  homem?

--Juro pelas cinco chagas.

--Assim te Deus d saude,  Jos?

--Assim me Deus d saude.

--Preto sejas tu como o teu chapeu?

--Preto seja eu como o meu chapeu.

A senhora Joanna botou-se logo a correr para um canto da casa, e abrindo
a arca de pinho, do bragal, entrou aos beijos a uma Nossa Senhora da
Conceio, pegada na face interna da tampa, com boccadinhos d'hostia.

Depois desabafou, muito aliviada:

--Ai!

O Jos Grillo poz-se a rir.--O demonio da Joanna, com ciumes!

--Mas ciumes de qu,  mulher? no fars favor de me dizer de que diabo
tens tu ciumes?--perguntava muito casto o amigo Jos Grillo, serenissimo
deante da mulher desconfiada.

A outra, muito delambida, redarguiu com ironia--que o seu homem era um
santinho...--O Jos Grillo ia defender-se. Mas ella, atalhando logo,
reguingou d'alto:

--Sabes tu que mais? estafermos  o que mais ha. Olha a cadella que
engeitou este...

Aqui, fez uma suspenso; depois perguntou, muito lampeira:

--Mas quem seria a grande cadella?

Poz-se ento a mirar muito o pequeno, a ver se lhe dava ares de alguem,
murmurando phrases d'odio, moralistas:

--Precisava ser enforcada, a tua me; quem quer que  tem mesmo
entranhas de lobo.

O pequenino entrou a vagir, muito friorento, embrulhado n'uma camisa do
Jos Grillo.

-- fome, coitadinho! o infeliz inda no sabe que coisa  mamar--disse
contristado o lavrador.

Foi-se logo  porta, a ver se a Brites chegava. Mas quem vinha com a
Anna era a outra, a Dorotheia do Antonio das Veredas.

--Tua irm, tua irm  que se c precisava. Que demonio vens tu c
fazer? Ouves? no me dirs que diabo vens tu c fazer?--E deu um bofeto
na filha, para que soubesse dar o recado.

A Dorotheia poz-se a explicar que a rapariga no tinha culpa. A irm 
que a mandara para levar a creana, porque ella, adoentada, fazia-lhe
mal sair de casa assim cedo...

--S se lhe queres tu dar de mamar--insistiu ainda o Jos Grillo, virado
para a Dorotheia, irreverente pelos seus dezenove annos inda virgens.

A senhora Joanna fez-lhe de dentro que se calasse:

--Credo, homem! essas coisas no se dizem, nem por graa.

--Eu sei l se no se dizem?--observou o lavrador, muito zangado.--D c
d'ahi o pequeno.

Veio a senhora Joanna com o embrulhinho, que entregou ao Jos Grillo. O
lavrador depol-o nos braos da Dorotheia, com mil cuidados, e depois
elle mesmo ajudou as mulheres a ageitar o pequenino, em termos que fosse
bem quente.

--Roda forte, ouves? E diz l a tua me que eu de tarde por l appareo,
p'ra ver isto do ajuste.

A rapariga saiu. E como o lavrador dsse f que tinham alli ficado os
farrapos, gritou para a rapariga:

-- D'rotheia! espera que inda c ficou isto.

Ento poz-lhe os farrapos ao hombro--uns pedaos miseraveis de velha
chita--e a Dorotheia partiu onde  irm.


II

_Quarta-feira anterior a domingo gordo. Monte do Rosario. Em casa de
Antonio Palma, casado com Rufina Maria_


O Antonio Palma tinha acabado de jantar, rodeado da pequenada. A mulher,
a Rufina, principiava a lavar a loua, quando  grade do quinchoso uma
voz chamou:

-- sr.^a Rufina!

Vieram os pequenos, veio o Antonio Palma, a mulher com as mos
fumegantes. Foi preciso fazer calar o _Farrusco_ para se poder ouvir o
que dizia aquella mulher que lhes estava fallando do caminho.

--Queria-lhe uma palavrinha, a si mais ao seu homem.

O Palma foi abrir o cancelorio. E foi com grande desgosto que deu de
cara com a Francisca Fortunata, de grande ventre alado, uma
desavergonhada que tinha fugido ao marido, o Jos Thomaz negociante de
gado. Entrou, fizeram-lhe uma recepo fria. Os proprios pequenos
olhavam desconfiados e silenciosos aquella grande mulher gorda que elles
no conheciam. Ella sentou-se logo n'um sacco, muito esfalfada, emquanto
o Palma e a mulher affectavam procurar ambos um banco, acotovelando-se,
com tregeitos de quem se sentia arreliado com a visita. O _Farrusco_
investiu com a mulher, achando-a extranha; mas uma vez enxotado com o
pontap do Palma, fez-se na casa um grande silencio, e a mulher comeou
assim:

--Venho pedir por caridade e esmola que me deixem aqui estar uns dias.
J veem como eu ando, isto deve estar por pouco. Logo que tenha o meu
filho, em arribando da quebreira do parto, deixo-os e vou-me embora. L
em casa de minha me aquillo  uma grande miseria, passam-se dias que
no comemos. No ha uma cama, a gente dorme sobre umas palhas, sem
geitos de roupa com que se cubra. Mas eu ando n'este estado, bem veem
como eu ando...

Aqui desatou a chorar, levando aos olhos o avental miseravel. O Palma e
a mulher diziam no sei que monosyllabos, o _Farrusco_ rosnava. A outra
proseguiu:

--No  por mim, sabem? no  por mim.  este innocentinho que tem de
nascer no cho, como os ces... Bem sabem que isto custa. Pouco se me
dava de morrer, afinal, mas queria que o meu filho vivesse...
Coitadinho!

Ergueu-se n'um impeto, depois caiu de joelhos, mos erguidas para o
Palma e para a mulher.

--Pelas cinco chagas de Nosso Senhor! exclamou.

O Palma fez para a mulher um gesto resignado e de lastima. Cada um de
seu lado, ajudaram-na a levantar-se, dizendo-lhe submissamente que tudo
se havia de arranjar, que socegasse.

--Que a fallar os pontos de verdade, sr.^a Fortunata, vossemec  que
tem a culpa d'esses trabalhos, disse-lhe logo o Palma.

Ella escondeu a cara no avental, fazendo-lhe com a mo que se calasse.

--M sorte d'aquelle pobre Jos Thomaz, acabou-se! Quando elle casou com
vossemec antes tivesse quebrado uma perna.

Ella chorava cada vez mais, parecendo muito afflicta.

--Agora ahi o tem, anda por esses caminhos que parece doido. Nem gado,
nem o diabo. Des'que vossemec alvorou que o rapaz no vae a uma feira.
Pois olhe que era homem para junctar, videiro como poucos.

Poz-se a fazer um cigarro, olhando os pequenos attonitos. Depois
continuou:

--Esteve aqui um d'estes dias, por signal que sentado n'esse mesmo
sacco...

A Fortunata levantou-se n'um impeto, como se o sacco a repelisse. O
Palma proseguiu:

--Sente se vossemec, mulher, o sacco no faz ao caso. Pois foi ahi
mesmo que elle esteve, at parecia um pobre de pedir. Nem botes na
camisa, coitado! Mas pela conversa bem se v que inda lhe no quer mal.
Que a bem dizer elle quasi no conversa, anda a modos que amalucado,
sempre a levar a mo  cabea, como se l dentro aquillo andasse azoado.
E mais  que bem pde o rapaz dar em doido...

A senhora Rufina foi de parecer que doido j elle andava. Passavam-se
dias que no apparecia em casa do tio Jos Garo, que o levra logo
para elle, mal a sr.^a Fortunata o deixra. Por onde andava? que fazia?
Contava-se que uma noite dormira n'uma coutada, no mesmo telheiro que os
porcos. Que d'outra vez fra ter com o vigario para que lhe baptisasse o
filho, dizendo que j tinha nascido.

--No filho inda elle aqui se poz a fallar, lembrou o Palma.--Anda com
ella ferrada que o filho j nasceu.

Aqui, a Fortunata, de p junto  porta, rompeu n'uma choradeira, ouvindo
fallar no filho. O Palma interveio, condoido, dizendo que se no
affligisse, que o filho sempre teria uma caminha onde nascesse.

Ella ia ajoelhar, o Palma no deixou.

--No  por vossemec, mulher, assim me Deus salve como no  por
vossemec. Mas  que o innocentinho que ahi traz esse  que no tem
culpa. Fao de conta que  o pae que me pede, o pobre Jos Thomaz.
Vossemec bem sabe que eu era amigo do Jos Thomaz. Diabo! a gente j
diz _era_, j falla n'elle como se o pobre tivesse morrido...

N'isto vieram chamar o Palma, que no lameiro alli embaixo andavam uns
bois que no eram d'elle. Foi-se a buscar um marmeleiro, e depois,
quando j ia para sair, disse em resumo:

--Fique vossemec ento, sr.^a Fortunata. Ouves, Rufina? Talvez que ella
inda no jantasse. Faz-lhe a cama l dentro, e o resto arranjem-se.

Caso  que a Maria Fortunata, amanhecendo para domingo gordo, desentupiu
e teve um filho. Mas nem sequer o tinha ainda beijado, nem lhe tinha
feito uma caricia, quando por volta do meio dia a av do pequeno alli
chegou, vinda de longe. O Palma que estava no quinchoso, a dar a bolota
aos cevados, ficou espantado:

--Pois senhores! havia de jurar que voc adivinha, sr.^a Anna!

Ella, sem mais rodeios, perguntou se a creana j tinha nascido.

--J nasceu, sim senhora, v l dentro se a quer ver. Venha d'ahi.

Mas iam ainda  porta, quando a velha, filando o brao do Palma, lhe
perguntou n'um sobresalto:

--Vivo ou morto, sr. Antonio?

O Palma percebeu. O estafermo da velha queria que a creana nascesse
morta. Aquillo fez-lhe nojo, deram-lhe ganas de correr a mulher a
pontaps. Conteve-se. Mas todo elle vibrou de colera, quando em presena
do pequenino a velha, sem o beijar, perguntou o que se lhe havia de
fazer.

O Palma, furioso, repelliu a mulher com despreso. E como ella insistisse
com a pergunta: que se ha de agora fazer a isto? elle redarguiu,
irado;

--Dar-lhe de mamar, est bem visto. Inda voc pergunta o que se ha de
fazer  creana. Talvez voc queira que o pequeno v j cavar...

A velha ia fallar.

--Nem pio, seu estafermo! Que tal  o amor que voc lhe tem, que inda
nem sequer a beijou. Nem a me o beijou ainda, coitadinho! Voc j viu
uma cadella quando tem os filhos, j viu? Com mil diabos, qualquer
cadella vale mais que vocs duas.

O Palma ia-se pondo amarello, a sr.^a Rufina interveio, aconselhando-o a
que saisse.

--Saio, e vou-me embora, ouviste? Ouviste? Aparelho a egua e vou-me de
vespera at  feira.

Poz-se a procurar pelos cantos, aqui os estribos, alm o freio da egua.

--Tanto faz ir manh cedo, como ir j agora.  j de cara. Mette-me
qualquer coisa nos alforges, que vou j aparelhar a egua.

D'ahi a meia hora, o Palma montava  porta, no meio do rancho dos
cevados, e chamando a mulher dizia-lhe com m cara:

--Em estando capaz, rua!

--D'aqui a tres dias, talvez...

--Ento at d'aqui a quatro. Ouves? E olha se defumas a casa, quando
esses estafermos sairem.

Ora o Antonio Palma a virar costas, e a velha a sair porta fra--com o
embrulhinho do neto ao colo...

Como ella corre, a maldita! Parece que o leva roubado...

Onde passou ella o dia? Onde passou ella a noite? No sei. Caso  que na
madrugada seguinte, a desavergonhada abandonava o pequenino  porta do
Jos Grillo.

Madrugada de fevereiro, nevava...


III


Quando a Dorotheia saiu com o pequeno, para o levar  irm, tinha
amanhecido havia pouco. A neve cessara; mas um nordeste frigidissimo
retalhava a cara da rapariga, encolhida sob aquella atmosphera de gelo.
Nunca o souto que ia atravessando lhe parecera to comprido e to
triste. Os grandes castanheiros despidos, cheios de neve at ao alto,
faziam-lhe mais viva e mais cortante aquella impresso de frio. O cho
estava coberto de neve; e l em cima, muito alto, o co muito azul
annunciava um dia de sol.

A rapariga ia triste. Dir-se-hia que a tristeza lhe nascia toda
d'aquelle lado em contacto com o pequenino...

Por isso quando passou pela azenha, e que a mulher do Paulo lhe
perguntou o que levava alli, erguendo a voz sobre o ruido forte da
levada, a rapariga entrou de chorar e respondeu que era um engeitadinho.

--Um qu, mulher? que dizes tu? insistiu a outra.

Mas o moleiro, que vinha chegando, espcou deante da mulher, e repetiu
como um echo:

--...Um engeitadinho.

Entreolharam-se os tres, n'uma incerteza vaga.

--Sim, um engeitadinho, deve ser isso...--continuou o moleiro.--E
d'ahi... pde ser que no seja...

A rapariga, muito impaciente, perguntou se sabiam alguma coisa.

--Nada! pode ser que a historia seja outra--elucidou o moleiro.--Onde
foi que isso foi posto?

--Esta madrugada,  porta do Jos Grillo.

--Ol! isso ento pode ser coisa d'elle--observou a rir o moleiro.--Esse
diabo no  seguro.

Pozeram-se a rir da lembrana. J dentro do moinho, o homem pz-se a
explicar  rapariga:

-- que hontem  noite veio aqui um homem pedir pousada, um homem a
modos que adoidado. Boa figura d'homem, por signal. Assim s primeiras,
tanto eu como a Luiza tivemos o nosso medo...

-- Dorotheia! interrompeu a mulher do moleiro, d c o menino e
senta-te. Vou-lhe dar de mamar, que o pobresinho ha-de ter fome.

A Dorotheia passou a creana para os braos da moleira. Foi uma alegria
ao verem-no sugar no peito, minusculo, com os olhitos inda fechados.

--Meu rico anjinho, meu amor! A fome que o desgraadinho tem! Quem seria
a desavergonhada?...

--Mas depois? inquiriu a Dorotheia, voltando-se para o moleiro.

--Depois, dormiu c, ahi lhe demos da ceia e ahi ficou. Mas d-se o caso
que o homem no pregou olho em toda a noite, sempre a malucar, n'um
fallatorio pegado. Que o filho era d'elle, que se a cabra da me
teimasse em o engeitar, elle ia dar parte  justia. Um arrazoado
assim, muito comprido.

Espantada, a Dorotheia ia fallar.

--Mas espera, que o melhor da festa  que o homem to depressa dizia
isto, como dizia que o filho j tinha nascido, que era muito lindo, que
onde elle o tinha escondido ninguem lh'o ia roubar.

Ficaram-se um instante a mirar consolados a creana.

A pobresinha vagia, mamando com sofreguido.

--Mas ento sempre elle sabe do filho, reatou com interesse a
Dorotheia.--Ora! assim este engeitadinho soubesse quem era o pae,
coitadinho!

A sr.^a Luiza, que no gostara que se recolhesse o homem, resumiu com ar
compungido:

--Um doido, o pobre de Christo! Deixal-o ir!

Fez-se um silencio, mirando todos a creana. A taramella do moinho
batia, n'um rithmo vivo. Maquiando uns saccos, o moleiro explicou ainda
que o homem alvorara muito cedo, debaixo de neve, sem ao menos dizer
obrigado. Mas que perguntando-lhe onde ia aquellas horas, o outro lhe
respondera:--Para a feira. Vender um gado.

--Ora v l o diabo entender isto!--rematou por fim o moleiro. Um doido
a vender gado.

Conversaram sobre o caso, algum tempo. At que a Dorotheia, com pressa
por causa da irm, pegou outra vez na creana e abalou pela porta fra,
direita  casa do pae.

--Olha os trapos,  Dorotheia! olha que deixas c isto.--E o Paulo
correu a levar  rapariga os trapos segunda vez esquecidos, e que eram
todo o enxoval do triste pequenino...

Ia mais contente, a Dorotheia. Ao menos levava a certeza de que a
creana no ia com fome. E para que tambem no fosse com frio, a boa da
rapariga achegava ao peito o engeitadinho, n'uma solicitude toda
materna.

--Louvado seja Deus! ia dizendo a rapariga. Como haver gente que seja
capaz d'estas crueldades! A nevar, e deixa-se assim um innocentinho,
embrulhado em dois farrapos, na soleira de uma porta! Vamos que o Jos
Grillo no dava f! Alli se morria de frio o anjinho, capaz de virem
depois os ces e comel-o.

E espreitando pela fenda estreita do chale:

--Meu anjinho! que ruim cadella que foi a tua me, ora foi?

--Foi! rugiu uma voz detraz d'ella, como um echo.

A Dorotheia deitou a fugir, espavorida. Mas aquelle homem que j de
longe a acompanhava, sem ella dar f, corria tambem atraz d'ella, e no
tardou que a filasse, como um lobo. A rapariga soltou um grito, ia cair
com o susto; mas valeu-lhe que n'esse mesmo instante uma voz que ella
conhecia gritou alli de perto:

--Larga a rapariga,  Jos Thomaz! Larga a cachopa!

E de um pulo, o pastor caiu entre os dois, separando-os.

-- o Jos Thomaz que est doido,--explicou o pastor.--Desde que a
mulher lhe fugiu, que o pobre anda assim, coitado!

Mas palavras no eram ditas, eis que o Jos Thomaz de novo se arremessa
 rapariga.

--Tu que levas ahi? Tu levas ahi o meu filho!--rugiu elle com voz
furiosa.

E como se sentisse agarrado, e visse que acudia mais gente, o pobre
lanou-se por terra, de joelhos sobre a neve, as mos erguidas,
impetrando a chorar que lhe dessem o seu filho...

A Dorotheia cobrou animo, ao ver-se rodeada de gente.

E fez-se luz no seu espirito, quando reparou que os trapos do
engeitadinho eram reconhecidos pelo doido que os estava mirando, a
rir-se...

--Conheces? perguntou-lhe a rapariga.

No extasi em que cahira, mirando e remirando os farrapos, o doido no
respondeu.

--Se conheces isso? perguntaram-lhe uns poucos.

Nem palavra. Nada a no ser um riso nervoso que o sacudia todo. Como
estava de joelhos, quizeram levantal-o; mas elle ento oppoz-se, caindo
sobre os calcanhares.

E ria... ria... emquanto dos olhos amortecidos, cravados no miseravel
farrapo, as lagrimas corriam, copiosas...

Mas d'ahi a pouco, pelas palavras soltas do doido, todos ficaram
percebendo. Os farrapos que embrulhavam a creana eram da saia da me. A
me era a mulher do Jos Thomaz, e o pequenino era filho d'elle... A
grande cadella tinha abandonado o pequeno, depois de ter fugido ao
homem!

--Um raio venha que a parta! rogou do lado o pastor.--Ora vs ahi um
estafermo que precisava que a matassem!

O Jos Thomaz poz-se a rir muito, fitando aquella gente. Uma forte
impresso de piedade estampava-se em todos os rostos.

-- Dorotheia! chamou ento um dos do grupo. Traz aqui o menino. Um pae
deve sempre beijar o seu filho. Traz c o pequeno,  rapariga.

Mas no foi preciso; que o Jos Thomaz, sempre de joelhos sobre a neve,
foi para ella de mos postas humilde como um rafeiro... E como aos
labios do pae a rapariga achegasse o pequenino, no silencio que se fez
ouvia-se o rir convulso do louco, beijando de joelhos o filho.

Como se fra uma chuva de petalas, do co de madreperola a neve cahia
mais densa...--ao mesmo tempo que nos ramos altos dos castanheiros, como
no seio immenso de um orgo, o vento sul--gemia...




ABYSSUS ABYSSUM...


N'esse dia, os dois pequenitos tinham jurado que haviam de ir ao rio.
Assim elles tivessem uma coisa boa!... Mas que tentao para ambos, o
rio! Ainda lhes soavam aos ouvidos, com todo o seu entono vibrante de
ameaa, aquellas terriveis palavras com que a me os intimidara, um dia
que lhe appareceram em casa tarde e s ms horas.

--Ouvistes?--ralhara-lhes a me.--Olhae se ouvistes: se voltaes ao rio,
mato-vos com pancada. Andae l...

Ih! como ella dissera aquillo, Me Santissima! Colerica, ameaadora, com
a mo em gume sobre as suas cabecitas loiras... Lembravam-se de haver
tremido, cheios de susto, muito chegados um ao outro, humildes sob
aquella ameaa terminante. E ento, n'esse dia, elles no tinham ido ao
rio. Aos passaros sim...--l estavam as calas rotas do Manuel a
dizel-o--...aos passaros  que elles tinham ido. Ao rio era bom! a me
que o soubesse...

Ah, mas ento no os deixassem dormir n'aquelle quarto. Logo de manh,
mal abriam as janellas, a primeira coisa que viam era o rio, uma
corrente muito lisa e esverdeada, serpeando entre os renques baixos dos
salgueiros. L estava a ponte velha, d'onde os rapazes se atiravam
despidos, de cabea para baixo, e ento o barquinho branco do
fidalgo,--lindo barquinho!--sempre  espera que o fidalgo o desamarrasse
para passar  grande quinta que tinha na margem de l.

De modo que o primeiro desejo que logo pela manh assaltava os dois
rapazes era o de irem por alli abaixo, muito madrugadores, to
madrugadores como os melros, metterem-se dentro do barco, desprendel-o
da praia, e deixal-o ir ento por onde elle quizesse, comtanto que fosse
sempre para deante... Quando fechavam as janellas para se deitar, a sua
vista seguia, mesmo atravez da escurido da noite, a linha que ia dar ao
barco. Era o seu--adeus at manh!--quelle pequeno objecto que valia
thesoiros, que para os dois valia mais que tudo, tudo...

Ah! tivessem elles assim um barquinho, que no queriam mais nada...

--Mais nada?

--Isso no... mais alguma coisa. E a me que no ralhasse, est visto.

Mas n'essa manh, bella manh, na verdade! a me viera acordal-os mais
cedo. Ia j pela aldeia um claro rumor de vida--gente que passava para
os campos, os solavancos dos carros no empedrado pessimo da rua, os
patos da visinhana que saiam em rancho para a digresso pelos prados,
grasnando ruidosamente, levantando-se em vos curtos, espantados da
aggresso accintosa dos rapazes. Havia mais de uma hora que alli perto
se ouvia o retimtim agudo do martello do ferrador atarracando cravos na
bigorna. J o reitor passara para a missa, em batina, muito hirto e
vagaroso, as chaves da egreja na mo esquerda e na direita a cabacita do
vinho. E quella hora, onde iria j a missa! A ultima beata, encapuchada
e lenta, recolhera, trazendo comsigo a esteira em que ajoelhra na
egreja. Havia mais de meia hora que o Joo carpinteiro, no meio da rua,
dava com valentia n'um carro cujo eixo _ardera_ na vespera, e que era
urgente compor, p'los modos. At o Ernestinho do estanco abrira j a
loja, e subira  varanda a regar os mangericos. Comeos da labuta
diaria, emfim; os senhores sabem.

Pois como lhes disse, a me viera n'essa manh acordar mais cedo os dois
pequenos.

--Fra, mandries, vamos!  preciso afazerem-se a madrugar, que tal
est! Ai, ai, dia claro ha que tempos, vem ahi o sol, e os morgadinhos
na cama.--E emquanto fallava, ia-lhes abrindo as janellas.--Persignar e
vestir, vamos! Calas... colete... os jaquetes... tomem.

E poz-lhes tudo sobre a cama.

--Me, a beno!--balbuciaram os dois, tontos do somno ainda.

--Deus os abene. Que Deus no abena mandries, ouviram? Ora eu j
volto. Queira Deus que no vos encontre c fra, tendes que ver.

Os dois sentaram-se na cama para se vestir, contrafeitos, fechando os
olhos quella hostilidade viva da luz que invadira o quarto n'um jacto
repentino e brutal. Pela abertura larga da camisa assomava-lhes o peito
que elles afagavam n'uma ultima caricia, suavemente, docemente. Seria
to bom tornar a adormecer, assim mesmo sentados! O mais novito ainda
tentou deitar-se outra vez, pesaroso de ter de abandonar j o aconchego
morno da cama, onde se estava to bem! onde os sonhos eram to lindos!

Mas a me no tardava alli. Era preciso vestirem-se, que remedio! Foi
ento que o Manuel, mais esperto do somno, olhando para o campo o achou
encantador, todo resplandecente de verduras.

--Bonita manh, no vs? As arvores parecem mais lindas, repara. Porque
ser?

O outro encolheu os hombros, no sabia: s se fosse por no haver
nuvens...

Pela janella aberta, avistava-se um trecho de paizagem que a luz viva da
manh fazia muito nitida. As vinhas tinham um verde encantador, muito
suave, trepando encosta acima, fazendo contraste com a rama escura das
laranjeiras que cerravam alas nos pomares humidos das baixas. Revestidos
de folhagem, ascendiam ares fra os olmos gigantescos. Pedaos d'horta
estavam em toda a pompa do seu vio e da sua frescura. Viam-se as rodas
das noras, latadas compridas a cuja sombra regalam as merendas.

Um renque de choupos esguios marcava a borda do rio que n'essa manh
deslisava muito sereno, esverdeado d'aguas, espelhante sob aquelle co
immaculado.

--Ah! ah!...--riu-se o Manuel, contemplando-o.--O rio! Que te parece?
Olha que  lindo, o rio; ora ,  Antonio?

--, l isso... Mas _tamem_ de que vale?--tornou-lhe com desalento o
irmo.--A gente no pode l ir... Olha se a me o soubesse, han?--E
mirando por sua vez a paizagem perguntou:--J reparaste no barco, 
Manuel?

--To bonito!

Os dois riram.

--Parece pintado de novo... E nem se mexe, repara.

--Podera!...--explicou o Manuel--...amarrado com uma corda...--E depois
radiante, gesticulando para o irmo:--Mas eu era capaz de o
desamarrar...

--Ai eras!--disse duvidoso o Antonio, para o incitar.

Calaram-se. Era bom podel-o desamarrar, l isso era. Ambos dentro
d'elle, ssinhos, isso  que seria bom! E elles ento que estavam mortos
por ir s azenhas, e pelo rio era um instante emquanto l chegavam. O
barco! Era to bom andar no barco! E aquelle ento era lindo, como no
tinham ainda visto outro. Nunca lhes haviam esquecido--olhem l no
esquecessem!--aquellas tardes em que o fidalgo os levara dentro do
barquinho, ensinando-lhes como se remava.

O Manuel foi o primeiro que se vestiu, e foi logo direito  janella.
Passava n'aquelle instante um bando de andorinhas, chilreando.

--Est um dia lindo, avia-te.

--Olha avia-te! p'ra que?--perguntou o Antonio torcendo e retorcendo o
p para enfiar o sapato, apoiado com as mos ambas na borda da cama.

O Manuel sorriu-se, triste.--Era verdade... Aviarem-se p'ra que? A me
no os deixava ir ao rio... E se no que fossem! Mato-vos com pancada
se desceis a ladeira. J se v que depois d'isto...--E os dois
suspiravam, desgostosos. Que pena serem pequenos!

N'isto o Antonio chegou-se tambem para a janella. Que lindo, o campo!
Mas os olhos dos dois no se desfitavam do barco, fascinados. Demonio de
tentao! E para mais, tinham-no pintado de novo: sobre o branco, a todo
o comprimento, uma faxa azul-clara destacava nitidamente, parece que
apenas meio palmo acima do nivel da agua.

--Tte,  Manuel! E se fugissemos?

--Ora! se fugissemos!... E depois? A gente tinhamos de voltar...

Ora ahi esta! isso  que era o peor! A me, depois, era capaz de fazer o
que tinha promettido. E arregalando muito os olhos, imitando a colera da
me:--Se voltaes ao rio... Ai, ai, a triste sorte!

Recahiram em silencio. Ficaram-se por instantes a ver o sol que rompia
ao nascente, n'uma exploso violenta de luz, accendendo coloridos na
largura muito ampla da paizagem.

--Mas palavra que o barco parece pintado de novo... relembrou com
alegria o Manuel.

--Mas  que est, palavra que est. Agora  que ha-de ser bom andar
dentro d'elle...

Os dois riram-se muito quella ideia encantadora de andarem no
barquinho, assim pintado de novo. Diacho! e porque no? Por isso,
cobrando animo, o Antonio disse resoluto:

--Olha agora o medo! Seguro que nos mata.--E puxando-o pela
jaqueta:--Vamos l,  Manuel?

O Manuel fez que no com a cabea, e espreitou se vinha a me. Como no
vinha, disse baixo ao irmo:

-- tardinha, hein? dois pulos e estamos l. No  to facil dar pela
nossa falta, alli  tardinha. A gente finge que vae para o adro.
Levam-se os pees...

--Ha-de ser mesmo assim!  tardinha!--concordou o Antonio.--Eh! eh! tu
c desatraco.

--E eu remo,--disse logo o Manuel com gesto de quem remava.

--Ao leme vou eu: o leme  aquillo que regula--explicou.

--Pois sim, mas  vinda pertence-me a mim, remas tu. Se quizeres
assim...

--Pois est bem, quero! Assim mesmo  que ha-de ser!

E recapitulando, para melhor ficarem combinados:

--Ao p'ra baixo remo eu, ora remo?

--Remas.

--E tu regulas, ora regulas?

--Reglo.

--Ao p'ra cima  s avessas, ora ?

--.

Muito bem, basta palavra! E ambos ao mesmo tempo, um ao outro se
impozeram segredo...

--Schiu!...

--Schiu!

       *       *       *       *       *

A tarde descahia limpida. Na vasta cupula do co, penachos de nuvens
alvejavam, immoveis.

Accesas n'aquella exploso rubra do occaso, as arestas dos montes
franjavam-se de purpura e oiro, na decorao magica dos poentes.
Comeava de cair sobre os campos a larga paz tranquilla dos crepusculos,
e uma quietao dulcissima e vagamente melancolica entrava de adormecer
a natureza para o grande somno reparador de toda a noite.

...E a tarde ia descahindo, cada vez mais limpida.

N'aquella luz indecisa de crepusculo que mansamente se ia accentuando,
os montes do sul tomavam um torvo aspecto de sombras gigantescas,
immobilisados n'um fundo em que se iam apagando ao de leve todos os
cambiantes de luz. Os pormenores da paizagem perdiam-se n'aquella
indeciso vaga de noite que vinha descendo, e uma especie de silencio
confrangedor dominava a natureza toda, recolhida n'um como spasmo
amedrontador e sinistro que dentro de ns evoca a essa hora no sei que
vagos receios ou medos inconscientes que fazem com que na imaginao as
coisas criem vulto, e no mundo exterior obrigam a retina a exagerar as
formas s coisas...

Muda de gorgeios, atravessando o espao em vos muito rapidos, a
passarada demandava os ninhos onde se acoitasse do frio que acordava.
Cahiam j pesadas sobre os valles as sombras das montanhas, e um
fumosito subtilmente azulado nadava  flor das coisas, velando-as para o
tranquillo somno em que iam adormecer.

E a tal hora e no meio de tal silencio, o barquinho branco deslisava
mansamente sobre a agua tranquilla do rio, onde as primeiras estrellas
comeavam de lampejar. Dentro d'elle, os dois irmositos silenciosos
iam-se deixando enlevar n'aquelle ruido suave dos remos abrindo fendo
nas aguas... No! era bem certo que elles no tinham jmais sentido uma
to poderosa e viva alegria--alegria doida que lhes trasvasava do peito,
fundindo-se em energia nos musculos e crystallisando-se nos labios em
sorrisos.

Dentro d'aquelle adorado barco, assim no meio do rio, eram senhores
absolutos da sua vontade, poderiam ir para onde lhes parecesse, livres
de admoestaes alheias, ssinhos, independentes. E esta feliz convico
de liberdade alcanada, fazia-os agora orgulhosos, alm de os encher de
alegria. Por certo elles nunca tinham sido to felizes, e quem sabe se o
seriam jmais?... No emtanto a noite accentuava-se. Espertava nas
margens o marulho da agua nas raizes fundas dos salgueiros. No co alto
e sereno scintillavam as estrellas em cardumes.

--Remas, Antonio?--perguntou o do leme.--Olha se a vs...--E apontava
para Vesper, a estrella que mais brilhava.

Tinham os dois concebido o extranho desejo de alcanar a estrella cujo
brilho diamantino os fascinava. To linda!

--Anda-me tu com o leme!--tornou-lhe com intimativa o Manuel.--Ai a
estrellinha! Deixa que ella faz-se fina, mas havemos de passar-lhe
adeante, s por isso...

--Olha o milagre! Ella est quda!--fez o outro, convencido da
facilidade da empreza.

--Est quda, est quda, mas sempre na frente de ns; vae l
entendel-a. Olha como brilha,  Antonio.

--Mas rema que eu c vou, falta pouco. Ao direito d'aquella fraga  que
ella est.

No era difficil passar-lhe adeante, qual era? Era menos de meia hora
era certo alcanal-a.

E engastada no azul escuro do co, a estrella parecia brilhar mais,
quanto mais a olhavam.

--De que so feitas as estrellas?--perguntou o mais novito.

--De prata, pois est visto.

Ento o outro, lanando um amplo olhar  vastido infinita do co,
exclamou:

--Eh! tanta prata!

--O sol, esse  d'oiro--disse ainda o Manuel.

--Bem de ver!--volveu-lhe convencido o irmo.--Que eu, se me dessem 
escolha, antes queria as estrellas. Olha que rebanho!

--Pois eu antes queria o sol. Com licena do teu querer, sempre  mais
grande.

E emquanto fallavam, os dois no desfitavam olhos da estrella feiticeira
que perseguiam. Os remos, no emtanto, iam abrindo fenda na agua, com
certo ruido muito doce... E l no alto co, dir-se-hia que de instante
para instante a feiticeira estrella mais brilhava, incitando-os.

--Vl-a a fazer assim?--e poz-se a pestanejar, imitando a palpitao
crebra e irregular da luz sideral.

-- que tem somno--respondeu o outro.

--Olha que no. Aquillo  a fazer-nos negaas, _tamem_ t'o digo.

--Ai ?! Pois que faa as negaas e que se descuide: se malha c baixo,
bem se afoga...--E apontando-lhe um punho cerrado, gritou a rir:--Eh,
_boieira_!

N'este momento, uma estrella cadente abriu esteira de prata no azul,
sumindo-se rapidamente. Os pequenos ficaram com medo e ambos murmuraram
em tom de reza as palavras rituaes:

Deus te guie bem guiada,
Que no co foste creada.

--Vs? disse o Manuel que era dos dois o mais supersticioso.--Torna a
apontar para ellas... Eu c no aponto, que nascem cravos nas mos.

--A ti talharam-te o ar,  Manuel.

--Diz a me.  meia noite levaram-me  fonte e esparrinharam-me agua
para o corpo. E a agua havia-de estar fria... observou, encolhendo os
hombros. Depois, viraram-me para as estrellas e disse ento a me:

Ar vejo,
Lua vejo,
Estrellas vejo:
O mal do meu corpo
Pr'a trz das costas o despejo.

Riram muito. O Manuel, despidinho, coiracho ao colo da me, havia-de ser
engraado. E ento todos de volta, a ver quando o ar se talhava.

--Mas talhou-se. Agora, em paga, uma vez por anno, ao menos uma vez por
anno, tenho de olhar pelos ralos do leno p'r'as _cinco chagas_, umas
estrellas que alm esto, e rezar uma Ave-Maria.

--Sempre, sempre?

--At que morra. Depois de morrer vou morar tres dias com tres noites
dentro de uma.

--Ora! tornou-lhe incredulo o irmo.--Tu no cabes l...

--No sei: assim  que anda nos livros.

...Mas os braos doiam j dos remos, doiam muito...

Devia ser tarde, e elles sem darem f, enlevados como iam no desejo
louco de alcanar a estrella.

A noite estava calma, no bulia nas ramagens ramo verde de salgueiro, um
silencio continuo dominava tudo em volta. E amolentadora e mrmura, a
agua da corrente ia espumando na quilha, com certo ruido de uma brandura
suavissima e doce.

...Mas os braos cada vez doiam mais!...

Agora, no co, havia muitas estrellas brilhantes, muitas, mas nenhuma
como aquella, ainda assim. Entretanto os dois pequenos entraram de olhar
menos para ella, pois que irresistivelmente a cabea lhes pendia para o
peito, e as palpebras se lhes cerravam, a despeito de todo o esforo.

...E os braos sempre a doerem!...

Por algum tempo, os remos foram com a p mergulhada na corrente,
cortando-a com levissimo ruido. Immobilisara-se tambem o cabo do leme,
sem que nenhum dos dois irmos desse f do subito desleixo do outro.

...E os braos j no doiam, nem ao de leve sequer...

O pequeno barco vogava agora  merc da corrente, sem impulso algum
extranho. Dentro d'elle... a musica levissima das respiraes dos dois
pequenos adormecidos...

Algum tempo assim. Seno quando, um ruido surdo, e logo um movimento
brusco de balano, fez acordar o do leme.

Na grande allucinao do perigo, desvairado pelo medo, gritou
immediatamente:

--Manuel!  Manuel!

O remador acordou, sobresaltado.

--A estrella? Ainda l est, olha!--disse incoherente, estonteado pelo
somno.

--Uma fraga de cada lado! Ouves o rio?  j muito tarde!-continuou
afflicto o Antonio.

--Ento no lhe passamos adeante?--perguntou ingenuamente o Manuel,
referindo-se ainda  estrella.

Mas o irmo, sacudindo-o convulsamente, procurando chamal-o  realidade,
de novo lhe gritou, com lagrimas na voz:

--Manuel, acorda! Olha que estamos perdidos, Manuel!

E mal conheceram o grande perigo em que estavam, ambos romperam n'um
choro muito convulso, agarrados um ao outro, feridos de um terrivel
susto que a hora e o logar augmentavam cruelmente. Parecia-lhes medonho
aquelle marulhar continuo da corrente, affligia-os como se fosse o
psalmodear monotono e rouco de uma legio de espiritos maus,
preludiando-lhes as agonias lentas da morte. Aos dois pequenos os
rochedos informes das margens affiguravam-se-lhes negros gigantes, que
n'um requinte de malvada indifferena houvessem jurado assistir
impassiveis e mudos  escura tragedia da sua desgraa.

E o barco sempre encalhado, no havia foras que o arrancassem d'alli.
Tinham perdido os remos. Teriam de esperar que amanhecesse e alguem
viesse acudir-lhes, alguem que ouvisse de longe os seus afflictivos
gritos.

Crudelissimo transe!...

E ento os braos continuavam a doer, doia-lhes agora o corpo todo, ao
mesmo tempo que uma tristeza mais e mais pesada lhes opprimia o
espirito, parece que embrutecendo-os.

--Mas a estrella sempre alm...--notou ainda o Manuel, balbuciante de
medo, como se quizesse increpar a propria estrella da sua indifferena
criminosa, no meio d'aquelle enorme infortunio em que por causa d'ella
se haviam precipitado.--Se ella podesse acudir-nos...

At que por fim, prostrados da fadiga e das lagrimas de novo se deixaram
adormecer, era j alta noite.

Mas na sua furia constante, a corrente que alli era muito forte no
cessava de bater contra as pedras o pobre barco indefeso. At que aps
tamanho lidar, o rio safou-o de repente para um lado onde as aguas se
contorciam em remoinho, e entrou de girar com elle, violentamente.
Quando a agua se precipitou para dentro, os dois pequenos assim de
subito acordados romperam em gritos lancinantes:

--Ai quem acode! Ai Jesus, quem nos vale!

Tinha surgido a manh, serena, tranquilla, cheia de gorgeios e de azul.
Mas como ninguem acudisse e a lucta no rio fosse desegual, n'um repelo
mais violento o pobre barco esphacelado investiu de proa com o abysmo e
l se sumiu para sempre! Feridos de morte, no ultimo paroxismo da sua
enorme dor desesperada, os dois irmositos abraados sumiram-se tambem
com elle!...

       *       *       *       *       *

...N'esse mesmo instante...--e mais longe do que nunca--...a estrella
feiticeira acabava de cerrar tambem a palpebra luminosa!...




ME!

_Ao dr. J.C. da Moita Prego_


Bella cabra, a Russa!--posso dizel-o aos senhores. A melhor da manada,
luzida, de pello macio, sem saliencias de ossos como as outras, altiva
de porte quando  frente do rebanho parecia commandal-o, badalando
cadencialmente o seu chocalho enorme--tlo! tlo! Era no rebanho a que
mais dava que fazer ao pastor, requerendo vigilancias particulares no
seu atrevimento, pois que se a deixassem livre no havia arvore a que
no trepasse, oliveira especialmente, nem rebento novo que no
triturasse esfomeada no seu dente acerado de roedora.

E depois, alli onde a viam, estava cara s pelas coimas, que muitas
vezes illudira ella a atteno do pastor, e se ficara por hortas e
quintalorios, causando estragos que os louvados depois avaliavam caro.
Por isso Alipio Jos, pastor, a quem doiam as denuncias, ao pescoo da
Russa prendera o chocalho, para dar do atrevido animal mais facil
rumor, pois era de timbre muito distincto dos demais, e muito mais
grave.

Em pastagens pelos montados, a Russa era de uma audacia extrema. Fazia
gosto vel-a trepar s ultimas cumiadas, subir destemidamente s arestas
superiores dos rochedos, muito serena, erecta nas suas pernas delgadas,
pescoo alto, ajoelhando destemida a retouar as hervas dos declives
alcantilados e escorregadios, no medindo perigos nem se importando com
abysmos, emquanto as companheiras se ficavam pelas encostas e corregos,
saboreando as giestas, sem se atreverem a seguil-a nas suas excurses
arriscadas de _touriste_.

Se a miravam de baixo, sentia-se orgulhosa de superiores audacias, e
ento cabriolava em saltos funambulescos, de rochedo em rochedo ou de
garganta em garganta, pouco se lhe dando de perigos. Cobra que
encontrasse por essas paragens era para ella um desespero--tamanha a
furia com que a perseguia, e a insistencia com que se ficava s marradas
na lura onde se lhe acoitava. O chocalho ento badalava com fora, e o
Alipio que dormia  sombra das azinheiras, de chapeu sobre a cara,
levantava-se sobre um cotovello e intimava para o alto, com o seu
vozeiro que fazia echo:

--Toma tento, Russa!

E depois, de ventre para baixo, estirado sobre a manta, cotovellos
fincados no cho, os queixos entre as mos espalmadas, Alipio Jos
ficava-se a olhar a cabra, invejoso d'aquella facilidade em subir aos
ultimos pinaculos, admirado dos saltos que ella fazia para salvar
gargantas pedregosas e perpendiculares, onde, se caisse, a morte seria
infallivel. E por l andava dias inteiros a Russa, n'aquella
vagabundagem por sitios inaccessiveis ao resto do rebanho,
resguardando-se da chuva em reconcavos de rocha, onde as aguias faziam
ninho.

       *       *       *       *       *

Foi n'um d'esses sitios que a Russa teve o primeiro filho, e por l se
deixou ficar, acho que dormindo ou toda a noite velando. Ao outro dia
quiz ella descer, e vir para o rebanho que a aguardava. Mais de cem
vezes, fitando o topo da ladeira, Alipio Jos gritara c debaixo, cada
vez mais desesperado:

--Volta ao rebanho, Russa!

E, cuidando que mais lhe feria assim a atteno, punha-se a agitar com
furia o mlho dos chocalhos, gritando sem cessar:

--Russa! torna ao rebanho, Russa!

Mas impossivel! que a no deixava a quebreira em que toda ella ficara do
parto, nem o pequeno poderia--pobresinho!--descer por taes ladeiras, de
pedregosas e asperas que eram.

Mas de noite o frio era intenso n'aquellas alturas, e o pequeno
congelava unindo-se  me que o bafejava para o aquecer, e a si o
aconchegava mais e mais para lhe transmittir o natural calor do seu
corpo enfraquecido e doente.

Por altas horas da noite, na solido lugubre d'aquelle sitio,
alcantilado e ingreme, entre penedias escarpadas onde o vento sibilava
lugubremente, n'um como choro dolente e prolongado, o balido da me,
traduzindo angustias e desesperos intimos, respondia ao vagido fraco do
filhito, cuja vida parecia ir-se apagando de hora a hora e instante a
instante, inteiriando-se-lhe com o frio os membros delicados e tenros.

Eram assim as noitadas dos desgraados. Por taes frios e doenas,
impossivel dormir. Toda a noite velavam e gemiam, achegando-se mais e
mais n'um como abrao de eterna despedida--amigos que se iam apartar
para uma longa viagem de trevas, com o corao alanceado pela saudade,
soluando e gemendo, n'um adeus! que era infinito, como o infinito amor
que os unia...

E a cada momento, como um dobre de finados, o chocalho badalava
lugubremente, assustando o animalsinho, como se aquelle fra o signal
para o transe derradeiro...

Para maior desgraa, as noites eram sem lua. Encravadas na abobada, as
estrellas bocejavam dormentes, n'uma criminosa indifferena por aquella
dr suprema de que eram as unicas testemunhas.

E balando muito, e balando sempre, a pobre cabra imprecava ao co a vida
do filho, ao menos,--ora supplice em balidos de resignao que uma
profundissima dr ungia, ora desvairada e louca, em gritos que
significavam blasphemias, blasphemias de desespero contra o co que a
no ouvia, e contra a morte que bem sentia aproximar-se para lhe
estrangular o filhinho que ella amava tanto.

E a fazer-lhe mais incruenta a sua enorme dr--a ironia acerba da
chocalhada longinqua das companheiras, que se iam pelos montes da outra
banda, deixando-a a ella ssinha com o filho,  espera da morte que era
inevitavel.

Ento ergueu-se por instantes! Agitou convulsamente o pescoo, e pelo ar
fra o som triste do chocalho espraiou-se lentamente, n'um adeus! adeus!
de despedida s companheiras felizes que l iam, n'um ruido longinquo de
chocalhos...

       *       *       *       *       *

N'aquella solido os dias eram melhores. Com os primeiros raios do sol
entravam de reanimar-se os dois; pouco a pouco os membros desentorpeciam
e o sangue circulava.

E o cabritinho sem poder ainda descer!...

De p, ao lado do filho, a pobre cabra lanava olhos compungidos para as
escarpas da ladeira, ia para um lado e outro, desvairada e tremula, como
que a escolher o melhor caminho por onde levasse o filho. Mas eram todas
horriveis! Silvedos e rocha viva era o que mais se via. E depois o rio,
l baixo, rugia nas cachoeiras, augmentando-lhe o receio.

Impossivel! impossivel!

E sentia-se enfraquecer  mingua de sustento, pois a herva, por alli,
estava comida e recomida pela pastagem miseravel de tres dias.

N'um momento de desespero, quando os gemidos do filho eram mais dolentes
e crebros, refez-se de coragem a cabra, e segurando entre os dentes o
chibo tentou o primeiro passo, arrastando-o pela ladeira, do lado em que
o declive era menor. Mas em breve desanimou a pobre, que o filhito,
assim arrastado, mais e mais gemia, convulsionado e tremulo...

Impossivel! impossivel!

Nada que signifique a dr d'aquella me, e traduzir possa em linguagem
toda a gamma de sentimentos e emoes no seu balar expressos. Atirou-se
de joelhos sobre o corpinho do filho que hirto chorava e tremia,
estendido para alli, na prostrao pesada do ultimo desalento; animava-o
com caricias, aproximava-lhe da bocca os uberes j flaccidos e
amolentados, convidando-o a mamar, como se aquelle leite podesse levar
ao filho a coragem que a ella propria faltava em tamanho transe
afflictivo...

Mas pouco a pouco a noite ia caindo. Tinha-se j apagado a ultima
cambiante do poente, e sobre as gargantas dos montes passavam
subtilmente as primeiras nevoas, alvadias e tenues.  medida que a treva
se condensava, decresciam os ruidos em todo o horizonte, accentuando-se
cada vez mais a melopa somnolenta do rio nos audes. Perpassavam pelo
ar as aves para os ninhos. Bandos de pombas, como flocos volateis de
arminho, cortavam em vos mansos a profundidade calma do co, demandando
os pombaes e os povoados, onde se acolhessem da noite que vinha caindo.
Revoadas de perdizes e de tordos passavam por alli alegremente, n'um
chilrear sonoro, caindo de chofre sobre o monte, a esconderem-se nos
estevaes e nas urzes. Pelas hervagens seccas rastejavam apressados os
reptis, e sob os tojaes bravios a lebre buscava a cama...

...E tudo tinha ninho--pombas que voavam e perdizada sonora, quem
passava no ar e quem rastejava no monte, lagartos, sardes, cobras, toda
a colonia vagabunda de reptis e de aves, que passou alegremente o seu
dia, e se ia recolher agora para recomear dia manh...

S a desgraada cabra, alli, junto do filho tenro, no mais fizera
passo. Com as brumas da noite, as brumas da tristeza para o seu corao
alanceado de me. Ahi vinha o frio inclemente flagelar-lhe o filho...--o
filho que j tremia a ella aconchegado--o triste pobresinho!

Rompia de toda a banda o gri-gri sonoro dos grilos, vivo e cantante
n'aquelle silencio que se definia. Cerrou de todo a noite. O co era
baixo e torvo de nuvens. Estrellejava a espaos a abobada, irradiando
uma luz mortia e alvadia, que levava a pensar em ultimos transes de
creanas, em que a vida gradualmente se extinguisse, n'um latejar
vagaroso de palpebras somnolentas...

Mais algida fazia a noite, e mais pesada de melancolias, essa torva
apparencia da atmosphera e do co. Noite peor do que as outras, porm
com menos balidos, pois que me e filho estavam extenuados de foras e
nem gemer podiam. E a morte que no vinha arrancal-os do abrao em que
se uniram, mal cerrara a noite!

A pequena distancia, o monte era cortado de profundissima garganta em
rocha viva. Do lado opposto, e quasi defronte dos moribundos,
accenderam-se na treva dois pontos phosphorescentes, de uma claridade
esverdeada rutila. E, immoveis, esses dois olhos estoirados de lobo, a
que parecia terem arrancado as palpebras, projectavam a sua luz sinistra
na direco do grupo que velava. A natureza inteira retrahia-se n'um
como pavr medonho, concentrado de intimos terrores e silencios lobregos
d'horas altas. Cerrava-se mais no co a phalange muda das nuvens,
densificando-se em tintas negras, impenetraveis e caliginosas, sem
scintillas de estrellas, por fugidias e tenues que fossem...

E sempre, e constantemente immoveis na escurido pesada, aquelles dois
olhos flammejavam, de instante a instante mais vivazes, perscrutando a
treva da direco mais exacta do grupo. Transida de susto, arquejando
convulsamente no ultimo paroxismo da sua enorme dr, a pobre me no
ousava arriscar um unico movimento e mais e mais cerrava contra si o
corpo inanimado do filhito que parecia adormecido.

Assim durante horas que aquelle atrocissimo supplicio fez enormes, quasi
eternas, tumultuosas de acerbos soffrimentos e de indiziveis angustias,
vasias de esperana na vida do seu pequenino filho.

De repente, aquelles dois pontos brilhantes apagaram-se na treva, e de
novo os viu brilhar a cabra, mas j a maior distancia. Estremeceu a
pobre de subita alegria,--e no abalo que soffreu o seu corpo, at ento
retrahido, o chocalho badalou. Voltou a correr o lobo, e ento a
desgraada viu errarem na treva, como dois grandes coleoptros de azas
phosphorescentes, os olhos at ento immoveis do inimigo. E por alli
levou a noite toda, farejando e uivando, at que canado de perscrutar o
insondavel, se foi ladeira abaixo, aos primeiros assomos da madrugada
que vinha, docemente, alumiando pincaros e arestas.

       *       *       *       *       *

Ao romper d'alva o co era azul. Apenas de longe em longe pennachos de
nuvens brancas ondulavam as suas cristas alvadias, que se esfarpavam
lentamente ao menor sopro da aragem. Pouco a pouco o azul ia desmaiando,
diluindo-se na luz esbranquiada que vinha do alto em gradaes
imperceptiveis e suaves.

Comeavam de animar-se os longes da paizagem, e a retina accusava j as
differenas mais salientes dos campos e herdades, pedaos esbranquiados
de restolhos, tons pardos de olivaes, terras plantadas de vinhedo, e
pinheiraes cerrados galgando desfiladeiros e investindo com o co no
alto dos montados.

Pelas ladeiras d'alm, caminhos e atalhos corriam em torcicolos at ao
areal da margem. Em turbilhes de espuma alvissima precipitava-se a agua
nos audes, marulhando nos altos penedos marginaes, denegridos e
informes, de uma mudez contemplativa e perpetua. Do tecto do moinho, l
em baixo, uma columna azulada de fumo elevava-se tranquillamente no ar
sereno e doce, at se desfazer no espao amplo e benigno, como uma
ambio ou como um sonho...

       *       *       *       *       *

Foi ento que Alipio Jos,  frente do rebanho, de novo abordou quellas
paragens, no intuito de procurar a cabra tresmalhada.

--Russa! torna ao rebanho, Russa!

Mas precisamente a essa hora, a Russa exhalava o ultimo alento, pendida
sobre o cadaver do pobre filhinho morto!...

E ao pino do meio dia, quando o sol faiscava causticando nos
rochedos--passava na direco da montanha, crocitando lugubremente, a
esfaimada legio dos amaldioados corvos...




ARRULHOS

_A.M. da Silva Gayo_.


Ao fundo do jardim ficava o pombal--uma casinhola redonda, com orificios
triangulares no alto, em toda a volta, alegre na alvura impeccavel do
muro que fallava ao longe, muito ao longe, a leguas de distancia.

--Pombal da Morgada! diziam.--L se v alm...--E um gesto muito longo
levava a vista horizontes fra,  cata do Pombal da Morgada, que
alvejava longe, muito distante, na meia sombra dos montes sobranceiros,
como um pequenino ermiterio cheio de lendas, onde santos de carne e osso
provocassem romarias, promessas avultadas de pessoas ricas, e onde
seriam encantadoras as tardes quentes de estio,  sombra de arvores
seculares em cuja ramagem trinassem passaros em barda, pardalada sonora,
gralhadora, rindo da nossa merenda e da nossa semceremonia--frangos
assados e boa vinhaa da terra.

Pombal da Morgada porque? Historia singular que vou contar-lhes. A
Morgada era uma senhora rica, muito rica, tinha vinte e cinco annos e
outras tantas quintas, viuva antes de casar, pesarosa da morte
desastrada do noivo--um trambulho de um cavallo que o matara logo alli,
sem mais pio, n'um ai.

A recordar esse amor--um casal de pequeninos pombos que elle lhe dera na
vespera, symbolisando, dizia elle, a pureza da sua alma d'ella, e a
castidade das suas intenes d'elle...

Muito bem. Fez-se ento o pombal, o casal procreou, vieram pombos
novos--todos brancos uns, rajados outros, de um _gris_ delicadissimo
alguns, todos encantadores, velludineos, muito mansos.

Bellos pombos, na verdade!

Todas as tardes, quando as tintas do crepusculo comeavam de esbater-se
n'uma uniformidade vagarosa de tons, e a percepo clara das coisas
entrava de se desfazer em imperceptiveis _nuances_ subtis, n'um
_smorzando_ melancholico onde palpitavam vagos terrores de noite que vem
caindo, quando os valles se cobriam de uma sombra azulada e a vida
cessava no campo e comeava no co em scintillaes argenteas de
estrellas--todas as tardes, digo, quem quer poderia ver aberta a
estreita porta do pombal, e uma mulher nova, vestida de preto,
espalhando no pavimento terreo, com solicitudes de _menagre_, as
provises de um pequeno cabaz que lhe pendia do brao--milho em
abundancia e fartura de alpista.

Assim todas as tardes, ia j em quatro annos, que no havia foras que
levassem a Morgada para fra do seu pequeno solar, onde vivia s,
retirada de tudo, a tudo indifferente, impassivel a pedidos de amigas
que saiam para as praias, no inverno para Lisboa, e que a queriam levar
para que se distrahisse, para que se alegrasse--era nova ainda, podia
arranjar noivo, nada mais facil...

--E as pombas? objectava.--Mas era peccado deixal-as, dizia comsigo.
Quando voltasse estaria deserto o pombal, umas que fugissem, outras que
matassem, haviam-de at roubal-as, entrar de noite no pombal, leval-as
todas.

--Que no e que no! insistia renitente;--que tivessem paciencia, que se
divertissem muito, ella ficava.

--Platonismos! gargalhavam depois as amigas.--Saudades do outro que
rebentou do trambolho. Bem tola!

E partiam ss, rindo da Morgada e do seu amor pelas pombas, achando-a
ridicula com aquelle seu luto perpetuo, escarnecendo da simplicidade
habitual da sua _toilette_--vestido preto todo liso, muito afogado, um
pequeno _ruche_ no pescoo e mangas, nem uma prga, nem sequer um lao.

Muito respeitadas, as pombas da Morgada. Caador que as visse no
desfechava sobre ellas. Assim, a manada crescia de hoje para manh,
desenvolvia a propagao o bom tracto, a habitao confortavel, muito
abrigada de ventos, onde a chuva no entrava e os ninhos eram
flaccidos--folhas de milho mudadas cada dois dias.

Que bom, ser pombo da Morgada!

A musica dos arrulhos, uma volata muito languida, comeava com o
aclarar, muito cedo, depois do descano do somno na placidez do ninho,
quando as foras eram ss e as azas pediam vos.

Hora dos amores!

Pombos atrevidos, sanguineos, de iris rutilante e indole impaciente,
lanavam-se sobre as pombas, foravam-nas, perseguiam-nas se voejavam,
ameaando-as de bicadas primeiro, picando-as nas cabecitas se resistiam,
possuindo-as  fora, a tremer, azas em concha, pennugem erriada,
arrulhando muito, arrulhando sempre, cahindo desfallecidos depois,
hirtos, palpebras cerradas, trementes, frementes, em spasmos de luxuria
e paroxismos do goso; emquanto ellas, as pombas, se emplumavam agora de
contentes, sacudindo as azas, pescoo levantado, orgulhosas talvez,
muito felizes.

Outros ento, mais meigos ou mais pachorrentos, mais velhos por certo,
quedavam-se horas seguidas, horas longas, defronte da sua eleita, n'uma
doura plangente de musicaes arrulhos, frementes de desejos, mas pedindo
s boas, no querendo violencias, detestando-as, bem se via,
supplicando, rogando, commovendo. E se logravam intentos, redobravam os
carinhos, havia meiguices de geitos e friccionamentos leves de
pennugens, arrulhos mais doces e toques delicadissimos de bicos--beijos
com certeza.

Isto todos os dias, nas manhs ennevoadas especialmente. Imagine-se a
vida do pombal quellas horas:--pombas que voejavam assustadas, esquivas
mesmo, e pombos que as perseguiam; pombas que condescendiam e pombas que
queriam arrulhos: quem no voasse arrulhava, quem no arrulhasse voava;
e tudo gozava--quem era feliz e quem estava para o ser, quem era
sanguineo e quem era pachorrento.

Ar dos campos, depois; alegres, muito amigos, pousando todos quando um
pousava, retomando vo se um voava, sempre juntos, sempre na mesma
direco, a beber no mesmo ribeiro, em linha, todos a um tempo, n'um
ruido muito doce de bicos que sorviam.

Ainda com sol, iam pousar de revoada no telhado da casa onde habitava a
Morgada, participar-lhe por certo que iam recolher, cumprimental-a ao
balco da sua janella, alegre de trepadeiras em flr, pousar-lhe nos
hombros, na cabea as mais ousadas ou as mais amigas, segredando-lhe no
sei que arrulhos que ora a faziam sorrir, ora lhe traziam lagrimas, mas
que sempre provocavam novos affagos, affagos interminaveis:

--Minha pombinha... minha amiguinha... minha querida...

D'alli para o pombal, continuar aquella vida de bohemios felises, vida
de concubinagem, n'uma promiscuidade sem limites e n'uma libertinagem de
harem.

Polygamia desenfreada!

Excepo a ella, apenas um casal--a melhor pomba da manada, pomba
branca, de uma alvura impeccavel de neve, e ento um pombo rajado, preto
e cinzento, de _nuances_ azues-escuras, ares aguerridos de luctador
vaidoso, um D. Juan emplumado, tentador.

Era o pombo mais atrevido do pombal, o de genio mais insoffrido e
spasmos menos longos, muita vida, n'uma mobilidade continua de pescoo,
nervoso, libertino. Pomba que desejasse possuia-a, sem arrulhos previos,
sem pedidos, brutalmente se resistia, pacificamente porque muitas se lhe
entregavam, preferiam-no, vinham deitarse-lhe no ninho, disputando
primazias  fora de bicadas.

E umas atraz de outras, e dias aps dias, sempre assim!

Mas todas fugiam em seguida, no sei se de esfalfadas, se para dar logar
a outras; uma s, a pomba branca, se quedava ao lado d'elle, paciente,
resignada, n'um arrulhar cada vez mais doce, cheio de ternuras, muito
meigo, idealmente brando, que agradava ao rajado, que o ufanava,
incitando-o, convidando-o, provocando-o. Por isso entrou de aborrecer as
outras, achando-as menos pombas, umas desavergonhadas que se iam
entregar a outros, e de se affeioar  branca, a ella s, acarinhando-a
muito, arrulhando com ella, alternadamente, ora um ora outro, gemendo
amores.

No imaginam os senhores nem ha nada que possa dar ideia da desordem, da
perturbao que isso levou ao rancho to dado a instinctos commodos de
polygamia, to avesso a duetos d'aquella natureza, onde os pombos eram
de todos e as pombas eram communs.

E tal desordem subiu de ponto com o proceder do casal que levava dias
inteiros dentro do pombal, sem sair, n'uma concubinagem que revoltava de
egoista. E quando saam no se juntavam com os outros--uma desfeita! uma
offensa!--tomavam rumo differente: para a direita se os outros iam para
a esquerda, para a esquerda se os outros iam para a direita, sempre ao
contrario.

Recolhiam mais cedo, com sol ainda, e quando os outros vinham, j os
encontravam no pombal, em ninhos contiguos a principio, no mesmo ninho
depois!

Um escandalo! Um desaforo!

E planeavam-se ataques, desfeitas ao casal, muitas desfeitas.

Se os dois eram felizes arrulhando manso, entravam os outros a arrulhar
forte, troa talvez, desespero decerto, todos juntos, combinados. E se
isto no bastava, comeavam todos a voar, batendo muito as azas,
levantando a palha dos ninhos, precipitando-se sobre o casal, fingindo
quedas, dando bicadas os mais raivosos, ou ento os mais despeitados...

Prestes o rajado saltava do ninho, oppunha defesas de azas sobre a pomba
branca e timida que o susto transia, inquieto, colerico; reagia depois,
luctava por fim, levando-os no raro de vencida, obrigando-os a fugir do
pombal em vergonhoso tropel, muito assustados, vencidos. E noite alm,
entravam um a um, vagarosos, muito mansos, sem ruido de azas, receiando
acordar o casal que dormia aconchegado, muito quente, pescoo escondido
sob a aza veludinea.

Dois mezes assim--dois mezes!--n'uma fidelidade conjugal ininterrupta,
digna de servir de exemplo a outros bipedes que eu conheo, que os
senhores conhecem, no?... Vida boa, na verdade, perfumada de arrulhos e
esplendida de alegrias, passada em bellas digresses campos fra,
pousando no mesmo ramo, bebendo na mesma poa, dormindo no mesmo palmo
de ninho, sonhando os mesmos sonhos, talvez...

Mas no fim d'esse tempo o rajado entrou de ter desconfianas, suspeitas
de inconstancias e receios de infidelidades, de noite, emquanto dormia.
Havia certa frieza nos geitos da pomba, menos ternura nos arrulhos,
modos de enfadada s vezes, certas perrices, resistencias mal
disfaradas. Ficava-se em casa se o rajado sahia, impassivel a
supplicas, muito mona, com enlanguescimentos de palpebras e quebramentos
de azas, uma desleixada; e espreitando-lhe o vo, tomava para norte se o
rajado ia para sul, vinha tarde e ia aninhar-se s, para lhe fugir.

Estava farta, v-se. E como os outros a no queriam--rameira do
rajado!--um dia levantou vo e fez-se ao largo.

       *       *       *       *       *

Abbade d'aldeia, conhecem, d'esses mui dados aos latins e ao
_vinagrinho_ de Xabregas, muito nacional e muito fino, bons velhos de
_quinzena_ e cala de alapo, feros, muito rijos,  prova de
rheumatismo e  prova de vintem, felizes na sua pobreza, amigos das
creanas, bem humorados sempre, flres de uma arvore que ora vae dando
cardos. Perto do solar da Morgada, a tres kilometros s, havia um assim,
o abbade das Donas, bom prgador n'outras eras, com famas de theologo
ainda ao tempo.

--Disse-o o das Donas, collega! disse-o o das Donas!--era assim que
muitas vezes acabavam disputas acaloradas, salpicadas de varios latins,
sobre textos da Biblia e passagens dos apostolos.

--Theologia velha, diziam, a genuina!

A casa da residencia era uma casa muito antiga, portas em arco, paredes
a desabar,--uma invernada forte e ia abaixo. O pateo da entrada era
terreo, rimas de lenha secca d'um lado e d'outro, seguia-se a cosinha,
um pequeno corredor, e ao fim uma velha varanda em ruinas que dava para
um quintalorio, e cujas pedras se deslocavam, de mal assentes que
estavam.

Preferia-a o bom do abbade para a reza das suas devoes, e n'essa tarde
quem quer o poderia ver passeando-a a todo o comprimento, oculos na
ponta do nariz, breviario na mo direita, a dois palmos, a esquerda a
segurar a aba da _quinzena_, e um pequeno solideo com borla
resguardando-lhe a calvicie.

A interromper a leitura, de quando em quando, umas pequenas exclamaes
de desgosto, arremessos de breviario, e por fim levantando a voz:

--Fome as pombas, sr.^a Luiza: no fazem seno saltar...

--Bem fartas!--retorquiu de dentro, da labuta da cosinha,--mas tm l
visita, pomba que arribou.

E depois informando:

--Pomba guapa, toda branca. So agora tres ao todo, e ento o pombo...

--Huum!... resmungou o abbade em voz de reticencias.--Percebo... percebo
perfeitamente...--E foi metter-se no quarto, continuar a
leitura.--Deixal-as! concluiu evangelico.

Era a pomba do rajado, adivinharam, que alli viera parar  reles
pelintragem d'aquelle metro de gaiola feita de um caixo velho, com
grades s na frente, muito suja sempre, arrumada p'r'alli ao fundo da
varanda, humida de aguas entornadas, exhalando maus cheiros, um nojo.

Quando a mostrava  creada, o abbade dizia-lhe sempre:

--A sua vergonha, sr.^a Luiza; a vergonha da sua cara. Como se os
animaes no fossem tambem creaturas de Deus...

As pombas eram magras e o pombo era esqueletico.

Fez-se de amores com elle, tomou-lhe os habitos canalhas, manchando a
alvura immaculada das pennas na immundicie fetida da gaiola em que ambos
se aninhavam, arrulhavam, se espojavam. E como ella era gorda e bem
tratada, flaccida de pennugens e de carnao consistente, apetitosa, o
pombo no a largava--genio de libertino em corpo de tisico.

Em breve periodo entrou a pobre de emagrecer, sem foras para voar se
queria voar, quedando-se dias inteiros ao canto da gaiola, encolhida,
tristonha, arrependida talvez de ter deixado o pombal,--saudosa do
rajado, o seu primeiro amor, quem sabe!

E depois, o pombo sujo j no se importava com ella, desprezava-a,
tentara mesmo expulsal-a de parceiro com as outras, dando-lhe maus
tratos,-- intrusa. Dr incomparavel!

Mas um dia o ataque foi mais violento e ella teve de fugir, de voar,
descanando amiudadas vezes, porque lhe faltavam as foras, arquejando
sempre, arrastando-se em vos baixos, sentindo vertigens se subia mais
alto. Para passar um ribeiro descanou uma hora, e quando cobrou alento
e comeou o vo, viu-se na agua e estremeceu, molhou ainda as azas, viu
um corvo na sua propria imagem, um corvo negro que a perseguia
silencioso, traioeiramente, que a ia talvez devorar... O que ella tinha
sido e o que era!...

Lembrou-se ento do pombal, do seu primeiro ninho, do rajado... Oh! o
rajado!... Receiou primeiro, quem sabe se elle a quereria, tinha pomba,
decerto... Iria?... No iria?... O pombal ficava perto, um vo valente e
estava l, acharia tudo em casa, era cedo ainda.

Fez-se de vo e partiu.

       *       *       *       *       *

A manh era calma e o co era azul. Canes de cotovias vibravam pelo ar
que as balseiras alastravam de aromas, perfumando-o. A estrella d'alva
tinha os ultimos bocejos para fechar de todo a palpebra canada e
adormecer no azul; e o oriente comeava de animar-se de um alaranjado
esplendido--decorao triumphal com que se orna aguardando a visita de
quem tem de rolar pela eclyptica, alumiando o hemispherio e fecundando
tudo--o cardo que rasteja e o cedro que v longe...

N'aquelle repontar da manh, o alto co era de uma limpidez crystallina.
Evolava-se de toda a banda um perfume virginal de dulcissima paz, e
pelas ramagens verdejantes a volata suavissima dos ninhos comeava, como
uma saudao ao dia que vinha rompendo. No altar das laranjeiras,
florido como em Domingo de festa, o rouxinol cantava a missa d'alva.

Em manhs placidas como aquella, quantas vezes a branca no fizera as
suas excurses alegres de _touriste_, na companhia do rajado,
perdendo-se com elle atravez do horizonte quella hora tranquillo e para
toda a banda transparente!

Como tudo isto lembrava, agora!

Em todos esses pinheiraes, ao largo, os dois haviam descanado muitas
vezes, muitas, expandindo em arrulhos de uma ternura ineffavel o amor
extraordinario que os unia! Em toda a largura no se descobria um s
campanario ou um s telhado onde no tivessem pousado ambos, alegres,
contentes, doidos! E ella sempre ufana, acompanhava o macho nos seus
vos ainda os mais arrojados, perdia-se com elle para alm das serranias
mais distantes, destemida com a companhia que levava--um amigo que
empenharia a vida s para salvar a da amante.

E que bella manh, aquella! Tudo to alegre! Era ver como as calhandras
acordavam contentes, e se atiravam ares alm no seu vo perpendicular e
rapido!

Entravam de animar-se cada vez mais as ramarias, com a vida dos ninhos;
melros ensaiavam solicitos a sua partitura vibrante. Mas a toda a
largura--nem uma aza de pomba palpitava. Ella s, desalentada e cheia de
maguas, ia para onde a levava o destino,--quem sabe se para a morte...

Ento chegou a branca ao pombal e voejou em torno espadanando as azas
contra o muro, arremettendo os buracos, desejando entrar, faltando-lhe a
coragem, voejando de novo para arremetter em seguida. Os seus antigos
companheiros sentiram-na, conheceram-na, e arrulhando muito, e
arrulhando forte, sairam em tropel e foram pousar no telhado, batendo
muito as azas combinando ataque.

E como a pomba teimava em entrar, corriam a oppor-se, vedando-lhe a
passagem.

De repente, um pombo negro abriu muito as azas, agitando-as, tenteou vo
n'uns pequeninos saltos nervosos e investiu com a pomba, com a
desgraada pomba, e os mais apoz elle. Havia sangue nos bicos e pennas
voando em elypsoides, um barulho de azas que se chocavam com furia. Por
fim um baque, a pomba caiu no cho, toda sangrenta, um olho arrebentado,
bico aberto, n'um arquejar convulso, cortado de um arrulho guttural de
vida que se esvae lentamente, gradualmente, com dr. Um estremecimento
de membros por fim, uma agitao geral repentina, e--morta!

Ares alm, os assassinos em bando voavam  busca talvez de um ribeiro
onde lavassem os bicos ensanguentados...

       *       *       *       *       *

E o rajado?--ho-de os senhores perguntar. Demorem-se um pouco e
vel-o-ho sair da janella das trepadeiras, alegres, felizo, bohemio,
depois de uma noite passada na meia sombra dos cortinados leves de um
leito, a rir, a amar, beijando o colo da Morgada, arrulhando com ella,
arrulhando, ora um ora outro,--debicando... debicando... debicando...




BATALHAS DOMESTICAS




BATALHAS DOMESTICAS[1]

_A Luiz Trigueiros_.


Para o meu proposito,  inutil narrar-lhes esse pequenino e perfumado
idyllio, cr de roza, que foi na vida d'ambos, durante um anno, o seu
mais vivo encanto. Isto em Lisboa, onde elle, Joaquim Seabra, maior,
empregado de escriptorio commercial, vivia desde pequeno uma furiosa
vida de trabalho. A me tinha-lhe morrido, ainda elle era fedelho: e
passados poucos mezes, tinha o Joaquim sete annos, uma doena complicada
levara-lhe tambem o pae--homem de lavoura, pobre mas honrado, bronco mas
leal, que nascera e levara a vida no me lembra em que aldeia da Beira,
nas abas da serra da Estrella.

Sentindo-se morrer, o Joo Seabra pediu os sacramentos. Deram-lh'os. E
quando o reitor ia retirar-se, grave, revestido, aconchegando ao largo
peito o vaso sagrado das particulas, solemne sob a umbella branca de
grandes ramagens amarellas, o pobre homem preveniu o padre de que em
podendo lhe desejava uma palavra.

--Volto por aqui de caminho, dissera o reitor.

Assim fez. Mas caso  que ao abeirar-se de novo do catre do doente,
junto do qual estava o Joaquim, descalo, mal remendado, o velho,
entreabrindo os olhos e cerrando-os logo para sempre, mal tivera tempo
de lhe murmurar, designando vagamente o filho:

--O pequeno, coitadinho!

De modo que foi o proprio reitor em pessoa, quem, passados dois annos,
veio metter o orpho, como marano, n'uma loja de ferragens da baixa,
loja escura, funda, com uma ventana de vidraas, combalida, dando para
uns sagues de predios contiguos. De marano subiu com o tempo a
caixeiro; e como era applicado, humilde, supportando com uma placidez
resignada de beiro um trabalho por vezes superior s suas foras, pulou
um dia para a escrevaninha da casa, no andar de cima, vaga pela sahida
para a cadeia do outro que commettera umas falcatruas.

--Precisava um tiro nos miolos, esse co! dissera deante dos patres o
Joaquim.

E a incisiva phrase que fra, emquanto remexia a papelada, todo o seu
commentario ao procedimento irregular do companheiro, valera-lhe a
involuntaria conquista do logar, como revelao, que era, das qualidades
fundamentaes do seu caracter,--communs, de resto, ao typo beiro,
profundamente animal, audaz, sobrio, musculoso, no fundo generoso e bom.

A vida comeou ento a ter para elle umas entreabertas mais risonhas,
livre d'essa priso estreita da escura loja, onde os seus instinctos
hereditarios de independencia, acordados no fundo de uma natureza
barbara de herminio, tinham, de quando em quando, uns bruscos, violentos
repeles de rebelio... At que um dia, n'uma d'essas guinadas que mesmo
 escrevaninha o assaltavam, pensou em ir  terra onde no voltara desde
pequeno. Ainda l tinha uns tios, vivia ainda o reitor. E n'uma
introverso de momentos, mirando atravez da janella o claro co azul,
alto n'aquella manh serena de maio, o Seabra teve a remota viso do seu
passado--das coisas da sua infancia, da sua pobre e humilde aldeia
encravada n'um declive de serrania que ao longe elevava o dorso, nitente
de neves eternas. E como se mirasse tudo atravez de um binoculo
invertido, elle l via alm, muito longe para as suggestes do seu
desejo, muito afastado para as debeis reminiscencias da sua memoria,
tudo isso que elle dizia em tres palavras--a minha terra!--isto ,
esse monto informe de velhos tectos chamuscados onde havia um debaixo
do qual nascera; o campanario alto e esguio; a igreja oblonga; a fita
branca do muro do cemiterio onde seu pae e sua me jaziam; a paizagem
circumdante cortada de canaes e regueiras, que parecem fios de prata
serpeando na esmeralda das baixas, toda retalhada em hortejos; e ento a
velha legio amiga das arvores--o zimbro ao alto dos mrros ns; depois,
descendo, as urzes brancas; os piornos; os bellos carvalhos altivos; e
j a meio da encosta, estendendo sobre a zona agricola e horticola o
verde e tenro parasol das suas soberbas folhas--o castanheiro, emfim.

Atravez da sua vida de balco, duramente moirejada a mover barras de
ferro, feixes pesados de vergas, ceires informes de pregaria, com
intermittencias raras de descano, algum domingo, pelas hortas dos
arredores, ou s vezes n'um bote, pelo Tejo,--a sensao melancolica da
sua paizagem nativa no chegara a obliterar-se-lhe no cerebro, nem to
pouco a lembrana dos seus velhos conhecimentos de infancia, dos seus
companheiros de escola que iam todos os dias, de manh e de tarde, 
lio a casa do reitor, n'aquelle velho soto da residencia, com paredes
denegridas e tecto de madeira com manchas...

E que seria feito d'elles? Talvez que os no conhecesse, que o no
reconhecessem, agora. Talvez. E esta duvida, esta desconfiana, dava ao
seu desejo de os ver, de se lhes mostrar,--com o seu fraque, a sua
bengala, a sua cadeia de oiro escorrendo sobre o colete claro--o encanto
subtil e ingenuo de uma vaidade. E acabou de o decidir, emfim, a propor
aos patres essa viagem, certa imagem de rapariga loira, olhos azues e
toda rozada de cutis, que elle, sem quasi dar por isso, espontaneamente,
insensivelmente, fora sabendo, de longe, que se conservava ainda
solteira...

...a Emilia!

E porque seja extranho ao meu proposito, e quasi indifferente  historia
que lhes vou contando, a chronica preliminar d'esse consorcio, direi que
a velha estola do reitor os uniu emfim uma manh--manh de julho, na
velha e ampla igreja da freguezia, toda banhada de sol, toda rumorejante
de vozes, e sobre a qual cahia sem despejar, como uma chuva alegre de
ptalas, a saraivada metalica dos sinos, repicando... At que passados
dias, eil-os emfim em Lisboa, installados no sei em que beco da Baixa,
perto da obrigao do Joaquim, que era, como lhes disse, o
escriptorio.

E aqui rompe a historia; e se  do agrado dos senhores, comecemos.

       *       *       *       *       *

Bem, aquelle primeiro anno. Por uma banda a Emilia a cuidar da casa,
toda se desvelando nos minimos pormenores do interior, na cosinha, no
amanho das roupas, no decorativo, mesmo, dos quartos e saletas que a
mobilia, comprada de novo, tornava alegres e confortaveis. Elle, por
outra banda, trazendo-lhe nos fins dos mezes intacto o seu ordenado, e
trazendo-lhe, cada dia, uma caricia mais fresca e mais suave. E dada a
homogeneidade dos seus temperamentos, a proveniencia commum das suas
naturezas, originarias do mesmo solo, filhas da mesma raa, temperadas
do mesmo sangue, ricas das mesmas infiltraes de seiva e de saude,
explica-se logicamente esse parallelismo absoluto de vontades que os
dois levavam na vida, sem um choque nas suas aspiraes, sem um encontro
avesso nos seus desejos, sem a minima divergencia no seu modo de vr e
de pensar. Educados em meios differentes, embora! o que nas suas
naturezas havia de fundamental, e at de intensamente uniforme no raio
visual das suas intelligencias, tornara podemos dizer nullo, sem
consequencias no fio commum das suas vidas, esse largo periodo passado
em latitudes differentes:--ella, onde ambos tinham nascido, debaixo do
mesmo co,  luz do mesmo sol,  sombra das mesmas arvores; elle,
sequestrado de tudo isso, mas n'um meio sem cr para elle definida,
pardo, estreito como uma gaiola, e onde, portanto, a sua natureza se
conservara estagnada,--estagnada como uma pequena lagoa, dormente
debaixo do luar melancolico...

Vinha d'ahi, e do fundo ingenuo das suas almas, estrelladas das mesmas
supersties, povoadas das mesmas imagens, embaladas, ao nascerem, ao
rythmo da mesma cano, essa forte, dulcissima corrente de ternura
espiritualisada que era o motor primeiro dos seus abraos, o mais vivo e
fresco perfume dos seus beijos, a mais alta, a mais serena e orvalhada
efflorescencia do seu profundo amor... E pois que havia tambem no sangue
d'ambos--bem como no seio de um diamante as iriaes mordentes--as
rubras, incandescentes faulhas de uma animalidade impetuosa, adivinha-se
quanto seria intensa nos dois a vida sexual,--casta a despeito de tudo,
vivente como um largo pampano, nimbada, emfim, como certas telas
classicas, por umas cabecitas loiras de creanas, frescas, ridentes, cr
de rosa...

D'ahi, como lhes disse no principio, esse pequenino e perfumado idyllio,
cr de rosa, que fra na vida de ambos, durante um anno, o seu mais vivo
encanto...

       *       *       *       *       *

Em certo dia, porm, regressava o Joaquim do escriptorio, noite cerrada
j, quando uma rapariguita que lhes servia de creada havia dois dias,
vindo abrir a cancella, lhe desfechou estas palavras no accento beiro:

--A minha madrinha est muito mal.

--Muito mal?

--Sim, parece que lhe deu pela cabea no sei qu.

Joaquim Seabra estacou, como que fulminado. E encostando-se  hombreira,
para no cahir, sentiu passar-lhe pelo cerebro, como um tufo de peste,
uma ideia que lhe fez vertigens. Teve um presentimento... E cobrando
alentos, confuso deante da rapariguita que o olhava, disse-lhe com a voz
trmula, no tom de quem procura, compromettido e humilde, esconder um
pensamento:

--Bem sei... Isso costuma-lhe dar... Uns ataques... Foi depois que veio
da Beira.

--Parece que lhe chamam flatos, volveu-lhe a pequena.--Fica-se como
doida...

--Sim... chamam-lhe flatos... fica-se como doida...  isso.

E como se sentissem passos subindo a escada, inquilino ou pessoa do
andar de baixo,--talvez alguem que o procurasse!--fechou a porta com
fora; e apagando a luz, com um sopro trmulo, coseu-se a um canto
impondo silencio, com a mo sobre a bocca arquejante da rapariga.

--Cala-te, ouviste? disse-lhe quasi com o bafo--Se te calares hei-de te
dar dinheiro. Cala-te.

A rapariga calou-se, aniquillada, toda enroscada a um canto, como um
novello. E passados instantes, quando um grande silencio envolvia todo o
predio, ouvindo-se apenas, de quando em quando, o rodar de algum trem
nas ruas proximas, o Seabra tomou nos braos trmulos a pequena, e foi,
cauteloso como um bandido, leval-a  cama.

--Ouves, Luiza? No faas bulha. Dorme.

E fechando-lhe a porta  chave, respirou, hirto no meio do corredor em
trevas. Devia de ser assim a sepultura: aquelle silencio, aquella
escurido impenetravel! E elle, como um cataleptico, alli encafuado
vivo...--triturado pela magua, roido pela dr, desfeito pela desgraa,
como se milhes de larvas o triturassem, roessem, desfizessem,
implacaveis e crueis, famelicas da ultima particula da sua carne,
sedentas da ultima gotta do seu sangue, famelicas e sedentas at da sua
propria alma... Vivo,  Deus cruel!  Deus desapiedado! Vivo e no
emtanto... morto: vivo para a sensao esphaceladora da sua atroz
desgraa, do seu cruel, cruciantissimo martyrio; morto, aniquillado,
desfeito, para a viso auroreal das suas esperanas...--as suas
esperanas! revoada alegre de pombas, candidas, serenas, immaculadas,
que um tufo de desgraa varrera do ninho do seu peito, para longe e
para sempre...

E humilde como um rafeiro ou como um trapo, n'uma prostrao de louco
embriagado, dir-se-hia que o cerebro deixara de funccionar n'esse
infeliz--como relogio subitamente parado, marcando um momento fatal!--e
que tudo quanto elle sentia, e que tudo, oh Deus! quanto elle gosava!
era essa impresso anniquilladora do _Nada_, que o fundia na treva
circumdante, com ella identificando-o, irmanando-o, confundindo-o, e
tanto e to intimamente, que elle proprio n'ella se sentia diluido, e no
silencio...

Subito, porm, a um gemido, a um grito, a um ranger, escoado alli de
perto como um reptil, escoado alli de perto, como um verme,
phosphorejante na treva  semelhana de um demonio, que agitasse um
_pierrot_ de cascaveis,--uma centelha de vida animou esse corpo
aniquillado, e dentro d'aquelle cerebro fez repontar, como luz de
lampada funerea allumiando um cenobio silencioso, a chamma de uma
ideia... E teve ento de si proprio a extranha, diabolica viso de um
esqueleto carcomido, desossado, alquebrado, mirando pelo arco immovel
das orbitas, d'onde dois feixes de luz escorriam--aquelle trapo
miserando alli cahido, informe, esqualido, repellente, monto de gelo, e
lagrimas, e trevas...--que era elle tambem!...

Entretanto, e como por fora mesmo d'essa allucinao desvairada e
tragica, o cerebro perdera n'elle a recta, serena faculdade do
raciocinio, elle continuava absorto, incomprehendido, estupido, deante
da sua desgraa--como deante de um grande mar de negrume, profundo e
estagnado, por uma noite sem lua e debaixo de um co sem estrellas,
torvo de um borel cerradissimo de nuvens, a sombra de um espectro... E
assim em breve, retombou n'essa altitude que diremos irracional,--mudo,
aniquillado, desfeito, no meio da treva silenciosa, como no lodo fundo
de um poo um bloco inanimado...

       *       *       *       *       *

No escuro do seu cubiculo, a pequena soluava a espaos. E era como se a
propria treva soluasse, esse chorar abafado da creana, espavorida das
coisas que a cercavam, para ella mysteriosas e funebres. Era como se um
alegre pintasilgo, vivo, irrequieto, palreiro, fosse do seu ramo florido
de amendoeira, por uma tarde serena de abril, pousar, n'um vo de acaso,
na mansarda tristonha de um morcego, em qualquer frincha desabrigada de
velho muro, abandonado algures...

E porque viera? E para que viera? No sabia. No emtanto, ao contrario do
que lhe tinham promettido, que saudade infinita, repassada de profunda
nostalgia, da telha v do seu humilde casebre, atravez do qual passavam
os primeiros alvores da manh, como um perfumado beijo de frescura! Dois
dias, apenas! Entretanto, j dois dias! Tanto tempo em to pouco tempo!
E no tornara mais a vr passaros! e no mais tornara a ouvir, de manh,
tocando  missa d'alva, tangendo  tarde a Ave-Marias, o seu querido e
alegre sino d'aldeia...--alm, n'aquella riba suave e pittoresca,
prateada, beijada do luar quella hora!... E o fio do seu pensamento,
que outr'ora derivava limpido, sereno, crystallino, como pequenino
arroio murmurante que vae entre duas alas de flores singelas,
torvelinhava agora estupidamente, desnorteado, ao acaso, convertido n'um
veio torvo, lodoso e borbulhante, soluando, como se fra de lagrimas,
occulto sob a folhagem pallida...

       *       *       *       *       *

A dois passos, no corredor escuro, o outro continuava prostrado, junto
da porta que dava para o quarto onde a mulher, deitada, devia talvez
dormir, de borco sobre a roupa revolta, ou no cho talvez... Mas como
acontece s tempestades da natureza, tambem a tempestade d'aquella alma
de homem entrou de se diluir em pranto, pouco a pouco, serenamente,
gradualmente. Chorou. E como se fra o vo das lagrimas que lhe no
deixra vr at ento os pormenores do seu infortunio, d'este
permittindo-lhe apenas uma sensao que diremos informe, entrou de se
fazer com a vasante mais lucido o raciocinio, mais precisa e mais
esperta a ideia que se lhe accendeu no cerebro, como luz que pouco a
pouco vae surgindo na lampada de um claustro, allumiando nitidamente,
sob o docel frio das sombras, as arestas marmoreas de um sepulcro...

Ah! mas ento, sob a impresso raciocinada e fria da sua tragedia, cujas
linhas contornaes pareciam feitas de gelo, uma nova tempestade
rebentou,--como uma trovoada enorme em tarde secca de maio. E foram
ento as imprecaes, os gritos estrangulados irrompendo, em surdina,
por entre as maxillas ferradas, do fundo do peito em ancias. Ento foi o
arrancar convulsivo dos cabellos, s guinadas, teimosamente, n'um duello
de loucura com a dr physica, desafiando-a, espicaando-a, dando-lhe a
beber o proprio sangue do peito, rasgado pelas dez unhas crispantes,
lacerantes como se foram de abutre.

--Ah! raios do co, e no morro!

E como o grito lhe sahiu mais alto, prestes levou ao cho, como
beijando-o, os labios estranhamente rasgados pela colera. Veio-lhe ento
o pudor melindroso da sua desgraa, o medo horrivel de que se
divulgasse, de que os outros a soubessem,--de que a pequenita, mesmo, a
conhecesse... O que diriam? o que pensariam? E todo elle se encolhia, e
todo elle se sentia gelado at ao mais intimo da sua alma, suppondo-se
na rua, como outr'ora, ao vivo e claro sol, levando adherente s costas,
como um ferrete ou como um caustico o olhar de toda a gente... E com
as unhas ferradas na testa, escondia da propria treva, com as mos
ambas, o rosto cobarde e arrepanhado.

--Diabos do inferno! levae-me!

A este novo grito, porm, subito se recolheu n'um grande pavor
religioso. Do fundo da sua natureza alguma voz se elevou, serena, doce,
harmoniosa, como na paz tranquilla do campo o fumo azul-claro de um
casal... E teve a doce viso de um arco-iris, bonanoso e rutilante,
repontando luminoso no borel asperrimo da sua alma, onde uma clareira se
abria. E foi quasi a sorrir, chorando as primeiras lagrimas tranquillas,
que dos seus labios quasi serenos voou como uma pomba alvinitente, que
transporta no rosado bico um ramo de oliveira, esta palavra de amor:

--Deus!

E para logo sentiu sobre a sua fronte, de manso e manso erguida n'um
como enlevo de viso, um ruflar de azas de pombas...  hora d'alva...
sobre os campos... n'uma clara manh de maio, perfumada...

E como se mo invisivel o erguesse, de vagar, serenamente, enxugando-lhe
da orla das palpebras a ultima lagrima de sangue deposta alli pela sua
alma, o pobre foi submissamente escoando-se para o quarto contiguo, onde
sua mulher estava, o seu anjo, o seu thesoiro, a sua vida... E foi
submissamente, como um co duramente batido que volta aos affagos do
dono, que sobre os labios da adormecida esposa, seccos, pallidos,
desbotados, ao claro luar vindo do co, o triste uniu os seus labios
frementes,--...n'um beijo suavissimo de perdo. Ao mesmo tempo que ella,
n'um delirio, repetia a phrase cruel:

--Mais vinho!




NOTAS:

[1] Sendo necessario completar o numero preestabelecido de paginas de
cada volume d'esta _Colleco_, numero alm do qual se no pde ir e
aquem do qual se no deve ficar,--o editor pediu e obteve do auctor, em
vez de novo conto, um excerpto do seu livro em preparao, livro
provisoriamente baptisado com o titulo de _Batalhas domesticas_. O
excerpto pde dizer-se que constitue s por si, como os leitores vero,
um trabalho litterario, independente e uno, o que de certo modo lhe d
logar n'esta colleco, ao lado dos precedentes, estabelecendo, alm
disso, a transio do espirito do auctor para uma nova phase, litteraria
e artistica.

N. do E.




INDICE


Idyllio rustico

Sulto

Ultima dadiva

Preludios de festa

Typos da terra

V[ae] Victoribus

Maricas

Para a escola

Tragedia rustica

Abyssus abyssum

Me

Arrulhos

Batalhas domesticas




OS MEUS AMORES E A CRITICA


Da Revista Illustrada (extracto da chronica):--..._Os meus amores_, de
Trindade Coelho,  um volume de contos para toda a gente, em condies
agradabilissimas ao paladar d'ambos os sexos, e com delicadas
circumstancias a prazerem, principalmente, ao feminino. Porque uma das
preoccupaes litterarias mais evidentes d'este escriptor primoroso 
fazer jus  amisade das leitoras, e como dispe de pericia no ferir de
certas notas emoventes e no tocar certas fragilidades de sentimento,
consegue-o.--_Alfredo Mesquita_.


Jornal da Noite:--Trindade Coelho--Este illustre escriptor, nosso
talentoso colega do Portugal, brindou-nos com um exemplar do seu novo
livro de contos _Os meus amores_.

De entre a pleiade de prosadores, que por ahi mourejam no mundo das
lettras, a individualidade de Trindade Coelho destaca-se distinctamente,
e impe-se  admirao dos que apreciam os talentos brilhantes
privilegiados.

Os trabalhos do illustre escriptor, se pela estructura original e
encantadora so dignos do maior apreo, pela elegancia da frma,
burilada a primor n'um estylo finissimo e scintillante, despertam os
mais francos, sinceros e enthusiasticos encomios dos que os lem.

Quem conhece o formoso talento de Trindade Coelho, e o seu bello
caracter, avalia bem, por certo, como ambos estes seus caractersticos
sero traduzidos no novo livro de contos do nosso distincto collega.


Diario Popular:--_Os meus amores_.--Assim se chama um livro de
graciosos contos, retratando aspectos da vida d'aldeia e do campo, que
acaba de apparecer, firmado por Trindade Coelho.

O escriptor, como verdadeiro artista que , localisa todas as suas
attenes, de ha muito, no trabalho de apprehender com fidelidade o
viver campezino, sobretudo da vasta regio transmontana, a qual lhe foi
bero. Por isso o seu fabrico litterario se aprimora de dia para dia
n'uma escala crescente de sinceridade, e por tanto merito: _Os meus
amores_ o attestam, quando postos em parallelo com os primeiros contos
publicados avulso.

Trindade Coelho cultiva com cuidado especial o dialogo que busca e
consegue photographar com particular exactido. Em vez dos descriptivos,
quasi despresados, so trechos successivos de conversas d'uma
encantandora rudeza ingenua que formam o estofo principal de todas as
suas produces. Isto e a felicidade com que sabe observar, do o cunho
pessoal da sua obra, que proporciona agradaveis e confortaveis momentos
de leitura.

Diario Illustrado:--Abrem _Os meus amores_, de Trindade Coelho, com um
admiravel soneto de Luiz Osorio, que depmos nas mos da leitora, como o
perfumado ramo de cravos valencianos, a flr actual das suas
predileces femininas: (_segue o soneto incial_.)

E pelo brao do poeta da _Alma lyrica_ subimos ao doce convivio
espiritual da alma de Trindade Coelho.

O conto _Me_, uma rica joia engastada n'este livro, brilhando ahi por
todas as suas facetas cortadas em diamante, e buriladas com a fina arte
de um joalheiro florentino, bastaria para autenticar-lhe o valor e para
aferir os dotes mentaes de Trindade Coelho, que tem no seu brilhante
estylo moderno, fluente e sobrio, incisivo e profundo, vibratil e
melodico, o diploma do seu notavel talento.

 principalmente pela sinceridade intuitiva e pela naturalidade
espontanea que estes contos nos captivam.

O auctor diz-nos, sem preoccupaes de escola e sem pretenes a abrir
caminho pela deslocao do vocabulo ou pela selva escura do escandalo, o
que viu, analysou, observou e sentiu.

As suas doces narrativas, penetradas da alma campestre, deslisam
suavemente, tocadas a espaos de uma inegualavel melancolia
contemplativa que lhes duplica o encanto.

Mas n'esses singelos contos, artisticamente concretisados, Trindade
Coelho revela o superior poder evocativo da viso intima, que o
singularisa.

A complexa natureza, para tantos inexpressiva e muda, tem para elle,
como para todos os artistas de raa, attitudes, expresses, cres e
sons, que o auctor v, adivinha, sente e traduz com a fascinadora
eloquencia dos iniciados, e o mysterioso enternecimento, que s nos
transmitte a simples leitura dos poetas.

Ha rapidos traos de analyse emotiva ou de commoo reflexa que valem
poemas.

E no sero o _Idylio rustico_, a _Me_ e outros contos, soberbamente
delineados e intimamente vividos, verdadeiros poemas em prosa?

Felicitamos calorosamente Trindade Coelho, o nosso querido amigo, pelo
seu primeiro livro, que embora glorifique o seu nome, no  de certo o
seu primeiro triumpho.--_Gabriel Claudio_.


Jornal do Porto:--_Os meus amores_.--A colleco Antonio Maria Pereira
augmentou se d'um novo volume original. Intitula-se _Os meus amores_ e
est escripto pelo nosso illustre collega e litterato distincto o sr.
Trindade Coelhho.

D'este livro que, pelas suas destacadas qualidades litterarias, deve
achar grande acceitao no nosso publico, escreveremos em breve as
palavras apreciadoras que elle merece.


Correio Elvense_:--Trindade Coelho.--Este nosso amigo e festejado
escriptor, publicou agora o seu primeiro livro de contos e balladas a
que deu o titulo: _Os meus amores_, editado pela acreditada livraria de
Antonio Maria Pereira.

Trindade Coelho, que hoje occupa um proeminente logar no jornalismo da
capital, fez ainda ha pouco algumas das suas melhores armas na imprensa
em Portalegre, onde creou dois jornaes, um dos quaes ainda vive, que
tiveram vida gloriosa em quanto os animou o trabalho do distincto
estylista.

No s nos seus escriptos passados, mas ento, conhecemos o grande valor
que indiscutivelmente possue. No nos surprehendem pois os seus
triumphos e rejubilamo-nos com elles com a alegria e sinceridade de bons
e sinceros amigos.

N'um dos proximos numeros falaremos da impresso colhida em _Os meus
amores_, agradecendo desde j as expresses affectuosissimas que
acompanham a dedicatoria do livro, que o seu auctor nos offertou.


Correio do Norte:--_Os meus amores_.--Contos e balladas.--Trindade
Coelho, o j conhecido e apreciadssimo escriptor, acaba de publicar um
livro de contos com o titulo acima indicado.  esta uma bella novidade
para o nosso mundo litterario, onde Trindade Coelho de ha muito soube
conquistar um logar dos mais distinctos, pelo seu bello talento e
poderosas qualidades de escriptor.

Limitamo-nos por agora a dar esta simples noticia do apparecimento do
novo livro, para depois escrevermos mais detidamente sobre elle.

Agradecemos ao nosso presadissimo amigo a delicadeza do seu
offerecimento.


O Globo:--_Os meus amores_.--Mais um livro editado pela livraria de
Antonio Maria Pereira. Intitula-se _Os meus amores_ e subscreve-o o nome
de Trindade Coelho.

No o lemos ainda porque o recebemos agora; mas ha-de ser por certo
trabalho de grande valor artistico, como inveno e como execuo,
porque Trindade Coelho  incapaz de produzir uma obra litteraria m. A
sua educao litteraria est feita, e os seus numerosos trabalhos to
apreciados, to portuguezmente escriptos, to sentidos e to espontaneos
revelam qualidades de escriptor de raa. Elle tanto pde ser um
jornalista eminente como  um contista original.

_Os meus amores_  uma colleco de contos e balladas. Conhecemos alguns
capitulos, que so primorosos, mas carecemos de ler todo o livro para
no errar na apreciao. Vamos lel-o com a convico de que teremos de
saborear um d'esses raros mimos litterarios que s os privilegiados de
talento sabem offerecer aos seus leitores.


Diario de Noticias:--_Os meus amores_.--_Contos e
balladas_.--Anuncimos, em tempo, o proximo apparecimento d'este
trabalho, com que o brilhante contista e nosso collega do _Portugal_, o
sr. Trindade Coelho, ia augmentar a colleco, j to valiosa, das
edies do sr. Antonio Maria Pereira.

O livro acha-se, emfim, publicado, e em nada desdiz do conceito que
desde logo nos auctorisaram a emitir os elevados meritos litterarios do
seu auctor, tantas vezes comprovados em numerosos escriptos anteriores.

Com uma observao escrupulosa, e um pittoresco estylo, d'uma pujana e
d'uma riqueza no vulgares, sem attentados contra o bom gosto, nem
rebeldias contra o bom senso, os contos do sr. Trindade Coelho so, a
todos os respeitos, um verdadeiro primor, uma obra que ha-de entrar, sem
hesitaes, na acceitao do publico, e que ha-de ficar longo tempo, a
attestar, n'uma formosa prova, a riqueza de um espirito, superiormente
educado, ductil e promptamente malleavel.

Porque esses contos so a obra de um genuino artista, cuja _maneira_,
simultaneamente facil e apuradissima, revelando a espontaneidade de uma
fecunda phantasia, traduz e affirma a fina sensibilidade de uma alma
delicadamente temperada, a viveza de um talento exuberante de vigor e de
seiva.

No pde entrar nos curtos limites de uma simples noticia, a mais
desenvolvida critica d'esse trabalho, que tem, na proprio nome do seu
auctor, o melhor e o mais seguro titulo de recommendao para obter do
publico a consagrao de um largo e legitimo successo.

Apenas acrescentaremos que abre o livro um encantador soneto de Luiz
Osorio--preciosa chave de oiro, na realidade bem merecida por aquelle
rico e primoroso escrinio de verdadeiras e puras joias litterarias.


A Actualidade:--_Os meus amores_.--Este nome  o de um novo livro da
colleco Antonio Maria Pereira. Pelo titulo presume-se um volume de
versos; mas no , o que no quer dizer que n'elle se no surprehenda
legitima poesia. Trata-se de contos e balladas, originaes do sr.
Trindade Coelho, um dos nossos mais apreciados e brilhantes escriptores.

Eis, muito resumidamente, as prendas que distinguem este primoroso
contista:

Estylo correcto, elegante, vivo; descripes ricas de observao e
attrahentes tanto pelo colorido como pelo esmerado da frma; despidos de
grandes artificios os entrechos, mas subjugantes pela muita
naturalidade; o dialogo, em summa, admiravel pela singeleza e, sobre
tudo, pela propriedade.

Com estes predicados o livro _Os meus amores_, do sr. Trindade Coelho,
deve incontestavelmente ser de valor. E . So encantadoras todas as
narrativas que contm. Logo ao abrir depara-se-nos um _Idylio rustico_,
que embriaga e predispe para a leitura de todo o volume, onde se
encontram quadros soberbos, reproduzidos do natural com um notavel poder
de observao e que deixam o espirito suavemente impressionado. Leiam, e
vero que no exageramos na opinio que ahi deixamos rapidamente
exposta.

Ao auctor o nosso reconhecimento pelo mimo da offerenda.


Correio da Manh:--Registar o apparecimento de um livro bom, linguagem
elevada e singella, desartificioso e artistico, repositorio vasto de
observao, vibrado por uma grande impresso pessoal e subjectiva, 
sempre agradavel  chronica, n'este tempo sobretudo de litteratura
gafada, ou de arte ainda litteraria quasi pornographica.

_Os meus amores_ que amavelmente acaba de nos offerecer sr. Trindade
Coelho  um livro d'esses. Colleco primorosa de contos e balladas, em
que no mais despretencioso dos estylos nos conta recordaes e idylios e
nos mostra uma galeria rica de typos e de figuras cuidadosamente
observados e primorosamente expostos.

O ultimo conto _Para a escola_, que d'essa bella colleco acabamos de
ler,  encantador de verdade, de singeleza, de arte, e assimelha se
notavelmente  maneira de Gustavo Droz.

No  o logar nem a accasio de fazermos a critica do livro e a
apreciao d'este novo, d'este debutante, que ao primeiro assalto parece
estar j senhor da batalha.

 por isso que sinceramente o felicitamos.


Vanguarda:--_Os meus amores_.--O nosso collega, o sr. Trindade Coelho,
que quasi s conheciamos pelos seus libellos accusatorios, acaba de nos
enviar um livro primoroso com este titulo, no qual a feio carregada e
sombria do agente do ministerio publico desapparece por completo, para
nos deixar apreciar s o espirito finalmente delicado do homem de
lettras conhecedor dos melhores processos de arte e verdadeiramente
sabedor do seu officio.

Confessamos que nos apraz muito mais admirar este Trindade Coelho, que o
outro que temos visto apertado dentro da negra vestimenta de agente do
ministerio publico, que parece lhe oblitera s vezes as suas excellentes
faculdades.


Primeiro de Janeiro:--_Os meus amores_.--Acabamos de receber o
formosissimo livro de contos _Os meus amores_, de Trindade Coelho.

No  ainda a occasio de prmos em relevo todas as qualidades
litterarias, complexas e brilhantissimas, que se evidenciam n'este
livro, demonstrando um dos talentos mais vivos e assignalaveis entre os
mais illustres cultores da prosa portugueza.

Os contos por onde _Os meus amores_ se repartem no so apenas
maravilhas de linguagem, onde to smente se destaquem dextrezas e
fulguraes do estylo: a aco que os anima constitue uma deliciosa
galeria de quadros, aspectos intimos e exteriores da vida, colhidos em
flagrante com uma extraordinaria subtileza e lucidez de observao e
trasladados a uma frma superiormente artistica, onde ha firmemente
accentuados todos os caracteres de uma esplendida organisao
litteraria.

 um livro vibrante e magnifico--adoraveis paginas intensamente ou
delicadamente emocionadas e primorosamente escriptas, cuja leitura  um
verdadeiro encanto.

As nossas cordeaes felicitaes a Trindade Coelho, a quem agradecemos a
gentilissima offerta do seu livro.


Folha do Povo:--_Os meus amores_.--Esta publicada em volume uma srie
de _contos e balladas_ com que o sr. Trindade Coelho, o brilhante
collaborador do _Portugal_, vem enriquecer a litteratura _contista_
entre ns, hoje to querida do publico, depois que os trabalhos de
Fialho d'Almeida deram a esse genero litterario um valor at ento
mesquinho.

A primeira qualidade que notamos logo nos _contos e balladas_ do sr.
Trindade Coelho  um estylo muito seu, cheio de uma crystallina
naturalidade, _affastando-se completamente d'essas excrescencias de mau
gosto_, que ultimamente tm abastardado a lingua portugueza,--prova da
superioridade intellectual do escriptor de que nos occupamos--, visto
que no mira a uma falsa gloria, conquistada facilmenle pelas
excentricidades de estylo, que so hoje uma verdadeira mania entre
alguns escriptores da chamada gerao moderna.

O sr. Trindade Coelho escreveu a sua prosa obedecendo  espontaneidade
das suas impresses, ao seu sentir, sem deixar de se revelar um artista,
porque nunca a phrase lhe sae banal, nem to pouco envolvida em ouropeis
de mau gosto litterario.

E no entanto encanta-nos,--prova de que est alli um primoroso
escriptor, um esprito delicado, reproduzindo todos os cambiantes da
natureza por uma frma de observao, que no  d'esta nem d'aquella
escola.  simplesmeate sua, individual.

Notamos mesmo um progresso no livro do sr. Trindade Coelho; porque as
suas primeiras produces litterarias ressentiam-se de uma tal ou qual
preoccupao de _effeito_ no modo de construir a phrase. Hoje, o
escriptor adquire a independencia da sua maneira, do seu processo, e
feito a tirar decorre fatalmente d'essa independencia, visto que os seus
quadros obedecem apenas a uma rigorosa e fiel reproduco do que o
artista observa em volta de si.

Certamente que o publico ler com encanto o novo livro do sr. Trindade
Coelho, pelo que felicitamos o auctor, e--podemos mesmo dizer--a
litteratura portugueza.--_Silva Lisboa_.

Diario Illustrado:--De tempos a tempos chegava-nos do Atemtejo um
periodico que no deixavamos nunca de lr pelo fino gosto litterario,
pittoresco e moderno, que se revelava em todos os seus artigos,
incluindo os politicos. Esse periodico era redigido por Tindade Coelho,
cujo talento conheciamos desde Coimbra, e cuja individualidade
litteraria viamos agora accentuar-se com um vigor de originalidade
verdadeiramente notavel.

De quando em quando, Trindade Coelho obsequiava-nos com um artigo para o
_Diario Illustrado_ e, vindo establecer residencia em Lisboa, algumas
vezes tivemos a honra de receber n'esta redaco a sua visita, sempre
agradabillssima para ns, porque a sua conversao scintillante
aligeirava as nossas pesadas horas de trabalho.

Pois bem, Trindade Coelho acaba de reunir n'um volume--que faz parte da
colleco _Antonio Maria Pereira_--os seus deliciosos contos, cheios de
observao, de verdade, de simplicidade artistisca, que , a nosso vr,
suprema expresso de belleza n'este genero de composies litterarias.

_Os meus amores_ so um bello livro, em que o estylo se no contorce
atormentado, como em tantos outros, em que os rebuscados esplendores da
forma litteraria denunciam uma carencia absoluta de espontaneidade. Tudo
alli deriva naturalmente, tanto na sequencia logica dos caracteres e dos
episodios, como na contextura facil, mas colorida, dos perodos.

N'uma palavra, _Os meus amores_ so a obra de um artista, de um homem
que sabe do seu officio, e que tem uma individualidade bem definida por
traos profundos de verdadeira originalidade.


Voz Publica:--_Os meus amores_.--Trindade Coelho, innegavelmente um
talento de primeira agua, acaba de brindar a litteratura portugueza com
um excellente livro de contos subordinado quelle titulo e que constitue
o duodecimo volume da elegantissima _Colleco Antonio Maria Pereira_.

_Contos e balladas_  o sub-titulo do livro, e muitos ao lrem-n'o
julgaro que se trata de versos; mas no,  em prosa, em prosa
vernacula, correcta e vibrante que esto escriptos os bellos contos de
que se compe este livro, digno a todos os respeitos de ser lido.

So todos elles uns contos ligeiros, encantadores pela espontaneidade e
verdade dos seus typos e das suas situaes, lembrando um tudo-nada os
formosos typos de aldeia, to magistralmente desenhados pelo mallogrado
auctor da _Morgadinha dos Canaviaes_ e dos _Fidalgos da Casa Mourisca_.

Lemos d'um folego o magnifico livro, e ninguem que o comece a lr
deixar de o fazer como ns; to attrahente  a frma por que Trindade
Coelho conduz todos os ligeiros contos de que elle se compe, que sem
querer, sem se sentir mesmo, chega-se ao fim e fica-se como triste
d'elle ter acabado.

Todos magnificos, dizemos, mas se alguns ha que mais nos prendessem,
foram os que se intitulam _Typos da terra_ uma galeria curiosa de typos,
e _A me_, um conto de natureza, simples e commovente na sua
simplicidade, e notavel pela sua originalidade.

Recommendar o livro de Trindade Coelho  prestar um servio aos nossos
leitores.


Ordem do Dia:--_Os meus amores_.--Este  o titulo do 12.^o volume da
colleco Antonio Maria Pereira, innegavelmente a publicao mais
elegante, mais barata e mais interessante do paiz.

_Os meus amores_ so uma serie de contos e balladas, em prosa, devidos 
penna d'um moo talentosissmo, de ha muito conhecido nas lides do
jornalismo, Trindade Coelho, mas que ainda no lanra ao mercado um
livro; com este debuta o auctor, e  uma estreia auspiciosissima a sua.

A leitura do volume, longe de fatigar, faz-se com agrado, e n'elle 
cultivado um genero--o de contos, alguns  maneira de Gustave Droz, que
prendem e interessam o leitor em todo o sentido.

Foi gratissima a impresso que elle nos deixou no espirito e esperamos
que Trindade Coelho continue a brindar o publico com as suas bellas
produces, porque estamos certos de que quem lr _Os meus amores_ ser
com sofreguido que esperar novo volume do distincto escriptor, tal  o
encanto da sua escriptura.


O Sorvete, (com o retrato do auctor):--Dr. Trindade Coelho.--Mais uma
prova do seu brilhantissimo talento! Mais uma vez justificada a alta
competencia e finissimo espirito de escriptor disctinctissimo!

O novo livro de Trindade Coelho,--_Os meus amores_--contos e
balladas--editada pela casa Antonio Maria Pereira, de Lisboa, , no
dizer dos entendidos em litteratura,--uma verdadeira joia.


O Espozendense:--_Os meus amores_ (contos e balladas) por Trindade
Coelho.--Faz parte este volume da interessantissima colleco Antonio
Maria Pereira, to bem acceite do publico, pela superior escolha das
obras publicadas e pela modicidade extraordinaria dos seus preos.

_Os meus amores_  um precioso agrupamento de contos, alguns ineditos,
outros j conhecidos, e que Trindade Coelho espalhara com applauso por
differentes jornaes do paiz. Decorridos quasi todos em plena aldeia
trasmontana, cujos costumes o auctor conhece de sobra, pois  natural de
Traz-os-Montes, e foi durante alguns annos, delegado do procurador regio
n'uma cidade de provincia--os contos d'esta colleco tornam-se
sobretudo notaveis pela propriedade e pela fidelidade da aco,
verdadeiros, nitidos, reais, palpitando da cr propria da paizagem,
vivendo da vida natural, intima e intrinseca, dos personagens e das
cousas.

Entre as nossas obras litterarias originaes, _Os meus amores_ merecem,
pois, um logar  parte, no como uma estreia auspiciosa, que o nome de
Trindade Coelho  j demasiado conhecido de todos quantos se interessam
pela litteratura nacional, mas como a poderosa affirmao de um prosador
elegante e de um contista distincto, no meio da grande maioria da chata
vulgaridade indigena.

_Os meus amores_ , em summa, um livro de valor, bem cabido nas mais
escolhidas bibliothecas.


O Portuguez:--_Os meus amores_.--Delicioso titulo de um livro
delicioso.

O livro  uma colleco de graciosos contos, editorada pelo sr. Antonio
Maria Pereira; e o auctor  o nosso collega do _Portugal_, sr. Trindade
Coelho, que, nos ocios da magistratura, de que  digno representante,
cultiva as lettras com desvelado amor.

Em Coimbra, estudante ainda, era j litterato apreciado, collaborando,
com applauso dos mais doutos, em jornaes e revistas, que ha mais de dez
annos tornaram o seu nome festejado e querido. Hoje, reune ao seu ttulo
de jornalista a invejavel nomeada de contista esmerado, e brinda as
lettras portuguezas com um volume, que est tendo a mais justa e
lisonjeira acolhida.

O primeiro conto do livro, _Idylio rustico_, no obstante ser agora
publicado pela primeira vez, cremos ns,  j nosso conhecido, porque
appareceu manuscripto n'um concurso litterario da extinta _Associao
dos jornalistas_, sendo premiado. Depois da consagrao de um jury, ter
agora a consagrao do publico.

Depois do _Idylio rustico_, vem o _Sulto_, um quadro magnifico da vida
campesina, notavel de simplicidade e graa; e a _Ultima dadiva_; e os
_Preludios de festa_; e os _Typos da terra_; e as _Balladas_; e a
_Tragedia rustica_; e a _Me_; e os _Arrulhos_; e as _Batalhas
domesticas_: outros tantos primores, que s vezes nos fazem lembrar as
deleitosas e serenas paizagens de Daudet.

Agradecendo ao auctor a gentileza da sua offerta, congratulamo-nos por
no haver ainda expirado entre ns a litteratura san, que, ou nos
desperte o sorriso ou nos obrigue a lagrimas, no nos deixa no espirito
a impresso doentia das nevroses litterarias...


Jornal da Manh, Porto:--_Os meus amores_.--Mais um volume acaba de ser
publicado da colleco Antonio Maria Pereira, por sem duvida a mais
elegante, a mais escolhida e a mais economica bibliotheca que se publica
em Portugal.

 o primeiro livro de Trindade Coelho, _Os meus amores_, contos e
balladas, em que o talentosissimo escriptor acaba de reunir todos os
seus contos dispersos por varios jornaes, e alguns ineditos.

Do primeiro ao ultimo, os contos que compem _Os meus amores_ so
specimens no genero, porque, alm de constituirem uma esplendida galeria
de quadros intimos, de retratos, de typos, so a confirmao d'uma
verdade j por ns ha muito acceite: que o seu auctor tem todos os
requisitos d'um escriptor de primeira ordem; estylista vibrante,
correcto e sempre elegante.

E se formos a escolher o melhor d'hesses contos, ver-nos-hemos em serios
embaraos, porque so todos por igual deliciosos, constituindo a sua
leitura um verdadeiro encanto; entretanto, se ha que mostrar
predileces por algum d'elles parece-nos que os melhores sero _A Me_
e _Para a escola_, aquelle uma delicada e emocionante historia arrancada
flagrantemente  natureza, e este saudosas recordaes d'um passado que
no volta.

A edio, escusado  dizel-o,  nitidissima.


O Tempo:--_Os meus amores_.--Este livro teria vindo melhor nas noites
invernosas para seres s lareiras creptantes:--as fascas d'ouro
subindo no tecto, o vento zenindo fra aoitando a chuva, e dentro, no
conforto recolhido, gosar-se o contraste das paizagens alegrdas pelo
sol, espelhadas na agua rumorosa, com gorgeios e trinados d'aves,
paizagens que o sr. Trindade Coelho sabe encantar com a delicia suave e
subtil d'illudidor ameno. Mas no se pde aconselhar o leitor a que se
prive de saboreal-o desde j, tanto mais que os tempos vo agoureiros
para a arte de manancial, e os que a cultvam teem de separar-se dos
estragadores d'Ella e das cabeas quasi vasias que expremem e segregam o
pus nauseabundo do sadismo mediocre.

Estes esto agora entretendo o publico arrebanhado para saborear com
prazer as estapafurdices atoleimadas, e que os eguala--o vingador--ao
imbecil que escreveu o _Senhor Dupont_ e aos auctores das _Pimentinhas_
e _Berbiges Ardentes_.

Que o livro de glorificadora arte do sr. Trindade Coelho seja o
perfumador dos excrementicios e apparea em plena luz nas mesas e nas
familias dos que compravam os outros,  o voto que faz o alinhavador
d'estas linhas corredias, na certeza de que recommenda  atteno um
artista recolhido que sabe ter fora nos traos tenues e meias tintas
dos seus quadros, que capricha em suavisar idylicamente as dres
vulgares da vida acceite, da materialidade animal, dourando-as com
recantos de natureza chilreante. Que me perdem insistir na
impertnencia: mas, o que no livro mais particularisa o talento de quem
o assigna  a comprehenso das paizagens, o sabel-as colorir, animar,
pl-as ante os olhos que lem.

As grandes dres obscuras e sinceras, as brandas affeies, amisades
arreigadas, a placidez do recanto habitado, os amores simples
sustentados por ingenuas crenas s suavisada f, tudo o que a aldeia tem
de ameno, d'attraente, de pittoresco, de consolador, os seus ridiculos
mesmo, vestindo atitudes de parodia em theatrinho de curiosos, tudo
reveste bem o sr. Trindade Coelho, e aligeira com um optimismo de bom
humor, sublinhando aqui e acol umas notas reaes, bem apanhadas, como se
diz, e que refrescam o rosto n'um aberto sorriso de ventarla. O livro
encanta porque traz todo o aroma da aldeia onde o auctor encerrou por
annos a sua nostalgia--a peior de todas: nostalgia de
delegado!--apertando os vos do seu esprito d'artista que ama pairar
com a fantasia para o longiquo, para o que se Imagina, para o Distante,
o Inaccessivel, o Insaciavel. Sonhos e fantasias que morreram e se
dispersaram como o fumo e as cinzas das fogueiras a que se aqueceria nas
noites uivantes do inverno trasmontano; mas que deixaram sementes de
recordao e de saudade d'onde brotou o livro, escripto decerto nas
horas feriadas do trabalho arido, com a documentao da natureza que
vivifica, com a elaborao pachorrenta de quem no tem pressa e se
compraz na arte libertadora.

Especificar um ou outro conto no  depreciar os no citados, mas dar
preferencia pessoal--e talvez peccadora--ao _Idylio rustico_,  _Ultima
dadiva_,  _Me_, s _Batalhas domesticas_, que fecham o livro e deixam
entrever no auctor um desejo de animar os personagens tanto como anima a
natureza onde elles sentiram. Ha contos nos _Meus amores_ que fazem
lembrar um Cladel menos retumbante e por isso mesmo livram quem l da
patada epica do que fez _Crte-Rouge_ e _Ompdrailles_.

O sr. Trindade Coelho  um escriptor to distincto quanto aclarado pelo
jorro d'arte que vem de ha muito confundindo os convulsionarios do
talento; os serenos no desdem; os enthusiastas; o que, despindo o
metaphorico, quer significar que elle est em posio artistica onde
decerto o seu talento e o seu trabalho continuaro a chamar atteno e
respeito.--_M. Caldas Cordeiro_.


Antonio Maria, (com o retrato do auctor, desenho de Raphael
Bordallo):--_Os meus amores_ por Trindade Coelho.--A livraria
portugueza tem tido uma enchente, como raramente lhe succede, na ultima
quinzena. Depois do exito do romance de Abel Botelho e do livro de
memorias de Luiz Palmeirim, veio o volume de contos de Trindade Coelho,
com a amavel denominao de _Os meus amores_.

Aqui o temos, j todo aberto, j todo lido...  originalissimo,
agradabilissimo o modo de escrever, de descrever, de dizer, de contar,
que usa o auctor d'este bello livro,--agradabilissimo contista,
escriptor originalissimo, cujo nome a bibliographia regista hoje, to
notavelmente, como o jornalismo de ha muito o registara.

A quem o lr, garantimos, sob a palavra de honra do nosso gosto, algumas
horas muito bem passadas, passeadas por aquellas paizagens e recantos
provincianos que elle pinta, to real e verdadeiramente como se l se
estivesse; em companhia d'aquelles typos que elle retrata, to
photographicos, to nitidos, que  estar a gente a vl-os, a ouvil-os, a
falar-lhes...

--_Os meus amores_, meus amores, que encanto!


O Tempo:--_Os meus amores_.-- como Trindade Coelho intitula a
colleco de formosos contos, publicados em volume, editado pela
livraria do sr. Antonio Maria Pereira.

Ha muito tempo que conhecemos e apreciamos o talento de escriptor de
Trindade Coelho, desde quando lhe lmos as suas produces litterarias
n'um jornal de Coimbra, e que eram as primicias de trabalhos mais
primorosos, como so hoje os contos a que nos vimos referindo.

O livro de Trindade Coelho  dos raros que se lem da primeira  ultima
pagina sem um momento de cansao ou de fastio. O espirito do leitor
delicia-se seguindo todas aquellas scenas campezinas, d'uma singeleza
to commovente, e que nos _Meus amores_ so descriptas n'uma forma em
que se revelam todas as qualidades d'um distincto e notavel escriptor.
S pde apreciar bem o merito d'aquelles contos quem souber quanto
cuidado ha no labr paciente do artista para conseguir dar ao estylo o
tom de naturalidade e de espontaneidade, que se requer n'este genero de
pequenas novellas, talvez o mais difficil de todos.

No nos demoraremos a falar dos _Meus amores_, que contm preciosas
joias litterarias, e ao qual est, sem duvida, destinado um honroso
logar na nossa litteratura contemporanea.


Correio Elvense:--Trindade Coelho.--Este nosso amigo e festejado
escriptor publicou agora o seu primeiro livro de contos e balladas que
deu o titulo: _Os meus amores_, editado pela acreditada livraria de
Antonio Maria Pereira.

Trindade Coelho, que hoje occupa um proeminente logar no jornalismo da
capital, fez ainda ha pouco algumas das suas melhores armas na imprensa
de Portalegre, onde creou dois jornaes, um dos quaes ainda vive, que
tiveram vida gloriosa em quanto os animou o trabalho do distincto
estylista.

No s nos seus escriptos passados, mas ento, conhecemos o grande valor
que indiscutivelmente possue. No nos surprehendem pois os seus
triumphos e rejubilamo-nos com elles com a alegria e sinceridade de bons
e sinceros amigos.

N'um dos proximos numeros fallaremos da impresso colhida em _Os meus
amores_.


O Dia:--_Os meus amores_.--Se fosse no seculo passado, os fazedores de
proemios, prologos e conversaes preambulares com os pios leitores, 
falta de jornalistas que noticiassem ou criticassem, por certo
aproveitariam a occasio para sobre o nome do auctor glozarem varios
elogios ao livro, visto que aquelle se chama Trindade e  ao mesmo tempo
um poeta sincero, um escriptor de raa, e um observador attento,
qualidades que se equilibram por tal sorte, que do conjuncto nasceu uma
obra formosissima, animada de verdadeira commoo, sentida nas suas mais
pequenas minucias, sempre elevada, sempre humana e sempre artista.

A vida e a poesia trasmontana encontram-se a cada passo n'esta reunio
de contos, que o sr. Trindade Coelho dialogou com um cuidado meticuloso,
copiando do natural, e em que os personagens foram surprehendidos nos
seus labores de cada dia ou nas suas intimas cogitaes.

No temos espao nem tempo para nos alongarmos na noticia d'este livro,
e por isso nos limitamos a recommendal-o como leitura attrahente, como
obra d'arte tratada com esmero, embora nem sempre com a mesma egualdade
nem com o mesmo folego, como uma grande lico litteraria aos fazedores
de naturalismo brutal.

Ao auctor agradecemos a remessa do seu livro, ficando fazendo votos para
que elles sejam tantos, que afoguem os autos e libellos em cujo meio o
magistrado tem de viver, e d'onde sae amiudadas vezes para nos provar
que quando se  artista l de dentro, o contacto dos escrives no
prejudica a indole do escripior.


Novidades,(entrevista com Joo de Deus cerca dos
_novos_):--_Litteratura nova_.--Eu conheo limitadamente os novos,
porque no leio jornaes, e no os leio porque os litterarios occupam-se
na propaganda da immoralidade, e os politicos na propaganda do suicidio,
e na do jogo das loterias, que seduz principalmente os engeitados da
fortuna, mais sequiosos de domarem, n'um acaso da sorte, as agruras da
sua vida. E emquanto o rico joga o superfluo, o pobre joga os trinta
ris de tres quartos d'um po.

Mas aqui est o livro do Trindade Coelho, que me encheu de verdadeira
alegria!  um rapaz de talento! O que  preciso  que elle dispa a toga,
que lhe impede os movimentos. No o conheo, mas dizem-me que trabalha
muito. J leu o _Sulto_? Se ainda no leu, no o deixo sair de c sem
lh'o ler.

--Li j todo o livro.

--E depois, meu amigo, ns andavamos precisados d'uma coisa casta, onde
fossemos purificar o espirito d'essas taes observaes physiologicas, e
no sei que mais, que por ahi apparecem todos os dias. O livro do
Trindade Coelho tem o que eu chamo graa, e que no posso bem
definir-lhe. Olhe: alli est aquelle quadro, em que os traos so
correctos e a execuo perfeita, mas no tem graa; e aqui, este, uma
bella cabea de rapariga, a physionomia dce, o olhar abstracto: este
tem graa. At a Virgem Maria se chama cheia de graa, e foi me de Deus
por ter graa. A graa na litteratura  tudo, mas  muito rara.


Novidades:--_Novellas rusticas_.--Trindade Coelho.--_Os meus amores_
(contos e balladas.)--Lisboa, livraria de Antonio Maria Pereira--1891.

No seu penultimo artigo do _Temps_, dizia M. Anatole France, esse
sceptico amavel e pirrhonico, que tem sido o terrivel sapador de todas
as doutrinas axiomaticas da critica: Il y a beaucoup moins de lecteurs
pour les nouvelles que pour les romans, par cette raison suffisante que
seuls les dlicats savent goter une nouvelle exquise, tandis que les
gloutons dvorent indistinctement les romans bons, mdiocres ou
mauvais.

O conto moderno  como o romance, essencialmente analytico e
psychologico, escripto em estylo technico, e destinado sobretudo a
apresentar uma imagem precisa de qualquer meandro torcicolado da alma
humana. A litteratura contemporanea tem procurado, quasi
invariavelmente, os seus themas entre os vicios, as paixes e todas as
energias depravadas do corao. A arte do sr. Trindade Coelho  muito
differente d'isso, porm. O seu idylico livro de contos e balladas,
aberto sobre um fundo de verdura reluzente, amorosamente evocado da
paizagem trasmontana, e habitado por heroes simples, colhidos com
intencional singeleza no meio do seu viver provinciano, no tem,
decerto, parentesco nenhum com os volumes carimbados com a etiqueta
actualmente em moda.  natural at que o leitor, habituado aos livros
dos escriptores realistas, sinta uma profunda sensao de espanto ao
emprehender a leitura dos _Meus amores_, duzentas paginas suaves e
simples, sem pedantescas pretenes a passarem como tratado didactico de
psychologia.

Disse-se de Julio Diniz que elle era principalmente um paizagista, e que
as suas figuras s serviam para dar expresso e vida  paizagem.

O sr. Trindade Coelho possue, egualmente, a sensao visual
particularmente desenvolvida, e as suas descripes so tambem, como as
do auctor das _Pupillas do sr. Reitor_, magicamente poetisadas, como que
apercebidas de longe n'um esbatido vago de sentimento e de saudade.
Chega-se s vezes a ter a illuso de que o artista est alli, paginas a
dentro do seu livro, fazendo reviver no pensamento a alacre impresso
das madrugadas lactescentes e dos poentes doirados da sua aldeia natal,
cuja lembrana, elle conserva sempre viva, como nos versos de Salvador
Rueda:

Por donde voy me sigue como memoria tierna
tu imagen que en mi pecho conduzco en un altar;
y mi cerebro canta como una estrofa eterna
el coro que tus rboles entonan  la mar!

Ahi teem, para prova, esse trecho d'um descriptivo de manh alde,
quando o sol comea a subir na linha ainda indecisa do horisonte:

A esse tempo, no ceu alto e lavado a estrella de alva fenecera por fim,
e o horisonte comeava de carminar-se ao de leve. Por todo o ceu em
cupula, a luz fresca e viva da manh vibrava harmonias estranhas que iam
despertar tudo, a cr da paizagem e a musica dos ninhos, cantigas de
perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos. Manh de vero, serena,
tranquilla, dulcissima. Ia pelo ar um movimento extraordinario de
azas--passarada alegre que saa agora dos ninhos e voava a matar a sede
 borda das ribeiras, andorinhas que deixavam as suas casinholas em
reconcavos de rocha e tomavam para hortejos convsinhos onde a vegetao
era mais rica de seivas e mais facil a presa dos insectos, perdizes
gralhadoras que iam de monte em monte, tordos, poupas, melros. Nos
vinhedos das encostas, por entre os renques verdejantes, gente em mangas
de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos em torcicollos, viam-se
os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de taleigos, e
berrando-lhes cada _cho_! que se ouvia na outra ladeira. J nas
povoaes proximas, sinos chamavam para a missa de alva ou tocavam a
Ave-Marias. Nas quintas casaes fumegavam os tectos, dizendo horas de
almoo. De modo que o sol quando rompeu, solemne e triumphante no ceu
immaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda a Natureza accordada
para a labuta interminavel do dia.


No notavel estudo de psychologia litteraria de M. Fr. Paulhan sobre a
descripo pittoresca, ento habilmente apreciados os elementos
constitutivos da pintura do meio, em todas as suas maneiras diversas na
qualidade e na intensidade.

Chama-se imaginao sensivel, diz o distincto observador, o acto pelo
qual ns nos representamos um objecto ausente, e esta representao,
como tem sido ha bastante tempo notada, no ,--principalmente se
considerarmos s certas classes de imagens,--seno uma copia
enfraquecida d'uma sensao. Por exemplo, se eu trato de me representar
um momento, um quadro, uma estatua, qualquer coisa que imagino, se as
minhas recordaes so bastante nitidas,  uma especie de copia
enfraquecida da sensao que eu terei, se vi realmente o monumento, o
quadro ou a estatua. A imaginao, tomada at no sentido restricto que
lhe damos aqui, varia muito d'uma pessoa para outra, quer em
intensidade, quer em qualidade. Por um lado, certas pessoas teem as
imagens, as representaes muito mais enfraquecidas, mais vivas, mais
concretas; em uma palavra, as suas imagens approximam-se muito da
sensao; outras, pelo contrario, so inclinadas para as idas
abstractas e teem necessidade d'um esforo para se representarem as
sensaes d'uma maneira um pouco nitidas. Tem-se reparado que a viso
mental, nitidissima em geral nas creanas e nas mulheres, torna-se muito
fraca e por vezes desapparece nas pessoas preoccupadas sobretudo de
ideias abstractas, ou habituadas a no exercer a sua imaginao visual.
Eis uma pequena experiencia indicada por Wundt, que, mostrando as
analogias entre a imagem e a sensao, parece pr em relevo tambem as
differenas individuaes com relao  intensidade com que a imagem
concreta  percebida. Sabe-se que quando fixamos o olhar por algum tempo
n'um objecto corado, se voltamos os olhos para uma superficie parda,
vemos uma mancha corada da cr complementar da primeira. Se o objecto
era vermelho, a mancha ser verde, e reciprocamente; se o objecto azul
indigo, a mancha ser amarella, etc. Ora  possivel, mas isto no
succede a toda a gente, perceber esta cr complementar no s depois de
ter fixado um objecto corado, mas simplesmente depois de o ter
imaginado. Pde-se, por exemplo, pensar n'uma cruz vermelha: lanando em
seguida os olhos para um papel pardo, deve-se ver uma cruz verde, se ha
uma boa imaginao visual.

Essa imaginao parece tel-a o sr. Trindade Coelho. A vivacidade,
tonificada qui por um poucochinho de nostalgia, do seu descriptivo,
que nos d conjunctamente a impresso da forma, da cr, do som, e at s
vezes do aroma, representa um phenomeno especial de evocao
sensacional. E o maior encanto da sua obra  esse, e, depois d'esse, a
intima satisfao que faz aflorar, aos labios do leitor inteligente, um
sorriso de doce commoo, a cada singelo episodio das suas narrativas,
todas frescas e sadias, e cujo menor merito no , decerto, o de serem
escriptas n'uma linguagem airosa e despreoccupada, mas tersa e
legitimamente portugueza.

O livro do sr. Trindade Coelho no  para ser sujeito a longas analyses
introspectivas, o papel da critica perante _Os meus amores_  bem facil,
porque ella deve quasi cingir-se  affirmao do seu applauso
incondicional, ou ao registo da repulso do processo do escriptor, o que
pde muito bem representar uma livre depravao de gosto.

Por mim confesso sinceramente que me deixou no espirito a mais amavel
recordao, para a oxygenada, a leitura d'essas bellas novellas
rusticas, todas impregnadas d'uma ideal graa campesina, tilintando d'um
ecco amoravel de arroio murmurante, que discorre mansamente por entre
margens baixas, bordadas de scias e papoilas: e, para a minha
sympathia, desejo mencionar eapecialmente o conto que abre o livro e o
caso do _Sulto_.--_Armando da Silva_.


Tim Tim Por Tim Tim:--Um grande poder d'observao e uma enorme justeza
d'expresso, constituem, quanto a mim, as duas essenciaes qualidades
litterarias de Trindade Coelho, puras auxiliares da sua alma de
verdadeiro artista, aberta  comprehenso ampla da natureza, e fundindo
os phenomenos, as coisas e as creaturas n'um conjuncto nitido que se
desata em descripes opulentas de vida e de calor, fulgurantes
d'energias dominadoras, prodigas d'imagens que o melhor crystal de
Veneza no teria reflectido to bem, avigoradas em onomatopeias
possantes que prendem o espirito mais inculto e o obrigam, alli, a fixar
e a comprehender o objecto que o auctor quiz frisar.

E essas qualidades resaltam brilhantemente de todos os contos que
compem _Os meus amores_, realadas ainda pela fina emotividade que o
delicado sentir do auctor transmittiu a cada scena onde o corao tem
parte, ou seja o corao de qualquer d'aquelles dois pequenos do _Idylio
rustico_, ou o da _Russa_, a bella cabra que no meio de mil angustias de
me morre junto ao filhinho. E se o querem surprehender a elle proprio,
a Trindade Coelho, em flagrante de uma ternura honesta, viva e sentida,
vejam o affecto que irradia d'aquelle _Para a escola_, quando falla da
velha e boa criada que o levou ao mestre das primeiras lettras.

Se das coisas affectivas, que mais o namoram, e das descripes
naturaes, que mais o apaixonam, Trindade Coelho desce a brincar um
pedao caricaturando uns typos com tanta sobriedade de _charge_ que mais
nos parece estar fazendo retratos, saem-nos ento figures como os da
villoria da _Comedia na provincia_, que entreteem a tarde na praa a
dizer mal uns dos outros. To verdadeiro nos _croquis_ como nos habitos.
E quando aos typos pode juntar um estudo de costumes, aquella _Vespera
da festa_ exemplifica vantajosamente o que elle sabe fazer.

No fim do livro, foi para mim surpreza aquelle excerpto das _Batalhas
domesticas_, onde me pareceu descobrir uma novissima orientao do
auctor, inspirada porventura n'uma atmosphera densa d'innovaes que vae
por ahi. Claro que o seu talento adapta-se mais essa frma com a
malleabilidade com que a tudo se sujeita, mas se eu tivesse a
caracteristica litteraria de Trindade Coelho, evidenciada em tantos
escriptos, no a sacrificaria a coisa alguma.

O que o livro , em summa,  um conjuncto de bellezas que tem sido
largamente apreciado pelos fanaticos da Arte; e oxal seja apenas a
promessa de muitos outros, que pennas como aquella no devem
calotear-nos na contribuio que nos devem.

--Mas,--perguntou-me um dia d'estes alguem--porque _Os meus amores_, e
no qualquer outro titulo?

No respondi. E demais eu sei porque deu Trindade Coelho esse nome ao
livro onde ha tantos trabalhos de tempos que lhe so saudosos e em que
lhe foi grande parte da alma, da sua bella alma de rapaz que nenhuma
lama d'este mundo  capaz de conspurcar.--_Santos Gonalves_.


Revoluo de Setembro:--_Os meus amores_, contos e balladas por
Trindade Coelho.--Um livro peregrino, que se l com encanto e que nunca
mais se esquece.  um talento e  um artista quem escreve assim. Uns
contos singelos, attrahentes, delicadissimos, admiraveis de observao e
de honesto realismo. Esbocetos apenas; mas que admiravel simplicidade de
colorido em alguns delles e que tons inapagaveis de verdade!

Uma bella obra d'arte e uma altiva lio.

Alli est como se pde chegar ao naturalismo na litteratura, sem
estropear a lingua e sem chegar s torpezas da pornographia. Para
attrahir, para ser original, para impr a supremacia do seu talento,
para conquistar o applauso sincero dos que lem, Trindade Coelho no
precisou de escrever extravagancias, nem de escalavrar pustulas, nem de
escancarar bordeis.

Ah fica uma rapida noticia do livro. Voltaremos a fallar d'elle, se o
tempo nos chegar para a homenagem que desejamos prestar ao seu auctor.


Correio Elvense:--_Os meus amores_.--Com poucos dias d'intervallo as
lettras portuguezas contaram dois ruidosos successos de livraria.

Depois de apreciar o _Baro de Lavos_, obra de analyse, de profunda
observao, resentida do exaggero do naturalismo e do caracter quasi
scientifico que actualmente se pretende imprimir aos livros, que devem
ser exclusivamente litterarios, mas que, no obstante este pequeno
seno, confirmou plenamente todas as esperanas que o nome de Abel
Botelho crera com os seus livros anteriores, a critica tem de render
respeitosa homenagem ao trabalho d'um outro escriptor novo como aquelle
e como elle egualmente distincto pelos brilhantes dotes do seu espirito,
pela sua notavel orientao litteraria e pelo esplendor de frma que
caracteriza todos os seus escriptos, mesmo os mais despreoccupadamente
feitos.

Sinto um delicioso prazer de consciencia ao traar estas linhas.
Momentos como este so mesmo os unicos oasis em que se reconfortam os
que, dia a dia, esgotam o melhor das suas faculdades na faina
improductiva e ingloria do jornal.

Tracto de apreciar o trabalho d'um amigo, d'alguem a quem me unem
intimas relaes de confraternidade e sympathia e ao ter de formular o
meu juizo conheo que posso manifestar o mais incondicional louvor e
applauso sem que se suspeite que as minhas palavras so reflexo d'um
sentimento pessoal, mas sim a expresso exacta e verdadeira d'uma
admirao justamente sentida, solidamente baseada.

O livro a que me refiro intitula-se: _Os meus amores_. E em tudo
corresponde ao encanto d'este titulo.

Com que saudade li as ultimas paginas!

Por vezes desejava espaar essa leitura para demorar o delicado prazer
que sentia, n'outras precipitava-a soffrego de admirar a naturalidade
das descripes, a limpidez e o crystallino do estylo emocionante e
simples, to delicado e ao mesmo tempo to poderoso que d vida aos mais
diversos sentimentos desde o pavor do remorso do assassino Jos Gaio,
at  recordao saudosa e terna que o auctor sente do primeiro dia em
que entrou na aula d'instruo primaria da sua modesta aldeia.

Dando a impresso singela e despretenciosa que me cansaram _Os meus
amores_, no vou referir-me demorada e especialmente a cada um dos
pequenos quadros que formam esse livro verdadeiramente consolador. Na
epoca actual quando os vicios da sociedade e a decadencia dos nossos
dias nos gravam no espirito, a cada hora, um carimbo de desanimo e
descrena, quando a litteratura, obedecendo  vertigem mais do que
nervosa, allucinada, que caracterisa o _fin de sicle_, cria as escolas
mais extravagantes que se comprazem em baralhar todas as ideias, em
apedrejar as normas mais impeccaveis e at agora consagradas da arte, e
em descrever todos os aspectos da natureza com as palhetas mais escuras
e muitas vezes asquerosas, sente-se conforto, adquire-se animo,
desannuvia-se o espirito ao vr que ainda ha alguem, a quem sobeja
talento e tenacidade, que escreve 200 paginas de prosa s, eminentemente
sentida, deliciando-se na descripo das scenas mais simples e tocantes,
na apotheose da natureza em toda a sua magnificencia e no convvio da
vida campesina, to cheia de sinceridade e de encantos, to livre das
convenes e pretenciosidades que do um tom falso e mentido aos
sentimentos da sociedade em que vivemos.

Disse em cima que no me alongaria no esmiuar de perfeies de cada um
dos contos e balladas que formam _Os meus amoes_. No representa este
proposito ideia de menos considerao pelo livro ou por quem com tanto
amor o escreveu. Ao contrario, sinto que no posso, a no transformar
este artigo n'um hymno laudatorio, referir-me especialmente a cada um
d'aquelles contos e balladas. Mais do que este motivo domina-me o de no
poder alongar demasiadamente a apreciao que estou fazendo.

Muitas das paginas que Trindade Coelho reuniu no seu livro j as
haviamos lido e simultaneamente admirado, publicadas em differentes
jornaes. Como escriptor conheciamos tambem o primoroso estylista dos
_Meus amores_ pelos seus trabalhos jornalisticos, j na bohemia coimbr,
j em pequenas folhas de provincia e ultimamente nos jornaes da capital,
trabalhos em que elle empregava o escrupulo e a correco que nunca
abandonam os verdadeiros artistas.

Pelos seus trabalhos litterarios ha muito que formra a opinio de que
elle se podia alistar sem desdouro ao lado do Conde de Ficalho, de
Fialho d'Almeida e de Teixeira de Queiroz que, no meu parecer, so, em
Portugal, os mais distinctos escriptores contemporaneos d'este genero,
na apparencia to ligeiro, mas no fundo to complexo e difficil, a que
se denomina: _Contos_.

A leitura do recente livro enraizou-me mais a opinio formada.

Pelo sentimento descriptivo, pela verdade dos _typos_, pela naturalidade
do dialogo, e pela modalidade do estylo que se apropria sem o minimo
esforo a todas as impresses que pretende transmittir, o auctor dos
_Meus amores_ prova que no desconhece nenhum dos segredos do genero de
litteratura que to brilhantemente cultiva, e que no  inspirada na
amizade a opinio dos que, no obstante elle terar agora quasi as
primeiras armas, o consideram j como um escriptor distinctissimo e n'um
futuro muito proximo um mestre consagrado.

O livro abre com um soneto formosissimo e nem podia deixar de ser assim
desde que se saiba que o firma Luiz Osorio. Portico apropriado s
bellezas que nas paginas que se seguem se accummulam com uma riqueza
oriental.

No obstante o meu proposito de no me referir nomeadamente a nenhum dos
pequenos quadros, no posso deixar de dizer rapidamente da impresso que
me causou a _Ultima dadiva_, um primor de sentimento, uma pagina emotiva
arrancada em flagrante a uma das scenas em que to variadamente se
divide a tragedia em que se debate a humanidade; o _V[ae] victoribus_,
onde passa um folego de epopeia, em que o estylo attinge alturas quasi
desconhecidas, casando se com uma verdade admiravel a grandiosa ideia em
que se inspira o conto; _Para a escola_, quadro delicioso a cuja leitura
cada um de nos sente accordar uma recordao muito querida de infancia
descuidada e alegre, e por ultimo: os _Arrulhos_, em que Trindade Coelho
ostenta gloriosamente todas as qualidades do seu estylo to malleavel e
to justo.

Alm d'estes contos, que especialmente destaco pela admirao que me
inspiraram, so modelos de humorismo e de verdade os dois _Preludios de
festa_ e _Typos da terra_.

Quem escreveu os _Preludios de festa_ e especialmente os _Typos da
terra_,  porque estudou com muita atteno, com muito cuidado, os
personagens que mais avultam na vida das nossas aldeias e terras
pequenas. So typos tirados do natural, com uma perfeio photographica
em que Trindade Coelho denota o mesmo rigor de execuo que demonstra na
descripo da natureza nos seus mais variados aspectos.

Por ultimo, e para no se dizer que eu n'este paiz de m lingua realisei
o cumulo de escrever um artigo s de palavras encomiasticas e sem a
minima censura ou reparo, devo dizer que no gostei do _Sulto_,
lastimando que Trindade Coelho gastasse tantas paginas d'um estylo
formosissimo n'um assumpto que sem duvida  verdadeiro, mas que no
commove o leitor, nem lhe imprime, pelo menos assim o julgamos, a minima
impresso duradoura. Para Trindade Coelho manifestar todos os seus
recursos d'estylista, no precisava realmente do _Sulto_.

O livro faz parte da edio mensal d'obras portuguezas, editada por
Antonio Maria Pereira, um trabalhador incansavel a quem as lettras
portuguezas devem assignalados servios.

Est impresso com o maior escrupulo e revisto com um cuidado e esmero a
que nem sempre estamos habituados.

Terminando estas linhas to despretensiosas como sinceras, fazemos votos
para que Trindade Coelho possa continuar a furtar algumas horas 
semsaboria dos autos e a deliciar-nos com novos livros, to perfeitos
como este, para honra do seu nome de escriptor j to justamente
laureado, e agradecemos ao amigo a offerta do seu livro, archivando a
dedicatoria que elle contem como nova prova d'uma amisade a que somos
profundamente gratos, e devotadamente retribuidores.--_Loureno
Cayola_.


Tribuno Popular:--_Os meus amores_.--Recebemos o volume da _Colleco
Antonio Maria Pereira_, que sob aquelle titulo contm alguns contos do
apreciado contista Trindade Coelho.

Pela rapida leitura de dois d'elles--_O Sulto_ e _Typos da terra_,
parece nos que a colleco  estimavel, e que os contos so joias de
grande preo da nossa litteratura, pela linguagem pura genunamente
portugueza, e pela graa da contextura originalissima, nacional, sem
laivos d'imitao estrangeira, em que se pintam scenas e episodios,
cheios de verdade e de encantadoras descripes, da vida portugueza nas
provincias.


O Seculo:--_Os meus amores_, por Trindade Coelho.-- um livro de
contos, editado pela casa editorial do Antonio Maria Pereira, a
publicao recente que mais tem emocionado, com justo motivo, o nosso
meio litterario, bem pouco acaroavel e mazorro no fundo,
sobresaltando-se com tudo quanto perpetra o escandalo de no ser
rotineiro, ou vulgar, e bem pouco emocionavel tambem--diga-se a verdade.

Parece uma contradico; mas no . Se o nosso bom publico fosse dado a
esbanjamentos de emoo artistica, no o sobresaltaria tanto a
pessoalidade, e o imprevisto.

O sr. Trindade Coelho accumula com o seu cargo official de magistrado
severo, a profisso, ou antes o desenfastio espiritual de ser homem de
lettras, nas suas horas de remanso.

 s, porm, como homem de lettras, que nos compete em tal logar
aquilatar-lhe a esthsia, e as faculdades de emoo, ou de atteno
artistica.

Ambas estas possue o sr. Trindade Coelho, em subido grau. A frma
adapta-se perfeitamento ao fundo, e  sempre fluente, vernacula,
concisa, e precisa.  sbrio no descriptivo, e no raras vezes
enternece. No commette a velharia de desenterrar obsoletos termos
classicos, sem inciso, sem propriedade, e sem cr, muito parecidos com
o latim, mas que no fundo no so nem latinos, nem portuguezes, nem
onomatopaicos, e que fizeram a delicia de Filynto. Nem perpetra tambem o
mau gosto de empregar neologismos inuteis, e risiveis, possuindo na
linguagem patria instrumentos magnificos d'expresso. Sabe a sua lingua,
como raros: e o conto, que , quanto a ns, a forma mais perfeita, mais
completa, e mais delicada da prosa, e tambem a mais transcendente e
lapidar, achou n'elle um habil e equilibrado interpetre. Os contos
_Sulto_, _Maricas_, _Typos da terra_, _Me_ e sobretudo _Para a
escola_, no contam muitos rivaes na lingua portugueza nem nas
estranhas.

O seu pequeno livro ha-de ficar na litteratura nacional, quando de
centenas de romances em seiscentos volumes j ninguem rememorar o titulo
sequer.--_Gomes Leal_.


Revista Illustrada:--_Os meus amores_, de Trindade Coelho.--Que
deliciosa impresso me deixou aquelle livro, to adoravelmente simples e
sentido!

Antes, porm, de comear a analysar, conto por conto, esse fino trabalho
de Trindade Coelho, preciso dizer duas palavras explicando a razo
porque me merece tanta sympathia o seu auctor, que de nome conheo s.

Li pela primeira vez o seu nome em umas correspondencias de Portalegre,
notavelmente bem feitas, e em que elle elogiava muito um pequenito,
distincto em todos os exames.

Aquelles adjectivos de amigo bom e enthsiasta fizeram-me convencer de
que--o delegado de Portalegre--era um excellente rapaz.

E digo rapaz, porque todos ns temos o habito de considerar sempre muito
novos aquelles que so da nossa edade... Depois, graas a uma amiga
minha, escriptora de grande talento soube que Trindade Coalho era um
grande admirador de Loti--o meu preferido romancista!--admirao
enthsiasta que elle descrevia em cartas deliciosas de uma vibrao que
fazia pena no ser repercutida mais longe... Fazia pena ser indiscrio
publical-as!

Traduzia elle ento o Pescador de Islandia; traduo esplendida que a
_Gazeta de Portalegre_ publicou e que o trazia _empoign_. Para elle era
j uma suggesto, aquelle trabalho primoroso.

E desde ento, Trindade Coelho ficou sendo para mim um artista. Dava a
Loti todo o valor que elle tinha e que ultimamente alguem se comprazia
em querer negar ao academico gentil.

Em seguida li uma suavissima elegia escripta  memoria de Antonio
Fogaa--uma flor ceifada ao desabrochar!--Eram meia duzia de palavras
cortadas por soluos:--eu sei, infelizmente, quando se escreve assim!...

Finalmente, o seu nome vibrou de novo aos meus ouvidos, quando os
jornaes annunciaram que elle arrancra um preso  cadeia de Portalegre.
Um preso que era um innocente, e que, como tantos outros, estava
condemnado a ouvir soar, em vida, a hora da justia... Publicavam tambem
o effusivo telegramma em que Trindade Coelho agradecia ao nosso
magnanimo rei o seu perdo.

E eu d'essa vez chorei! Como me succede sempre que um homem pe a
lucidez do seu talento e o enthusiasmo do seu corao ao servio da
humanidade que soffre...

O nome do dr. Trindade Coelho gravou-se ento indelevelmente na minha
alma.

Eu s fixo o nome dos bons.

E pensei em que devia ser uma grande mulher a me d'aquelle homem! Os
filhos herdam, geralmente, o corao das mes...

       *       *       *       *       *

Ultimamente a imprensa annunciou o livro que acabei de lr. Pedi-o
rapidamente para Lisboa, e li-o de um folego.

Abre com um soneto delicioso, escripto pelo espirito gentil de Luiz
Osorio--uma alma luminosa, que brilha na transparencia dos seus versos
filigranados e vibrantes...

Segue se o _Idylio rustico_--um amor--atravez do qual ns vmos subir
lentamente a estrella d'alva que illuminava, coando a sua dce luz pelo
colmo da cabana, duas cabecinhas gentis, adormecidas junto uma da
outra...

Depois o _Sulto_ um conto singelssimo cheio de naturalidade, em que o
Thom nos communica a sua alegria contagiosa levada  loucura com a
volta do... amigo--bem mais fiel do que muitos outros!

A _Ultima dadiva_, um braado de goivos atirados por um simples a uma
sepultura onde lhe ficra preso o corao para sahir de l no dia em que
teve de se diluir, na esteira do barco que lhe levara o filho para o
Brazil.

A _Comedia da provincia_, magnifica de cr local. Magnfica,
principalmente para quem conhece typos semelhantes e j tem visto a
_Morgadinha de Valflr_--essa perola!--representada pelo Marques do
correio... vestido de saias! Para quem d todo o valr a esse esplendido
estudo de costumes provincianos.

_V[ae] victoribus_, uma sugesto de remorso primorosamente traada...
_Maricas_, uma adoravel poesia escripta em prosa. _Para a escola_, um
beijo de gratido de uma singelesa adoravel. _Tragedia rustica_, um
vibrantissimo estudo das miserias humanas.

_Abyssus abyssum_, o agonisar de dois anjos, sob o olhar de uma
estrella... _Me_, a flr mais linda do ramo, enlevo e agonia de todas
as mes que eram capazes de morrer assim--sem abandonarem os filhos...
E, finalmente, as _Batalhas domesticas_.

Repito, deixou-me uma impresso deliciosa o livro de Trindade Coelho,
que , a par de um primor de delicadeza, sentimento e arte, um livro
honesto, que no fatiga os homens nem faz crar as mulheres. Por isso
aconselho a todos que o leiam.--_Margarida de Sequeira_.


Portugal:--_Livros Novos_.--A acolhida feita ao notabilsissimo livro
_Os meus amores_, do nosso querido amigo e illustre confrade, Trindade
Coelho, tem sido a que em tempo lhe vaticinmos: em toda a linha o mais
legitimo, o mais espontaneo, o mais unanime e o mais carinhoso triumpho.

Bem o merece o crystallino talento, e a ineluctavel tenacidade no
trabalho, do brilhante escriptor, que em meio dos violentos paroxismos
que na caa de sensaes e effeitos novos hoje pavorosamente
desarticulam o _meio_ litterario europeu, tem uma fora de restringir-se
a soltar suavemente, com uma sobriedade campesina e tranquilla, a
melodia emocionante, ingenua e simples do viver aldeo; e que por entre
o estridulo _hallali_ de obscenidades, imprecaes, blasphemias, dres,
gemidos, que doloridamente rebam pelas soturnas naves d'este immenso
hospital, que  o mundo, ainda encontra a suprema arte de fazer escutar,
enternecedoramente, um doce _trillo_ sentimental, uma ou outra ligeira
nota affectiva, algum limpo e captivante movimento do corao.

Bem haja.

Do cro unisono de quasi incondicional applauso com que a imprensa tem
celebrado a appario d'_Os meus amores_ transcrevemos hoje um magnifico
artigo do _Correio Elvense_, devido  penna d'um dos mais lucidos e
impetuosos engenhos da novissima gerao. (_Seguia-se a transcripo_.)


Diario Illustrado:--_Os meus amores_, contos e balladas, por Trindade
Coelho.--A forja do tempo caldeia-nos o espirito  proporo que
envelhecemos.  por isso que os rapazes se desdoiram s vezes de ouvir
os velhos, e parece-me que teem razo, porque nem sempre o so juizo de
uma experiencia larga, sabe limar as arestas da caturrice no estudo
circumspecto... Eu tenho acompanhado, cantarolando e um pouco a rir com
singular scepticismo, este meu seculo, que est no fim, e com elle tenho
vindo estudando e aprendendo. Ruiram as theocracias litterarias,
revoluteou-se a philosophia, crearam-se novos processos de estylo,
arrancou-se o chir s velhas phrases, e todo um mundo novo,
extravagante e phantastico tem surgido,--mau grado as furias rabdas de
escriptores paleontologicos, apparafusados  Arte e  Critica de ha 50
annos e cheios de amor e melancolia... Ora essa aprendizagem do meu
seculo tem-me custado amarguras aterrantes, desequilibrios de espirito e
um desfolhar de verdes illuses, que eu tenho visto irem-me fugindo n'um
_marche-marche_ triumphal, para nunca mais voltarem,--ai! para nunca
mais voltarem!...

A vida do escriptor moderno, toda torturante e nevrotica, d-me a
impresso tenebrosa dos contos de Poe, postos palpitantemente na vida
real de nossos dias. E lembro Camillo pedindo ao pedao de chumbo de uma
capsula o ponto final redemptor de agonias crudelissimas; Julio Machado,
de pulsos cortados, fitando com olhar sangrento o retrato bem amado do
filho,--a alegria ruidosa dos olhos da sua alma,... e quantos outros,
bom Deus! Dir-se-hia que uma _m sina_ persegue os homens de
lettras:--quando no  a navalha de barba,  o rewolver,  a consumpo,
 a tisica,  o retrahimento amargo,  o abandono proprio e alheio! Por
isso o meu visinho Gervasio todo se ufana, com certo profundo bom senso
pratico, da insistencia com que quer fazer do filho um _artista_
pintor--de portas, e de fra de portas...

Na _troupe_ de escriptores em flr do meu tempo,--parece-me que j l
vo 30 annos, e tudo isto  apenas de hontem!--havia, joeirados com
singular amor de arte pura, uma duzia de rapazes de incontestavel valor
litterario, desabrochando esbanjamentos de talento pelas gazetas e
revistas mundanas. Poetas e prosadores, contistas e dramaturgos,
miniaturistas da poesia, do romance e da chronica, d'essa pleiade de
rapazes, um tanto insubmissos e um tanto bohemios, alguns treparam
triumphantes,--poucos; outros, quasi o resto, ou foram ainda verdes da
vida para os cemiterios das suas aldeias, ou, o que  quasi o mesmo,
deram-se a callejar as mos, dissolvendo as suas aptides de plumitivos
incipientes, nas minas de oiro e de ferro da lucta pela vida. Dos
_felizes_, dos que triumpharam,--como quem diz, dos vencidos da
vida,--me sorria eu s vezes em horas de bom humor, lembrando-me como
elles com um livro de versos foram nomeados consules; com um tratado
sobre a cultura do repolho abriram o _Banco Mineral do Douro_, por
aces; com um drama em _D. Maria_ foram eleitos deputados; ou como com
uma critica do _Salon_ de S. Francisco, se guindaram a bibliothecarios
das bellas artes e hortalias correlativas... Dos outros, dos _perdidos_
pouco me lembra! Eduardo Salamonde foi-se a espantar os philisteus do
Par, applicando-lhes aos figados hypertrophicos a vermelha caudal da
sua prosa mirabolante; Xavier de Carvalho desappareceu em Paris pelo
alapo macabro da _correspondencia_ barata; Gualdino Gomes anda ahi
amparando o seu rheumatismo a uma certa _maneira_ de m lingua e a uma
bengala de canna; Leopoldino Gonalves viaja como medico da armada; e
Fortunato, quando as saudades lhe so mais amargas, abandona o Alemtejo,
onde toma pulsos a doentes pela tabella da camara, e apparece s vezes
nedio, cr de fiambre, cheio de barbas, a olhar com tedio os copinhos de
cognac do _Leo_...

De todos os rapazes do tempo das minhas alegrias cr de rosa, o que me
traz mais doces recordaes  Trindade Coelho,--porque eu ligara  minha
a alma d'elle, n'um tempo em que dos salgueiraes de Coimbra elle me
fazia para uma folha alegre de que eu era director, umas chronicas
soberbas, vivas, rendilhadas, cheias de colorido e de affirmaes de uma
personalidade litteraria. A sua prosa, a um tempo humana e lyrica,
dava-me a impresso de um romantismo degenerado... De Coimbra, como
sabem, alm de bachareis anonymos, tem-nos vindo a _elite_ das letras. 
da tradio universitaria, fazerem os doutores as suas primeiras armas
de litteratos e de poetas, na academia, a intervallos do pesado estudo
do Lobo e do direito publico, esvurmado s cavalleiras do nariz de
Pedro Penedo... Toda a nossa legio distinctissima de poetas e
prosadores modernos deriva litterariamente da bohemia
coimbr:--Theophilo, Ea, Junqueiro, Joo de Deus, Anthero, etc.  a
affirmao do bom Antonio Ferreira feita axioma:

     _No fazem mal as musas aos doutoures_.

E no fazem. Tem-se visto. Vo l inquerir a Junqueiro das bellezas do
Codigo Civil, meio metaphysicamente original e meio copiado dos codigos
de Napoleo! Ah, mas em compensao que apparea ahi o primeiro advogado
a escrever a _Morte de D. Joo_ e a _Musa em ferias_!

Os cantos de Trindade Coelho so narrativas ligeiras, descripes n'uma
bella prosa colorida e transparente, trechos de psychologia trasmontana,
e um ou outro caso humano superiormente observado. Sobretudo a _maneira_
do proceder litterario d'este escriptor  deliciosa de cr e de verdade,
sem grandes esmerilhamentos de phrase, nem deslumbramentos de imagens na
apparencia cr de oiro, que, em regra, no fascinam seno os saloios
ingenuos dos cordes de lato... Tem-se chegado ahi, no abuso da
originalidade do estylo, a fazer uma prosa estrelicada, engommada,
cabellinho  banda, com risca, como os caixeiros de modas ao domingo! O
burguez j conhece os processos da _chinoiserie_, e d'ahi no ha
espantal-o com nephelibatismos doentios, de importao barata; bem sabe
elle que debaixo d'essas bellezas est a oleographia reles de porta de
escada, da sultana escarlate que apara as unhas, ou do frade que enxota
a mosca do nariz,--muito de apreciar nos covis da municipal em
Alcantara...

O livro de Trindade Coelho tem um certo resaibo de saudavel trabalho,
feito com honestidade e sem as preoccupaes deploraveis que levam os
corypheus da escola modernissima, mais que zolaista,  descripo e
estudo de pathologias e casos sporadicos, ou no vivos, ou pouco
vvidos. Este livro  quasi um parenthesis aberto como uma clareira
consoladora na torrente ultra-realista dos ultimos trabalhos
apparecidos, do _sujet_ de um dos quaes, que  em todo o caso a
monographia de um caracter, assombrosamente executada, o _Gil Blas_
dizia,--_qu'on ne peut lui serrer la main que par derrire_...

A feio litteraria de Trindade Coelho parece-me que se define na parte
do livro sub-titulada _Balladas_. Os _Arrulhos_, principalmente, so uma
duzia de paginas encantadoras, que lembram Droz e Daudet.  uma
elegia... tragica, _encadre_ n'uma linguagem cr de opala, em que a
gente parece estar vendo Hoffman brao dado a... Joo de Deus!  uma
obra prima. Assim a _Tragedia rustica_ e a _Me_. Dos _contos_ destaco
eu os _Preludios de festa_, _Idylio rustico_, os _Typos da terra_, onde
ha paginas soberbamente observadas, suggestivas, _d'aprs nature_.
Magnifico o assasino _Jos Gaio_.

Trindade Coelho  inquestionavelmente um lyrico. E nem eu sei como elle
chegou at aqui sem trazer na mala um volume de versos--_Florinhas de
Luar_, por exemplo! Devemos-lhe o grande favor de no conhecer os
diccionarios de rimas, seno a estas horas era uma vez um contista
encantador... sossobrado!--_Ignacio da Silva_.


Nova Alvorada:--_Meu caro Trindade Coelho_.--Sabe voc, amigo Trindade,
que as palavras affectuosas que me endereou no offerecimento do seu
livro _Os meus amores_, vislumbraram no meu espirito um mundo de
saudosas recordaes, como se foram fugazes emanaes balsamicas d'uma
quadra primaveril que no volta mais--a vida coimbr?

Parece-me que tenho ainda presente na retina a sua figura um pouco baixa
mas robusta, as _suas feies masculas e energicas_, e a sua _allure_ um
pouco receiosa ao dobrar a soleira da legendaria Porta Ferrea.

Com o seu olhar penetrante e incisivo, mas velado por umas lunetas de
grau apurado, sob a pasta d'um quintannista, mirando  direita e 
esquerda, entrou voc nos _Geraes_ resignado a um diluvio de troas,
martyrios, horrores...

Os segundannistas, de cuja respeitavel corporao eu fazia
orgulhosamente parte, no o arreliaram logo, talvez porque lhe no
encontrassem uma physionomia de chuchadeira, como a d'um Armelim, nem um
rosto gretado, empedernido, de homem terciario, como o do bom Raphael do
Ranhados.

Mas em que diabo foram elles depois embicar, os malvados!

Em uma medalha d'oiro que voc trazia,  guiza de berloque, na corrente!

O amigo arrancou pressuroso a _pedra de escandalo_, de forma que a
tempestade de piada desannuviou-se a tempo no seu horisonte de novato.

Depois, um ou dois annos, apparece o amigo com accentuaes de academico
fallado, o seu nome a salientar-se das vulgaridades escolasticas, a sua
individualidade a destacar-se, como se fra um _urso_. E assim se
fallava do Trindade, como do Luiz Osorio ou Feij por causa dos versos,
do Passaro pela fina chalaa, do Saraiva pela fora, do Miguel
Baptista--pobre amigo!--pelo talento e pelas abstraces, do Banalidades
pela gralhadora loquacidade, e tutti-quanti.

Voc desencubou o seu nome, pol-o em evidencia--o Trindade--, mas foi por
causa d'um excellente resumo das lies de direito romano, d'um bello
discurso no centenario pombalino, e sobretudo das suas graciosas
chronicas no _Diario Illustrado_.

Ah! e lembra-se voc d'aquelle anno em que formmos republica na rua
da Trindade, tendo por creada a sr.^a Maria de qualquer coisa, que
denominavamos a _Gorda_, matrona muito caroavel e de enxundiosas formas?

Eramos uns poucos:

O Souza, que j tem o galo branco dos tribunaes administrativos,
espirito facil, perspicaz e alegre, nada para massadas, que tinha
orientaes definidas em politica partidaria e expedientes reservados de
galopim grado contra os progressistas da Barca.

O Manoel Nunes, hoje em Barcellos, muito lucianista, devorando o
evangelho do _Correio da Noite_, sempre em questiunculas com aquelle por
causa dos seus ideaes politicos encontrados, grande passeador e jogador
de manilha, um tanto lambaz porque sahia mais cedo e sorrateiramente dos
theatros, dizia-se, para comer a ceia dos retardatarios, guardada pela
_Gorda_ n'um cantinho do fogo.

E o Figueiredo que se ria pelos olhos e pelo hirsuto bigode quando lhe
chamavamos o Pgas, o Covarruvias, e lhe liamos um imaginario plano,
rigoroso e draconiano, de reforma dos Estatutos da Universidade? Muito
desconfiado e estudioso, s no encavacava quando lhe diziamos que elle
se applicava... 25 horas por dia!

Depois o Rocha Peixoto, o Bicho, d'aspecto _sournois_, olhos  bufo, que
no fallava ainda que o esmurrassem, pobre caloiro silencioso e
contumaz!

Em seguida o Sergio Carneiro, o Grillo, seu comprovinciano e hoje
conservador algures, com cara de cera, esboada, sem feies lavradas,
muito guitarrista e risonho, se bem que intelligente e applicado.

Eramos mais--voc e eu. Voc que se mettia muito com a litteratura,
fechado no quarto, lendo... lendo... escrevendo...; e eu, que por signal
dediquei um fado aos membros da republica, o qual nas vesperas de
feriado se cantava, em algazarra tonitroante, quando o Grillo
condescendia em o acompanhar na guitarra.

Depois de 1883 creio que nunca mais nos vimos. O amigo marchou mais
tarde para Sabugal e eu para Cuba, e hoje est nos tribanaes de Lisboa e
eu no bero da monarchia.

Agora vejo-o, litterato conhecido e conceituado, a publicar os seus
bellos contos em um elefante volume--_Os meus amores_.

E bellos na verdade, como todos dizem.

A _Me_, aquella cruciante tragedia da pobre _Russa_, morta de terror e
de amor,  para mim o mais apreciavel e sentido conto da sua colleco.

Costuma-se dizer d'uma me descaroavel, d'uma Francisca Fortunata-- uma
cabra!--; mas o amigo teve artes de desmentir o erro grosseiro, vingando
as calumniadas affeies dos pobres ruminantes.

Quem ler as angustias da misera _Russa_, na espectactiva do filhito
devorado pelo esfaimado lobo circumvagante, restituir quelle
inoffensivo animal o sentimento d'amor maternal, a natural comprehenso
das suas obrigaes de me e protectora.

E os _Arrulhos_? Se me no engano voc escreveu esse conto em Coimbra.
Creio at que um dia, estando a jantar, o amigo recebeu um jornal
qualquer de Vigo, Corunha ou Pontevedra, em que a sua bella produco
vinha traduzida no idioma de Cervantes com o titulo de _Palomas_.

Nos restantes contos, entre os quaes me no agradaram menos _V[ae]
Victoribus_, o _Abyssus abyssum_ e o _Sulto_, revela o amigo a fora da
sua educada phantasia, moderada por um largo peculio de observao; a
sua poderosa intuio artistica; o seu dialogo curto, vibrante e
natural; o seu estylo j caracteristico pela feio franca, _saccade_,
de dizer e narrar; a propriedade das locues; o bom emprego dos termos;
a verdade das suas descripes e pinturas, que, ao contrario de muitos,
no repete, tinta para aqui, tinta para acol e vice-versa, n'uma
pobreza reles de palheta, que faz lembrar casacos virados ou coisa
similhante.

Olhe, amigo. Eu careo de geito para a critica litteraria; mas, emquanto
me  licito exprimir a minha humilima opinio, dir-lhe-hei que voc
alarga cada vez mais e com mais rapidez a sua reputao de litterato
distincto e de contista precioso; e que este conceito  merecido,
attestam-no os seus valiosos escriptos dispersos e a sua elegante
brochura recem-editada.

Resta-me felicital-o cordealmente, amigo Trindade, a agradecer-lhe a sua
fineza com um abrao de--Velho amigo--_Eduardo Carvalho_.


Nova Alvorada:--_Os meus amores_.--Acabamos de ser distinguidos com a
offerenda do novo livro de Trindade Coelho,--o sympathico e distincto
escriptor que de ha tempos se vae honrosamente evidenciando no certamen
das lettras patrias, onde j agora a sua individualidade tem uma
reputao firmada.

_Os meus amores_  o titulo que o sr. Trindade Coelho escolheu para o
seu livro de contos e balladas, e se assim lhe chama, segundo cremos,
no  porque estas 200 paginas sejam um auto-historiographico dos
idylios romanescos do auctor, n'quella aurea quadra da sua vida
academica, ou um repositorio de alheias aventuras amorosas com
acompanhamento obrigado ao bandolim do trovador lendario.

No. A razo do titulo parece-nos antes proceder da affectividade
psychologica do auctor para com a sua obra, e induzimos isto do soneto
com que Luiz Osorio prefacia o livro, e cuja primeira quadra diz:

_Folhas dispersas dos meus annos de oiro,
Vivo enxame das minhas alvoradas,
Tenho zelos de vs, folhas sagradas,
As Desdemonas sois de um outro moiro_.

Se no fosse assim, affirmar-se-hia mais uma vez a verdade do
aphorismo--o habito no faz o monge--, porque o _Idylio rustico_, com que
abre esta bella colleco de contos, no seria bastante para justificar
o titulo sob que se enfeixam.

Mais que o idylio, preponderam no correr do livro a comedia, o drama e a
tragedia: e basta percorrel-o em rapida leitura, para averiguar-se que
se ha na urdidura dos varios contos muitas situaes que nos pintam o
ridiculo, a desgraa ou o crime, poucas ha, entretanto, que nos prendam
o espirito ao devaneio pigas d'um Romeu e d'uma Julieta.

Mas, ou bem ou mal baptisado, o que  consoladoramente verdadeiro  que
os contos do sr. Trindade Coelho constituem uma das mais bellas
colleces que no genero conhecemos.

Uma urdidura facil e clara, movimentada em harmonia com os melhores
preceitos da arte.

Uma linguagem correcta e elegante, sempre amoldada  naturalidade das
situaes e dos dialogos.

Uns assumptos de felicissma escolha, a reproduzirem fielmente costumes,
a pr em jogo com a maior verdade os vicios e as virtudes do povo.

Como os contos magnificos de Bento Moreno, os contos do sr. Trindade
Coelho so a fiel expresso da vida rustica do nosso povo, e facil  de
comprehender a importancia moral que estes livros tero quando as
geraes que nos succedam queiram inventariar nas suas tradies o modo
de viver, de sentir e de pensar das populaes sertanejas, n'este
periodo historico em que vamos.

Sem descer aos excessos da eschola ultra-realista, a que Zola preside
como Summo Pontifice, o sr. Trindade Coelho, consegue ser de uma verdade
inexcedivel, de um realismo incontestavel, de um naturalismo a toda a
prova, que por egual se evidenciam no assumpto, na narrao e nos
personagens.

E, sobretudo isto, ha nos seus contos, como nos de Franois Cope e
Theodore de Bauville, a artistica encenao que, sem desvirtuar-lhe a
naturalidade da frma e do fundo, lhes imprime o attractivo romanesco
que falla  imaginao do leitor.

O _Idylio rustico_, com que o livro abre,  de uma suavidade deliciosa,
e de uma naturalidade to justa quanto encantadora.

A _Ultima dadiva_  a expresso fiel de muitas scenas que a emigrao
multiplica cruelmente pelas nossas provincias do norte.

A aco d'este conto  conduzida com uma tal unco de sentimentalidade,
que nenhum leitor, por mais rebelde que seja a commoes, se poder
esquivar a partilhal-a.

O conto--_Typos da terra_  a descripo fiel, fidelissima, da mesquinha
intriga que fervilha invariavelmente em todas as pequenas terras de
provincia.

_Os Preludios de festa_ so de um comico admiravel; _Maricas_  de um
sentimentalismo commovente; _V[ae] Victoribus_ de uma moralidade
edificante; _Arrulhos_, _Me_, _Tragedia Rustica_, tudo, tudo n'este
livro  bom, e de util e agradabilissima leitura.

A forma--j o dissemos-- correctamente vernacula e elegantemente
rendilhada.

A titulo de amostra, para aqui trasladmos do conto--_Sulto_--este
bello _croquis_ de uma tarde de agosto:

Ao longe, fechando o horisonte que a eira dominava, as arestas dos
montes quebravam-se n'uma sombra egual, e embaciavam ainda o poente as
suaves e brandas pulverisaes doiradas da ultima luz do sol. Riscos
vermelhos de nuvens, como grandes vergas de ferro levadas ao rubro,
destacavam immoveis n'um fundo verde-mar, esvaecido e meigo, raiado de
listres de uma colorao leve de laranja.

Pequenos algodes transparentes, com alvuras de neve, cortavam aqui e
alm, alegremente, a monotonia profunda do azul.

E assim o livro de Trindade Coelho: uma obra  altura da boa reputao
do auctor.

A redaco da _Nova Alvorada_ congratula-se com o seu illustre collega
por to brilhante produco, e d'aqui lhe envia um cordealissimo aperto
de mo.


A Independencia:--_Os meus amores_.--Acabamos de ler o primoroso livro
de Trindade Coelho, _Os meus amores_. Sem largas aspiraes,
modestamente, apenas com a consciencia tranquilla de quem escreve bem e
com criterio,--Trindade Coelho juntou e concatenou no delicioso volume,
que acaba de dar  estampa, algumas produces litterarias que a sua
vida de jornalista tinha atirado para a valla commum das paginas de
revistas e diarios.

No , pois, um trabalho completo, inteiro e homogeneo o que se nos
offerece para apreciar: so pequenas joias litterarias, buriladas por
mo de artista e d'um fino sabor de naturalismo.

Considerado assim, sem dependencia de escola e confrontao de
originaes, o livro  bom.

As suas descripes so perfeitas, correctas, desenhadas por quem se
acostumou, desde creana, a ler muita e a adivinhar mais na biblia
riquissima e inexhaurivel da Natureza.

Ha vida e colorido em tudo. As telas dos ceus pincelaram-se com as
tintas proprias, e os diversos personagens que nos vo passando sob os
olhos, romanescos e serios uns, grotescos e ridiculos outros, deixam-nos
uma impresso agradavel de realismo, e alta comprehenso. So typos
exactos, sem os grandes enfeites que aborrecem e sem phrases banaes que
enjoam. Antonio Fagote  um especimen do juiz de festa das nossas
aldeias, basofo e vingativo, prompto, ol! a gastar as ultimas moedas
da venda do ultimo gado e a deixar fulo e arreliado o seu antecessor; e
a deliciosa ballada _Me_  uma preciosidade litteraria, magnificamente
pensada escripta, digna da penna dos nossos primeiros escriptores.

No encomamos, pois, o valor do livro, dizendo que elle  digno de
figurar ao p das mais bellas produces dos nossos escriptores mais
consagrados.


Correio de Portalegre:--_Os meus amores_, contos e balladas por
Trindade Coelho.

Acorda-lhes no espirito um echo de sympathia o nome do auctor, pois no?

Eu creio bem isso, porque a verdade  que apezar da celeuma que Trindade
Coelho ahi levantou, grangeando com o seu genio turbulento algumas
antipathias nenhuma d'ellas alvejou o seu talento, que os senhores
jamais negaram, e lhes ficou sendo sympathico.  por isso que escolhemos
para encetar esta seco a produco brilhante do distincto litterato,
editada ha pouco por Antonio Maria Pereira, um incansavel editor
escrupulosissimo.

Li o livro que o talento do auctor recommenda, impondo-o, quasi, a
atteno do nosso cerebro,  contemplao da nossa alma; e essa leitura,
feita n'umas horas que um encanto enorme fez parecer to breves, deu-me
d'_Os meus amores_ a agradabilissima impresso d'uma caricia, que
persiste a sorrir consoladora.

Trindade Coelho, que os senhores conhecem pelo menos do _Commercio_ e da
_Gazeta_, tem, como viram, o poder invejavel de dar  ideia,--algumas
vezes injusta, diro alguns,--a mais correcta frma, iriada sempre da
limpidez mais viva; e isso, n'um trabalho feito agora para apparecer
amanh,  pressa sempre, n'uma fugida aos calhamaos manuscriptos que
demandam a sua atteno de magistrado, e em que o periodo mais
suggestivo  o do _Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo_.

-lhes facil por isso presuppor o livro, que o vagar do auctor desbasta,
romodela, lima, muito tranquillamente, muito socegadamente, sob a
vigilante direco do seu delicado gosto artistico.

_Os meus amores_ teem poesia, e teem verdade; e na maioria dos seus
differentes quadros, adoravel descripo das scenas simples da vida do
campo, da natureza singellamente formosa, o sentimento vibra
intensissimo, e  encantadora a phrase, que um conhecimento profundo
dictou, de que uma subtil observao rese. Ha alli retratos d'um brilho
sem limite, _typos_ que resumem um estudo fidelissimo.

 um cofre de bellas joias, o livro, que nos deixa embaraadissimo, se
queremos escolher alguma,--to valiosas so todas.

Todavia,--e isto  uma modesta opinio perfeitamente pessoal,--_V[ae]
victoribus_, de to grandiosa ideia, e de to elevado estylo, _Para a
escola_, to grata, a evocar uma saudosa recordao dos bons tempos de
creana, e os admiraveis contos de fina graa e to verdadeiros,
_Preludios de festa_ e _Typos da terra_, so os meus eleitos, depois
d'uma difficuldade enormissima d'escolha, d'entre tantos quadros da
perfeio mais rara, e onde a _Maricas_ e _Arrulhos_ captivam tambem a
minha admirao.

O livro , como todos os sahidos na _Colleco Antonio Maria Pereira_,
esplendidamente impresso em bom papel, e cartonado elegantemente em
percalina.

N'esta noticia breve, digne-se o distinctissimo auctor d'_Os meus
amores_ receber o preito da nossa homenagem, prestada to agradavel como
sinceramente.


O Nordeste:--Editado pela casa Antonio Maria Pereira, de Lisboa, em
volume d'impresso nitidssima, escrupulosa, foi recentemente publicado
o primeiro livro de Trindade Coelho--_Os meus amores_, que vieram pr em
relevo as complexas e brilhantissimas qualidades litterarias do auctor,
um _novo_ que j hoje occupa, por direitos justamente adquiridos, um
logar proeminente entre os nossos melhores escriptores.

_Os meus amores_ teem obtido na imprensa do paiz uma acolhida
enthusiastica, fervorosa e sendo Trindade Coelho um trasmontano, nosso
conterraneo quasi, commetteriamos uma flagrante descortezia se nos
leitores do _Nordeste_ no dessemos conta da appario d'esse livro,
juntando ao cro unisono d'applausos as nossas sinceras saudaes.

Escriptos em prosa vibrante, fluente e musical, correctissima, esses
contos, transcendentemente lapidados, com a fina mestria de joalheiro
primoroso, constituem um verdadeiro encanto, captivando-nos com a
espontanea naturalidade da narrativa e com a emocionante escolha d'umas
historias aldes, d'uma simplicidade campesina, repassadas por vezes
d'um sentimentalismo suave, lyrico...

A ns, que temos por Trindade Coelho uma vivssima sympathia, um affecto
antigo e vehemente, seguindo com interesse quaesquer particularidades da
sua vida, consolando-nos com os triumphos litterarios que teem
glorificado o seu nome e com a sua merecida reputao de magistrado
intelligente e trabalhador, ganha durante a sua carreira de delegado do
procurador regio, estava-nos impacientando o desejo de lr o seu livro,
e foi nervosamente, sofregamente, que o abrimos quando o correio nol-o
trouxe. E, agradabilssima coincidencia! succedeu-nos deparar com o
conto _Para a escola_, quadro tocantissimo que marca distinctamente os
dous mais notaveis estadios da vida do escriptor: a altura em que entra
na escola primaria, regida por um misero professor, bondoso e marcial,
de villota sertaneja, e aquella em que sahe d'uma outra, habilitado com
as suas cartas de formatura a encetar a carreira publica, na qual de
continuo evidenciar as suas superiores qualidades de talento e caracter
diamantino.

Essa historia, exposta n'um estylo formosissimo, malleavel e correntio,
deliciou-nos e impressionou-nos profundamente, a ponto--sem pejo o
confessmos...--de lagrimas espontaneas nos marejarem os olhos, to
enternecedoras so essas paginas que evocam em ns as reminiscencias
queridas d'um passado que no volta, e no espirito nos reproduzem, com
uma preciso photographica, completa, scenas eguaes da nossa infancia,
como de certo acontecer a todos quantos lograrem a felicidade de ll-as
e sentil-as...

Terminado esse conto, foi d'um folego, a bem dizer ininterruptamente,
que _devormos_ o livro, onde o auctor, n'um esbanjamento prodigo de
verdadeiras perolas litterarias, se expande em ligeiras narrativas,
descriptas n'uma prosa colorida e vibratil, scintillante e rhythmica,
apresentando-nos uma serie de quadros, colhidos em flagrante, _d'aprs
nature_, com uma extraordinaria lucidez d'observao, e um outro _caso_
humano trasladado para paginas d'uma forma impeccavel, accentuadamente
artista, e que so uma eloquente affirmao da distincta personalidade
de Trindade Coelho, ao presente um dos mais assignalaveis e esmerados
cultores da prosa portugueza.

No querendo, e no nos sobejando espao para tanto, ampliar esta breve
noticia a uma critica a todo o livro, impossivel se nos torna ennumerar
todos os contos em que elle se reparte, emittindo detalhadamente as
impresses que nos suggeriram. Por isso o nosso applauso caloroso para
todo o livro, sem predileces por este ou por aquelle conto; e d'aqui,
d'esta columna de modesto jornal de provincia, enviamos ao nosso
queridissimo Trindade Coelho, n'uma effuso d'acrisolada estima, com um
aperto de mo, as felicitaes que merece, fazendo votos para que no
deixe de ser um cultor assiduo da litteratura nacional, e continue a
honrar o seu nome, j laureado, com a publicao de novos e bons
livros.--_Jos Pessanha_.


Da Revista do Minho:--_Os meus amores_.--Poucos livros tero vindo 
luz da publicidade ultimamente em Portugal to esplendidos como aquelle
cujo titulo serve da epigraphe a esta noticia. Em todas as suas paginas
se reune o bello e o agradavel, tornando esta obra de solido merito, e
estimavel debaixo de todos os pontos de vista.

Este volume pertence  formosissima colleco Antonio Maria Pereira, e 
devido  brilhantissima penna de um dos nossos mais festejados
escriptores--Trindade Coelho.

No precismos alongar-nos em chamar a atteno do publico para esta
obra, pois  ella sobejamente j bem conhecida dos amadores de bons
livros.


Revista Illustrada:--_Os meus amores_.--Ha tempo,--no ha
muito,--comeou um jornal de Lisboa a publicar, de quando em quando,
umas cartas de provincia,--_Cartas alemtejanas_, nos parece,--assignadas
pelo nome, ento desconhecido, de Trindade Coelho. Lida por ns a
primeira, nunca mais nos descuidmos de procurar as outras, e foi com
verdadeiro desprazer que as vimos ir rareando, at deixarem de apparecer
de todo.

Essas cartas eram a revelao de um formoso talento; eram a alvorada
jubilosa e cantante de um bom escriptor. Trindade Coelho entrava nas
lettras portuguezas pela porta aurea dos victoriosos, apresentando
natural e simplesmente a sua individualidade, como a fundira n'uma s
pea o seu talento alliado com a sua observao e o seu estudo, sem
esgrimir com os que tinham chegado primeiro, sem acotovellar os que
avanavam ao seu lado, sem o apregoarem tambores nem charamellas de
apaniguados e sequazes.

Escrevia de um canto da provincia, da sua terra, em horas desoccupadas;
escrevia de assumptos comesinhos, de cousas que tinha alli  mo, das
scenas campestres a que assistia, e, sobretudo, do sentimento que a sua
alma encontrava no tracto sympathico da natureza inteira. Falava de um
ou outro livro, que mo amiga lhe fazia chegar  solido do seu
eremiterio, sempre com acerto, propenso ao louvor, despido de invejas.
Era um talento e era um caracter.

Depois, houve na sua vida litteraria um momento de eclipse. Cremos que
deve ter correspondido ao periodo occupado e trabalhoso da sua
formatura. Bom signal. O estudioso srio sabia reprimir as impaciencias
do amor proprio, sacrificando s altas occupaes do seu curso os
brilhos attrahentes da facil nomeada. O escriptor experimentara j o
pulso; agora conhecia a sua fora e sabia e podia esperar.

Eis que nos apparece um dia, subito, no fro, honrando e glorificando
n'um processo de rehabilitao a sua toga de magistrado. O caso deu-lhe
celebridade, e ensejo para ser recordado o nome de homem de lettras, que
elle soubera fazer distincto e conhecido logo aos primeiros trabalhos.

Alguns mezes de collaborao diaria, n'um jornal bem lanado e bem
redigido, avigoraram no conceito publico o renome conquistado, e
Trindade Coelho tomou serenamente, na imprensa da paiz, o logar a que
tinha direito, sem ninguem lh'o discutir nem contestar.

Estreia-se agora no livro, e difficilmente imaginariamos apresentao
mais prometedora e mais sympathica.


_Os meus amores_ so uma colleco de esbocetos, alguns dos quaes, como
o _Idylio rustico_, _Ultima dadiva_, _V[ae] victoribus_!, _Abyssus
abyssum_, chegam a ter a perfeio, o acabamento de verdadeiros quadros.
Revelam o amor, o cuidado, o esmero com que o auctor os trabalhou,
solicito na sua obra, no empenho de uma execuo immaculada. No porque
se conhea o esforo; mas sim porque se sabe que sem elle era impossivel
conseguir to completo effeito, to seguro resultado.

O estylo do prosador , quasi sempre, firme, opulento, erudito, original
e variado. No tem reminiscencias d'este ou d'aquelle, e realisa uma das
condies essenciaes que deve ter em mira todo o escriptor
consciencioso: conservar uma feio propria e individual, sem se afastar
da pureza da lingua, evitando ao mesmo tempo o retrocesso archaico, e
contribuindo para a evoluo progressiva d'ella.

Trindade Coelho, por uma intuio que nos no canaremos de louvar, em
vez de se cingir a modelos cuja originalidade maior ou menor lhe seria
facil assimilar, em vez de decorar mestres e de compulsar estylistas,
procurou modo de illuminar a sua phrase e de colorir a sua palavra, na
fonte natural de todas as inspiraes. Penetrou, para isso, nas camadas
mais primitivas do povo campezino, enriquecendo n'esse manancial o
thesouro das locues, e trazendo de l, simultaneamente, scenas e
quadros do um sentimento encantador, e de uma singeleza nativa e
adoravel.

 de indiscutvel belleza a pastoral com que abre o volume.
Affigura-se-nos estar lendo algumas paginas de Longo. A descripo da
madrugada na aldeia, o encontro dos dois pastores, Gonalo e
Rosaria,--Daphnis e Chloe,--teem um sabor antigo, como o de uma
narrativa idylica, passada nos tempos legendarios da Grecia, e ao mesmo
tempo toda a verdade de uma scena campestre dos nossos dias.  de um bom
gosto supremo a frma subtilmente delicada como o narrador, deixando
primeiro receiar a queda dos seus personagens n'uma brutalidade
instinctiva, os conduz por fim nas azas da innocencia e da candura a uma
situao divinamente sublime.

E, finda a narrativa, o leitor fica deliciado e satisfeito, n'uma doce e
prolongada abstraco, seguindo com os olhos do espirito aquelles dois
vultos de creana a esfumarem-se nas distancias do espao e do tempo,
longe, muito longe, n'uma paizagem ideal, vista nos dias da infancia,
vista talvez em sonhos, talvez em Virgilio ou Theocrito, talvez mais
longe ainda, na Biblia...--seguindo, com os olhos da alma, em esquecida
contemplao, longe, muito longe,

...na calma placidez do azul, bandos de pombas mansas, voando, voando.

Em _V[ae] victoribus_!, outro quadro de mestre, ha como que um mixto do
tragico fatalismo grego e do supersticioso horror christo. No  vulgar
a concepo do assumpto, nem vulgar, tambem, o desenvolvimento que o
escriptor lhe deu, o scenario  horrivel e magnifico. Est bem
descripto; bem descripta a tempestade, que primeiro se annuncia, depois
se approxima, depois finalmente cresce e se desencadeia n'uma convulso
pavorosa e enorme; bem descripto o terror angustioso e suppliciante do
misero assassino, o qual v, na chamma de cada relampago, projectada a
cruz negra que marca o logar do seu crime e que lhe prende os ps ao
cho, emquanto o seu ouvido, allucinado pelo terror, lhe d a sensao
de uma voz insistente, que detraz de cada arvore, da espessura de cada
moita, de cima de cada pedra, da resonancia de cada trovo, o chama
inexoravelmente pelo nome:-- Jos Gaio!  Jos Gaio!  Jos Gaio!

Bastava simplesmente esta narrativa para grangear a Trindade Coelho
fros de distincto e primoroso escriptor. Edgar Poe no engeitaria o
assumpto, se lhe occorresse, nem o trataria com muita maior perfeio.
Dar-lhe-hia pasto para algumas paginas to engenhosas como as da _Genese
de um Poema_, para alguma composio to extraordinaria e to
transcendentalmente bella como _O corvo_ ou _Ulalume_.

Mas como se quizesse mostrar a malleabilidade da sua penna, ou como se
quizesse certificar-se a si proprio da multiplicidade e da variedade das
suas aptides litterarias, o prosador que recortou nos mais perfeitos
moldes aquellas paginas classicas ou estas sinistras, detem-se na
commovente e lacrimosa narrativa da _Ultima dadiva_ e nas ligeiras e
facetas descripes dos _Typos da terra_, dos _Preludios de festa_, do
_Sulto_, onde transparecem dotes de observao sarcastica, de ironia
graciosa e de bem humorado espirito.

Um livro de tantas promessas no pde ser, comtudo, e por isso mesmo, um
livro definitivo. Trindade Coelho experimenta apenas a mo para se
abalanar a empreza maior, estamos certos d'isso. J no final do
presente volume, em nota do editor a um trecho intitulado: _Batalhas
domesticas_, se annuncia a transio da presente phase litteraria e
artistica do auctor, para uma outra phase progressiva.

Progressiva, dizemos ns, porque assim o crmos. Qual ha-de ser, porm,
a predominante caracteristica d'essa phase? Pde a critica conjectural-a
desde j? Talvez o pudesse; mas seria arriscado fazel-o. Porque, a
verdade  que o seu talento tem recursos com que lhe  dado contar, que
o seu temperamento litterario tem energias que lhe ho de abrir novos
caminhos, e que, na sua vida de homem de lettras, ha j precedentes, que
enormemente o obrigam.

Temos confiana em que a sua prosa, j segura e elegante, despir-se-ha
ainda de um ou outro francezismo escusado, e ha-de adquirir novos dotes
de clareza, conciso e vernaculidade. Trindade Coelho sabe onde
procural-os. No  em lexicons, nem em alfarrabios, nem em cartapacios.
 na escola, aberta sempre a todos os investigadores, onde aprenderam a
falar o portuguez do povo, os seus typos populares.

No se pde ser bom prosador, sem se ter o sentimento profundo do som,
da melodia. Uma das maneiras de adquirir pericia n'esta frma de
escrever, consiste na pratica de versificar. Fazer bons versos  um
exercicio util para chegar a fazer boa prosa. No , porem,
indispensavel, bem entendido.

Contudo, no admittimos que repute possuir as qualidades completas de
escriptor, aquelle que s d'uma das duas frmas da arte de escrever seja
conhecedor. Os mais elegantes cinzeladores da prosa, so os que
praticaram largamente no manejo da metrificao e da rima.

Trindade Coelho, apesar de todos os dons singulares da sua natureza
artistica, teria muito a ganhar, e conseguiria maior fluidez na phrase e
maior cadencia no periodo, se praticasse um pouco a arte do verso,
embora como simples exerccio. E esteja certo de que lhe vale a pena
empregar todos os esforos para attingir uma perfeio, que no est
longe, e de que o seu talento proprio e a sua estudiosa boa vontade
continuamente o approximam.--_Fernandes Costa_.


Aurora do Lima:--_Os meus amores_, contos e balladas, por Trindade
Coelho. Quando prometti  _Aurora do Lima_ esta ligeira noticia
bibliographica cerca do livro do brilhante escriptor e meu querido
amigo Trindade Coelho, mal cuidava eu que a doena me obrigasse a
retardar o cumprimento da promessa, ao ponto de me encontrar entre os
ultimos da ultima fila, nas saudaes enthusiasticas  obra e ao seu
auctor.

Tenho para mim como certeza indiscutivel que o publico se comeou a
fatigar d'essas obras torturantes d'analyse fria, cruel, desoladora. Os
que se encontram feridos das asperrimas luctas da vida--e estes
constituem a maior parte dos que lem e estudam, preferem as obras
consoladoras, de cuja leitura fica uma sensao delicada, uma recordao
docemente suave. Assim, Pierre Loti ainda hoje triumpha sobre Zola,
apezar do enorme _rclame_ que antecede sempre a obra do velho mestre da
escola realista.

Ora o livro do sr. Trindade Coelho pertence ao numero d'essas obras
consoladoras, de serenidade e de paz.  um livro sincero, que prende
pela emoo intima, que interessa pela simplicidade elegante com que
est trabalhado, que impressiona pela correco impecavel do seu estylo,
malleavel e harmonico.

Abre-se o livro e depara-se com o _Idylio rustico_, que  uma soberba
tella, amoravelmente tratada, denunciando logo s primeiras linhas um
alto valor artistico, na verdade rigorosa da observao, na delicadeza
suave do colorido, na simplicidade graciosa dos dois pequenos pastores.

Segue-se-lhe o _Sulto_; e em boa verdade direi que me parece ser este
um dos contos mais formosos do volume, em que pese s opinies
contrarias e at ao proprio auctor, que no perde occasio de o
depreciar.

Assumpto simples, esse, e todavia absolutamente verosimil. A descripo
da eira, do labutar alegre, da paizagem e dos personagens d'este pequeno
quadro, so um primor notabilissimo de execuo artistica, de rigorosa e
completa observao.

_Ultima dadiva_, um episodio commovente, completa a primeira parte do
livro, a que se segue a _Comedia da provincia_, onde ha preciosos
estudos da vida provinciana; as _Balladas_, onde se depara com o formoso
conto _Para a escola_, de um alto valor litterario; _Arrulhos_, uma
esplendida phantasia, etc.

Eis uma ligeira noticia do volume de contos _Os meus amores_, que
tamanho exito conseguiu obter, acordando de surpresa a habitual atonia
do nosso acanhado meio litterario, com os merecidissimos applausos que
lhe foram dispensados.

Dos meritos litterarios de Trindade Coelho fallam mais alto do que a
crtica os seus trabalhos, espalhados em todos os jornaes do paiz,
especialmente no _Portugal_, onde escreve como o pseudonymo de _Ch. A.
Verde_, e na _Revista Illustrada_, do editor Antonio Maria Pereira.  um
infatigavel e primoroso jornalista, sabendo dar ao mais frivolo assumpto
um delicioso relevo litterario, que prende e interessa o espirito do
leitor.--_Luiz Trigueiros_.


Os Gatos:--Vem a proposito de historias, fallar, bem sei que tarde, dos
_Meus amores_ de Trindade Coelho, como do moderno livro portuguez que
mais juvenilmente fascia o talento de narrar, em polyedros de
multiplices aptides. Os contos dos _Meus amores_ so pela maior parte
uma bagagem de vida academica, assimilativa (Trindade Coelho, muito
novo, findou ha quatro ou cinco annos o curso juridico) e como tal sahem
da penna do escriptor ainda sem uma crystallisao homogenea de frma e
de processo. Porm na sua factura ondeante l-se o ascenso d'um espirito
buscando a perfeio com escrupulos d'eleito; de sorte que o volume at
como auto-biographia se insinua, elle precisando as phases, notulas, e
predileces litterarias do contista, e emfim, depois de hesitaes,
emancipando-o n'um dos mais delicados microscopistas do corao, das
nossas lettras. Como  provinciano, provinciano d'aldeia, e natureza
contempladora inda por cima, Trindade Coelho captiva-se principalmente
dos assumptos bucolicos, pequenas scenas de cabana, tempestades de
campanario, pastoraes, vida de povo, e sente-se que o no faa por
diletantismo de escriptor avocando de cr dramas lambidos, seno por
esse estro de viso retrospectiva dos melancholicos despaizados em
terras hostis, e que protestam contra o egoismo ambiente, recluinde-se
no passado, como n'um sanctuario de mumias adoradas.  a tendencia geral
dos nossos mais modernos narradores, buscarem na vida dos humildes,
especialmente dos campos, materia prima para seus contos e poemetos. Em
poucos porm a predileco se escra na sinceridade e conhecimento
pratico da vida rustica, e em menos ainda ha perspicacias para uma
autopse sagaz da natureza psychica e moral do camponez. Grande parte dos
que teem posto o povo em scena, contenta-se com recortar-lhe os andrajos
n'um scenario de conveno, e com o fazer fallar aos bonequinhos mancos
que resultam, aravias mais ou menos inventadas d'um pictoresco sorna, em
cuja trama no ha vislumbres d'alma regional, de caracter profissional,
d'individualismo typico, ou de paixo. Se alguma vez tiverem pachorra,
mandem vir a colleco dos contistas rusticos portuguezes, e riam 
larga das fantasias lorpas que l virem. Em dialagos amorosos ha por
exemplo cousas unicas! Cavadores d'aldeia debitam s namoradas protestos
de paixo, em linguagem que seria preciosa at na bocca d'um pisa-flres
do Martinho e da Havaneza. Ellas, de lhes retrucar em phrase
equivalente, e de se mecherem em scena com os ademanes que a _Dama das
Camelias_ consagrou na cachimonia dos auctores, como os mais proprios
para mimar o amor que as enchaquca.

Em paizagens e descripes d'interior, a mesma ausencia de detalhe certo
e de viso propria, que reduzem esses quadros, a mras caganifancias
d'aguarellistas amadores. De tal maneira que o grupo de _campestres_ a
quem a arte confia a misso de leccionar aos desregrados habitantes das
cidades, os prazeres simples da vida pastoral, em vez de persuadirem os
seus leitores, o mais que fazem  pintar-lhes o campo como uma banal
imitao da Rua do Ouro, e o camponez como uma arreglo grotesco do
alfacinha.

Ora, entre os poucos argutos dedicados a perscrutar a essencia da
paizagem provincial, e a alma do provinciano e do camponio, Trindade
Coelho  dos que mais lucidamente traduzem o seu criterio do problema,
em frma d'arte, e dos que mais progressivamente vo crescendo  vista
do leitor, que no mais lhe perder de vista os vos poeticos, e a
singular gracilidade ironica dos seus quadrinhos de genero, colhidos em
prolongadas estaes nas duas mais typicas provincias de Portugal, o
Alemtejo e Traz-os-Montes. Ha assm nos _Meus amores_, a par d'algumas
benignas composies representativas da transio critica do rapaz para
o homem, e do debutante para o laureado, outras de tal guiza iguaes,
sobrias, seguras, que no hesito em as apontar como modelos, e dentro da
minusculeria da sua trama, como verdadeiras e encantadoras obras primas.
_Typos da terra_ e _Preludias de festa_, por exemplo, so duas narraes
que mordem fundo a atteno de quem nas l, e que por sua admiravel
sobriedade, intuito pictural, e observao ridente sobre o vivo, cuido
que ficaro modelarmente apontadas aos collecionadores de litteratura
typica.

Qualquer das peas abrange apenas o folego d'uma ou duas duzias de
paginas, deliciosas porm como factura, admiraveis de bonhomia, e d'uma
saude moral que faz desejos d'estimar pessoalmente o seu auctor.

Ahi est effectivamente revelado no s um talento plastico e bastante
rico em cambiantes, como tambem a pura agua d'um caracter cheio das mais
finas intenes. _Typos da terra_  o quadro satyrico d'uma m lingua
d'aldeia, tendo por club a porta da tenda, por scenario a praa publica,
e por personagens o pessoal burocratico e elegante da terriola.
_Preludios de festa_  um estimulo de festeiros preoccupados de qual
far a festa do orago mais sumptuosamente. Os tons so leves, os typos
rapidos, a descripo dita a correr, mas no conjuncto ha um tal
equilibrio esthetico, a meia tinta  to fluida, e as intenes ironicas
sublinhadas to de manso, que se adivinha logo um mestre miniaturista,
Hogarth com laivos de Tenier, raro de sabor entre os semsabores que por
ahi medram, e certamente fadado a uma supremacia qualquer no moderno
romance portuguez.--_Fialho d'Almeida_.


Jornal de Santo Thyrso:--_Os meus amores_.--Foi penhorante e commovente
para ns a gentilissima offerta que Trindade Coelho nos fez do seu
adoravel livro de contos, que tem por titulo a epigraphe d'esta singela
noticia.

O nome de Trindade Coelho era j gloriosamente festejado quando o
brilhante contista frequentava ainda as aulas da Universidade; hoje,
porm, apparece mais radiantemente no seu precioso livro, onde a
primorosissima frma se allia com o mais delicado criterio d'artista
d'_lite_ e com a fina observao d'um talento verdadeiramente superior.

O que deixamos dito  profundamente sentido, que a nossa humilde e
obscura penna no est--seja este o seu unico merito!--habituada a vir
entregar ao sagrado lume da imprensa os elogios sandeus que cada dia se
prodigalisam aos mediocres e aos banaes, que se desvanecem entre as
ondas d'esse barato incenso.

Os nossos leitores melhor ajuisaro, em presena do trecho que lhes
offerecemos como mimo de rara valia.


Diario Illustrado, (com o retrato do auctor):--Trindade Coelho.--N'esta
aspera vida das lettras, cortada de tantas amarguras que ninguem sonha,
ha, entre outras, uma grande e profunda alegria,--que nem a todos  dado
experimentar, accrescente-se.

Essa alegria, sentem-n'a os poucos susceptiveis de comprehendel-a,--na
elevada faculdade de admirar o que se impe pelo dominador prestigio do
talento ao culto mental, e sobretudo no intimo orgulho de adivinhar,
logo aos primeiros passos, a revelao de Alguem, que vae ser
unanimemente admirado.

Devo a Trindade Coelho, que figura hoje por direito de conquista na
galeria do nosso jornal, este incomparavel jubilo.

Adivinhei-o (consintam-me esta vaidade) quando poucos o conheciam;
admirei-o, muito antes d'elle trazer  litteratura patria o livro _Os
meus amores_, que foi como que a subita illuminao do seu nome.

Que delicioso livro esse, onde Trindade Coelho nos apparece em toda a
sua inconfundivel originalidade de narrador, em todo o desartificioso
encanto da sua maneira de observar e referir, revendo-se-lhe o
temperamento de artista, impressionavel e vibrante, na fluidez do
estylo, que lhe repercute nitidamente todas as modalidades!...

O campo, que a maioria dos escriptores conhecem superficialmente, de
rapidas excurses alpestres, sem o menor vislumbre de identificao,
vive no livro de Trindade Coelho, com um singular relevo de verdade, com
um profundo sentimento do natural. Entre os poucos argutos dedicados a
perscrutar a essencia da paizagem provincial, e a alma do provinciano e
do camponio, escreve dos _Meus amores_ o nosso grande critico Fialho
d'Almeida, Trindade Coelho  dos que mais lucidamente traduzem o seu
criterio do problema, em frma de arte, e dos que mais progressivamente
vo crescendo  vista do leitor, que no mais lhe perder de vista os
vos poeticos, e a singular gracilidade ironica dos seus quadrinhos de
genero, colhidos em prolongadas estaes nas duas mais typicas
provincias de Portugal, o Alemtejo e Traz-os-Montes.

Antes dos _Meus amores_, Trindade Coelho comeara a affirmar a sua
poderosa, individualidade em uma seco do _Diario Illustrado_, _Cartas
alemtejanas_, chronicas expedidas de Portalegre, em um arranque de
talento, com exuberancia de fantasia, modos de ver e dizer,
flagrantemente modernos, traos de soberbo humorismo  Vacherai, velados
a espaos de um ligeiro fumo de melancolia, que lhe avivava a frisante
originalidade.

Por esse tempo, o nosso brilhante chronista emprehendeu, no exercicio
das suas funces de delegado, em Portalegre, a tarefa humanitaria de
arrancar um pseudo-criminoso ao rigor da lei, que injustamente o
condemnara.

E em torno do nome de Trindade Coelho, que emplumava para os largos
vos, fez-se um cro de benos, como que uma apotheose de amor, que
dever ter sido na sua vida e para a fina sensibilidade da sua alma
effusiva e enthusiasta, um d'estes supremos jubilos, superiores a todas
as desditas e inaccessiveis a qualquer desencanto.

D-se em Trindade Coelho e nos transcendentes dotes que o caracterisam e
lhe assignalam o ponto culminante em que se evidenceiam, uma dualidade,
verdadeiramente phenomenal.

 que, sendo elle um artista, na rigorosa accepo titular da palavra,
namorado do ideal, amando a Arte com religioso fanatismo, vivendo na
extatica adorao de tudo quanto ella sobredoira do seu brilho immortal,
 ao mesmo tempo um funccionario exemplar, um delegado do procurador
regio, que viu de repente o seu nome respeitado e temido, de tal sorte
Trindade Coelho encarna em si, na austeridade do seu caracter e no
correcto exercicio da sua profisso, toda a perstigiosa soberania da
Lei. Diz ainda Fialho d'Almeida, inteiramente insuspeito, quando se
trata de aquilatar o merito de um auctor:

Ahi est effectivamente revelado no s um talento plastico e bastante
rico, em cambiantes, como tambem a pura agua d'um caracter cheio das
mais finas intenes.

s vezes, o magistrado recorda-se do artista e estremece de saudade
nostalgica ou treme de frio... legal.

 ento que elle murmura, (perdoa a indiscreta alluso, meu caro
Trindade Coelho?) Ah! que apertada gaiola esta, em que vejo fechado, o
meu espirito! O meu trabalho, amo-o porque  o meu dever. Mas como eu
ando longe, afastado, extraviado... de mim mesmo! No faz ida, no!
Dentro d'esta jaula de ferro, veja! E l fra, e l em cima--que amplo
co azul para voar!

Mas n'esse azul para onde lhe foge o espirito, quantos triumphos ainda o
esperam, meu illustre amigo?--_Guiomar Torrezo_.


Revista de Portugal:--(Excerpto de um artigo critico cerca do _S_ de
Antonio Nobre).--Alma doente, o sr. Antonio Nobre soube extrahir da sua
doena effeitos de Arte singulares e s vezes intensos. Outros
attingiram o mesmo objectivo pela descripo das emoes naturaes e pelo
appello aos instinctos sos do corao humano. Acabo de rler o livro
d'um escriptor tambem novo: _Os meus amores_ de Trindade Coelho. Com
casos da vida corrente e com sentimentos que podem ser comprehendidos
por qualquer dos seus leitores, uma despedida, a affeio de dois
pastorinhos perdidos na solido do campo, os remorsos de um homicida
junto  cruz da sua victima, o amor materno de uma cabra que se deixa
morrer sobre o cadaver do filho recemnascido, consegue o narrador
interessar e commover vivamente o espirito de quem o acompanha atravez
d'essas duzentas paginas impregnadas dos succos da terra e do suor dos
lavradores. Demonstrao cabal de que a Arte  vasta e a capacidade
pessoal decisiva para a belleza das obras.--_Moniz Barreto_.


Da Vid'Airada: Trindade Coelho.--Uma vez na sua frente, face a face,
olhando-o bem, medindo-o d'alto a baixo,--o que no seria difficil mesmo
no caso de que a medida dos homens se tirasse a palmos--fixando o olhar
no seu olhar, e no perdendo uma s das suas palavras na mais simples
conversa de algum quarto de hora,--ao separar-se elle de ns, porque j
ento a gente no se atreve a separar-se d'elle, tem-se adquirido a
certeza de que aquillo  o que , e chegado  mais solida convico de
que toda a verdade, toda a sinceridade de um temperamento e de um
corao de homem, nunca se manifestaram mais expressivamente, mais
insubmissas ao menor proposito do menor disfarce, do que na sua
physionomia bem aberta, illuminada em cheio pelo brilho intensssimo do
seu olhar muito limpido, muito penetrante, se expressam toda a
sinceridade, toda a verdade do seu grande corao e do seu impetuoso
temperamento.

E ao vel-o partir pela rua fra, decidido e tezo, resoluto e rijo, a
cabea alta, assentando com firmeza o p pequeno, despejando caminho que
d gosto vel-o, no resistem os olhos ao desejo de acompanhal-o de
longe, at que o percam na dobra da primeira esquina, e a gente diz ou
pensa:--Demonio!... Com meia duzia assim, poderia fazer-se _alguma
coisa_ ainda!...

Porque no meio d'esta especie de contagio, que os perversos e as suas
perverses vo espalhando em redor de si, fazendo estremecer os honestos
quando com elles se cruzam, e tentando para o mal os fracos quando
passam--s a presena de homens bons e sos poder melhorar este slo e
purificar esta atmosphera.

Na travessia dos dois mundos diversos a que este homem dedicou a viagem
da sua vida,--o mundo litterario e o mundo judicial--affigura-se-me
elle, talvez, como um antpoda de si mesmo, ora imprimindo o indelevel
cunho da sua vigorosa e honesta individualidade em preciosos documentos
para a dilacerante historia pathologica da sociedade portugueza n'este
agonisar de seculo, quando aponta o implacavel index do Ministerio
Publico contra os altos reus de certas causas celebres,--ora imprimindo
n'algumas obras de pura arte litteraria, em que a elegancia da frma 
posta sempre ao servio das emoes mais dces e das mais penetrantes,
esse outro cunho, d'essa outra individualidade que n'elle ha, e to
diversa , to original e to rara, to comtemplativa e to terna.

...Sim! toda a verdade, e toda a sinceridade do seu grande corao e do
seu impetuoso temperamento!

No tribunal, quando articule algum libello accusatorio em que as suas
palavras se no limitam ao cumprimento do dever de officio, no tardar
que  serena exposio dos primeiros articulados succeda a expresso
calorosa, indomita, sempre crescente, da indignao, e da colera, que
lhe provocam e aulam os factos e as razes de que vae deduzindo a
tremenda accusao contra o ro--...esse ro que alli est, alli!
sentado n'aquelle banco, sentenciado j, e de grilheta aos ps!
Agita-se-lhe a circulao do sangue, a respirao accelera-se, a face
ruborisa-se, todas as veias do pescoo e fronte se distendem, o peito
enche, as narinas dilatam-se, tremem, fumegam... A excitao do cerebro
vigorisa-lhe os musculos, affirma-lhe a energia, parece transportal-o ao
imperio da fora, n'um arrebatamento em que os dentes rangem, e as unhas
se crispam, punhos cerrados, braos erguidos, completamente desordenado
a frenetico!... A voz, sempre vibrante, chega a parar-lhe na garganta,
quasi ronca, vociferando, em discordancias agudas que veem ferir de
arripios a espinha dorsal do auditorio... J no  para a justia dos
homens que elle appella; no lhe bastam, no o saciam as penas maximas
dos Codigos! Quer o castigo do Co, quer a justia de Deus!

...O que no tira, ainda assim, que resgatasse da morte civil, bem peor
que a morte natural, um desgraado que a cegueira da justia humana
havia condemnado por assassino e ladro--o pobre Manuel Barradas. Muito
commentou a imprensa o facto, espantada de que um agente do Ministerio
Publico, um feroz accusador, empenhasse dois annos agoniados da sua vida
em apurar uma innocencia... Trindade conserva, encadernada, a colleco
desses jornaes, e legou-a em vida ao filho, ao Henrique, pondo-lhe no
principio estas palavras: Meu filho, pela lei de Deus, a vida  s um
pretexto para boas obras. Observei um dia a lei do Senhor, e Elle, em
premio da minha obediencia, concedeu-me o poder legar-te um pedao vivo
do meu corao. Queres ouvil-o bater? Ausculta essas folhas... Bemdito
seja Deus! sero ainda minhas as tuas lagrimas enternecidas, e, ainda
depois de morto, viverei na tua commoo e na tua alegria, para a
commoo e para a alegria da minha obra...

Mas passa a tempestade, e volvido o bom tempo, que singular contraste
nos offerece a outra phase d'esse mesmo espirito, quando o vulto austero
do magistrado, cedendo o logar  delicada individualidade do homem de
lettras, o desembaraa da toga e o deixa que v, em mangas de camisa,
muito  vontade e  fresca, pelas tardes serenas do seu bom humor, a
vaguear pelos campos do seu sonho--sonho feito de saudade, d'essa muito
viva e muito affectuosa ternura que  sua alma de artista d, e que a
sua prosa to sentidamente traduz, a recordao de felizes tempos que
no voltam mais, e que por isso mesmo nunca mais esquecem,--recordao a
que andam para sempre ligados, n'uma doce e meiga associao de ideias,
certos logares, certas pessoas, certas oraes, certa ermidinha e certo
olmo, que j l estavam quando elle nasceu, que o embalaram nos
primeiros somnos e lhe deram amparo nos primeiros passos; que ao
baptismo o levaram, e o conduziram  escola; alegrando-se com as suas
alegrias, entristecendo-se com as suas lagrimas...

N'esses momentos, sob o dominio d'esse lindo sonho, inundado do luar da
sua terra, desannuvia-se-lhe o rosto, alisa-se-lhe a fronte, v-se
pousar-lhe nos beios e nas palpebras a serenidade meiga de um sorriso,
como que o doce agradecimento  alma de sua me, que tivesse vindo,
muito devagarinho, muito devagarinho, abeirar-lhe o leito,
aconchegar-lhe a roupa, e pousar-lhe nos olhos e nos labios a amorosa
caricia dos seus beijos...

Por isso, a musica do seu estylo produz sobre a nossa sensibilidade
essas emoes e excitaes violentas, em que a tremura dos musculos e a
effuso das lagrimas realisam o phenomeno das emoes reaes.

Os seus escriptos obedecem sempre  logica influencia d'esta convico
em que elle est, quando me diz, bem medindo e pezando cada uma das suas
palavras:

--Positivamente, meu amigo, o publico deseja, antes de mais nada, que o
escriptor preste na sua obra o culto que  devido  sua lingua. Depois,
deseja que o commovam, que honesta e consoladoramente o emocionem,
preferindo que o assumpto do quadro seja a explorao das coisas
triviaes da vida, certamente porque reside no Simples a formula mais
natural da Verdade... Comprehendo que o espirito dos que lem est
fatigado d'essa confuso do _romance_ com o _estudo_, e convenci-me,
emfim, de que a obra d'arte litteraria tem, como primeiro dever, e como
condio primeira de agrado, de ser consoladora e suave, tocada sempre
de uma pontinha ligeira de poesia que v direita ao corao e
entretenha, em quem l, as faculdades emotivas, de preferencia, mesmo,
s faculdades intellectuaes...

Releio _Os meus amores_, o livro dos seus contos.  o primeiro d'elles,
_Idylio rustico_, de uma deliciosa simplicidade de aguarella, parece que
feito sobre um esbatido de co purissimo, cr de sovaco de andorinha e
no sei com que singular sabor eucharistico de primeira communho... 
um sonho de absynto, que serve de aperitivo divino para a leitura
soffrega de todo o livro. Dois pastoritos ingenuos, a Rosaria e o
Gonalo, encontram-se e approximam-se, n'uma indecisa alvorada de
derrio, cheios de boas tenes e puros ideaes. Acontece, porm, que por
viverem longe, raras vezes se falam, e quando essa ventura lhes  dada,
imaginem os que como elles se amem a alegria que inunda aquellas duas
almas! D'uma vez, passada alguma d'essas ausencias longas, quiz Deus que
os dois inesperadamente se topassem, pela madrugada, quando iam levando
seus rebanhos ao pasto. Logo combinaram juntarem-se as ovelhas, como
juntos os coraes traziam, e desde que nasce o sol at que o sol se
pe, vagueam nas frescuras marginaes do rio, a par, e ss, elle
dedilhando a flauta, ella recordando cantigas, com murmurios d'agua
correndo, e ballidos suaves dos lanigeros, n'uma paz d'alma idylica de
illuminura. E quando a noite chega, porque lhes custe immenso a
separao, o Gonalo a convida a continuarem juntos, deixando que as
ovelhas durmam em mistura e que passem elles a noitada sobre o mesmo
colmo, ao abrigo da mesma cabana. No sem certa instinctiva reluctancia,
Rosaria acceita; e como se deitem ao lado um do outro, tornando as
mantas cobertor commum, e pousando as cabeas nos bornaes unidos,
parecer-vos-ha, como a mim pareceu, que ali rompem os beijos
desmedidos... Nada d'isso, perversos! A pouco e pouco vae escurecendo, e
os bons dos namorados, n'uma placida orchestrao final que se smorza,
referem-se casos de moiras encantadas, e assim pegam no somno e
adormecem... Tem a gente remorsos do que foi julgar: sente a tristeza da
maldade nossa.

Depois, depois os outros, que seguem pelo livro fra, e que vamos
bisando e saboreando a pequeninos glos, durante algumas horas bem
fugidas, passeadas por aquellas paizagens e recantos provincianos que
elle nos pinta, to real e verdadeiramente como se l estivessemos; em
companhia d'aquelles typos que elle retrata, to photographicos, to
nitidos, que  estar a gente a vel-os, a ouvil-os, a falar-lhes, a
deitar-lhes o brao pelo hombro...

Antes dos seus contos nunca a prosa portugueza me havia dado, posta ao
servio da moderna arte, o ineffavel goso de to estranhas, to novas,
to encantadoras surprezas! Quizera eu, inedita, bem fresca, pela
primeira vez usada a respeito da sua escripta, esta flagrante
comparao:--dir-se-ia traada com uma penna d'aguia... arrancada d'uma
aza de pomba.

Os seus livros ficaro pertencendo ao numero d'aquelles que parecem
possuir o raro condo de nunca envelhecerem no espirito de quem os l.
Relr o que elle escreve  sentir o mesmo prazer, sempre renovado, de
quando se contempla pela centesima vez algum querido, precioso objecto,
que noventa e nove vezes se contemplara j: privilegio esse de eterna
seduco, que s disfructam as obras em que o artista deixou pedaos da
sua alma.--_Alfredo Mesquita_.


Do Poema do Ideal:

_Os meus amores_! que livro
To fragante e saboroso!
Scentelhas aureas e vivas,
D'um prosador luminoso!

Brisas da serra!
Trechos idylicos
Da nossa terra!

_Fernandes Casta_.





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in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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